Folias eternas
Amanhã, conforme matéria publicada na página 7, grupos de folias de reis de São João del Rei e região vão se encontrar na Paróquia Imaculada Conceição, na Avenida 31 de Março. O evento, não é só uma manifestação religiosa, ou uma apresentação artística e cultural. É um exemplo da resistência de homens que, com sua simplicidade, carregam nos ombros o peso de lutar pela manutenção de tradições que chegaram a essa terra por meio dos europeus, mas que, por meio dos escravos, acabaram ganhando o ritmo, a cor e a ginga dos brasileiros.
É muito fácil perder costumes. A televisão, o rádio, a internet trazem tudo ao olhar das pessoas que assistem ao mundo passar rapidamente em flashes. Mas assistir a um evento como o encontro que acontece amanhã ou a cerimônia de entronamento dos reis magos que será promovida hoje é se permitir ir além. É se dar a chance de vivenciar uma experiência que não é só assistida. É se permitir participar de um evento que faz aflorar outros sentidos como o tato, o olfato. É se permitir ter vontade de dançar, de cantar, de se alegrar com esses homens da folia.
Foi assistindo às folias que o folclorista Ulisses Passarelli sentiu-se convocado a se tornar um folião. Foi ouvindo o ritmo do congado que ele decidiu unir-se a esses homens que, em pleno século XXI, trazem à tona a esse mundo high tech tradições oriundas ainda do período colonial. As danças, os cantos, os figurinos, enfim, todo o ritual, muitas vezes apreendidos com seus pais, tios, padrinhos e antepassados ganham importância especial num mundo em que as pessoas simplesmente não se reúnem para festejar com tanta alegria acontecimentos místicos como o mistério da encarnação de Cristo, ou a Festa do Divino.
Então, se você tiver um tempinho, participe. Vá à Avenida 31 de Março e ouça o chamado que esse foliões fazem. Ouça essa convocação para que você não deixe a vida passar em sua plenitude apenas pelos seus olhos. Para que você, hoje, possa, ao apreciar a dança, o canto, as cores das vestes desses homens, vislumbrar não só o brilho e a força de um passado que teima em deixar sua marca em nossa cultura. Mas também enxergar um futuro em que nossos filhos e netos possam, também eles, garantir que as próximas gerações entendam a beleza de se festejar, com todas as forças, toda a plenitude do divino.