Pelas EsquinasJota
Dangelo
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| Edição nº 269 de 11
de outubro de 2003 |
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Carta aberta
Magnífico Reitor da UFSJ:
Perdoe-me se abordo, publicamente, um assunto que talvez
devesse discutir, pessoalmente, no seu gabinete de trabalho, com audiência
marcada. Mas, nem o senhor tem muito tempo disponível, nem eu condições
de estar na cidade em dias de semana, os chamados úteis, o que pressupõe
que o sábado e domingo são inúteis, ou pelo menos
inadequados para chatear dirigentes com assuntos que, em fins de semana,
tornam-se tão inúteis quando eles próprios.
Por outro lado, gostaria que compreendesse que estou
escrevendo como homem de teatro e não como cronista, eis que o assunto
é de bastidores, coisa de ribalta, das coxias, e com as gambiarras
e refletores apagados. Trata-se de espetáculo que nem sequer
está programado e nem tem pauta concedida. Estamos falando em posições
parecidas: eu, como visionário; o senhor, com a sensibilidade que
o caracteriza.
Volto minhas preocupações para o dia de
amanhã. O Teatro Municipal foi reinaugurado. Está pronto
para o desenvolver-se das artes cênicas. E este desenvolvimento não
cairá do céu, não virá por encanto. Por mais
importante que seja a vinda de espetáculos forasteiros, sempre desejados,
é necessário pensar estruturação sólida
e convincente que permita a produção local, o aprimoramento
de talentos, a participação coletiva e a implementação
de um movimento de artes cênicas que devolva a S. João Del-Rei
o espaço que ocupou nestas atividades. Nos últimos anos,
no âmbito da própria UFSJ, desenvolveu-se um trabalho de resgate
das tradições teatrais da cidade e o reconhecimento de pioneiros
que marcaram sua trajetória com realizações aplaudidas,
senão pelo seu mérito intrínseco, pela dedicação,
pelo empenho e pelo idealismo com que a elas se entregaram.
Se é sempre possível esperar, com o novo
Teatro Municipal, o surgimento de núcleos teatrais com origem no
idealismo de alguns abnegados, é preciso reconhecer que é
na formação técnica e cultural dos eventuais interessados
que criaremos uma base sólida para o desenvolvimento sustentado
das artes cênicas. Precisamos, com urgência, de um Centro de
Formação de atores, diretores, figurinistas, dramaturgos
e técnicos de palco. E, permita-me dizê-lo, é na UFSJ
que ele tem que nascer, por dever de ofício, como exigência
da extensão universitária. E já estamos atrasados.
A UFOP já formou várias turmas no seu Curso Profissionalizante
de Artes Cênicas. Não estou nem almejando isto. Trata-se de
processo longo e dificultoso. Digo-o porque acompanhei de perto o que aconteceu
na UFOP. Mas precisamos começar, de alguma maneira, com um protótipo,
um curso experimental de duração média, um plano piloto,
para dar o primeiro passo em direção a objetivos práticos
que resultem em cortinas abertas e espetáculo acontecendo para revelar
talentos, educar platéias e fazer das artes cênicas uma atividade
inserida na programação cultural da cidade. É deste
núcleo que se seguirão os desdobramentos naturais, a criação
de outros grupos, a excelência das performances, um projeto cultural
auto-sustentável que resgate, mais que a memória, o exemplo
dos que lutaram tanto pelo teatro sanjoanense.
Sei que nada disto se resolve só com vontade.
Muito menos com os devaneios deste missivista. Mas é preciso, de
algum modo, tentar. Da minha parte, começo aqui, com esta carta
aberta. Tão aberta como a certeza com que, eu espero, o senhor não
tome como intromissão indelicada esta minha atitude. Ela é
apenas fruto da insuspeita devoção que dedico ao teatro,
já que ele sempre foi, para mim, uma espécie de religião.
Com o abraço fraterno do Jota Dangelo.
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| Edição nº 268 de 4 de
outubro de 2003 |
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Ainda a Copasa
Muito bem. Pediram vistas ao projeto que negocia a transferência
dos serviços de água e esgoto de S. João Del-Rei para
a COPASA. Há quem queira mais tempo para discutir o assunto. Por
que não? Não é coisa que se decida de afogadilho.
Afinal, esta decisão vem sendo protelada há décadas,
sujeita a chuvas e trovoadas, entraves burocráticos, suspeitas de
toda ordem, receios, temores, interesses políticos nebulosos. “Consultar
o travesseiro”, diziam os antigos. O importante é que haja uma decisão
sensata.
Há problemas técnicos envolvidos. Mas,
colocados à parte, como os passivos do DAMAE, acervos patrimoniais
em discussão, prejuízos eventuais de servidores da autarquia,
dispêndio orçamentário da prefeitura com o órgão
em déficit, abastecimento, distribuição e tratamento
adequado dos reservatórios, há uma questão crucial
sobre a qual não é possível discutir. Para o consumidor,
a única forma justa de cobrança das tarifas de água
é aquela que leva em consideração o que é consumido.
É assim com a energia elétrica. Assim é com a telefonia.
Nenhum critério, fora o do consumo, é justo. Repassados os
serviços à COPASA, os hidrômetros serão instalados
de imediato. E não apenas para cobrar, com justiça, dos consumidores,
mas para a própria defesa do faturamento da empresa, pois, com os
hidrômetros, o corte do fornecimento por inadimplência é
a regra.
Este deve ser, seguramente, o argumento mais utilizado
pelos maus pagadores para serem contra a negociação com a
COPASA. É fácil deixar como está quando a inadimplência
é a tônica. Aliás, este é, penso, fora os desmandos
administrativos e o cabide de emprego que tem representado o DAMAE, como
é fato conhecido, a causa mais evidente da falência operacional
da autarquia. Não é possível sustentar, com eficiência,
uma empresa na qual 50% dos consumidores, para não exagerar, protela
o pagamento, empurra com a barriga os débitos esperando anistias
ou negociações vantajosas que regularizam sua situação,
mas levam a empresa ao vermelho contábil. Este tem sido o drama
do DAMAE.
É bom mesmo que se adie a votação
na Câmara Municipal. Quem esperou tantos anos, pode esperar mais
um pouco. Mas se a decisão não for a de transferir para a
COPASA os serviços de água e esgoto da cidade, que esta não
seja só uma decisão sem conseqüências para o DAMAE.
Que se exija, então, da autarquia, modernização, investimentos,
tecnologia, qualidade na prestação de serviços e racionalidade
nos gastos, inclusive com seu quadro funcional. Até hoje, não
foi o que fez o DAMAE.
É bom mesmo que se adie a votação.
Dobra a responsabilidade da Câmara Municipal. Já há
quem acene com a idéia ridícula de plebiscito. Não
se trata de preferência, mas de uma questão técnica.
Há ou não há competência e recursos para resolver
os problemas e cobrar tarifas justas? É disto que se trata. Claro,
não há razão para resolver com precipitação.
Ninguém o está exigindo. Mas que a decisão seja embasada
em critérios técnicos e que atenda às necessidades
da saúde e bem estar dos sanjoanenses. Que, aliás, são
os que vão pagar pelos serviços. Hoje, muitos estão
pagando pelo que não têm. Outros, pagando pouco pelo que consomem.
E ainda outros, a maioria, que nem pagam. As cartas estão na mesa.
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| Edição nº 267 de 27
de setembro de 2003 |
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Velório
Sentado no sofá medalhão da sala do Solar
dos Neves, eu observava. No centro do espaço, o corpo de Dona Risoleta
no caixão fechado. O crucifixo, ao pé da urna. Os castiçais.
Coroas, testemunhas vegetais da amizade, do reconhecimento e do respeito
de muitos. Desolado, eu via o que não queria acreditar ser possível.
A morte surpreende sempre. A morte deprime. Na minha imaginação,
o caixão era um objeto insólito, que não combinava
com as cadeiras de espaldar oval, com as portas brancas encimadas por bandeiras
de irrepreensível desenho, com o chão de tábuas corridas,
com janelas que se abriam para sacadas guarnecidas de gradil recortado
e pinhas de vidro nos ângulos. Nada, naquela sala, combinava com
a morte. Aliás, a morte não combina com nada mesmo, pensava.
A não ser com o olhar inerte, ar abatido de Tancredo Augusto, sentado
ao lado da urna mortuária, esquecido de si mesmo, longe dali, talvez
na varanda da Fazenda da Mata, em Cláudio, numa tarde de céu
avermelhado, Dona Quita chamando para o lanche, os sobrinhos e filhos rondando,
as irmãs em risos e confidências, o velho Tancredo na cadeira
de balanço, Andréa expondo sonhos e projetos e ela, Dona
Risoleta, fazendeira de estirpe, postura de dama, de magreza lépida
e elegante, pronunciando esses e erres com dicção irrepreensível,
olhos atentos a tudo e a todos, ordenando, supervisionando os afazeres
dos criados e as traquinagens dos netos em algazarra.
Tancredo Augusto não estava ali. Como eu, estava
talvez em Copacabana, numa festa de fim de ano, no apartamento da avenida
Atlântica, oitavo andar, longa varanda de onde se via o céu
e o mar se encontrarem nos confins do horizonte aquático, Di Cavalcanti
e Portinari nas paredes, sóbrios, enquanto os familiares e amigos
tomavam umas e outras na comemoração do Ano Novo, os mais
jovens irreverentes, os mais velhos com olhos de censura, Paulo Neves divertindo
os adolescentes com frases de duplo sentido, o velho Tancredo, discreto,
num canto da varanda, e ela, Dona Risoleta, ordenando, supervisionando
a serventia dos garçons, o reabastecimento da mesa de comestíveis,
impecavelmente decorada, e os líquidos, tão necessários
para manter a euforia, a camaradagem, o convívio, o bem-estar de
todos.
Como Tancredo Augusto, eu viajava. E já via Dona
Risoleta atendendo políticos, recebendo com fidalguia de rainha
os que queriam uma palavra com Tancredo. E já a via no Servas, enérgica,
comandando a ação social do governo de Minas, e cuidando
dos aflitos, e atendendo os desesperados que dela se aproximavam em busca
de auxílio, e montando creches, e compadecendo-se dos infortunados,
e participando ativamente de campanhas humanitárias, e sempre afável,
e sempre serena, discretamente elegante, esguia como garça, mas
determinada como convém a quem nasceu entre os que trabalham a terra
e educou-se com quem se requinta sem perder a humildade e o amor
ao próximo.
Foi quando um homem do povo adentrou a sala como se estivesse
entrando numa igreja. Ralos os cabelos, a barba rala, as roupas simples.
Primeiro, parou em frente a um retrato de Tancredo Neves, que estava sobre
um aparador. Olhou fixamente o retrato durante algum tempo. Depois, aproximou-se
do caixão. Colocou a mão direita sobre ele, um, dois minutos.
O que buscava? Transferência de energia? Depois, retirou a mão,
e fez o pelo-sinal. Foi aí que eu sai da sala. Estava difícil
conter as lágrimas.
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| Edição nº 266 de 20
de setembro 2003 |
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Memórias
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Minha
tia mandou-me comprar “pão combate” e meio quilo de torradinhas
na Padaria do Comércio. É para o café da tarde. E
já estou atrasado. E, logo depois, tem um racha de bola de meia
no Largo das Mercês.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Acabou
de chegar no “Seu Carvalho” um carregamento de caixas de chocolate “Asas
da Vitória” e estou quase completando minha coleção
de figurinhas dos aviões da segunda guerra mundial. Dizem que parte
da venda destes chocolates é para o esforço de guerra, mas
isto não me diz respeito. O que sei eu de guerras aos 12 anos? O
que me interessa, além do sabor do tablete de chocolate, é
mesmo completar meu álbum de Stukas, Spitfires, Zeros, Lookeeds,
Tigres Voadores e B 29s.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Estou
indo para o campo do Athletic, em Matosinhos. O esquadrão de aço
vai enfrentar o Minas de Santão e eu preciso estar na arquibancada,
bem ao lado do Dr Garcia de Lima, para gritar o nome de Dunga, do Waldermazinho,
do Reinaldo, do Januzzi.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Cicinho
vai empinar um papagaio “Cruzeiro”, no Largo da Câmara, que tem três
vezes o meu tamanho. Tenho que estar lá para mandar um “aviso” quando
a pipa estiver flutuando no céu, enorme, suave, sem dar finquete.
E depois tem bola de gude, “sem reta, sem limpa, sem nada”.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Há
pouco, vi passar Agostinho França com seu violão indo para
o Bife de Ouro, de Joanino Lobosque. Vai ter samba. E eu não posso
deixar de estar lá para ouvir Zé Feio, Vavá Cabra,
Jésus, Almeida, Ercy, Aldo Lobo, Ginego. Tenho certeza que o Rômulo
Magalhães também vai estar lá e já escureceu,
já é hora de trocar o sangue, sinto uma sede de deserto e
o “General” estará pronto a servir uma gelada. Com guia.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Estou
indo para o Grupo João dos Santos e hoje sou eu quem vai recitar
a saudação à Bandeira que a D. Josefina me ensinou.
Ela e dona Loló Carvalho. E D. Beatriz Leite é uma fera:
quer tudo na ponta da língua.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. É
a hora da saída das meninas do Colégio Nossa Senhora das
Dores, hora de paquera à distância, paixões platônicas,
olhares com o canto do olho, talvez um gracejo mais audacioso, se eu tiver
coragem e alguma delas passar mais perto.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. A meninada
está reunida para brincar de “Tico-tico fuzilado” e eu sou da turma
do Largo das Mercês. Eu e o Júlio Santos, o Recenvindo, o
Odair, o Geraldo. O brinquedo só vai até as nove, quando
as mães e tias e avós começam a gritar ameaças
se não formos logo para dentro de casa.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Combinei
um mergulho na segunda banheira do Rio Acima, já inventei umas mentiras
lá em casa para dar esta escapada, e lá vou eu, com o bodoque
no bolso, de gancho de goiabeira, que sempre é possível encontrar
uma vítima inocente pelo caminho, um Caga-sebo, um Tisil, um João
–bobo.
Desculpem-me. Mas agora não tenho tempo. Estou
ocupado com minha infância e adolescência. Não posso
me chatear com o presente, com a corrupção, com as tarifas
públicas, com Prefeituras, com Vereadores, com discursos de
políticos, com notícias do Jornal, com conflitos mundiais,
com o desespero dos desempregados. Hoje não. Agora não. Estou
criança demais para estes assuntos.
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| Edição nº 265 de 13
de setembro 2003 |
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Alzheimer
Apagou-se a memória.
São visões que o cercam,
vultos que transitam, como névoa,
como sombras
que o lusco-fusco da luz
de uma fresta na janela
provoca na parede do seu quarto.
Apagou-se o tempo.
Não contam dias e meses,
horas e minutos.
E nem distância, longe ou perto.
Há só intermitência
entre sono e olhos abertos,
escuridão e claridade,
nada que ligue
o que dorme e o que desperta,
o que é inerte ou o que se agita,
o que é ficção ou realidade.
Opaco, o tempo escoa.
Não passa: vai-se.
Apagou-se a emoção.
Este gesto é só tremor,
espasmo muscular.
A mão que acena
não pede, não suplica, não ordena.
Apenas move-se por instinto.
Ou por comando involuntário.
Não tem objetivo nem propósito,
e nem fim utilitário.
A palavra é busca insana,
desmembrada:
não tem origem
nem se destina a nada.
Apagou-se a vida.
O que há é matéria
que insiste em ser corpo, ainda vivo
porque respira, expira, expele,
e, ora aquecido, ora frio,
ainda deixa fluir sangue nos vasos,
ainda troca gases nos alvéolos,
ainda digere com enzimas,
ainda se regula com hormônios.
Está morto e vivo.
E nem percebe se é um ou outro,
que a diferença é fugaz, insuspeitada,
e nem se sabe de onde nasce:
talvez desta lágrima filetada
que lhe escorre, mansa, pela face...
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| Edição nº 264 de 6 de
setembro de agosto de 2003 |
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Classificados
Quem já se deu ao trabalho de ler os pequenos anúncios
de grandes jornais sabe do que estou falando. É uma enciclopédia
de disparates, uma enxurrada de impropriedades. Não pensem que tenho
tempo para estas leituras saborosas. Mas um amigo meu tem. E passa horas
procurando pérolas da imaginação popular que ali aparecem,
em corpo 8, quase ocultas, exigindo lunetas potentes para serem visíveis.
E ele não fica num jornal só. Disse-me que é mais
divertido e atraente ler os classificados do que entediar-se com a violência
das páginas policiais, a gritaria histérica dos radicais
do PT, os esperneios da oposição, os carros-bomba dos palestinos
e do Iraque, o desatino dos tanques israelenses, a bandalheira do Banestado,
os aumentos das tarifas públicas, as insanidades do MST, a majestade
do José Dirceu, a mediocridade da MPB atual e a mesmice das novelas
de televisão. Sem contar as patuscadas do Bush e a choradeira do
Lula que, agora, parece ter herdado a tradição inaugurada
pelo Arruda naquele velho, hoje velhíssimo, episódio do painel
do Senado.
Pois bem, vão aqui algumas preciosidades que o
meu amigo recolheu dos pequenos anúncios:
Aluga-se mãe – Não gosta de novelas, só
ouve Júlio Iglesias e Roberto Carlos no walkman e nunca pede pra
você levar uma blusinha toda vez que sai à noite. Gosta da
Hebe, mas não se preocupe: ela sempre dorme antes do programa começar.
Tem plano de saúde.
Colesterol – Se está muito alto, faça como
eu, procure outro médico. Sempre vai encontrar um que vai dizer
que está no limite.Ou que este negócio de colesterol alto
é mutreta de laboratório querendo vender remédio.
Vendo – Meu voto. Pgto. somente à vista. E em
dinheiro. Não dou recibo. Por afinidade ideológica, faço
desconto especial para candidatos de esquerda, se conseguir provar que
é mesmo de esquerda.
Libero filha – Para namoro sério com jogadores
de futebol e cantores que estejam aparecendo na mídia. Ela não
se importa de viajar muito ou mudar de País. Nem eu.
Músico – Autor dos sucessos “É o fim” e
“A gente ainda se vê”. Claudionor da Cuíca anima velórios,
enterros e missas de sétimo dia.
Pai Beição de Oxossi – De segunda a sexta-feira,
joga búzios, Tarot, lê mãos, escrituras e faz serviços
de contabilidade pouco complicados; aos sábados conserta Kombis
e vende galinha ao molho pardo (farofa opcional). Aos domingos, faz strip
privê, mas somente até às 18 horas. Favor não
insistir.
Vidente – Só orienta guias de cegos. Previsões
garantidas.
Estamos dando – Tratar com Jenifer, Pamella, Clovis e
Bijou. Prepare-se para ter surpresas.
Mulher madura – 75 anos, a Rainha do Sexo Oral. Aposentada
de outras atividades de cama, com disponibilidade total, 24 horas por dia.
Com dentadura: R$25,00; sem dentadura: R$60,00.
Fique rico em um mês – E me ligue pra dizer como
é que você conseguiu. 99750008.
Troco – CD´s do Padre Marcelo por uma gravata e
uma bíblia de bolso. Motivo: virei crente.
Saci Pererê – Vendo um pé de chinelo, novo.
Qualquer preço.
Samba – Procuro parceiro para fazer a segunda parte de
um samba que é um estouro. A primeira parte só tem dois versos
que eu não digo quais são porque vão me plagiar. Não
tenho telefone. Deixar recado no Bar do Tição, na subida
do Morro do Alemão, para Zé do Ganzá.
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| Edição nº 263 de 30
de agosto de 2003 |
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O fantasma de Malan
Enganaram-se os que pensaram que a fúria arrecadatória
da União tinha se extinguido com o afastamento de Malan. Nada disto.
O fantasma do ex-ministro da Fazenda está assombrando a Nação
como se ele mesmo fizesse parte da equipe econômica do governo Lula.
Palocci reza pela mesma cartilha. O “espetáculo do crescimento”,
anunciado afoitamente pelo presidente, ainda não tem estréia
marcada. Mas outros espetáculos já começaram a temporada,
sem os aplausos da platéia. Em oito meses de governo, são
mais setecentos mil desempregados no País. Um mau começo
para quem prometeu dez milhões de novos postos de trabalho em quatro
anos. A inflação está controlada, é verdade,
mas a estagnação econômica é evidente. O contingenciamento,
isto é, o bloqueio de verbas pela União, atingiu cifras astronômicas.
Só o orçamento do Ministério da Cultura sofreu um
corte de 51%. Nem o Fome Zero, que vai se arrastando, escapou do corte.
Mas estamos com superávit primário acima dos níveis
exigidos pelo FMI. Para um partido, o PT, que há pouco tempo exibia,
orgulhosamente, faixas com “Fora o FMI”, não deixa de ser estranho.
Ou talvez não seja. Uma coisa é ser oposição
radical, bem outra é ser governo. Lula acaba de dizer, textualmente,
no Peru, “que nunca gostou de ser rotulado de esquerda”. Lula aprendeu
a lição com incrível rapidez. Tratou logo de consolidar
uma maioria imbatível no Congresso, o que pressupunha a possibilidade
de fazer prática o que sempre pregou nos palanques eleitorais. Não
aconteceu. Para um País que depende, essencialmente, de capital
externo, mudanças abruptas apenas afugentam os investidores. Assim,
é preciso cortar gastos, apertar o cinto, afagar o FMI e manter
a avalanche de arrecadação, doa a quem doer. E está
doendo.
Priorizou-se, assim, as reformas previdenciária
e tributária. A primeira, necessária, desagradou grande parcela
dos funcionários públicos, taxou os aposentados. Mas cedeu
à pressão do Judiciário e evitou trombar com os militares.
Para estes haverá uma outra reforma da previdência, em separado.
Quando? Um dia destes. Os pensionistas foram penalizados com um corte de
30%, sem qualquer justificativa plausível, particularmente agora,
que tungaram 11% do salário dos aposentados.
Propalada aos quatro ventos como uma reforma neutra,
isto é, que não aumentaria os impostos, a tributária
estabeleceu taxas progressivas para os impostos de transmissão inter-vivos,
causa mortis e imposto territorial rural. O relator, deputado Virgílio
Guimarães, colocou no texto constitucional tudo que garantia a arrecadação
para a União, deixando para leis ordinárias o que diz respeito
a estados e municípios. Como leis ordinárias dependem apenas
de maioria simples, a base governista pode rejeitar ou aprovar o que quiser.
No relatório, não foi incluída nenhuma sugestão
dos partidos, digamos, de oposição, PSDB e PFL, já
que o PMDB, para não fugir à regra, e de olho em futuros
ministérios e cargos, aderiu na primeira hora à base governista.
A verdade é que a União vai continuar com 64% de tudo que
se arrecada no País, cabendo aos estados 23% e aos municípios
apenas 13%. O governo concordou em compartilhar a CIDE com estados e municípios,
mas não deu a eles, no texto constitucional, a autonomia de gestão
sobre estes recursos. Quanto à CPMF, além de torná-la
permanente e a 0,38%, a União nem quer discutir a possibilidade
de reparti-la com os entes federados. O fantasma de Malan está sentado
ao lado de Palocci.
E tem mais. Deste esbulho quase ninguém tomou
conhecimento. Desde maio deste ano, os prestadores de serviço, autônomos,
têm 11% retidos na fonte sobre serviços de qualquer natureza,
para o INSS. E quem remunera os serviços ainda paga mais 20% para
o mesmo INSS. O fantasma de Malan ronda o Planalto. Por enquanto, é
o ator principal do tal “espetáculo de crescimento” do Lula. Mas
o presidente ainda tem três anos para mudar o elenco (e até
o script) a fim de que o anunciado espetáculo não seja só
uma chanchada. E vamos em frente. Os juros já baixaram um pouco.
Pelo menos isto.
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| Edição nº 262 de 23
de agosto de 2003 |
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Copasa
Mais uma vez a COPASA acena com a possibilidade de assumir
os serviços de água e esgoto da cidade, hoje entregues ao
DAMAE. Há muitos anos, o então prefeito Otávio Neves
liderou uma campanha contra esta transferência de serviços.
A COPASA não veio. Mais tarde, foram os vereadores da Câmara
Municipal, na gestão de Cid Valério, que boicotaram a vinda
da COPASA. E bastou que os primeiros rumores sobre o assunto voltassem
à tona para que surgissem os que se opõem ferozmente à
vinda da estatal mineira. Os que são contra surgem com dois argumentos
principais. Há os que temem a elevação das tarifas.
E há os que acreditam que o DAMAE só não dá
certo por pura falta de competência gerencial. Os primeiros repetem
a história. Foi assim quando optamos pela energia elétrica
de Itutinga, via CEMIG: queriam que a velha usina de Carandaí desse
conta do recado, com receio do aumento das tarifas. E também foi
assim quando chegou a TELEMIG: preferiam os serviços anacrônicos
e obsoletos de uma mini-empresa local para os serviços de telefonia,
temendo mais desembolso nos pagamentos. Hoje, talvez mais do que antes,
estes defensores do “deixa-estar-pra-ver-como-é-que fica” têm
uma certa razão: as tarifas de telefonia e energia elétrica
não estão nada baratas.
Mas quem, em sã consciência, pode negar
que a qualidade dos serviços é infinitamente superior aos
que existiam antes? Para quem não se lembra daqueles tempos, ou
nem os conheceram, é bom lembrar que, ao primeiro trovão,
ficávamos às escuras e com os telefones mudos. Nem precisava
chover. As privatizações trouxeram com elas as Agências
reguladoras, contratos mal feitos e a fúria arrecadatória
da União para fazer superávit primário, permitindo
ajustes escandalosos nas tarifas, um quadro que não se modificou
no atual governo. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer que
a CEMIG tem tabelas de taxas mínimas para consumidores de baixa
renda e consumo. E dos serviços ninguém pode reclamar: as
falhas são desprezíveis. Se for possível tranqüilizar
os do contra, a COPASA também tem tabelas especiais para baixo consumo
de água. E é aqui que entram os que acreditam que o DAMAE,
dirigido por quadros competentes, resolve o problema. Ledo engano. Competência
é o que se espera de qualquer empresa, é claro. Mas no caso
do DAMAE, é preciso mais do que isto. É preciso investimentos,
urgentes e significativos. Para começo de conversa, é preciso
colocar hidrômetros nos imóveis, pelo simples fato de que
a tarifa justa é a que se cobra pelo consumo. Com tarifas aleatórias,
baseadas em critérios nada racionais, o resultado é o desperdício,
a injustiça da cobrança, a inadimplência, o déficit
permanente e a baixa qualidade dos serviços. Fora outros problemas
de ordem administrativa, é isto que ocorre com o DAMAE. De onde
virá o dinheiro para os investimentos necessários à
modernização da empresa? Da competência de diretores?
Da qualidade dos engenheiros e técnicos? De onde virão os
recursos para a revisão geral da rede de esgoto, superada, ineficiente,
restritiva e mal dimensionada? Como levantar recursos se a própria
Prefeitura está inadimplente com a União, incapacitada de
receber repasses federais?
A COPASA está oferecendo seus serviços.
Mais uma vez. Aliás, misteriosamente, ela já está
se instalando na Colônia. Nunca consegui entender como foi possível
que um bairro tenha a COPASA e o resto da cidade não. De qualquer
modo, as cartas estão na mesa. Não é assunto que deva
ser discutido com ingredientes de vantagens políticas ou argumentos
singelos. É debate que exige profundidade, análise de viabilidade
que leve em conta a qualidade dos serviços, particularmente a melhoria
da qualidade de vida e saúde da população.
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| Edição nº 261 de 23
de agosto de 2003 |
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João Sabão
Madrugada fria de inverno. Eu, aos nove, embrulhado na
Capa Ideal azul-marinho, passando pela Ponte do Suspiro. E indo, a passos
rápidos, para o Grupo Escolar João dos Santos, ao encontro
do mundo das letras e dos números, terras e rios, bichos e plantas.
E a saudação à bandeira, ritual de todas as manhãs.
E abrir cadernos com o rosto de Getúlio Vargas na capa, fazendo
apologia do Estado Novo. Criança, como saber a diferença
entre ditadura e democracia? É fácil, nesta idade confundir
conceitos, fazer a cabeça dos que ainda se preparam para a vida.
Disto vivem os regimes totalitários. E não só eles.
Era um tempo em que o pecado era o parâmetro moral das gerações
infantis. A ameaça do inferno, uma norma de conduta. O castigo,
a punição, o meio mais eficaz de educação.
De um lado, a igreja católica, dando cores vivas ao diabo e prometendo
a vida eterna para o bom comportamento. De outro, os pais, de correia em
punho, para punir os deslizes e sem qualquer oportunidade de diálogo.
No meio, os professores, valendo-se de ambos os castigos, o moral e o físico,
se preciso, para manter a ordem, a disciplina, o cumprimento dos deveres.
Minha geração foi criada pelo medo. Medo do pecado. Medo
do inferno. Medo do castigo. Medo da reprovação. Isto tudo
me vem à cabeça quando o meu Grupo Escolar completa 95 anos.
Hoje, deve ser bem diferente daquela escola dos anos trinta. O mundo mudou.
Diante do preâmbulo desta crônica, pode dar
a impressão que foram anos de tortura. Não foram. É
preciso considerar as vantagens do método intimidativo. Ainda que
a repressão estivesse presente, ensinou-se o sentido de responsabilidade,
da solidariedade, da honestidade. Aprimorou-se o amor cívico, educou-se
a sensibilidade. Eram doces as suculentas balas de D. Amélia Ferreira,
vendidas na porta do João dos Santos. Rígida, a disciplina
da diretoras D. Lourdes e D. Beatriz Leite. Mas mansas as aulas de D. Elza.
E provocativas, instigadoras, os esforços de D. Josefina e D. Loló
para nos transformar em artistas mirins no canto coral, nas teatralizações,
nas festas de fim de ano. Até hoje, acho que foi ali que tomei gosto
pelo teatro, pela música, pelas artes de modo geral.
No terreno do fundo do Grupo, havia uma criação
de bicho-da-seda. Acompanhávamos o processo daqueles bichinhos fazendo
seus casulos. Foi a minha primeira lição ecológica,
primeiro alerta para a necessidade de conservar o meio ambiente. Agora,
à distância, é possível criticar os métodos
pouco ortodoxos daquela forma de educar. Mas é inegável que
trouxeram benefícios e, pelo menos para mim, nenhum trauma. A rigidez
apostólica das nossas famílias trouxe o gosto pelo ritual,
raiz da cultura, base de manifestações ancestrais que a tecnologia
mais avançada não pode substituir. Não tenho nenhum
arrependimento das pressões a que fui submetido. Não me deixaram
marcas, físicas ou psicológicas, as ameaças religiosas
ou a dor de algumas correiadas nos meus primeiros dez anos de vida. Acho
até que foram fundamentais para a formação do meu
caráter, da minha personalidade e determinação. Permitiram-me
o discernimento, anos depois, para separar o joio do trigo. E talvez ainda
sejam, nos dias de hoje, referenciais da minha conduta como cidadão.
Devo muito do que sou, mas não tanto do que penso
hoje, ao Grupo Escolar João dos Santos, o meu João Sabão,
tão presente nas minhas lembranças. No fundo, acho que naquele
tempo o que os professores queriam mesmo é que eu aprendesse a ser
um homem de bem, nas conotações da época, e que não
são muito diferentes do que hoje se preconiza com adjetivos como
cidadania. Não sei se o meu João dos Santos conseguiu que
eu fosse exatamente o que ele queria. Mas tenho certeza de que uma boa
parte do que eu possa ter de bom, devo a ele. O resto, o que deu errado,
foi culpa minha.
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| Edição nº 260 de 16
de agosto de 2003 |
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Impasse
As atividades dos Sem Terra estão assumindo ares de
guerrilha rural. O exemplo prolifera. Os Sem Teto já estão
na guerrilha urbana. Em Unaí, na semana passada, uma fazenda foi
invadida, depredaram uma casa de dois andares, mataram cinco bois e sumiram
com as galinhas existentes, além de tocarem fogo em máquinas
agrícolas. Os bois foram mortos, disse o líder do movimento,
para matar a fome dos invasores. Mas 73 quilos de carne perderam-se, pela
forma como os animais foram abatidos, com certeza na base da foice. Se
a fome explicou o abate, ninguém se deu ao luxo de explicar porque
a casa foi depredada, as janelas e portas arrancadas e o maquinário
destruído. Recentemente, os Sem Terra bloquearam estradas e assumiram
o controle de postos de pedágio. São táticas de intimidação
que resvalam para a baderna. O governo do PT, como o anterior, discursa
condenando as invasões, mas não toma qualquer ação
concreta contra elas. As liminares e contra-liminares sucedem-se
pela reintegração de posse e, enquanto a justiça não
julga o mérito, a choldra esfomeada invade, depreda e mata a fome
com bois alheios. Tudo em nome da reforma agrária ou da busca de
moradia.
A tolerância do governo atual não é
diferente da que prevaleceu no governo anterior. É até maior,
já que a audácia dos invasores está aumentando. O
que aconteceu antes, acontece agora: ninguém quer o confronto, ninguém
quer sangue, ninguém quer cadáveres de gente que, sem trocadilho,
não tem onde cair morta. Os Sem Teto que invadiram terreno da Volkswagen
disseram que tinham de resistir pois não tinham para onde ir. Eu
pergunto: onde estavam antes da invasão? Em outro terreno invadido?
É provável. O MST invade terras produtivas. Claro, as devolutas
estão longe das câmaras de televisão, das estradas
e da imprensa. Nelas, não há gado para matar a fome nem eco
que repercuta a ação predatória.
O impasse é claro. As leis estão aí.
Não há como fazer reforma agrária no grito. Aqui não
é Sierra Maestra. E dentro da lei, as tramitações
são demoradas. Só para decidir se uma fazenda é produtiva
ou não, a justiça leva alguns anos: há o recurso das
contestações, as liminares, os embargos, as avaliações.
A questão adormece nos tribunais. E agora está pior: o presidente
do Incra saiu dos quadros do MST e, portanto, acoberta as invasões.
O presidente nacional do PT, José Genuíno, declarou ao Estadão
que “as grandes transgressões à lei não serão
permitidas”! O que quer dizer que as pequenas transgressões não
têm importância. Como se fosse possível aplicar a lei
pela metade. O que será uma pequena transgressão? Saiu-se
mal o presidente do PT numa declaração infeliz. Perante a
lei, não há pequenas e grandes transgressões: o que
há é a transgressão e ponto final.
Não há alternativas. Todos somos pela reforma
agrária. Mas o modelo à vista é capitalista e não
revolucionário, visto que estamos num estado de direito. A reforma
agrária só poderá ser feita dentro das leis. Se a
justiça é morosa, se permite protelações e
recursos intermináveis, isto não dá direito ao MST
de invadir o que quiser, inclusive prédios públicos, e agir
como vândalos na destruição da propriedade alheia.
Como também não cabe aos proprietários armar milícias
e proteger suas propriedades com a matança de eventuais invasores.
O presidente Lula precisa esquecer que, en quanto PT,
sempre acariciou os militantes do MST. Agora é governo e, como tal,
deve fazer cumprir a lei, assegurar os direitos dos cidadãos, a
ordem pública e o respeito à Constituição.
O MST está aproximando-se, perigosamente, das Ligas Camponesas de
Julião. Mas já se foi o tempo de gritar o slogan: “Reforma
Agrária, na lei ou na marra!”. Na marra não dá mais.
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| Edição nº 259 de 2 de
agosto de 2003 |
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Mulheres
Em meio ao Inverno Cultural, um evento de extrema delicadeza
somou-se à programação exuberante. Não foi
nenhum dos que agitaram a massa, movimentaram a bilheteria e a curiosidade
de milhares. Não aconteceu na mídia. Pelo contrário,
teve o recato das intimidades. Foi um evento singelo, sem grandes alardes,
com a discrição de um padre no confissionário, até
com certa pureza de água de fonte e mais parecido com uma estranha
reunião familiar sem que os participantes fossem parentes. Refiro-me
a um sarau denominado, sem feminismo, “As mulheres fazem o espetáculo”.
Aconteceu tranqüilo, no aconchegante espaço do Luiz Cassano,
que está sempre disposto a colaborar com iniciativas inusitadas
e espantosas.
O mulherio tomou as mesas e, alguns poucos homens, como
o Aloízio Barros e eu, fomos lá de enxeridos, estranhos no
ninho, mas dispostos a participar, meio à distância, daqueles
momentos de sensibilidade que só mulheres sabem conceber (e conceber
é de sua natureza), organizar e levar a cabo.
Não houve grandes performances, nem exímias
exibições de talentos consagrados. Foi uma festa íntima
em que os presentes se expuseram com a alegria e a convicção
de estarem participando, de alguma forma, do mega-evento que tomou conta
da cidade. E houve música. E houve poesia. Tudo sob o comando legítimo
e sereno de Silvia Fernanda. E houve nostalgias. Até os hinos dos
grupos escolares Maria Teresa e João dos Santos foram entoados pela
platéia com o entusiasmo juvenil da adolescência.
E houve protestos políticos também. Mensagens
de advertência. Afirmações contundentes em relação
à pouca participação das mulheres sanjoanenses na
vida política da cidade, sem deixar de mencionar os poucos, pouquíssimos
exemplos de efetiva atuação do sexo feminino nas áreas
legislativa e executiva do poder público no município. E
com elogios e críticas a esta atuação, como convém
num encontro democrático e saudável, onde o direito de opinião
prevalece, sem censuras partidárias, de amizade ou parentesco.
Sentado no meu canto, carregado do pessimismo que ultimamente
se apossou de mim, desencantado de qualquer perspectiva em relação
à cidade, vi reacender, subitamente, a possibilidade de ainda existir
alternativas válidas. Talvez ali estivesse o embrião de uma
organização da sociedade capaz de alterar os rumos a que,
parece, nos acostumamos. As mulheres, por natureza, parecem mais sensíveis,
mais competentes, mais argutas e, sobretudo, mais determinadas quando assumem
responsabilidades, domésticas ou públicas. Será genético?
Vem do estoicismo com que suportam a contumaz volubilidade de nós,
homens? Vem do instinto de maternidade que as fazem defender as crias e
sofrer humilhações em função de manter a integridade
familiar?
O sarau daquela noite mostrou-me que, provavelmente,
um novo movimento social estava em marcha. No berço, ainda, mas
em progresso. Um movimento capaz de transcender a poesia, a música,
a recordação nostálgica, para inserir-se na efetiva
participação política, única forma de mudar
o que está acontecendo, abrir caminhos, repensar o consentido e
traçar novos rumos que vislumbrem um futuro fora dos parâmetros
aos quais os homens desiludidos se acostumaram, e os homens detentores
do poder, ou com ele comprometidos, não desejam alterar.
Foi o que eu pensei, quieto no meu canto, naquele simples
evento, que eu assisti com a contrição de quem assiste a
uma Coroação do mês de maio: acreditando em milagres.
E por que não?
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| Edição nº 258 de 26
de julho de 2003 |
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Quinzena cultural
O Inverno Cultural chega ao fim com saldo altamente positivo.
Foi, sem dúvida, uma de suas mais brilhantes edições,
não apenas pela qualidade dos eventos apresentados, muitos dos quais
de nível insuperável, nem apenas pelas inovações
ou pela diversidade das oficinas. O que mais chamou a atenção,
além do profissionalismo dos espetáculos, foi a participação
popular. O Corpo, Tom Zé, Paulinho da Viola, Nelson Sargento e a
Velha Guarda da Mangueira arrastaram multidões para a Rotunda. Mas
o comparecimento do público em outros espetáculos, de rua
ou em espaços fechados, e das mais variadas origens e natureza,
foi surpreendente. O Expresso Melodia movimentou a periferia. A Banda Teodoro
de Faria, centenária, lançou o seu CD. O projeto “S. João
dá samba” resgatou a sonoridade dos compositores sanjoanenses.
Sem o “Bar da Rede”, os eventos em outros bares multiplicaram-se,
alguns com excesso de espectadores, mas todos prestigiados pelo público.
Viveu-se uma quinzena cultural que honrou as tradições da
cidade e demonstrou, de maneira inequívoca, que não falta
público, não falta interesse aos sanjoanenses pelas manifestações
culturais. Se os eventos são produzidos, e com qualidade, lá
estará o público, sequioso de emoções e entretenimento.
E houve de tudo, para todos os gostos, de Jota Quest ao samba de raiz.
Evidentemente, nem tudo foi perfeito. Os grandes eventos
não começaram nos horários previstos. Alguns deles
extrapolaram os limites de tolerância, como o de Paulinho da Viola,
que se iniciou depois de 11h da noite, sob o frio implacável do
nosso inverno. Mesmo assim, valeu: o show do príncipe do samba aplacou
a impaciência dos menos dispostos a aceitar o atraso.
O Inverno Cultural da UFSJ é, hoje, um dos eventos
mais consolidados e significativos do Estado. Na sua 16ª edição,
ganhou a mídia nacional, impulsionou o turismo, acendeu a economia,
gerou renda e emprego, exemplo que não pode ser relegado ao esquecimento.
Para a cidade que tem em mãos um plano diretor de desenvolvimento
turístico, fruto de um trabalho exemplar da própria UFSJ
e dos segmentos organizados da sociedade, o Inverno Cultural deveria ser
motivo de reflexão permanente por parte das autoridades municipais
que, mais uma vez, estiveram ausentes. O chefe do Executivo não
foi visto em lugar algum. A Prefeitura Municipal não aparece entre
os patrocinadores do Inverno Cultural. Esta omissão é lamentável,
embora já estejamos acostumados a ela. Nem por isso é possível
deixar de protestar, reclamar e exigir a participação efetiva
do Executivo municipal. Particularmente, quando se sabe que uma parte do
repasse de ICMS do Estado para o Município vem da pontuação
cultural da cidade, para a qual o Inverno Cultural contribui de maneira
significativa. Até hoje estamos esperando que o Executivo tome a
iniciativa de enviar à Câmara Municipal projeto de lei que
torne obrigatório o uso daquela parcela do ICMS em benefício
de projetos culturais em S. João Del-Rei. É o que já
existe em outras cidades de menor porte e com muito menos equipamentos
e atividades culturais que a nossa terra.
Com tanta falta de sensibilidade e tão curta visão
do poder público, como esperar que vingue o plano de desenvolvimento
turístico desenvolvido com tanto profissionalismo e competência
pela UFSJ?
Foi um julho de festa, de emoção, de ampliação
do conhecimento, de cultura, de tradição e de história.
Resta esperar pelo que vai acontecer no segundo semestre...
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| Edição nº 257 de 19
de julho de 2003 |
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Vida longa à Gazeta
Os cinco anos da Gazeta mostram, de maneira inequívoca,
que o semanário vem cumprindo sua missão com o profissionalismo
e a competência que se espera de um órgão de imprensa.
Em defesa dos direitos do cidadão, a Gazeta tem informado, apoiado
iniciativas, estimulado justos movimentos de reivindicação
e denunciado os abusos de particulares e, especialmente, do poder público,
que não tem primado por uma conduta que sirva de exemplo para nenhum
município.
Pelo contrário. As irregularidades são
evidentes. E muitas. Boa parte delas está sendo apurada pela Promotoria
Pública, em B. Horizonte, e espera-se que dêem resultados
justos. A Gazeta, entretanto, não tem poder de polícia. O
que pode fazer, tem feito: denunciar, com provas, indícios e evidências,
os desmandos cometidos pelo Executivo e a atuação, muitas
vezes equivocada, da maioria legislativa que o chefe do poder Executivo
mantém sob seu controle na Câmara Municipal. É a função
de uma imprensa comprometida com a lisura. Se algumas vezes a denúncia
surtiu efeito, mobilizando os sanjoanenses e suas entidades representativas
para reclamarem correções de conduta, muitas outras vezes
não houve correção dos desvios de atuação,
seja do Executivo, seja do Legislativo. A Gazeta tem cumprido o seu papel:
ouve, investiga, defende ou denuncia, com a isenção que é
o fundamento básico e essencial de sua atividade jornalística.
Estes cinco anos de exaustiva dedicação
não foram, por outro lado, um mar de rosas. A Gazeta tem trabalhado
no limite de suas condições financeiras, com equipe mínima
e recursos escassos. Uma boa dose de idealismo é o que tem mantido
o semanário em atividade. Enganam-se os que pensam que um órgão
de imprensa como a Gazeta propõe-se a fins lucrativos. Mantém-se
a duras penas, muitas vezes com o sacrifício de seus redatores,
repórteres, fotógrafos, administração e pessoal
de apoio. Existe, na equipe, um enraizado sentimento de que é preciso
continuar a todo custo e S. João del-Rei não pode prescindir
de um órgão de imprensa que se conduza com imparcialidade
e profissionalismo.
São justamente as permanentes e numerosas manifestações
de solidariedade, confiança, credibilidade e louvação,
recebidas de sanjoanenses e não sanjoanenses, que aqui residem ou
que estão à distância, que acendem o nosso entusiasmo,
reforçam nossas convicções e nos animam a prosseguir
nesta trajetória, mesmo quando as dificuldades parecem insuperáveis
e os obstáculos intransponíveis.
São cinco anos de áspera caminhada, desde
que o saudoso Herval da Cruz, num rasgo de idealismo e fidelidade à
profissão jornalística, concebeu, estruturou e implantou
um projeto que iria, sem sombra de dúvida, alterar profundamente
o setor da informação escrita em S. João del-Rei.
Hoje, com todos os percalços, não há ninguém,
em sã consciência, que possa negar que a Gazeta não
seja um projeto vitorioso. Isto não quer dizer, entretanto, que
não tenhamos cometido, vez ou outra, algumas falhas. Mas, se ocorreram,
não foi por má fé ou conduta suspeita. Percebidas,
tentamos corrigi-las e tomamos as providências para que não
se repetissem, porque ser fiel à verdade, servir à população
e exercer nossa missão com o respeito que merecem os nossos leitores
sempre foi a premissa que norteou o trabalho desenvolvido pela Gazeta.
Paixão por S. João del-Rei, este é
o nosso lema. Uma paixão que permanece. E que, sem falsa modéstia,
tem contaminado os sanjoanenses. Cinco anos de muita dedicação.
Vida longa à Gazeta.
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| Edição nº 256 de 12
de julho de 2003 |
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Tempo de cultura
A cidade está em festa. E não é só
porque se coloriu com aquele bando circence que apontou na esquina, rufando
tambores, zurrando trombetas, encarapitado em pernas-de-pau, brincando
com fogo, saracoteando em zigue-zagues, desfraldando estandartes, agitando
bandeiras. Não é só porque o sol banhou estes saltimbancos
modernos. Nem porque congadeiros entoam cantos ancestrais, tocam violas
e espalham reflexos com seus ornatos de espelhos. Ou porque se armou na
praça o trapézio. Nem porque os palhaços fizeram da
rua picadeiro e a multidão os cerca com admiração
e risos. A cidade está em festa porque é tempo de Inverno
Cultural. De reencontro do homem com o ato criativo. Do homem com sua imaginação.
A festa é coletiva. Mas escolhe nichos e abriga-se
em espaços insuspeitados. Longe da agitação externa,
as oficinas do exercício criativo fazem sua festa particular e dão
asas à imaginação. Há todo um universo para
ser descoberto. Uns rabiscam, outros manejam pincéis. Alguns colorem.
Muitos cantam. E outros mais dedilham cordas, sopram tubos. E há
os que mergulham dedos no barro e dele arrancam formas, expressões,
impressões, visão concreta de sentimentos nunca imaginados.
E há a algazarra das crianças, entre risos
e gritos alegres, na grande recreação que para eles se preparou.
E há profusão de banners nas janelas de galerias e museus,
o dobrado de bandas, a música criando uma atmosfera lírica
e sensual. E há aplausos vibrantes, entusiasmos, o público
ávido e os criadores gratificados. Congraçamento. Comunhão.
E os professores ensinando e aprendendo. Que não
há ensino que não seja um aprendizado. Nem criação
que não seja uma troca, transferência de energia. Estímulo
e reação. Tudo é a festa do espírito, observada
com olhar severo pelas janelas de casarões coloniais, de pontes
seculares, das quinas de esquinas obtusas, das sineiras de torres que se
erguem emoldurando fachadas de ornatos barrocos.
Estamos frente à frente com o espetáculo
em que a Universidade Federal de São João Del-Rei se
oferece ao povo da cidade, da região, do Estado, do País.
E abre as portas para que a participação se efetive nas múltiplas
facetas com as quais a arte se identifica. No centro e nas periferias.
Nos locais confinados e nos espaços abertos. Sem qualquer barreira.
O Inverno Cultural não tem fronteiras. Não confina. Multiplica-se
na orgia criativa dos artistas, das oficinas, das palestras, dos debates,
dos espetáculos, das perfomances, da música, das artes cênicas,
da literatura, da poesia. Tudo é festa: para quem a promove ou para
quem a assiste. E para quem a continua, pela noite afora, ou pela noite
adentro, como extensão obrigatória da emoção
que se viveu momentos antes.
Inverno Cultural da Universidade Federal de São
João Del-Rei: uma festa. Você é um convidado especial.
Por que não participar?
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| Edição nº 255 de 5 de
julho de 2003 |
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Bolo de Nozes
O palco do Teatro Municipal já recebeu nesta semana
uma Orquestra Sinfônica, teatro infantil, grupos de música
e espetáculos de dança. Neste sábado, entra em cena
uma peça de teatro adulto, “Bolo de Nozes”, da autora paulista Eddla
Van Steen, numa produção da Heluarte, de Belo Horizonte,
dirigida pela sanjoanense Mamélia Dornelles. Amanhã, domingo,
fecha-se o ciclo de inauguração com um concerto da Orquestra
Sinfônica de S. João del-Rei. Uma semana digna de registro.
Depois de mais de três anos, o público terá
a oportunidade, nesta noite, de assistir a um espetáculo de teatro,
com suas luzes, seus cenários, seu encantamento e sua magia. No
palco que viu tantas companhias teatrais famosas, que reverenciou Procópio
Ferreira e Eva Tudor, que abrigou tantas produções do Clube
Teatral Arthur Azevedo, as operetas de José Viegas, as revistas
do Maestro Guaraná, os sucessos do TUNIS, os quatro intérpretes
(um ator e três atrizes) de “Bolo de Nozes” vivem a saga de uma família
que sofre os horrores dos anos de chumbo da ditadura militar, tenta o equilíbrio
na fase do milagre brasileiro e sucumbe às conseqüências
da globalização e da redemocratização do País.
Nesta trajetória de 19 anos (1968-1987), as relações
familiares sofrem o impacto dos acontecimentos políticos, as afetividades
se perdem ou se invertem, a tragédia esgueira-se pelas frestas do
cotidiano, atenuada por momentos de puro lirismo, poesia e humor refinado.
A visão de Eddla Van Steen é, como não
poderia deixar de ser, feminina, e por esta razão mesma, terna e
generosa para com seus personagens. Num texto construído com uma
técnica dramatúrgica de alta competência, a autora
mergulha com profundidade na elaboração dos personagens.
Tudo neste espetáculo é pura emoção, independente
dos momentos de ação, dramáticos ou cômicos.
Percebe-se a presença constante do universo feminino, com suas nuances,
suavidades ou arrebatamentos.
Um professor universitário (Geraldo Roberto Peninha)
cassado pela ditadura, destrói-se a si mesmo, incapaz de reagir
e recomeçar a vida. Sua mulher (Heloisa Duarte), que sonhava em
se realizar como artista plástica, é obrigada a assumir a
direção da empresa dos pais, mortos em trágico acidente.
Embora violentada nas suas aspirações, enfrenta a nova situação,
mas não consegue salvar a relação conjugal que, a
cada dia, se deteriora. Suas duas irmãs (Gisele Simões e
Lorelai Schneider) flutuam entre as contradições que se abatem
sobre o casal. Uma tem sonhos de profissionalizar-se como cantora, enquanto
cuida da caçula, psiquicamente instável, e que vive de devaneios,
entre realidade e recordações. O quarteto interage entre
o humor e a dramaticidade, seres humanos colhidos inexoravelmente pelas
circunstâncias que desenham suas decisões e indecisões.
Mamélia Dornelles dirige o espetáculo com
ênfase na emoção, deixando aos atores o caminho livre
para que se expressem no ofício que lhes é próprio:
o de intérpretes. Suas marcações de cena lembram posturas
esculturais e sublinham com lirismo os momentos mais comoventes.
Quem for hoje ao Teatro Municipal vai poder apreciar
um texto de inegável qualidade e, seguramente, vai emocionar-se
com um espetáculo produzido com requinte e ternura. E não
faltará motivo para polêmicas à saída do teatro.
Vale a pena conferir.
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| Edição nº 254 de 28
de junho de 2003 |
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Abre-se a cortina
Hoje, todas as atenções, necessariamente,
estão voltadas para a inauguração do Teatro Municipal.
O ato concretiza-se com os acordes da Orquestra Sinfônica do Palácio
das Artes, sob a regência do maestro sanjoanense Marcelo Ramos. Chega
a bom termo uma batalha que teve início há cinco anos, quando
Adenor Simões levou avante uma campanha heróica para salvar
um monumento que estava entregue às traças e baratas, jogado
no ostracismo e em vias de irrecuperável deterioração.
Muito da reforma empreendida, com o apoio de muitos,
mas principalmente com os recursos financeiros da Usiminas, através
da Lei de Incentivo à Cultura, e da Vale do Rio Doce, por via direta,
ficará oculta aos olhos da platéia. Esta, certamente, verá
o foyeur restaurado, os sanitários reformados, as poltronas confortáveis.
Mas não verá o mais importante: a estrutura metálica
da caixa de palco, a “varanda” confiável, o urdimento moderno, os
equipamentos elétricos e sonoros, se não os melhores, pelo
menos adequados para propiciar condições satisfatórias
a produções qualificadas de artes cênicas.
É justo reconhecer a interveniência da Associação
Comercial de S. João Del-Rei na captação de recursos,
o apoio do governador Aécio Neves e a presença indispensável
do Instituto Histórico e Geográfico da cidade, que foi o
responsável legal para que o projeto de restauração
e modernização da casa de espetáculos fosse concretizado.
Mas ninguém se iluda. Esta é apenas a primeira
fase de uma batalha, áspera e espinhosa, que não encerra
quando as cortinas se abrirem na noite de hoje. Vai começar um outro
processo, longo e complexo.
1.0 – Quem vai gerir o Teatro? As experiências
anteriores mostram que é preciso criar um novo tipo de gestão.
Não apenas para dar regularidade de funcionamento, mas capaz de
assegurar captação de recursos para a manutenção
e promoção de eventos. É o grande desafio.
2.0 – É preciso reconquistar o público,
afastado do Teatro há muitos anos. Como fazê-lo sem cobrar
ingressos de preço incompatível com o poder aquisitivo da
nossa população?
3.0 – Onde estão os grupos teatrais locais capazes
de preencher a pauta do Teatro? As entidades culturais terão que
se organizar para promover um calendário de apresentações
regulares. Não será possível contar apenas com espetáculos
de fora da cidade.
4.0 – Será preciso elaborar regulamento rígido
e disciplinado para a ocupação do Teatro.
5.0 – Fundamental formar um corpo técnico qualificado
para responsabilizar-se pelo uso dos equipamentos cênicos: maquinaria,
som e iluminação. Em hipótese alguma equipamento elétrico
ou sonoro pode ser emprestado para eventos que se realizem fora do Teatro.
6.0 – É preciso criar, com a devida urgência,
um curso de formação de atores, se possível profissionalizante,
no âmbito da Universidade Federal de S. João Del-Rei, embrião
de um grupo estável de teatro e de onde surgirão outros grupos
da comunidade.
Não serão tarefas fáceis. Mas são
metas que precisam ser discutidas e colocadas em andamento. Se não
forem, teremos criado um elefante branco na cidade. Ou, o que é
pior, dentro de pouco tempo teremos que começar outra campanha para
salvar o Teatro Municipal.
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| Edição nº 253 de 21
de junho de 2003 |
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Fidel
Guardei dentro da minha carteira, que carrego sempre comigo,
uma nota de um peso cubano que ganhei de um amigo nos meados de sessenta.
Está um pouco envelhecida, com pequenos danos nas margens. Mas nada
que impeça a visibilidade da estampa do centro, a chegada triunfal
de Fidel Castro em Havana, na derrocada da ditadura de Fulgêncio
Batista, vassalo e capacho dos norte-americanos. É uma espécie
de desculpa que carrego, lembrança de tempos em que eu acreditava
piamente no manifesto comunista de 1848, lia todos os livros de Lenine,
especialmente “O que fazer?”. Um tempo de acaloradas discussões
nos botecos de Belo Horizonte, meio às escondidas, por causa da
repressão. Quando alguém levantava a tese de que na Rússia
(leia-se União Soviética) não havia liberdade, respondia:
“E nós? Que liberdade temos? A liberdade para morrer de fome?”.
Era um tempo em que defendíamos o “paredon” cubano
e os julgamentos sumários da Ilha do Caribe como uma necessidade
inevitável. Só existia arte, para nós, se tivesse
uma função claramente social. E social significava a luta
revolucionária pela tomada do poder. O mundo seria dos trabalhadores,
que deveriam ser donos dos meios de produção, máquina
capitalista que sugava o sangue dos proletários. Falávamos
de Guevara como uma espécie de redentor, herói supremo da
revolução proletária que iria reduzir a cinzas o imperialismo
de todas as origens, norte-americanas ou européias.
Toda denúncia de atrocidades na Rússia,
a eliminação de dissidentes, o descalabro jurídico
da existência de um partido único eram, para nós, baluartes
de um novo mundo, ou deslavada mentira da imprensa capitalista ou conseqüências
inevitáveis da luta pelo poder. E muitas vezes, tirei da carteira
aquela nota de um peso para reverenciar a coragem, o altruísmo,
a solidariedade de Fidel Castro.
Os tempos foram passando. A própria Rússia
denunciou o regime de terror de Stalin. As Alemanhas unificaram-se. O muro
de Berlim desabou. O império soviético fragmentou-se: facções
entraram em luta encarniçada para reaver direitos de ancestrais
etnias. A China deixou de queimar livros em praça pública.
O Livro Vermelho de Mao nunca mais foi impresso. Desapareceram, até
dos sebos, as cartilhas de Guevara sobre a luta armada, embora seu rosto
continuasse sendo estampado em camisetas de todas as gerações.
O capitalismo inventou outras armadilhas, como a globalização
e o G-8. Aqui mesmo, a ditadura militar criou o FGTS, espécie de
consolo para não se dar tanta atenção à mais
valia e à estabilidade no emprego. Vieram o PIS e o PASEP.
Aos poucos, desencantei-me com as crenças dos
anos 60 e 70. Passei a dizer que tenho princípios, mas não
ideologias. Repetindo Camus, passei a dizer, e ainda digo, que para ser
contra a injustiça social não é preciso ter ideologia:
basta ter dois olhos e andar pela rua. Nesta transição, de
décadas, fiquei, entretanto, com a sensação de ter
perdido algo essencial, parte dos meus sonhos, muito do meu idealismo,
parcela da minha existência intelectual.
Outro dia, tirei pela última vez a nota de um
peso cubano da minha carteira. Olhei fixamente para a figura de Fidel Castro,
o homem de Sierra Maestra, em que ainda reconheço um visionário
daqueles tempos. Foi exatamente no dia em que se noticiou o fuzilamento
de três cubanos que seqüestraram um barco para fugir de Cuba.
Três descontentes com o regime. Na década de sessenta, eu
diria: “três canalhas, três traidores da causa proletária”.
Hoje, não consigo mais ver o fato por esta ótica. Vejo três
injustificáveis execuções, três assassinatos,
três insanidades. Faço coro com Saramago, comunista histórico,
que condenou a execução. Olhei a figura imponente na nota
de um peso: trata-se do mais duradouro ditador do mundo, desde os tempos
dos faraós. E achei que era a hora de jogar fora aquela nota de
velhos tempos. Pálido protesto, já que o governo brasileiro
não fez, como outros, nenhum protesto, sob a alegação
burocrática de que são questões internas de Cuba.
Rasguei a nota. Não tenho mais nenhuma razão para ter comigo
lembranças daqueles tempos heróicos em que a gente se equivocava
tão facilmente, embora continue se equivocando...
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| Edição nº 252 de 14
de junho de 2003 |
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Computadores
Eu já não sou de muita paciência. Talvez
por isto não seja de pescaria. Esperar não é o meu
forte. Quero que as coisas se resolvam. E logo. Vem daí a relação
pouco amistosa que mantenho com meu computador, esta invenção
do diabo que introduziram sorrateiramente na vida da gente, aposentando
as máquinas de escrever, tão simples, tão passivas,
tão sob o nosso controle, mental e manualmente. Raramente nos irritavam.
Uma tecla que emperrava, um parafuso que afrouxava, a fita que se desgastava
na hora mais imprópria e exigia toda uma epopéia para a troca,
borrando nossos dedos de tinta. Mas fora isto, nenhum grande problema que
o Geraldo Espada não pudesse resolver na sua oficina da Leite de
Castro.
Agora é diferente. O monstrengo tem vida própria.
Tem hora (sempre a mais inconveniente) que ele resolve não cooperar:
trava, o mouse não anda, os comandos não obedecem. O computador
entra em greve. E sem avisar. No meio do texto. Desesperado, você
manda ele começar tudo de novo e percebe que se esqueceu de salvar
o que estava digitando. O canalha apaga tudo.
Isto é o de menos. Lá pelas tantas, sem
qualquer explicação, ele joga na sua cara uma mensagem arrasadora:
“foi cometido um erro de execução”. E apaga a tela! Mas que
erro, meu Deus!? Eu estava ali, comportado como um coroinha, digitando
o texto, batendo as teclas com a suavidade com que se trata uma mulher,
seguindo as instruções dos 300 manuais que vieram junto com
o equipamento no momento da compra, que erro poderia ter cometido? Não
adianta. O Deus ex-máquina é implacável: estampa a
advertência e apaga a tela, com a maior cara-de-pau! A única
solução é começar tudo de novo. Como é
que a gente pode manter relações afetivas com um troço
destes? Como não se irritar?
E olha que eu trato o desgraçado com um carinho
que só se dispensa a um filho: não deixo a poeira acumular,
limpo o teclado, revejo a infinidade de plugues, tomadas, soquetes e pinos
que enfeitam o seu rabo, tudo com a delicadeza de uma pétala, para
não irritá-lo, não ofendê-lo, não provocar
seus neurônios eletrônicos!...E não adianta. Volta e
meia ele me chateia. Estou digitando um poema e ele interfere: “você
parece que está digitando uma carta. Posso ajudar”? Ora, ajudar
em que? Fornecendo inspiração? Tudo isto porque, no poema,
a linha não se completa, passa para a seguinte. Afinal, o quê
que computador entende de poesia? Nem a gente entende!
De outras vezes, cisma de sublinhar uma palavra que eu
tenho certeza, conferida em dicionário qualificado, que está
absolutamente certa. Aí você vai saber onde está o
erro e o mentecapto retruca: “sem sugestão na ortografia”. Ora,
se não sabe, por que diz que tem erro? É ou não é
para se perder a paciência? Isto quando não cisma de acentuar
palavras por conta própria, palavras que definitivamente não
são acentuadas. Pensa que sabe mais que Rui Barbosa, que o Aurélio,
que o Houaiss...
É um parto. Toda vez que me sento na frente do
computador, penso que estou indo para uma batalha: a do homem contra a
máquina, dita inteligente. E, no entanto, como trabalhar sem ser
escravo desta geringonça? Acho que vocês me desculpam a irritação.
Afinal, quem é que já não foi a um banco e, ao acionar
o maquinário infernal, não se irritou com a mensagem: “terminal
temporariamente sem comunicação?” Ou seja, naquele momento,
o mundo parou...
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| Edição nº 251 de 7 de
junho de 2003 |
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Perguntas sem resposta(II)
O diretor geral do DAMAE pinçou uma frase de uma das
minhas colunas neste semanário, utilizando-a fora do contexto em
que estava inserida. O parágrafo em foco referia-se, justamente,
ao fato de que se fala muito e prova-se pouco. Ou nada. A frase que o diretor
geral do DAMAE pinçou só se completa com a frase anterior.
Vamos repeti-la: “Diz-se não quer dizer coisa alguma. Também
diz-se que a falcatrua campeia à solta no DAMAE. Diz-se. Mas nada
se sabe”. Não há qualquer acusação na sentença.
Pelo contrário, o colunista estava chamando a atenção
para o fato de que dizer só não basta. Há que ter
provas e denúncia. Mas “nada se sabe”. Doeu-se o diretor por que
razão?
Mas já que, no seu direito, veio a público
defender a lisura da sua administração (que não começou
em 10/03/03, como proclama, pois já esteve ali antes disto) poderia
ter dado respostas mais convincentes sobre o DAMAE. É incoerente
dizer que demitiu 51 serviçais para não elevar a taxa cobrada
quando, na mesma edição, a Gazeta publicava o aumento de
tarifas do DAMAE. Entre as justificativas do aumento estava a elevação
dos custos de energia elétrica. Ora, o bairro do Bonfim e boa parte
do Centro são abastecidos por gravidade e não pelo acionamento
de bombas hidráulicas. Pagaremos todos pelos aumentos das tarifas
de energia elétrica?
O diretor poderia ter aproveitado para explicar à
população o que de fato ocorreu com o processo de privatização
do DAMAE, na época justificada “porque o DAMAE estava falido”. Por
outro lado, independente do fato de existirem ou não falcatruas,
pois isto não vem ao caso, não é preciso recorrer
ao “diz-se”: sabe-se que o DAMAE é uma empresa obsoleta, anacrônica,
sem serviço confiável de plantonistas, de tecnologia ultrapassada.
Até hoje, jamais fez qualquer investimento para colocar hidrômetros
na cidade, única forma de cobrar, com justiça, o gasto de
água pelos consumidores. Estes, por esta razão, esbanjam
à vontade. E água é um bem precioso.
Os serviços do DAMAE são tão precários
que em várias residências (na minha inclusive) os moradores
foram obrigados a construir caixas de passagem para não terem suas
residências inundadas pelo refluxo de instalações hidráulicas
que não dão vazão quando o volume das enxurradas aumenta.
Muitas delas têm reservatórios, porque falta água.
Há pouco tempo, denúncias formais foram feitas quanto à
qualidade do tratamento da água na cidade. Em vários locais,
não há bocas-de-lobo: nas chuvas, as ruas transformam-se
em rios. A rua Ribeiro Bastos é exemplo típico: toda a água
do morro do Bonfim encontra a primeira boca-de-lobo na esquina da rua Frei
Estevão. E, no entanto, faz-se calçamento, refaz-se calçamento,
coloca-se asfalto, mas ninguém pensa em construir as galerias e
os escoamentos para elas, que poderiam evitar o problema. Pode não
haver falcatruas, mas seguramente, a administração gerencial
do DAMAE está longe de ser um exemplo a ser seguido, ainda que possa
ter lisura.
Recentemente, o DAMAE inventou juros de 0.5% dia para
contas atrasadas. Teve de recuar, pelo absurdo jurídico da medida
e por causa da grita geral. Outra pergunta sem resposta, ou sem explicação,
é por que o DAMAE, uma autarquia que cobra tarifa dos consumidores,
tem uma dotação orçamentária da Prefeitura,
no valor de 6 milhões de reais anuais, conforme projeto aprovado
pela Câmara Municipal. É a segunda maior dotação
do orçamento! Perguntar não ofende. E sempre há espaço
para respostas. Se possível, sem citações latinas.
E nem precisam ser dadas no “mavioso idioma de Hélade”, que não
sei quem é, na minha ignorância, e nem me interessa saber.
E por falar em perguntas: quantos funcionários tem o DAMAE? Qual
é o percentual de inadimplência? E o que se faz a respeito?
O DAMAE é uma empresa auto-sustentável? Quanto reserva para
investimentos no setor? Faz algum? Em que? O DAMAE é tão
exemplar nos serviços que presta que a pergunta mais ouvida na cidade
é a seguinte: quando é que vem a COPASA? Boa chance para
o diretor geral responder. Ficaríamos sabendo, pelo menos, para
onde vai o nosso dinheiro, nós, os que pagamos em dia o que o DAMAE
nos cobra.
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| Edição nº 250 de 31
de maio de 2003 |
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Divagações IV
Já não me reconheço mais.
Não digo no espelho,
que só reflete o que sou sempre,
lâmina fria das aparências, retrato instantâneo
que não se fixa para o momento seguinte
em que já sou outro, porque se muda a cada instante.
O espelho é só o agora:
não tem noite nem aurora.
Já não me reconheço mais.
Mas não por fora, pois conservo, externamente,
algo próximo da mesma forma,
salvo excessos adiposos aqui e ali,
capilares riscando estranhos arabescos pela pele,
pronunciados sulcos no rosto, pálpebras caídas,
profusão de nódoas que afloram de um dia
para o outro.
Mas ainda é possível dizer, no todo,
que sou eu mesmo, apenas mais flácido, mais instável,
o abdome protruso, brancos os cabelos, cinzas os pentelhos,
e os relevos venosos mais acentuados.
Mas o molde é o mesmo, apenas gasto e do qual
ninguém se livra.
Já não me reconheço mais.
Mas é por dentro, no ver as coisas de outro
modo,
ou de não ver o que parece óbvio,
e pensar com mais vagar, pausadamente,
sem descobrir o fio da meada ou nela se enredar constantemente.
Por dentro. Incapaz de ter qualquer certeza.
Parece que tudo que eu digo é só metade,
e a outra metade se perdeu
ou nunca a encontrei, esta é a verdade.
Foi-se a convicção. É tudo hipótese.
Só possibilidade,
embora eu sinta que reste a chama acesa que ilumina a
vida
e conserva seus sinais. Mesmo sem qualquer objetivo.
Ainda bem. Porque, no resto, já não me
reconheço mais.
Só sei que ainda estou vivo.
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| Edição nº 249 de 24
de maio de 2003 |
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Samba no botequim
Sentaram-se os dois no botequim do Paulinho, em Matosinhos,
ali pelas seis da tarde. Um atendia por Bilico, o outro por Cabeção.
Bilico, não sei porquê. Cabeção era mais óbvio:
o sujeito tinha um crânio dolicocéfalo. Os dois faziam biscate
na Ponte Benedito Valadares. Quer dizer, ficavam ali, no à toa,
a ver se aparecia algum trabalho rentável: da capina a carregar
caminhão. Eu observava de um canto, discretamente, como convém
a quem não é do ambiente nem conhece a região. Ao
que parece, os dois estavam em processo de criação, intercalado
com repetidas doses de um líquido misterioso que chamavam de “da
roça”. Eu estava presenciando o nascimento de um samba. Ao que parecia.
A melodia do samba estava pronta. Um sambinha chato, quadrado, que eles
cantarolavam de vez em quando, igual a mil outros que se ouve por aí.
O problema parecia ser a letra, uma pedra no caminho.
- Ô Bilico, acho que tem que começar assim:
“eu queria ser a alça era desse seu sutian”.
- Não dá, Cabeção. Rima difícil
este tal de sutian.
- Então rima com alça.
- Pode ser, pode ser. Que tal: “eu queria ser a alça
era desse seu sutian, bainha da sua calça....”
- Pera lá. Mas que calça? Calcinha ou calça
mesmo?
- Calcinha, é claro. Pra ser mais erótico.
- Mais o que?
- Erótico, Bilico. Coisa que dá tesão.
- Não sabia. Então vai lá: “eu queria
ser a alça era desse seu sutian, bainha da sua calça....”
Não, não vai dar. Se não falar calcinha, Cabeção,
a galera vai pensar que é calça comprida. E bainha de calça
comprida não é, não é...como é que você
disse?
- Erótico.
- Pois é. Não é. Bainha de calça
comprida tá perto do chão, tá longe das coisa.
- Das coxas?
- Das coisa. Dá a impressão que o cara
tá de rastro por causa da mulher.
- E num tá? Num tá apaixonado?
- Mas num é capacho. É macho, Bilico.
- E você é machista, Cabeção.
E da boca pra fora. Na sua casa quem manda é sua mulher.
- Não começa. Isto é papo furado.
O que interessa é o samba. Calça num dá, não
é...
- Erótico.
- Isto. Não é eróticos, Bilico.
- Erótico.
- Que que há, bicho? Tá fazendo questão
de s? É professor da Funrei?
- Não. Mas não sou analfabeto como você.
Eu estudei no João dos Santos.
- Grandes coisa! Formou porque sua irmã era professora
lá...
- Volta pro samba, Cabeção. O Tilico teve
um trabalhão pra fazer a música. Será que a gente
não consegue fazer uma letra?
- Tô achando o samba fraco. Plágio do Pistilim.
- Mas, pô! A gente nem saiu do primeiro verso da
letra e você já virou músico?
- Ô Bilico, eu vou direto e reto. O primeiro
verso tá pronto. Eu sou rápido. Intuição. É
assim que eu trabalho. Intuição e pinga. Manja: “eu queria
ser a alcinha era desse seu sutian, bainha da sua calcinha que você
vai usar amanhã”. Num tá erótico?
- Erótico. Muito erótico.
Pedi a conta.
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| Edição nº 248 de 17
de maio de 2003 |
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Farmacopéia
Estou me tornando um repositório de produtos químicos,
tal a quantidade de remédios que ando ingerindo. Sinto-me uma espécie
de tubo de ensaio, cadinho que as farmácias de manipulação
usavam antigamente.Ou ainda usam, sei lá, embora já não
se façam remédios como antigamente. Lembro-me de uns pozinhos
que colocavam numas cápsulas brancas que mais pareciam uma miniatura
de disco voador.
Outro dia, um amigo meu, de pura sacanagem, deu-me de
presente um estojo metálico retangular. Pensei que fosse uma caneta
ou coisa parecida. Mas estava vazio. O safado me disse que era um porta-comprimidos!
“Presente pra velho”, ele disse, o descarado. E não é que
o raio do estojo agora faz parte da minha bagagem pessoal? Posso esquecer
a mala, os óculos, até os documentos, mas nunca o tal porta-comprimidos.
Lá dentro, estão uma vintena de bolinhas e quadradinhos de
todas as cores, drágeas de todas as formas, do isordil (que ainda
não usei, felizmente) aos anti-reumáticos, antigripais, tranqüilizantes,
hormônios, vitaminas, relaxantes musculares, digestivos, protetores
hepáticos, controladores de pressão, diuréticos e
antidiarréicos. Sem contar os Engov, que ponho por minha conta,
pois nunca se sabe o que vai acontecer numa estada mais prolongada nos
botequins da cidade...
Tenho saudade dos tempos em que meu estômago só
recebia, vez ou outra, uma Aspirina, um Melhoral, um Sal de Frutas para
combater as ressacas homéricas ou um resfriado renitente. Acrescente-se
também uns Pervitil, a famosa bolinha dos antigos carnavais, ou
das noites que passava em claro para estudar a matéria das provas
do dia seguinte. Mas era só. Agora virei um ser biológico
que parece estar vivo graças a este complexo multi-farmacológico
que me receitam e que aumenta cada vez que entro num consultório,
o que também está cada vez mais freqüente. Sou um dependente
químico, penso.
Diariamente, seis comprimidos. Duas vezes por semana,
aumenta para oito. Toda noite, um relaxante. E, eventualmente, se estiver
muito tenso –dizem os médicos- um relaxante também ao almoço...Tenso?
É claro que estou tenso! Quem não estaria, com a certeza
de que depende destas bolinhas e quadradinhos para respirar, manter o ritmo
cardíaco nos conformes, a pressão nos limites toleráveis,
a excreção urinária regular, a glicemia no ponto,
a defecação razoável, o sono sem sobressaltos, os
músculos com um mínimo de atividade, o sistema neuro-vegetativo
compensado, o sexo legal, ainda que com a ajuda de um Viagra? Viagra que,
se diga logo, ainda não consta da relação do estojo,
mas está na fila de espera. Ora, se está!
E tudo isto não tem muito tempo não. Começou
quando me convenci, por conta própria, de que, realmente, somos
mortais, uma idéia que raramente me tinha passado pela cabeça
até os sessenta anos...Aí, decidi que tinha que fazer um
check-up a cada seis meses. Foi o bastante. Logo descobriram que eu estava
com hipotireoidismo. Vai de hormônio. Depois, que a pressão
era lábil. Vai de controlador de pressão e diurético.
Depois, que eu bebia.Vai de controlador de ácido úrico, de
uréia. Depois, que eu fumava. Ou parava, ou mais comprimidos antivasoconstritores.
Fiquei com os comprimidos. Depois, que eu estava tenso.Vai de tranqüilizante.
Depois, que o colesterol e os triglicérides estavam altos. Mais
comprimidos paliativos. Pois é. Descobri que sou um saco de sintomas,
um aglomerado de irregularidades biológicas que só se salva
carregando um estojo de comprimidos como se ele fosse minha própria
vida. E lá vou eu, bebendo água como um condenado para engolir
tanto produto químico...Um amigo meu, pessimista, já me disse
que “a velhice é um naufrágio”. Pode ser que ele tenha razão.
Mas se for, por enquanto, agarro-me ao meu estojo como se ele fosse minha
bóia salva-vidas. Embora saiba que o estojo, de metal, não
flutua...
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| Edição nº 247 de 10
de maio de 2003 |
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Sexta-feira
Foi numa sexta-feira. Estas coisas só acontecem
sexta-feira. Destas em que a mula-sem-cabeça anda à solta.
Godofredo, o Gogô para os íntimos, estava mal intencionado.
Desempregado, mulher, dois filhos de menor, saiu de casa ali pelas quatro
da tarde, sem rumo, direção ou objetivo, sob os protestos
da mulher: “Olha lá o que vai aprontar Godofredo! Não me
chegue em casa cheirando a bebida!”. Gogô tinha cinco pratas
no bolso, fruto do trabalho de descarregar uma mudança, no Bonfim,
naquela manhã. Entrou no boteco da esquina da Ponte do Rosário
para comprar um cigarro avulso e foi surpreendido por uma recepção
calorosa:
- Gogô! É você mesmo, companheiro!
Dá cá um abraço! Há quanto tempo!
Era o Aníbal, velho amigo de infância, que
se mandara para S.Paulo há uns dez anos e nunca mais dera notícia.
- Aníbal! Engordou, bicho! Tá nos trinques!
- Que língua é esta, Gogô? Coisa
antiga! Senta aí, vamos comemorar, pô!
Gogô olhou o amigo de alto a baixo: camisa de seda,
pisante de cromo, calça de microfibra, pulseira de prata no punho
esquerdo, três anéis nos dedos da mão direita, chapéu
de feltro azulado, de aba curta.
-Cara, tu tá nos moldes! Que que é
isso! Ganhou na Mega Sena?
- Nada, cara, nada. Trabalho da pesada. Sabe cumequié,
S.Paulo tá tudo dominado. Tô nessa. Vim visitar a terra. Vai
beber o que?
- Tô sem grana, Aníbal.
- E quem é que te perguntou isso? Deixa comigo.
Vamos tirar o atraso, pô!
E tiraram. Dali rodaram pela esquina do Kibon. Movimento
fraco. Estiveram no Penna´s. O Gogô reclamou que era lugar
de vascaíno e ele era Flamengo. Acabaram na 31 de Março,
onde a agitação estava começando. E vieram as biritas.
“Nada de cachaça, Gogô. Uísque, que é bebida
de gente”. Gogô não enjeitou. Embarcou no Grant´s.
E as horas se foram. Às três da madrugada,
Gogô nas últimas, Aníbal chamou um táxi, colocou
o amigo dentro e mandou o motorista levar, não sem antes prevenir
que “amanhã tem mais”. Dentro do táxi, Gogô começou
a pensar no que ia dizer à mulher para explicar a farra e a noitada.
Respirou fundo quando entrou em casa e a esposa estava sentada na cadeira
da sala, com cara de poucos amigos.
- Estela – foi logo dizendo, enrolando a língua
– não sabe o que me aconteceu!
- Não, Gogô, não sei mesmo!
Mas estou imaginando...
- Achei uma carteira com mil reais dentro! Não
agüentei! Tive que comemorar!
- Ah! Mil reais! E bebeu os mil reais, Gogô?
- Não, não, minha santa! Só uns
cem...
- E o resto, Gogô? E o resto?
- Bom, já que eu tinha encontrado o dinheiro
e ele não era meu mesmo, doei o resto pro Fome Zero...
- Ô Gogô, você tá me achando
com cara de besta? Hoje mesmo eu cadastrei nossa família pra receber
o bolsa escola e você vem me dizer que doou dinheiro pro Fome Zero?
- Não agüentei o apelo do Lula, mulher!
- Ah! É? Pois pode pegar seus trapos e ir dando
o fora! Cansei. Menos uma boca pra eu sustentar! Fora! Vai puxar o saco
do Lula lá em Brasília! Se manda, salafrário!
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| Edição nº 246 de 3 de
maio de 2003 |
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Perguntas sem respostas
Tem umas coisas que são difíceis de se entender.
Alguns assuntos surgem nas páginas da imprensa, ganham o noticiário
da televisão e, subitamente, desaparecem. Ninguém ouve mais
falar sobre aquilo que um dia foi manchete bombástica e edições
especiais dos plantões televisivos.
Tenho observado atentamente o que diz o presidente Lula.
Sua argumentação é primária, mas está
longe de ser inócua. Pelo contrário, é justamente
porque raciocina como qualquer um de nós, pobres cidadãos
comuns, que o que ele diz procede e tem contundência. Recentemente,
quando criticou a justiça, disse o que qualquer um de nós
pensa e grita nas mesas de botequim. Controle externo do judiciário
pode ser bem mais complexo do que parece, não há dúvida
sobre isto, mas sobram exemplos da morosidade da justiça, da caducidade
da legislação que a regulamenta e até de suspeição
de muitos julgamentos e do envolvimento de juizes com a bandidagem organizada.
Há algumas semanas, num dos seus discursos, o presidente referiu-se
a um problema que sempre me incomodou. Disse o presidente que, volta e
meia, o noticiário espalhafatoso derrama-se nas páginas da
imprensa: “Polícia Federal apreende 500 quilos de cocaína”;
“Apreendidos 300 quilos de maconha no interior de S.Paulo”. “E aí
– Lula pergunta – e depois? O que aconteceu? A polícia apreendeu
o tóxico. Mas e daí? De onde ele veio? Quem vendeu? Quem
transportou? Que percurso fez a mercadoria apreendida? Ninguém sabe.
Eu não consigo entender”. Nem eu. Quem financiou a chegada do tóxico?
Dois dias depois ninguém fala mais sobre o assunto. A investigação,
se é que prosseguiu, desaparece dos noticiários, mais preocupados
com outros escândalos e falcatruas.
Aqui na cidade, também ocorrem fatos estranhos.
Há uns três anos, houve o escândalo da Secretaria de
Saúde. Nunca mais se ouviu falar disto. Até hoje ninguém
sabe, exatamente, o que aconteceu na licitação do transporte
coletivo. Diz-se que houve uma ação judicial impetrada por
uma das firmas. Diz-se. Diz-se não quer dizer coisa alguma. Também
diz-se que a falcatrua campeia à solta no DAMAE. Diz-se. Mas nada
se sabe. Aliás, o DAMAE esteve para ser privatizado. Nunca mais
ninguém falou sobre o assunto. A Prefeitura conseguiu que a Câmara
de Vereadores autorizasse o prefeito a remanejar 100% do orçamento.
É inconstitucional. É contra a lei. Vozes isoladas da Câmara
protestaram. E daí? Nada aconteceu. Nada sabemos.
Vereadores pedem documentos ao executivo, como é
do seu direito e dever. O executivo não atende, escorrega, enrola,
empurra com a barriga. E daí? Nada acontece. Os documentos não
chegam à Câmara e tudo fica do mesmo tamanho. Uma tonelada
de pedrinhas portuguesas foram despejadas no Largo do Carmo para substituir
um passeio que está pronto, acabado e perfeito. Isto não
é prioridade, dizem os sanjoanenses. Mas e daí? Logo o ti-ti-ti
silencia. E nada acontece. Somos a cidade do “Deixa disso!”, “Larga
pra lá”, “Brigar pra que?”, “Política é assim mesmo”,
“E eu com isto?”. Tem coisa que é difícil entender. Quanto
mais explicar.
No fim da semana passada, o caso IPTAN estourou na cidade.
Tem a denúncia. Tem fita gravada. Os denunciantes não são
moleques e irresponsáveis. São gente séria e respeitável.
E daí? Pode dar em pizza. Com sobremesa de marmelada. Como já
aconteceu tantas vezes...
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| Edição nº 245 de 26
de abril de 2003 |
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Aleluia
Na última semana, durante alguns dias, São
João del-Rei pareceu, a exemplo de Cristo, ressuscitar. Nunca
se viu tanto poder concentrado num só lugar: governador, ministro,
deputados, prefeito e até alguns vereadores( sempre os mesmos dois
ou três) perambularam com desenvoltura por locais sanjoanenses. Esta
agitação toda tinha sua razão de ser: o lançamento
do projeto Estrada Real, na bela, didática e esclarecedora explanação
do presidente do Instituto Estrada Real, é um marco, um ponto de
partida, um clarão, secundado pelo anúncio feito pelo governador
do Estado de créditos disponíveis no BDMG para investimento
em turismo em Minas. Resta, agora, esperar pelos passos seguintes da iniciativa
privada, mola propulsora do desenvolvimento turístico.
Mas houve mais. Já no dia seguinte, a UFSJ entregou
à comunidade em geral, e aos empresários em particular, o
Plano Diretor para o desenvolvimento do turismo em São João
del-Rei, peça fundamental que orienta, aconselha, propõe
e mostra os caminhos a serem seguidos pelos que defendem a vocação
turística da cidade. Auspicioso também o fato de que a apresentação
do Plano Diretor consumou-se no novo anfiteatro da UFSJ, no prédio
de sua biblioteca, um espaço cultural que se soma aos muitos outros
que São João del-Rei possui. Aliás, é espantoso
verificar a quantidade de equipamentos culturais que possuímos,
digna de fazer inveja a muitas cidades de porte bem maior do que o nosso.
Mas não passou despercebida a ausência do chefe do Executivo
local no lançamento do Plano Diretor. E sem a parceria, mais do
que isto, sem a cumplicidade do Poder Executivo, o Plano Diretor pode se
transformar em mero instrumento de retórica.
Mas houve mais. No justo momento em que se comemorava
os cinco anos da campanha em prol da reforma e modernização
do Teatro Municipal, iniciada e acompanhada de perto pelo agora vereador
Adenor Simões, a Vale do Rio Doce deu garantias de repasse dos recursos
financeiros que permitirão a conclusão das obras do Teatro
Municipal, através da Lei Rouanet, e, para fazer justiça,
com a interveniência do governador Aécio Neves. Aliás,
é preciso ser muito claro sobre esta questão: o Poder Executivo
Municipal, fora o fato da Prefeitura ser proprietária do Teatro,
não tem nada a ver, eu digo outra vez, nada a ver, com o que já
se fez e ainda se fará no Teatro Municipal. É a um grupo
de sanjoanenses e ao Instituto Histórico e Geográfico de
São João Del-Rei que cabem os méritos da reforma e
modernização do Teatro Municipal.
Mas houve mais: a beleza estética dos carros antigos
na Rotunda e a exposição “Ora et Labora: a arte sacra no
século XXI”, no Centro Cultural da UFSJ, no Solar da Baronesa, com
curadoria de Elizabeth N.C. Zarur. Este foi um momento de emoção
e criatividade, o reconhecimento do talento de artesãos de alto
nível que merecem o respeito e admiração não
só de sanjoanenses e mineiros, mas de todo o País.
Para coroar tantas iniciativas, realizações
e perspectivas, a cidade nunca abrigou fluxo turístico tão
expressivo. Fluxo turístico de qualidade, bem diferente da choldra
que nos visita no Carnaval, desrespeitosa e predadora na sua maioria.
E tudo isto aconteceu paralelamente aos solenes e comoventes
ritos da Semana Santa, tão cheia de fervor religioso, de tradições
seculares, de rituais sagrados que já se incorporaram à cultura
de nossa gente, com ela se confundem, com ela se amalgamam, e com ela persistem
sob a liderança deste Padre Paiva, tocado de santidade.
Terá São João vivido o seu dia de
ressurreição?
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| Edição nº 244 de 19
de abril de 2003 |
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Dúvidas Pascais
Essa foi-me enviada por um amigo, por e-mail.
- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é...bem...é uma festa
religiosa, meu filho.
- Igual Natal?
- Parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento
de Jesus e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua
ressurreição.
- Que que é ressurreição, pai?
- Ô Marta! Vem cá e explica pra este menino
o que que é ressurreição para eu poder ler o meu jornal
sossegado, pô!
- Bom, meu filho, ressurreição é
tornar a viver depois de ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus. Ele
ressuscitou e subiu aos céus, entendeu?
- Hum, hum...Mais ou menos. Mamãe, Jesus era um
coelho?
- Que que é isso, menino? Não me fale uma
besteira dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Ô
Jorge, esse menino precisa ir pro catecismo! Até parece que a gente
não dá uma educação cristã pra ele!
Já pensou se ele solta uma asneira dessa na escola? Deus que me
perdoe! Vai amanhã mesmo pro catecismo, ah! se vai!
- Mamãe, mas Papai do Céu não é
Deus?
- É, filho, Jesus e Deus são a mesma coisa.
Deus se fez homem.
- Cumequié, mãe?
- Você vai estudar isto no catecismo. Amanhã.
É a Trindade, meu filho: Deus é Pai, Filho e Espírito
Santo.
- O Espírito Santo também é Deus
mãe?
- É sim.
- É por isso que a Ilha da Trindade fica perto
do Espírito Santo?
- Não é o estado do Espírito Santo
que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo
de Deus. Eu nem sei direito como é. Mas se você perguntar
no catecismo a professora explica direitinho.
- Ô mãe, mas se Jesus não é
um coelho, quem é que é o coelho da Páscoa?
- E eu sei lá! É uma tradição.
Igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz
ovinhos.
- E coelho bota ovo, mãe?
- Ô Jorge, se vira aqui com esse menino que eu
tenho que fazer o almoço!
- Papai, não era melhor que fosse a galinha da
Páscoa?
- Era, moleque, era sim. Galinha, urubu, tico-tico, sei
lá! Pára com isso, pô!
- Papai, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro?
- Nasceu, nasceu...
- Que dia que ele morreu?
- Isso eu sei: na sexta-feira santa.
- Que dia e de que mês?
- Ora, sei lá! Pra que que você quer saber?
Morreu na sexta-feira santa e ressuscitou três dias depois, na Aleluia!
E pronto!
- Aleluia? E que dia que é a Aleluia?
- Era sábado, ao meio-dia; agora acho que é
domingo, nem sei que horas...
- Ô pai, mas se Jesus ressuscitou na Aleluia, e
foi três dias depois da sua morte, se a Aleluia era sábado
ele morreu na quarta-feira; se é no domingo ele só pode ter
morrido na quinta...
- Ô filho, quer saber de uma coisa? Eu já
estou é com pena da professora de catecismo que você vai encontrar
amanhã... Vai ver Fox Kids na televisão, vai! Me deixa ler
o meu jornal, pô!
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| Edição nº 243 de 12
de abril de 2003 |
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Televisão
Josimar Alcântara dos Anjos. Nome pomposo para cidadão
insignificante. Quer dizer, anônimo. Simples lavrador, no Caquende,
beira de Vitória, analfabeto, 35 anos, seis amasiado, seis filhos.
Mas fora dos famintos do Lula. Dono de pequena propriedade herdada do pai,
roça, galinhas, alguns porcos, hortaliças. Dinheiro pouco,
mas bastante para a sobrevivência. Os filhos, pequenos, no bolsa-escola:
renda extra. A mulher, Zilda, doceira. Fazia um pé-de-moleque de
salivar a boca e disputado pelos bares e botecos de Vitória. Até
de São João Del-Rei. Mas bronco. De origem e percepção.
Mais ainda de linguagem, uma espécie de dialeto pessoal que nenhum
dicionário conseguiria registrar. Nem Aurélios nem Houaiss.
Era um problema entender o que dizia. Em Vitória, era mais fácil.
A longa convivência com o linguajar do Josimar acabou por constituir
um código próprio entre o freguês e o consumidor. No
boteco, era fatal:
- Põe
aí uma coroada de beija-flor, ô seu Antunes.
Estava pedindo uma cachaça de Coroas (Coronel
Xavier Chaves) de um real (a nota de um real tem um beija-flor estampado).
Quase um copo liso.
Para vender o milho que colhia , era um problema.
- São cinqüenta bugalhos de cacheados amarelos,
sem ter buraco na fileira e gordos como traseiro de porco.
Queria dizer que eram cinqüenta sacos de espigas
de milho e que as espigas eram completas e robustas. Um dialeto. Pior era
quando tinha que ir a S. João Del-Rei para uma consulta. Enlouquecia
os médicos.
- Tá
sentindo o que seu Josimar?
- Ih! Doutô! Uma esquentura no estrombo, umas picada
no espinhaço, um formigamento nas ponta, fora umas arrelia no Deus
é dono, sabe cumé qui é, nos põe pra fora,
nos debaixo...
Decifrar o código não era nada fácil.
Quando levava a mulher, era ainda mais complicado:
- A muié ta com quentura nas vergonha, seu doutô.
E por causa desse calor tá me enjeitando nos lençol, adiando
as necessidade.
Josimar. Um excluído social de outra espécie.
E não é que, um dia, a Zilda comprou um bilhete de rifa para
as obras da paróquia e foi sorteada? Ganhou uma televisão
usada, doação de algum salafrário para o vigário
fazer a rifa. Cadê que a televisão funcionava? Falta antena,
diziam os vizinhos, que se aglomeravam na casa do Josimar para ver novela
e o Big Brother Brasil. Josimar comprou uma antena, destas de camelô.
Piorou. A mulher reclamou, não do padre, evidentemente.
- Tem que mandar consertar, Josimar. Tem que consertar.
Josimar conseguiu uma carona para Del-Rei e levou a TV,
um trombolho. Deram-lhe um endereço e ele lá se foi, para
resolver o problema. Vergado ao peso do equipamento, desceu na rua Marechal
Deodoro e adentrou a oficina especializada.
- Meu sinhô, o causo é o seguinte. Queria
que o sinhô desse de dar um trato e arremendar esta buxinga.
- Mas o que que tá havendo com a TV?
- Bem, o sinhô vai entendê: quando ela proseia,
farta sembrante; e quando tem sembrante, num proseia...
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| Edição nº 242 de 5 de
abril de 2003 |
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Variações do Dólar
10:00 h – A bolsa abriu em ligeira alta, com o dólar
cotado a 3,45, devido a rumores de que o ministro da Fazenda ,Antônio
Palloci, teve um leve distúrbio gastro-intestinal pela madrugada.
10:30 h – Reversão de expectativa: o dólar
baixou para 3,40 ante a afirmação do Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID) de que o Brasil tem todas as condições
para crescer este ano mais do que o previsto, isto é, 1,8% e não
1,7%.
11:00 h – Queda do dólar para 3,39.Explicando
a queda de 1%, o diretor de Investimentos e Especulações
Just in Time, o investidor Luiz Campbell Von Lukasen Lorenzo Gottemberg,
mostrou otimismo, já que a bolsa de Singapura e do Tongo estavam
em alta de 0,3%.
11:30 h – Nova queda do dólar para 3,37: uma socialite
doou a coleira de ouro de sua cadela de estimação para o
Fome Zero.
12:00 h – George W. Bush convoca mais 30 mil para a Guerra
do Iraque e admite que o conflito não vai ser um “passeio”, mas
um pique-nique para o qual esqueceram de levar os hamburgers e a coca-cola.
Resultado: dólar vai para 3,52.
12:30 h – O dólar mantém-se estável,
mesmo com o anúncio feito pelo governo de que tomará todas
as providências para dar ao funcionalismo público federal
um aumento que vai variar de 2,5% a 4%. Como a CUT não disse nada
(ainda), a moeda americana não sofreu variações.
13:00 h – Tremor de terra na Índia. O terremoto
atingiu as bolsas de Hong-Kong e Coréia, que caíram 850 pontos
com reflexos na Rodésia e em Bangladesh. O dólar foi para
3,55.
13:30 h – Anuncia-se que Fernandinho Beira-Mar não
vai ficar no Rio nem em S.Paulo. O governador do Piauí também
não o quer por lá.Vão construir um presídio
só pra ele. A Bovespa reagiu favoravelmente e o dólar caiu
para 3,52.
14:00 h – A Globo está pensando em fazer uma nova
edição do Big Brother Brasil só com a turma do grampo
da Bahia, única maneira de encarcerar esta choldra, pelo menos por
um mês. O primeiro convidado vai ser o ACM. A notícia explodiu
na Bolsa como uma bomba, elevando o dólar para 3,58, principalmente
depois das declarações de Jorge Bornhausen: “ACM só
aceita se for finalista”.
14:30 h – O analista político e assessor especial
para assuntos ligados ao crime organizado deu entrevista à Veja
dizendo que gostaria de saber se quando o MST invade nove fazendas, no
mesmo dia, em Pernambuco, se isto não caracteriza crime organizado.
Perdeu o emprego, mas o dólar reagiu com alta: 3,59.
15:00 h – Hora do cafezinho na bolsa., que ninguém
é de ferro. Dólar estável.
15:30 h – Queda brusca da moeda americana: 3,45. Perguntado
sobre o fenômeno inexplicável, o diretor do Banco Central
limitou-se a dizer: “Deus é brasileiro”. Um repórter da Folha,
espantou-se: “Brasileiro?”. Resposta do diretor do Banco Central: “Pelo
menos naturalizado!”.
16:00 h – O PMDB acerta com o governo seu apoio à
base governista afirmando que não quer cargos. Só os salários.
A bolsa não tomou conhecimento do acordo e a moeda ficou estável.
16:30 h – Míssel disparado de um porta-aviões
americano sobre Bagdá desvia de rota e ninguém sabe onde
vai cair, até agora. Está no espaço. Por precaução,
a bolsa resolveu fechar as portas com o dólar cotado a 3,42. O risco
Brasil, segundo o Pentágono, pelo menos no que se refere ao míssel,
é mínimo. Quanto ao resto, não sabe informar porque
não entende de economia. Só de guerra.
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| Edição nº 241 de 29
de março de 2003 |
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Ainda a guerra
Por que a guerra? Esta pergunta só tem sentido se
formulada antes que a explosão da primeira bomba se faça
ouvir. Depois disto, a guerra faz suas próprias leis e as análises
conjeturais sobre as causas ou objetivos do conflito armado, embora necessárias,
porque o homem tem obsessão por compreender a vida, não diminuem
o rastro de sangue que marca o palco dos acontecimentos bélicos.
Tenho profunda admiração pelas dezenas
de pacifistas anônimos que partiram para o Iraque, dispostos a servirem
de escudos humanos nas proximidades de alvos estratégicos. Isto,
entretanto, não impedirá a destruição destes
alvos e deles mesmos. A guerra faz suas próprias leis.
Causa-me emoção ver as multidões
em praças públicas do mundo inteiro portando cartazes e placas
que apelam à paz e à concórdia. Mas isto não
impedirá o avanço, ou recuo, das tropas, nem que os mísseis
levantem rolos de fumaça e cinzas sobre Bagdá, Basra, Nassiriya,
Karbala ou Najaf. A guerra faz suas próprias leis.
Se estes artifícios produzissem algum resultado,
seria fácil evitar as guerras. Quando o conflito armado tem início
é impossível detê-lo ou limitar suas conseqüências.
As guerras terminam com vencedores e vencidos. E mesmo quando um dos lados
decide pela rendição, por força da derrota inexorável,
milhares de inocentes, homens, mulheres e crianças, já encheram
as covas, ou exibem suas mutilações ou as cicatrizes de seus
ferimentos. A guerra faz suas próprias leis.
Como imaginar que, iniciado o conflito, só corra
riscos a tropa armada? A mais sofisticada tecnologia é incapaz de
evitar o desvio de mísseis, a falha humana ou mecânica de
armas que destroem, demolem, arrasam e matam indiscriminadamente. De nada
valem protestos, rezas, apelos, reuniões diplomáticas, conferências
pacifistas. São argumentos de antes. Deflagrado o conflito, a guerra
faz suas próprias leis.
Por esta razão, soam anacrônicas as palavras
do presidente Lula “exigindo o cessar fogo imediato no Iraque”. Fora o
interesse publicitário do pronunciamento, feito para resguardar
sua postura contrária ao conflito, quem ouvirá o apelo ou
dará importância a ele? Afinal, este é também
o presidente que se recusa a ver nas FARC, da Colômbia, uma organização
terrorista e mancomunada com o narcotráfico.
Bush e Blair fazem uma guerra do “morde e sopra”. Primeiro
destroçam, arruínam, matam; depois mandam os comboios humanitários:
compressas para estancar o sangue das feridas, remédios para debelar
doenças e infecções, alimentos para valer aos desabrigados,
órfãos e sobreviventes que perambulam nas cidades destruídas.
São as leis da guerra, por ela engendradas. Daqui para frente é
o caos, com ou sem protestos, com ou sem rezas papais, com ou sem exigências
inócuas para que se interrompa a batalha e volte tudo a ser como
era antes. Antes da guerra. Daqui para frente são as mentiras oficiais,
de um e de outro lado, a propaganda de gestos heróicos registrados
por correspondentes na TV, a imagem de crianças famintas,
dos civis atingidos pelos fragmentos de bombas de uma tonelada. Tudo isto
já era sabido. Antes.
Toda guerra é injusta, suja, calhorda, incontrolável.
Por mais comoventes que sejam as manifestações pela paz,
a destruição e o assassinato estão em marcha, os canhões
vomitam fogo, os tanques esmagam o que estiver pela frente, a metralhadora
cospe a morte, os corpos contam-se às centenas. A guerra faz suas
próprias leis. Por esta razão é que não devem
ser iniciadas.
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| Edição nº 240 de 22
de março de 2003 |
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Guerra
Já não se fazem guerras como antigamente.
Nada de ataques surpresa como o de Pearl Arbor. Nada de invasões
na calada da noite, como a da Polônia, por Hitler, em 39. A guerra
agora é anunciada pela televisão. Como um Átila, o
dos Hunos, Bush prefere a barbárie. Não há ONU que
respeite. Não há manifestação pública
que ouça. Surdo aos apelos de multidões, Bush pensa na reeleição
e no petróleo do Iraque. Não para tomar posse dos poços.
As razões são mais sutis. É que o Iraque, desde 2000,
vende petróleo à União Européia em euros e
não em dólares. O ditador Sadam não tem nada de democrático,
mas não é estúpido. O euro está valendo mais
que o dólar. Por que perder dinheiro comercializando o produto em
dólar? É isto que irrita o estelionatário eleitoral
Bush, o homem que ganhou a eleição no tapetão e não
nas urnas. E isto, no país que se proclama o guardião da
democracia. Por “democracia”, leia-se interesses norte-americanos.
Explica-se a fúria bélica de Bush. Imagine
se todos os países que comercializam com a Europa preferissem fazê-lo
em euro e não em dólar? A hegemonia americana das transações
internacionais cairia por terra. Não é sem razão
que a Inglaterra é a favor da guerra: não aderiu à
moeda européia. Do mesmo modo, França e Alemanha, que são
baluartes do euro, estão contra Bush. A Espanha, que adotou o euro,
é a favor do tresloucado presidente dos Estados Unidos. Não
é preciso pesquisar muito para saber as razões desta atitude:
a Espanha recebeu e tem recebido vultosos recursos financeiros dos
Estados Unidos para combater a ETA, movimento rebelde espanhol.
Ninguém diz claramente, na imprensa, as razões
pelas quais Bush deseja tanto esta guerra. Mas, personalidades competentes
e descompromissadas, estão expondo na Internet e em jornais de segundo
escalão, no mundo inteiro, as verdadeiras razões da guerra.
A economia americana vai mal. Vai mal financeira e moralmente. Empresas
de porte, recentemente, maquilaram dados contábeis, enganaram seus
acionistas. Não existe malandragem e corrupção só
nos países emergentes. Os grandes também se apequenam. A
ganância é o corolário do lucro. A guerra pode reverter
o débâcle econômico americano. Mais absurdo ainda é
pensar que, com o que se vai gastar neste conflito, poderiam resolver-se
problemas cruciais de toda a América Latina.
O pretexto para a guerra é falacioso. Israel já
descumpriu dezenas de resoluções da ONU. E também
tem mísseis de alcance proibido. Contra isto, os Estados Unidos
não fazem nenhuma representação no Conselho de Segurança
da ONU. A guerra contra o Iraque, independente do que Sadam representa,
isto é, nada que mereça respeito, abre um precedente para
intervenção norte-americana onde quer que ela deseje. E com
armas que nem os próprios americanos sabem avaliar o poderio de
destruição.
Qualquer guerra é, em princípio, estúpida.
Mas há guerras e guerras. Como em qualquer crime, sempre é
possível alegar o direito de defesa. E é isto que os Estados
Unidos alegam, embora não digam, exatamente, que direitos de defesa
são estes. O que está em jogo é a supremacia do dólar.
Razões religiosas também têm sido invocadas: o fundamentalismo
bíblico do sul dos Estados Unidos, corrente dos Bush, é dos
mais radicais. A hegemonia européia, particularmente com a adesão
da Rússia, põe em risco a supremacia norte-americana. O Iraque
foi o primeiro país a perceber que, fortalecida a União Européia,
os Estados Unidos entram em curva descendente. Por esta razão, Bush
e seus asseclas precisam destruir o Iraque. Não será a primeira,
nem a última vez, que os Estados Unidos se arvoram o direito de
conduzir os destinos dos povos do planeta para defender o “american way
of life”. Depois desta guerra, a ONU será apenas um dragão
de papel de seda. Um local para diplomatas tomarem cafezinho e fazerem
discursos enfadonhos e inúteis, por mais articulados que sejam.
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| Edição nº 239 de 15
de março de 2003 |
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Fim de festa
O bicampeonato da Escola de Samba Unidos de S. Geraldo não
lhe despertou qualquer emoção. Na comemoração,
viram-no no último grau de embriaguez, estirado numa soleira de
porta, resmungando, ronronando, recusando ajuda, conversa e companhia.
Alguns amigos tentaram uma aproximação enquanto espoucavam
os foguetes e a turba entoava o samba de Luciano e Hélio Alex ,
ao som da cadência rítmica da bateria. O máximo que
conseguiu dizer foi que o deixassem só. A ele, Jamil Januário,
passista, 32 anos, pardo, de físico invejável, elegante,
esguio, os cabelos em tranças caprichadas, olhos vivos, fundidor
de peças numa fábriqueta de estanho da Colônia. Mais
que tudo, apaixonado pelo Carnaval. E pela Unidos de S. Geraldo, à
qual pertencia desde os dez anos de idade. Primeiro, ritmista precoce;
depois, surdo de marcação; e, finalmente, passista de indiscutível
competência, o Jajá, como era conhecido no morro.
Agora, na festa do bicampeonato, estava irreconhecível.
Nenhuma emoção. Emoção ele sentira no desfile
de domingo, quando a mulata de olhos puxados, penteado produzido, brincos
de argola, lhe enviara beijos de ponta de dedos da arquibancada e, nem
ele, nem ela, tiraram mais os olhos um do outro no percurso do cortejo.
Passara a segunda feira rodando a cidade, procurando
a musa, bisbilhotando cada aglomeração humana, cada botequim,
cada centímetro do centro histórico. Subiu ao Bonfim. Esteve
no Tijuco. Foi ao Senhor dos Montes. Arranjou uma carona de moto e foi
para Tiradentes em nova ronda de busca. Nada. Àquela altura, o destino
do S. Geraldo no Carnaval não lhe importava mais. Era aquela visão
que o tomava por inteiro. À noite foi para a concentração
das escolas do Grupo 2, no largo do Carmo, o grupo gangorra: uma sobe este
ano e a outra fica. Mas sobe no ano que vem, por não ter com quem
concorrer, a não ser que surja mais uma outra escola nova, o que
não é nada impossível, já que a verba é
a mesma para todas. Do Carmo, às cotoveladas, Jamil percorreu o
passeio da avenida Tancredo Neves com os olhos fixos na arquibancada. Nada.
Na terça-feira, já estava com cara de pouco
amigos. Pensou em não desfilar. Foi o Sabará quem o convenceu:
-Que que é isto, Jajá? Você é
atração! Não dá pra não desfilar!
-Eu sei, Sabará.
-Tem algum problema? Aconteceu alguma coisa?
-Não, não. Ta tudo legal...
-Pois então? Tem que desfilar, cara!
Foi. Na descida da Artur Bernardes, as pernas travaram.
Foi aos trancos e barrancos. Mas, súbito, na avenida, descobriu
a deusa na arquibancada, de novo mandando beijos. Enlouqueceu. Nunca se
viu o Jajá em tão boa forma. Um espanto. Sambou como um Carlinhos
de Jesus, esplendoroso. Tentou fazer sinais para a mulata, como a dizer
“me espera no final do desfile”. Se ela entendeu, ele não sabia.
Mas tinha esperanças. No final do desfile, como ela não apareceu,
voltou subindo na contra-mão da avenida, certo de ainda alcançá-la
na arquibancada. Nada. Desanimado, comprou uma lata na esquina e estava
no primeiro gole quando chegou um garoto:
-A mulher da arquibancada mandou te entregar este papel.
Pegou. Abriu o papel dobrado. Leu: “Se houve, neste Carnaval,
um momento de felicidade, foi quando te vi, incrível, uma aparição
divina, desfilando na avenida. Se este sentimento é o mesmo que
despertei em você, estou disponível às 8 da noite de
quarta-feira, no largo Tamandaré, perto do Quinto do Ouro. Magali”.
E, logo depois, um “ PS: Sou gay. Espero que não
se incomode com isto. É só um detalhe. O resto é paixão”.
Jamil começou a beber e não parou mais.
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| Edição nº 238 de 8 de
março de 2003 |
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Conselhão
O PT gosta de discutir. E discutir é sempre bom. Surgem
idéias, as controvérsias afloram, apontam-se alternativas
e paira no ar uma atmosfera de democracia, suficiente para justificar a
participação coletiva. É a sociedade organizada sendo
ouvida. As bases, como diriam deputados de qualquer partido. O PT gosta
deste tipo de atuação. Está acostumado a fazer isto
dentro do próprio partido, e com muita razão e eficiência.
Quando alguma facção leva a melhor, o resto é obrigado
a acompanhar a decisão. Pelo menos, era assim. Parece que está
mudando. A rebeldia de Heloísa Helena é prova suficiente:
já não tinha comparecido para votar no presidente do Banco
Central nomeado por Lula; agora, não compareceu também para
votar em Sarney para a presidência do Senado. Pois é, Sarney,
no qual o Planalto, igualzinho ao que acontecia nos tempos de FHC, jogou
todas as suas fichas. Pessoalmente, dei razão a Heloísa Helena.
O dinasta do Maranhão, oligarca e de comprovada incompetência
administrativa quando foi presidente da República (saiu do poder
com uma rejeição popular que beirava os 90%) não me
inspira nenhuma confiança. Mas serviu bem aos interesses eleitorais
do PT e continuará a fazê-lo no comando do Senado Federal.
Para eleger Sarney, Lula e José Dirceu jogaram pesado. O jogo do
poder, às vezes, é truculento.
Pois é. O presidente Lula, seguindo a tradição
petista, armou o cenário para a discussão das reformas previdenciária,
tributária, eleitoral e trabalhista. As duas últimas em segundo
plano; prioritárias as duas primeiras. Criou um Conselhão,
com 82 membros, pomposamente denominado Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social. E foi o bastante para a grita começar dentro do Congresso.
Segundo alguns parlamentares, o fórum adequado para discutir as
reformas é o próprio Congresso. Mal ou bem, verdade seja
dita, os federais representam a sociedade, o povo. Se representam, ou não,
é uma outra história. Legalmente, estão legitimados
pelo voto. O Conselhão de Lula é constituído por indicados
pelo presidente. Os ministros do PT apressaram-se em explicar que o Conselhão
é consultivo, não vai interferir, nem ingerir no Congresso.
É o mesmo que dizer que seus integrantes vão discutir as
reformas, mas nada do que ali for decidido terá força de
resolução. Tudo bem: serão sugestões.
Mas o estranho disto tudo é que, quem se der ao
trabalho de verificar quem são os 82 membros do Conselhão,
vai ter algumas surpresas. Num claro exemplo de descaso para com o federalismo,
dos 82 participantes, 51 são de São Paulo! Quase dois terços!
Do Norte / Nordeste há apenas três membros. Da área
trabalhista, quer dizer, sindicatos, não há nenhum de Minas
Gerais. Embora o setor industrial esteja bem representado, com alguns dos
nomes empresariais mais importantes do País, há certos representantes,
em outras áreas, absolutamente desconhecidos, anônimos. Mas
o que mais espanta é que não há, no Conselhão,
nenhuma entidade que represente os funcionários públicos
ou as Forças Armadas, ou o Poder Judiciário, justamente três
setores que estão no foco das discussões sobre a reforma
da previdência! Quem defenderá as razões destes setores
no Conselhão?
Mas a discussão haverá. Para todos os efeitos,
a sociedade será ouvida. Mas não com tanta democracia quanto
seria desejável.
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| Edição nº 237 de 1 de
março de 2003 |
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Salgueiro
Meu Salgueiro faz 50 anos e, por incrível que pareça,
não me bateu o coração mais forte. Nem por um momento
passou pela minha cabeça a vontade de ir ao Sambódromo e
ver, de perto, a vermelho e branco, “nem pior nem melhor, apenas diferente”,
velha frase criada no início dos anos 60, quando Pamploma e Arlindo
Rodrigues chegaram ao Salgueiro para inaugurar uma nova fase nos desfiles
das escolas de samba do Rio de Janeiro. Não. Não quero ver
o meu Salgueiro nos seus 50 anos. Mais confortável vê-lo na
televisão, embora nunca seja a mesma coisa. Será a idade?
Possível.
Os anos não arrefecem certos entusiasmos selecionados.
Mas esmaecem outros. Nunca perdi, por exemplo, e creio que nunca perderei,
a paixão pelo samba. Levarei para o túmulo a lembrança
das criações melódicas insuperáveis de Cartola,
Candeia, Nelson Sargento, Monarco, Paulinho da Viola, Silas de Oliveira,
Mano Décio, Noel, Ari Barroso, Lupicínio, Lamartini, Braguinha,
Ney Lopes, Guilherme de Brito, Wilson Moreira, Nelson Cavaquinho, Arlindo
Cruz, Martinho da Vila, Sombrinha e tantos e tantos outros. Ainda me conforto
num sofá, apago a luz e escuto as músicas daqueles compositores
com encantamento, esquecido do tempo e do mundo. Mas não vou ver
o meu Salgueiro nos seus 50 anos.
Claro, acompanhei a trajetória da escolha do samba
enredo. Li a sinopse distribuída aos compositores. O samba vencedor,
mesmo não sendo nada excepcional, tocou-me, muito mais porque vieram
à lembrança os enredos campeões do Salgueiro, de “Palmares”
a “Peguei um Ita no Norte”, de “Chica da Silva” ao “Rei de França
na Ilha da Assombração”, de “Bahia de Todos os Deuses” às
“Minas do Rei Salomão”. Mas não fui tocado pelo desejo de
participar da festa do cinqüentenário. Não. Não
vou ver o meu Salgueiro nos seus 50 anos.
Alguma coisa aconteceu dentro de mim. Sinto que são
poucas as coisas que me elevam a temperatura, me arrepiam, retesam músculos
e fazem correr mais rápido o sangue nas veias. Será que é
assim que se envelhece? Possível.
Impossível é descobrir as causas deste
alheiamento. E nem descobri-las desejo. Ele chega manso, dócil,
fortuito e sutil, sem traumas, sem desespero, sem questionamentos. Simplesmente
vem chegando e, quando menos se espera, instala-se e relaxa corpo e mente,
mina a vontade e toda renúncia acontece naturalmente, como esta
que, desde logo, se fixou: não vou ver o meu Salgueiro nos seus
50 anos.
Houve ainda alguns momentos de indecisão, é
preciso confessar. Deram-me uma camiseta do Salgueiro e eu balancei. Mas
por poucos momentos.Vesti-a. Olhei-me no espelho para vê-la em mim,
o belo estandarte criado por Renato Lage estampado na parte frontal. Belíssimo.
Mas foi só um pequeno tremor. Um frêmito. Um alvoroço.
Um surto febril. Um toque de repinique. Logo esfriou-se o ânimo e
a camiseta deixou de ser a minha pele. Voltarei a vesti-la no domingo de
Carnaval, torcendo para que tudo dê certo, como desejo. De torcer
ainda sou capaz.
Mas não vou ver o meu Salgueiro nos seus 50 anos
de Carnaval. Tenho bem mais que isto de idade. Talvez seja este, exatamente,
o problema.
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| Edição nº 236 de 22
de fevereiro de 2003 |
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Gandaia
O prefeito de Ipatinga, Chico Ferramenta, do PT, ganhou o
troféu de cara-de-pau do ano. Desapareceu durante três dias.
Céus e terras foram movidos, o governador reuniu-se com autoridades
policiais, o próprio presidente da República chegou a pensar
numa força-tarefa para investigar o caso, a Polícia Federal
foi acionada, helicópteros rondaram os ares de B. Horizonte. Chico
Ferramenta estava na gandaia, enchendo a cara com mulheres de programa.
Registrou-se com nome falso num hotel da rua da Bahia e saiu “pela aí”,
boteco em boteco, bordel em bordel.
O que me causa espanto não é a volúpia
sexual do prefeito de Ipatinga, nem sua vocação de bebericador.
É sua burrice que causa espécie. Bastava um telefonema para
evitar toda esta confusão. “Estou em serviço. Tenho encontros
importantes com empresários que desejam investir em Ipatinga. Agendei
um encontro com o governador”. Podia ter dado qualquer desculpa, das mais
esfarrapadas, e suas aventuras amorosas / alcoólicas teriam passado
despercebidas. Não fez nada disto. Simplesmente desapareceu do mapa
e colocou o mundo oficial em polvorosa.
O PT pensou logo em seqüestro, assassinato, conspiração
política. O Nilmário, o dos Direitos Humanos, imediatamente
montou um esquema de busca. Aécio Neves, o governador, preocupou-se:
“Mas logo o Chico Ferramenta? Do PT? Desaparecer na capital do Estado?”.
Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente, reuniu assessores, convocou
a Polícia Federal, a Interpol, o Brigada Anti-Sequestro. E o Chico
numa boa, numa ressaca monumental, esticado numa cama de hotel depois de
transas messalínicas e bebedeiras homéricas. Um vexame. Seus
eleitores devem estar envergonhados. Toda Ipatinga deve estar envergonhada.
Com a simplicidade dos tocados pela santidade, Chico
Ferramenta deu suas explicações: era vingança; a esposa
estava pulando a cerca. Pior a emenda do que o soneto. Colocou-se a público
intimidades conjugais que não interessam a ninguém, a não
ser aos próprios envolvidos.
Agora, eu pergunto: vai ficar por isto mesmo? Quanto
dinheiro foi gasto nestes dias para descobrir o paradeiro do farrista,
metido com a patuléia do submundo? Não caberia uma indenização
ao Estado? Pelo menos para pagar o combustível dos helicópteros?
Quanto vale o tempo perdido pelo presidente da República para tratar
dos desatinos de um prefeito irresponsável? E a Câmara de
Vereadores de Ipatinga? Vai silenciar? Não deve existir decoro no
exercício de função pública? Registrar-se em
hotel com nome falso não é falsidade ideológica? Atitude
típica de contraventor, traficante, bandido, marginal?
Não, não vai acontecer nada. O prefeito
vai ter uma discussão com sua mulher, também ela deputada
estadual: a carraspana será doméstica. Depois, tudo volta
ao normal, até que Chico Ferramenta tenha outro surto emocional
e sinta saudades da gandaia oficial. Se acontecer, que pelo menos dê
um telefonema, uma desculpa convincente, registre-se com seu próprio
nome no hotel para que os cofres públicos não tenham que
gastar dinheiro inútil e nem os governantes tenham que perder
seu tempo com a malandragem de homens públicos irresponsáveis.
Mas, enfim, a bebedeira de Chico Ferramenta não é nada perto
do que acontece neste País, em plano municipal, estadual e federal.
A promotoria pública que o diga.
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| Edição nº 235 de 15
de fevereiro de 2003 |
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Concertos sem conserto?
Chega à imprensa a infausta notícia de que
os concertos de música erudita em igrejas de Tiradentes foram suspensos.
Ou seja, suspenderam um projeto que há cinco anos encanta turistas,
comunidade e apreciadores de música de alto nível, executada
por instrumentistas de reconhecida competência.
As primeiras alegações do Padre Ademir
Sebastião Longatti, o pároco de Tiradentes, soaram pouco
convincentes. Afirmava que a suspensão se dera “porque concertos
à luz de velas punham em risco o patrimônio”. Argumento sem
consistência porque nem todos os concertos foram realizados à
luz de velas e, afinal, se este era o problema, não era questão
que um acordo não resolvesse: concertos, só com luz elétrica.
E tudo estaria resolvido.
Mas, aos poucos, a verdadeira razão da suspensão
veio à tona: o problema é grana, dinheiro, o vil metal, o
lucro. Na verdade, o que está em jogo nesta história é
o que o produtor cultural Júlio Varella, um dos mais competentes
e idôneos de Minas, paga à igreja pelos concertos: 15%. Se
Júlio Varella oferecer 25%, voltam os concertos, e talvez até
mesmo à luz de velas. É o que parece.
Ora, o padre Ademir, certamente, não conhece os
mecanismos da produção de um evento cultural. Mas, com certeza,
sabe que não é possível realizar uma Semana Santa
sem recursos financeiros. Os concertos promovidos por Júlio Varella,
com raras exceções, não têm patrocinadores.
São feitos por participação na renda auferida pela
bilheteria. Nisto incluem-se das despesas da produção ( dos
contatos com os artistas à divulgação e preparo do
evento ) aos cachês dos músicos que, por um desprendimento
que só aos idealistas acomete, também recebem por percentual
de bilheteria. O que der, deu, e estamos conversados.
Com ingressos a R$10,00 e sabendo-se que raramente o
número de espectadores chega a 100 (houve concertos com menos de
50), como é possível alegar que é preciso aumentar
o percentual da igreja “porque o produtor cultural está ganhando
muito dinheiro”? O pároco já tentou promover algum destes
concertos? Nenhum teatro em B. Horizonte cobra mais de 10% pela cessão
da pauta do teatro. Aliás, é uma regra em quase todo o País.
O Palácio das Artes, com seus 1.400 lugares, cobra 11%. E um teatro,
por este percentual, oferece toda uma infra-estrutura que as igrejas não
possuem: porteiros, bilheteiros, técnicos, iluminadores, equipamentos
sofisticados de som e de luz. O que se está pagando em Tiradentes,
15%, para realizar os concertos de música nas igrejas, aplaudidos
e elogiados por todos, eventos culturais que movimentam a cidade cultural
e turisticamente, é mais do que razoável.
É até possível sugerir que Júlio
Varella, em eventos patrocinados, que são raríssimos, pague
um percentual maior, de 20%, por exemplo. Mas a maioria dos concertos são
fruto de um trabalho insano de produtor e artistas.
Não quero acreditar que esta suspensão
permaneça. O pároco refletirá melhor e reverterá
esta situação. Entidades culturais de Tiradentes, e sua própria
comunidade, não podem estar de acordo com esta suspensão
que interrompe um projeto vitorioso que só tem feito projetar Tiradentes,
ainda mais, no cenário cultural e turístico de Minas.
Do contrário, por questão de lucro, seremos
obrigados a acompanhar o enterro do projeto “Rosário em Concerto”.
E à luz de velas.
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| Edição nº 234 de 8 de
fevereiro de 2003 |
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Pescaria
Gostava de pescaria, mas nunca foi de pescar.
Só ouvia, deslumbrado, a roda de pescadores
contando caso e façanha, a luta ingente do peixe,
perícia no molinete, o barco rondando a presa,
a presa, arisca, esquivando, homem e animal se enfrentando,
cada qual com sua astúcia, cada um com seu
segredo,
cada um jogando a sorte, os dois se fingindo estranhos
e, no entanto, se amando num desafio de morte
onde o peixe pode ser pego ou o pescador se frustrar.
Gostava de pescaria, mas nunca foi de pescar.
Nunca aceitou um convite pra ser parte da aventura,
juntar-se, participar. Mas de tudo conhecia:
tipos de anzóis e tarrafas, melhores varas e redes,
a correnteza dos rios, a hora certa e propícia
para a melhor pescaria, a variedade de espécies,
as manhas de cada peixe, barcos, motores, detalhes
que nem mesmo os pescadores
jamais ouviram falar.
Gostava de pescaria, mas nunca foi de pescar.
Um dia avisou à roda: “Vou sair para pescar”.
Espanto. A turma da pescaria não podia acreditar.
- Sozinho?
- Se Deus pudesse ir comigo, eu até convidaria.
Mas vou só, sem companhia.
- Volta quando? Ao fim do dia?
- Quem decide pela ida não faz planos no voltar.
Partiu numa tarde escura, cheia de nuvens, sombria.
E dele, a roda de amigos, nunca mais ouviu falar.
Foi encontrado três meses depois de sua partida:
Morto, rígido e frio.
Secou na beira do rio, sentado junto à represa,
com olhos de quem espera,
mas não sabe o que esperar.
E nem havia ao seu lado uma vara de pescar.
Os amigos se lembraram:
gostava de pescaria,
mas nunca foi de pescar.
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| Edição nº 233 de 1 de
fevereiro de 2003 |
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A fome e a torta
A lula de mel persiste. O presidente fez dois belos discursos,
em Porto Alegre e em Devos. Aqui falou da fome dos brasileiros; lá,
falou da fome dos subdesenvolvidos e emergentes. Os paises ricos, entretanto,
bem alimentados, estão pouco se lixando para o estômago alheio.
Mas a lula de mel persiste. Na terça feira a CUT levou o caminhão
de som para a Praça da Liberdade, pagou alguns ônibus para
transportar os ouvintes, e deitou falação: quer aumento para
o funcionalismo estadual, de 54%, porque os deputados federais, que como
todos sabem são donos do próprio salário, engordaram
os bolsos com este percentual, dois dias depois que Aécio Neves
deixou a presidência da Casa. No rastro dos federais, os estaduais
também embolsaram o aumento. É a lei. A cascata. Infelizmente,
e a CUT sabe muito bem disto, a cascata não molha os funcionários
estaduais. A gritaria na Praça da Liberdade é só baderna,
pretexto para tumultuar. E também porque o governador não
é do PT. A CUT não está na Praça dos Três
Poderes exigindo a mesma coisa para os funcionários públicos
federais. Lá é lula de mel: o presidente é do PT,
não há nada a reivindicar.
Bom, não é bem assim. Em Porto Alegre,
petistas da linha “prendo e arrebento” jogaram uma torta na cara do Genuino,
presidente do partido. E olha que o Genuino, que se acostumou a sobreviver
nas selvas do Araguaia, não deve ter nenhuma predileção
por tortas, burguesas ou proletárias...
É o prenúncio de muitas coisas que virão,
quando a lula de mel der sinais de minguante e as tempestades se armarem
no céu político do País. E não por causa de
Lula. Nem por causa do PT. Mas simplesmente porque reformas, sejam quais
forem, envolverão conflito de interesses, embates doutrinários,
perda de receitas e, eventualmente, de previlégios corporativos
que há muito deveriam ter sido extintos. E, no entanto, o mérito
do presidente é trazer à tona velhos problemas que precisam
ser discutidos. E disto Lula não se há de furtar, por promessa
de campanha e por coerência política. Com lua ou sem lua.
De mel ou de fel. Há um momento em que é preciso encarar
os fatos.
Como agora, no Estado. A campanha eleitoral, que por
força de circunstâncias, colocou Itamar numa redoma, protegido
como uma relíquia, acabou. A verdade transparece, clara e límpida:
Minas está em estado falimentar. O que sempre se soube, mas ninguém
disse na campanha eleitoral, agora está comprovado com números,
estatísticas, dados. Foi uma gestão sem qualquer compromisso
com a responsabilidade fiscal, embora sem improbidades e enriquecimento
ilícito. Apenas fruto de visão política equivocada,
à qual não faltou apelos à popularidade, em detrimento
do rigor administrativo.
O primeiro compromisso de Aécio é tirar
o Estado deste saco de gatos, deste embrulho de mangas. Cortar despesas
sem aumentar o custo social. Equilibrar as finanças sem ter que
jogar na rua da amargura milhares de terceirizados. Reparar injustiças
salariais sem onerar os cofres públicos. Quem se habilita para dar
sugestões? Certamente, não a CUT, com sua falação
estadual e silêncio federal. Dir-se-á que a CUT está
cumprindo sua função. E talvez seja isto mesmo. Ela não
é governo aqui em Minas. Só espero que além de usar
os carros de som, não comece a jogar tortas por aí afora,
na cara dos governantes. Para um País que está querendo acabar
com a fome, seria um desperdício...
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| Edição nº 232 de 25
de janeiro de 2003 |
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Papel higiênico
Confesso que tenho uma certa aversão ao consumismo.
Vitrines muito rebuscadas, com centenas de artigos expostos à venda,
com dramáticos apelos aos consumidores, geralmente fazem-me perder
o controle. Fico meio baratinado. Os métodos do comércio,
para vender, não me agradam. Deve ser coisa genética, porque
na minha família nunca se falou em Dia das Mães, Dia dos
Pais, das Avós, Dos Tios, Madrinhas, Namorados, Crianças
e sei mais o que. Pensando bem, creio que estas invenções
comerciais são recentes. Não existiam nos meus 20, 30 anos.
E depois dos 40, a gente não adquire novos hábitos com facilidade.
Nem mesmo o Natal me apetece. Acho uma festa chata, de fúria consumidora,
uma vasta hipocrisia, falsa fraternidade, com milhares de “amigos ocultos”.
Tem coisa mais estúpida do que imaginar que um amigo seja oculto?
Já é difícil que os inimigos o sejam. Amigo? Nunca.
Amigo é o de todas as horas, mesmo na ausência, transparente
como vidro, jamais oculto.
Querem que eu perca a paciência? Levem-me ao supermercado,
destes enormes, como hangar de Boeing. Enlouqueço diante das prateleiras,
dezenas de diferentes marcas de sabonete, massa de tomate, farinhas, macarrão,
sucos, margarinas, dietéticos, sabão em pó, detergentes.
Uma loucura de rótulos, preços e embalagens. Um horror consumista.
E, no entanto, volta e meia, sou obrigado a enfrentar este desespero mercadológico,
as vísceras protestando, a cabeça inquieta, doido para que
o suplício termine e eu chegue logo ao caixa para pagar e cair fora
daquele mundo comercial e insensível.
Mas os fabricantes estão exagerando. Outro dia,
por obrigação, vi-me num supermercado, destes gigantes, diante
do setor de papel higiênico. Uma curiosidade sadomasoquista levou-me
a uma detida observação da variedade da linha de papéis
higiênicos Neve. Fiquei estarrecido. Os apelos do fabricante extrapolam
qualquer limite de frescura. O Neve Ultra vem com alguns opcionais: relevo
de flores, perfume e uma microtextura que, segundo o texto da embalagem,
“proporciona a seus felizes usuários a suavidade de uma pétala
de rosa”. Ora, meus amigos, alguém já limpou o traseiro com
uma pétala de rosa?
Depois tem o Ultra Soft Color (mais caro e metido a besta):
laranja, e vem com extrato de pêssego. Como se o nosso “orifício
retofunicular”, parafraseando o Agamenon, de O Globo, pudesse enxergar
cor e sentir cheiro...
Mas demais mesmo é o Neve Ultra Protection, o
top da linha. Este Rolls Royce dos papeis higiênicos, além
de conter óleo de amêndoas, diz a embalagem que “garante maciez
superior e um cuidado maior com sua pele”. Para isto, pasmem, sua delicada
fórmula vem com Vitamina E!!! Quer dizer, você defeca, se
limpa e sai com o ânus vitaminado! Aqui pra nós: é
frescura demais para o meu gosto...E viva a concorrência e o livre
mercado.
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| Edição nº 231 de 18
de janeiro de 2003 |
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Impostos
Com quase um milhão de arrecadação do
ISSQN em 2002, um recorde, com aumento de 33% sobre 2001, a Prefeitura
Municipal já está em condições de pensar numa
Lei de Incentivo Municipal à Cultura, a exemplo do que já
ocorre em outras cidades mineiras. Ainda que a renúncia fiscal seja
apenas de 2%, quando o normal é de 3%, produtores culturais poderiam
ter à sua disposição, para captação,
vinte mil reais. É pouco, muito pouco, mas poderia alavancar projetos
de menor custo, particularmente para as Bandas de Música.
A arrecadação poderia ser maior, é
claro, se as isenções fossem mais restritas e as alíquotas
mais altas. O novo Código Tributário do Município,
entretanto, aprovado em fins de 2002, reduziu de 5% para 3% o ISSQN, e
nisto acompanhou o percentual em vigor na maioria das cidades. Também
é verdade que isenções existem em todos os municípios,
e elas são justas, para profissões de baixo rendimento ou
entidades sem fins lucrativos ou que prestem relevantes serviços
comunitários. Por outro lado, aumentar impostos é sempre
uma medida impopular, e impopularidade é o que menos querem os políticos
de carreira. Isto não impediu que o poder municipal aumentasse,
com critérios discutíveis, para não dizer desconhecidos,
o IPTU de 2002 de maneira abusiva. Um aumento tão superior aos limites
legais que acabou sendo objeto de negociações individuais
para sua redução, o que apenas comprovou a falta de uma política
administrativa coerente e justa no que se refere aos impostos aplicados.
Embora as isenções do IPTU, quase sempre
demagógicas, tenham diminuído, em função da
Lei de Responsabilidade Fiscal, elas ainda existem em profusão.
E nem sempre beneficiam os mais carentes. Mais estranha ainda é
a afirmação do prefeito quando declara que “as isenções
são ilegais, mas não são imorais; ninguém vai
querer me punir por isso”. O prefeito está equivocado. Toda medida
ilegal é igualmente imoral. Pode ocorrer é o inverso, isto
é, uma medida pode ser legal, embora seja imoral. O País
está repleto de falcatruas, maracutaias e desvios de dinheiro público
acobertadas por dispositivos legais e que são um abismo de imoralidade.
Mas o que é ilegal é também imoral, não há
quem o conteste.
Voltando ao ISSQN, não deixa de ser risível
o fato de que o novo Código Tributário aprovado, certamente
copiado de modelo pré-existente, incluiu em seu artigo 22, número
85, a cobrança do imposto “para serviços portuários”.
Um cochilo imperdoável de quem transcreveu o modelo copiado. A não
ser que alguém tenha imaginado que, tendo S. João Del-Rei
“cais” e “praia”, teria também, forçosamente, serviços
portuários...É só um detalhe, mas mostra o pouco cuidado
com que os órgãos do poder executivo enviam suas mensagens
para a Câmara Municipal.
De qualquer forma, com a expressiva arrecadação
do ISSQN em 2002, abre-se a possibilidade de criação de uma
Lei de Incentivo Municipal à Cultura, que anda à mingua de
recursos.
E pode-se até esperar maior faturamento em 2003,
quando os navios começarem a descarregar seus containers na Ponte
do Porto, ali em Matosinhos...
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| Edição nº 230 de 11
de janeiro de 2003 |
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Estado e cidade
O que se constata, de imediato, no secretariado do novo governador
de Minas, é a extrema preocupação profissional que
presidiu a montagem da equipe encarregada de promover o desenvolvimento
econômico e social do Estado. Nisto Aécio seguiu, estritamente,
o que disse nos palanques durante a campanha eleitoral. Buscando auxiliares
de alto nível, alguns deles com trânsito confortável
em Brasília, outros capazes de articulações até
internacionais, Aécio não se esqueceu de dar espaço
para os partidos da coligação que o levaram ao poder, acertando
em dois objetivos: lealdade e garantia de apoio amplo na Assembléia
para assegurar a indispensável governabilidade. Não há,
na sua equipe, nenhum provincianismo.
A fusão de pastas representa considerável
corte nos custos da máquina administrativa do Estado, mas também
assinala a correção de distorções antigas do
sistema. É também relevante que Aécio tenha se preocupado
em criar órgão específico, uma secretaria extraordinária,
para cuidar especialmente das áreas mais carentes e desprotegidas
de Minas, econômica e socialmente, os Vales do Jequitinhonha e Mucuri,
e o Norte de Minas. Nisto também cumpriu promessa de campanha.
A imprensa registrou, quase sempre favoravelmente, e
às vezes até com certo exagero, as escolhas do novo governador.
Não se trata apenas de um secretariado onde sobram competências:
chama a atenção a dimensão nacional de muitos de seus
auxiliares, o que sinaliza o desejo de Aécio em colocar o Estado
em lugar proeminente nas decisões do governo federal. Não
foi por acaso que a tônica do seu discurso de posse foi a necessidade
de revisão do pacto federativo, desgastado por um centralismo que
deixa a União com 65% dos recursos produzidos no País, cabendo
aos Estados 25% e aos municípios apenas 10%.
Aécio não está sozinho defendendo
um novo pacto federativo. Quando o presidente eleito reafirma sua determinação
em diminuir as desigualdades regionais que jogam na marginalidade milhões
de brasileiros, está, implicitamente, falando a mesma linguagem
do governador de Minas. Diante da magnitude da miséria, não
é sem razão que o presidente tem chorado tanto ultimamente.
Por outro lado, é preciso deixar claro que a eleição
de Aécio Neves não é a redenção de S.
João del-Rei, como muitos pensam e apregoam. Antes de contar com
as benesses do governador, a cidade tem que dar mostras de que está
disposta a fazer a parte que lhe cabe. E esta implica, necessariamente,
numa administração municipal moderna, eficiente e, sobretudo,
transparente, que se mostre aos olhos dos sanjoanenses abertamente. Uma
administração em que o servilismo e os interesses pessoais
cedam lugar ao debate aprofundado das questões prioritárias,
com a independência e a ética que se espera
de representantes do povo. Não é exatamente o que vem acontecendo,
haja visto o que ocorreu recentemente na aprovação
do orçamento do município, quando se autorizou o executivo
a remanejar 100% das dotações rubricadas. Na Prefeitura de
S. Paulo, esta autorização é de 10%.
Aécio não é o salvador de S. João
del-Rei. É o governador de Minas e, como tal, não deixará
de voltar os olhos, como nunca deixou, para a terra que é sua de
coração. Mas nós também precisamos começar
a pensar em fazer a nossa parte para merecer apoio e benefícios
estaduais.
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| Edição nº 229 de 4 de
janeiro de 2003 |
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Oração de Minas
Senhora das Graças, multiplicai-as. Que delas muito
precisamos. Derramai-as sobre estas Gerais de Minas, que de graças
carecem, pois os tempos não têm sido de sol claro, nem de
muito azul os céus, embora o trabalho consuma nossas forças
e o pão tenha chegado à mesa ainda úmido dos suores
de muitos.
Senhora da Boa Viagem, iluminai o caminho à
nossa frente. Que é preciso muito caminhar, seguir avante, posto
que é na travessia que se vislumbra o destino e só com passos
se adianta e se traça o rumo. Abri a trilha por onde passem as esperanças
daqueles que nunca desistiram de sonhar, que as poucas forças, unidas,
são fortaleza que se avoluma, arrastão que impulsiona, vontade
que se constrói e vence o percurso, por mais espinhoso que pareça,
por mais dificultoso que se anuncie. Que a boa viagem seja feita com a
Vossa benção, pois que nascemos em terra abençoada
e com ela nos confundimos, barro que fomos, terra que somos e pó
que seremos. Viagem de vida, que só existe construída a cada
passo da caminhada. Dai-nos boa viagem, Senhora!
Senhora da Fraternidade, abri os nossos corações
para a comunhão social. Para o repartir dos sacrifícios.
Que a cada um caiba um pouco deles, para que todos usufruam do muito que
se possa fazer. Que se repartam as flores, que os espinhos não têm
sido de todos. Que nesta irmandade, povo e governantes, se vistam com o
hábito da humildade, do respeito, da dignidade, da certeza de conduzir
o barco, que é um só, e precisa chegar ao porto em segurança.
Senhora das Dores. Poupai-nos delas, que são muito
mais de sete as espadas que nos feriram e suportamos desde muito. Não
temos tantas ilusões. Dores existirão sempre, por certo.
Mas quando existirem, que a Vossa dor console a nossa, que a torne suportável
e justifique a ressurreição. Que não haja dor que
não se alivie, é o que suplicamos. Que não haja dor
que não finde em alegria, que não se compense com a inexorável
certeza de que valeu o sofrimento.
Senhora do Rosário, devoção de escravos,
dos que pagaram com seu sangue e suor o preço da construção
desta Capitania. Velai, Senhora, para que resgatemos esta dívida
histórica. Iluminai a cada um de nós para que possamos promover
a libertação dos afligidos, a redenção dos
aprisionados no cativeiro da miséria, na marginalidade do trabalho,
no limbo da educação, nas periferias das cidades, nos subterrâneos
da sociedade, no risco das enfermidades, no relento dos direitos humanos.
E, por fim, Senhora de todas as Senhoras, Senhora dos
Males e Benfazejos, Senhora dos Martírios e Calvários, Senhora
dos Infortúnios e Esperanças, Senhora Nossa, Mãe,
antes de ser Senhora, protegei Vossos filhos, iluminai esta terra, abençoai
os que se comprometeram com ela e com seu povo, para que possamos, juntos,
povo, terra e dirigentes, na constante entrega, na solidariedade, na fé,
no sonho, na perseverança, no trabalho, merecer Vossa inspiração
e Vossa ajuda. Senhora das Graças. Sejam nossas Vossas graças.
Assim seja.
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| Edição nº 228 de 21
de dezembro de 2002 |
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Bastidores da Câmara
Mão à palmatória. Quando a Câmara
acerta é preciso registrar o fato, de tão inusitado e surpreendente.
Depois de votarem, em primeira votação, a favor do pagamento
ilegal de bolsas de estudo em instituições privadas de ensino,
quando sobrava vagas na rede pública, alguns vereadores mudaram
o voto e o projeto foi recusado. Aplausos. E não era só a
ilegalidade que agredia o bom senso. A falta de critérios na distribuição
das bolsas também causava espécie. Claro: alunos vão
ser prejudicados, mas o vício era de origem. Eles nunca deveriam
ter sido matriculados nas instituições privadas, com bolsa
paga pela Prefeitura, simplesmente porque não havia amparo legal
para a matrícula. Lei é para ser cumprida.
Mas quanto à votação definitiva,
é irresistível deixar de comentar as declarações
de alguns dos vereadores que continuaram votando a favor do projeto ilegal.
Alegaram que o faziam porque “não votam sobre pressão”. É,
no mínimo, risível. A maioria dos vereadores, nestes dois
últimos anos, votou sob a pressão do executivo, e sempre
a favor dele. Mas quando a pressão é exercida pela sociedade,
no seu legítimo direito de protestar contra a ilegalidade e imoralidade
do projeto, estes vereadores colocam a pele do cordeiro e querem mostrar
suposta e alegada independência. Não convencem a ninguém.
A prova maior da subserviência da maioria dos vereadores
é o que ocorreu nesta última terça-feira, quando a
Câmara aprovou o orçamento para 2003, enviado pelo executivo.
Pelo orçamento, o DAMAE, à beira da falência, uma autarquia
que recolhe aos seus cofres o pagamento das contas de água e esgoto,
vai abocanhar da Prefeitura nada menos que 6 milhões de reais no
ano que vem, a terceira verba do orçamento, perdendo apenas para
obras (8 milhões) e saúde (13 milhões). Turismo, Esporte,
Cultura e Lazer ficam com 837 mil. Mas quanto deste total será consumido
em pessoal e custeio? O que sobra realmente para que se promova a cultura,
o turismo, o esporte e o lazer? A julgar pelo que aconteceu em 2002, nada.
O que há de verdade é que o orçamento
é uma peça de ficção, uma mentira oficial,
como se pode constatar no Capítulo III do Orçamento enviado
à Câmara. Ali o executivo solicita autorização
para abrir créditos adicionais às dotações
até o limite de 100%! E foi isto que os vereadores aprovaram: o
prefeito fica autorizado a fazer do orçamento o que bem quiser,
sem ouvir a quem quer que seja. Em Barbacena, este limite é de 25%.
Na Assembléia Legislativa, o governador tem que se contentar com
15 a 20% de remanejamento. Mas aqui, votando “sem pressão”, com
toda consciência cívica, os vereadores entregam o orçamento
na bandeja para que o prefeito faça dele o que lhe der na telha.
É por isto que as secretarias vivem à mingua, de pires na
mão, negociando cada centavo com a figura toda poderosa do chefe
do executivo, entre bilhetinhos e ordens verbais.
Dos 15 vereadores, somente três votaram contra
( Senhores Adenor, Cristiano e José Raimundo); o presidente, por
lei, não vota, a não ser que haja empate, e o Sr. Mário
Márcio se absteve. Os outros todos, “com absoluta independência”,
e “sem qualquer pressão”, autorizaram o prefeito a virar o orçamento
de cabeça para baixo e só gastar no que ele achar que deve
gastar. Este é o quadro e é assim que se vem administrando
a cidade. E ninguém se importa. Nada de novo. 2003 não será
diferente de 2002: o orçamento é um conto de fadas e a Câmara,
tão ciosa de seus deveres, segundo proclama, não vota sob
pressão. Pois sim.
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| Edição nº 227 de 14
de dezembro de 2002 |
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Taxas
Os cinqüenta e três milhões de eleitores
que votaram em Lula estão esperando mudanças. Acho que os
trinta milhões que votaram em Serra também queriam mudanças.
Pelo andar da carruagem, as mudanças que se anunciam, embora ainda
no governo FHC, mas com o aval e insistência do PT, não
são as esperadas. A alíquota do imposto de renda, por exemplo,
que voltaria a ser de 25% no fim deste ano, continuará a ser de
27,5%. A classe média, se acreditou que ia ter um alívio
com o novo governo, pelo menos no imposto de renda não vai ter.
Modestamente, eu espero mudanças bem menos complicadas
do que as reformas tributária, previdenciária, política
e judiciária. Refiro-me às taxas que são cobradas
dos usuários por instituições bancárias e empresa
de serviços. É espantoso que se pague uma taxa de manutenção
de conta num banco. Qualquer banco. É a inversão da lei do
mercado. Os bancos disputam a tapa os seus clientes. Tudo bem, é
a concorrência, a regra do mercado. Aí você abre uma
conta no banco e o banco passa a cobrar uma taxa porque você tem
uma conta no banco! Quer dizer, a instituição financeira,
que deveria agradecer porque você é cliente dela, cobra a
sua escolha!
Um amigo meu descobriu no seu extrato bancário
uma taxa ainda mais surpreendente. A cobrança foi feita porque ele
tinha emitido cheques demais. Reclamou. Explicação do banco:
“nossa intenção é a de que os clientes usem mais o
cartão e menos cheques”! Ora bolas! Para forçar a “intenção”
do banco, lá vai mais uma taxa para você usar menos cheques...
Outra taxa surpreendente é a que é cobrada,
por alguns bancos, sobre cheque de pequeno valor. Você emite um cheque
de 15,00 e lá vem ela: “taxa por emissão de cheque de valor
mínimo”! E tome tinta!
Não é por acaso que os bancos registram
nos seus balanços lucros astronômicos. Privilegiados pelos
juros altíssimos, ainda cobram taxas por qualquer espirro, além
de reduzirem drasticamente os postos de emprego. Para cada máquina
no saguão do banco, vão para a rua mais alguns bancários.
As taxas parecem, à primeira vista, irrisórias, alguns centavos.
Mas multiplique-se a quantia pelos milhões de contas e chega-se
a uma fortuna. Como os tais juros que o DAMAE inventou aqui em del-Rei.
Na minha conta são só 0,25 por dia. Feitos os cálculos
são 30% ao mês, uma facada.
São estas pequenas mudanças que estou esperando
sem qualquer esperança de que aconteçam. E se elas são
tão difíceis, fico imaginando a discussão parlamentar
sobre a reforma da previdência, que terá de ser feita com
quebra de privilégios corporativistas que dominam, há muito
tempo, a nossa legislação de previdência. A tributária
é ainda mais complexa, tal o emaranhado de interesses conflitantes
que envolvem União, Estados e Municípios, além da
empresa privada. Serão tempos difíceis. Mudanças não
dependem só de vontade política, mas também de uma
série de fatores, entre os quais se incluem a responsabilidade fiscal,
o controle da inflação, a estagnação do setor
produtivo, a carga tributária que sufoca os cidadãos, a carência
de milhões de excluídos. Mudar é preciso. E esperado.
Mas como mudar é que são elas.
Ainda sobre taxas, há mais um exemplo estarrecedor.
Em Belo Horizonte, um amigo mostrou-me sua conta de luz. Era de um apartamento
que ele possuía na Serra e que estava desocupado e colocado à
venda há mais de três meses. Na conta lia-se claramente que
o consumo, obviamente, fora zero. Mas lá estava a taxa, irrecorrível,
ameaçadora e inexorável:”custo de disponibilidade do sistema
elétrico:11,93”! Dá pra entender? Gastou energia? Paga.
Não gastou? Paga uma taxa porque deveria ter gasto, já que
o medidor (que você pagou para instalar) estava lá para medir
o seu consumo...Realmente, é muita mudança que tem que ser
feita.
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| Edição nº 226 de 7 de
dezembro de 2002 |
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ICMS Cultural
Finalmente, alguma notícia animadora. Subiu a pontuação
da cidade avaliada pelo IEPHA, o que significa valores mais altos do ICMS
Cultural repassados pelo Estado ao Município. É preciso,
entretanto, que se entenda bem: os 250 mil reais / ano do ICMS Cultural
de repasse encontram justificativa em ações culturais no
seu sentido mais abrangente. A maior parte destas chamadas ações
culturais deve-se ao trabalho cansativo e meritório do Conselho
Municipal do Patrimônio em tombamentos, cadastramento de bens culturais,
levantamentos de acervos, às obras raras da nossa Biblioteca Baptista
Caetano, à existência de duas orquestras bicentenárias.
Pouco, muito pouco, deve-se à produção cultural, da
qual o Inverno Cultural é a mais relevante e para o qual a Prefeitura
em nada contribuiu. Ou contribui. Até mesmo a reforma do Teatro
Municipal está sendo feita com a omissão e ostensiva ausência
do poder público: trata-se de um projeto incentivado pela Lei Estadual
de apoio à cultura, com o patrocínio da USIMINAS e sob a
responsabilidade do Instituto Histórico e Geográfico de S.
João del-Rei. Foram alguns cidadãos, tocados pela sensibilidade,
que se deram ao trabalho de cometer a aventura. O poder público,
portanto, nada tem a ver com a pontuação que a cidade recebeu
do IEPHA e que colocou nossa cidade em nona posição no Estado,
ainda atrás de Tiradentes e Ouro Preto, entre outras cidades.
É, portanto, ao Conselho Municipal do Patrimônio,
ele mesmo relegado a segundo plano pelas autoridades municipais, que cabem
os elogios e os méritos de ter conseguido este significativo salto
no repasse do ICMS Cultural, de 90 mil, em 2002, para 250 mil em
2003. E podemos avançar mais. Não nos falta potencial e qualificações.
É preciso, entretanto, vigilância permanente: o retrocesso
é ameaça constante.
Mas há mais. A conquista é apenas um primeiro
passo. Na verdade, ela não foi devida a nenhuma ação
concreta do poder executivo na área cultural. Chegamos ao índice
do IEPHA pelo nosso acervo histórico e cultural, pelas iniciativas
da Universidade Federal de S. João del-Rei, pelo entusiasmo e idealismo
de entidades culturais autônomas, e não por investimentos
explícitos em ações culturais relevantes por parte
do poder público.
Não temos nenhuma política cultural. Já
tivemos até mesmo um calendário de eventos, em outros tempos.
Hoje, não temos nada. Troca-se o Secretário de Cultura de
seis em seis meses. E nenhum deles faz coisa alguma, não porque
não queiram, mas simplesmente porque não têm recursos
orçamentários. E sem eles, planejar o quê? Realizar
o quê? Nosso orçamento municipal é peça de ficção
e o secretariado cumpre papel decorativo na estrutura de poder. E nem poderia
ser diferente. Estamos numa cidade em que a Câmara aprova o orçamento
e, em seguida, autoriza o poder executivo a dispor dele a seu bel prazer,
alterando e transferindo dotações de acordo com suas conveniências
e convicções pessoais. Que política administrativa
pode resistir a aberrações como essas?
O ICMS Cultural aumentou. Mas isto não é
suficiente. O poder público deveria ter a grandeza e o bom senso
de assegurar a aplicação destes recursos na área cultural.
E assegurar sob forma de lei municipal, e não “conversando com as
entidades culturais no começo do ano que vem”, como declarou. Não
há nada para conversar. A lei deve ser aprovada pela Câmara
Municipal, de modo que os recursos provenientes do ICMS Cultural sejam
gastos na área cultural, justamente a área que os gerou.
E sob a gestão do Conselho Municipal do Patrimônio (onde a
sociedade civil está representada) e a Secretaria Municipal de Cultura
(que representa o poder público). E estamos conversados. Aí
sim, talvez tivéssemos uma política cultural, um calendário
de eventos, incentivos e prioridades a serem atendidas. Já houve
promessas neste sentido. É hora de transformá-las em realidade
para que não se percam em discursos evasivos e inúteis. Agora
não há como negar: a Prefeitura está com a faca e
o queijo nas mãos.
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| Edição nº 225 de 30
de novembro de 2002 |
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Troca-troca
O esbulho foi cometido com a costumeira conivência
da maioria dos representantes(?) do povo na Câmara Municipal. Mandaram
o Comendador Bastos para as cucuias. Apagaram da memória da cidade
o nome de uma das figuras mais respeitadas da nossa história
ferroviária, agraciado com a Ordem da Rosa por D. Pedro II. Disse
o vereador propositor do esbulho que atendia a pedidos da Santa Casa. Não
sei se é verdade, mas ainda que fosse, deveria era ter ouvido os
reclamos da história que, infelizmente, não tem voz nem faz
lobby. Por esta razão é que ela, freqüentemente, é
varrida para debaixo do tapete como lixo incômodo e poluidor.
Nada contra a homenagem ao Dr. Cid Rangel, merecedor
de honrarias e perpetuação, tanto quanto o Comendador Bastos.
Mas substituir um pelo outro com a alegação leviana de que
o pobre comendador já morreu há muito tempo e ninguém
se lembra dele, não faz justiça a Cid Rangel e abre-se um
precedente que não tem qualquer justificativa. A partir de agora,
estão em risco Balbino da Cunha, Padre José Maria Xavier,
Augusto Viegas, Antônio Rocha, Duque de Caxias, Gabriel Passos, Ribeiro
Bastos, Francisco Neves e o próprio Tiradentes.
Há muitas ruas numeradas em São João
del-Rei que poderiam se prestar a homenagens merecidas e justas. Mas não
se troca nome de rua como se bebe um copo d´água. Por mais
que o novo nome seja, por todos os motivos, merecedor da homenagem, o nome
antigo não pode ser varrido do mapa da memória histórica
da cidade porque “ninguém mais sabe quem foi ele”. E não
estou defendendo esta posição só pelo caso recente.
Foi também lamentável substituir o nome de Rui Barbosa por
Tancredo Neves. E Rui Barbosa já tinha desbancado o de Carneiro
Felipe. Tancredo, tenho certeza, não teria aprovado a substituição,
logo ele que, seguramente, tinha Rui Barbosa em alta estima. Diante do
protesto solitário do vereador Adenor Simões contra a troca
de nomes, o vereador propositor da mudança fez uma emenda pior que
o soneto: comprometeu-se a “salvar” o Comendador Bastos nomeando-o para
alguma outra rua sem nome, das tantas que existem na cidade...
O ponto em questão é outro. É a
troca que causa espécie. É o princípio, não
o mérito, que está em discussão. E vamos indo. É
antiga esta história de trocar nomes de ruas. Por mais que possam
ser alegadas boas intenções, paira no ar a intenção
de fazer média. Não é diferente o que acontece com
os títulos de cidadão honorário, distribuídos
como se dá milho às galinhas. No entanto, o Damae estabelece
juros ilegais de 30% ao mês por atraso no pagamento das contas e
a Câmara silencia. O IPTU é aumentado abusivamente, sem critério
e sem amparo legal e a Câmara silencia. Os animais continuam pastando
nos jardins públicos e a Câmara silencia. O transporte pesado
no centro histórico transita livremente e a Câmara silencia.
A previdência municipal está falida e a Câmara silencia.
Mas para distribuir bolsas de estudo ilegais em instituições
privadas, tendo vagas na rede pública de ensino, a Câmara
está pronta para votar. As poucas vozes distoantes da maioria silenciosa
da Câmara só reforça e reafirma a imagem nebulosa e
pouco lisonjeira que a cidade tem do seu órgão oficial de
representação. E vamos indo. Para onde?
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| Edição nº 224 de 23
de novembro de 2002 |
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Aos Botafoguenses
Devo ser um dos únicos botafoguenses de São
João del-Rei que viu Heleno de Freitas, Perácio e Geninho
com a camisa alvinegra, ao vivo, no campo, fazendo diabruras com a bola.
Isto aconteceu em Itajubá, no começo dos anos 40, quando
Getúlio Vargas foi inaugurar naquela cidade a Fábrica de
Armas. Meu pai servia no Batalhão de Pontoneiros e levou-me ao campo
onde o Botafogo jogou contra um time local que, se não me engano,
chamava-se Uracan ou Yuracan. Pois é. Sou botafoguense desde menino,
como convém aos torcedores dedicados. Do Botafogo de Heleno de Freitas
que, dizia-se, levava um pente no bolso do calção, que desbancou
no time um dos centro-avantes mais famosos do futebol brasileiro, Carvalho
Leite, e fez sombra a Leônidas da Silva. Sou do Botafogo de Tovar,
o médico jogador que nunca recebeu um centavo para jogar. Do Botafogo
de Didi, o homem da folha seca, de Nilton Santos, a enciclopédia
do futebol, de Garrincha, o gênio de pernas tortas. Sou do Botafogo
de 48. Do Botafogo de Paraguaio e de Juvenal.
Por esta razão, não me doeu tanto ver a
estrela solitária iluminar a escuridão da segunda divisão
com o brilho da lanterna que carregou consigo neste Brasileirão.
Porque não sou do Botafogo de Léo Ignácios, Lúcios,
Rodrigões, Brunos, Esquerdinhas e Odivans. O que dói mesmo
é perder tendo méritos para vencer, explodir talento dentro
do campo e sair derrotado por uma fatalidade, um golpe de sorte do adversário,
um erro do árbitro, um dia infeliz do goleiro. Não foi nada
disto que aconteceu. O Botafogo vai para a segunda divisão com a
cabeça baixa, o rabo entre as pernas, algumas lágrimas injustificáveis
e um soluçar tardio e inútil. Vai por incompetência,
porque não tinha condições de ganhar de ninguém.
E assim posto, eclipsa-se a estrela, fenece o fulgor da solitária.
Cabisbaixo, caminha para o inexorável rebaixamento, limbo dos que
se divorciaram de um passado, glórias e tradições
brilhantes.
Assim sendo, botafoguenses, nada de lamúrias,
nada de protestos, nada de desespero. E nada de viradas de mesa, tapetões,
conchavos, armações, embustes jurídicos. Por um tempo,
vivamos de recordar o Botafogo de Zezé Moreira e Patesko. Vivamos
de recordar Heleno de Freitas, no final dos anos 55, internado num manicômio
de Barbacena, olhos perdidos no espaço, sempre carregando uma bola
consigo e dizendo em voz alta “preciso ir ao Rio para dar um jeito no Botafogo”,
como nos conta Carlos Rangel num longo artigo sobre o astro botafoguense
publicado em 69. Vamos para a segundona com estas lembranças, com
a lembrança de um Botafogo cujo símbolo era um Pato Donald
estrilando, hoje mudo e ressabiado como o Patinho Feio das histórias
infantis.
Não se preocupem, botafoguenses. Ressurgiremos
das cinzas, nova Fênix do futebol brasileiro. Mas será, terá
que ser, um ressurgimento pelo mérito, dentro dos gramados, no doloroso
calvário da segunda divisão, pois só assim será
de novo o Botafogo de Didi e Garrincha, de Zagalo e Nilton Santos. O Botafogo
que já me fez derramar lágrimas de dor, mas também
abrir-me em sorrisos e manifestações de pura alegria. A hora
é de luto. Um luto preto e branco. Mas não será para
sempre. Para sempre, não. Heleno de Freitas não deixará.
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| Edição nº 223 de 16
de novembro de 2002 |
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Inevitável
Fazia tempo que eu não me encontrava com o Platão,
filósofo de botequim. Não tenho, ultimamente, perambulado
por bares sempre navegados, razão dos nossos desencontros. Tenho
assentado o traseiro em poucos redutos etílicos da cidade: no Penna´s,
para jogar conversa fora com o Zé Lica, botiquineiro de hora marcada,
ou no bar do Antônio José, por amizade antiga e afinidades
musicais e carnavalescas, ou no Espaço Livre, que abriga os deserdados
freqüentadores às segundas-feiras quando todos os botecos fecham
as portas num pacto abstêmico que nunca pude entender. Não
navego mais pelas periferias, incompetência que devo à idade
e a um certo receio de que a máquina biológica, gasta, comece
a dar sinais de desordens, emperramentos e descontroles. Ao cigarro também
cabe parcela de culpa: veneno volátil que vai minando as forças
para longas caminhadas, particularmente nas ladeiras, embora, felizmente,
estando o grosso da cidade no plano, elas possam ser evitadas. Também
nunca fui de caminhadas. Trafego o mais das vezes em carro confortável,
como é comum a um representante do que chamam de classe dominante,
uma entidade abstrata que, diz-se, tem os seus dias contados. Bem, os meus
estão mesmo. Como, aliás, estão os de todas as classes,
como se sabe, já que democrática mesmo é a morte,
perante a qual, parafraseando a constituição que não
é cumprida, todos são iguais.
Mas dei de cara com o Platão no Bar da Tia Maria,
ali no Tijuco, fora do meu roteiro habitual mas de gratas recordações.
E logo fui pedir a bênção, porque Platão é
de ouvir e calar.
-Veja só: a democracia tem caminhos muitos estranhos.
Há três semanas atrás, o presidente Bush, o pseudo-eleito
presidente dos Estados Unidos, aquele do tapetão, pegou o avião
presidencial e saiu pelo país afora fazendo campanha para o Partido
Republicano ter maioria no Congresso. Saiu pedindo votos, abertamente.
Lá, ninguém falou que ele estava usando a máquina
governamental para fazer campanha eleitoral. Os americanos acharam o fato
absolutamente normal. Aqui, também ninguém da imprensa tocou
no assunto. Imagine se o FHC tivesse feito a mesma coisa para o PSDB. No
mínimo seria deposto e exilado para Bangladesh. Mas na maior democracia
do mundo, é o que eles dizem, o Bush usa o dinheiro público,
com a maior cara de pau, para fazer campanha partidária e nem aqui,
nem lá, alguém reclama. Reclama? Nem se fala nisto. Ou seja,
há democracias e democracias. Depende das regras do jogo.
-Você votou no Lula, Platão?
-A um filósofo não se faz esta pergunta.
Eu só penso. É o único exercício de cidadania
que exerço e reconheço. A ação corre por conta
da humanidade. Sobre o que se faz, penso. Mais nada.
-E você não faz parte da humanidade?
-Como matéria orgânica, claro. Mas estou
além. Sou essência. Pensamento. Sofro as conseqüências,
como qualquer um. Tenho que comer, beber. Principalmente beber. Do contrário,
morro. Não posso fugir das coisas inevitáveis. E há
muitas coisas inevitáveis. Veja você: O Lula nem tomou posse
e duas universidades já se apressaram em conferir-lhe o título
de doutor Honoris Causa, em Pernambuco e na Bahia. Falaram tanto de diploma,
este papel meio inútil, e ele agora já tem dois. E de Honoris
Causa. Escreva aí: breve algum vereador vai propor o título
de cidadão honorário de S.João del-Rei pra ele. Deve
estar só esperando a posse. Inevitável, meu caro, inevitável.
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| Edição nº 222 de 9 de
novembro de 2002 |
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O dia seguinte
Teodoro Xavier da Silva Teles, 37 anos, barba por fazer,
cabeleira basta e embaraçada. Nome difícil e comprido. Passou
a ser o Xaxá para as rodas que freqüentava, ali, no curto roteiro
entre o mercado e bar do Largo do Carmo. Roteiro etílico, diga-se.
E comprove-se, das nove da manhã às nove da noite. O outro
interlocutor, Raimundo de Tal, que o sobrenome ninguém nunca soube,
39 anos, pai de filho e filha, mulher legítima e amante em Matosinhos.
Depois das eleições. No dia seguinte, para ser exato.
- E o Lula, heim Xaxá?
- Um barato.
- Que tal uma curta pra comemorar?
- Curta, não. Dupla.
Virou-se para o dono do bar, o Vitorino, e mandou vir
o veneno. Deste que se vende a 50 centavos a dose e custa 5,00 o garrafão,
às vezes menos.
- Ao sapo barbudo!
- Mais respeito, Xaxá. Ao presidente eleito!
Viraram os copos contorcendo a cara. Era uma dessas pingas
que vão incendiando mucosas pela via abaixo, como rastro de fogo
de queimada. Rastilho que prenuncia explosão logo adiante, na terceira
ou quarta dose.
- E o Lula, heim Xaxá?
- Um barato.
- Que tal outra pra comemorar?
- Outra. Dupla.
Com a segunda inteirou um copo liso. Nada assustador.
Xavier e Raimundo, segundo Vitorino, iam longe. Nas doses. Na vida, difícil
dizer.
- Ô Xaxá, vão começar as mudanças.
- Que mudanças, Raimundo?
- Ora, as mudanças.
- Vai ter mudanças? Quem que está mudando?
Pra onde?
- Mudanças políticas, Xaxá.
- Políticas? O Nivaldo renunciou?
- Não é aqui não, Xaxá. No
Brasil.
- É? Mudanças? Merece uma pra comemorar.
- Merece, merece.
Veio mais um chumbo derretido para comemorar as mudanças.
- Ô Raimundo, me diga uma coisa. Que diabo de mudança
é esta? Quem vai fazer mudança?
- O Lula.
- O sapo barbudo?
- Olha o respeito, Xaxá.
- O presidente?
- É. O presidente.
- E o que que vai mudar, Raimundo?
- Emprego, Xaxá. Vai ter emprego pra todo mundo.
- No duro?
- Pra todo mundo.
- Então eu num escutei o Lula dizer isto, não!
Não votei no Serra porque ele só falava em emprego e segunda-feira.
E você vem me dizer que o Lula vai dar emprego pra todo mundo? Votei
errado, Raimundo. Quem foi que disse que eu tou querendo trabalhar? Olha,
a pinga que eu bebi, anula. Vou tomar outra pra descomemorar. Perdi meu
voto, Raimundo.
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| Edição nº 221 de 1 de
novembro de 2002 |
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Fim de papo
É tempo de fechar o ciclo dos comentários eleitorais
que venho fazendo nas últimas semanas. O país volta à
normalidade, com exceção desta coisa misteriosa que é
o mercado, sempre procurando pretextos para a volatilidade do câmbio.
É preciso saudar, com emoção, o
fato de um retirante nordestino ter chegado à presidência
da República. É preciso saudar, com admiração,
o fato de ter sido eleito um líder operário, de origem socialista,
mas que agora se alia a forças do centro para tentar um pacto social
abrangente, de dimensão nacional. Difícil, mas é a
alternativa que se impõe. Mudanças são imperiosas.
De qualquer modo, desde Alende, no Chile, não
se via um homem de esquerda chegar ao poder, em toda a América Latina,
pela força do voto, democraticamente. Este é um momento histórico
que demonstra a consolidação da nossa democracia.
Obviamente, entretanto, os 62% de votos de Lula não
foram só de petistas. O PT, em si, continua com os seus 30% de votos
partidários. A eleição, em plano nacional, teve caráter
plebiscitário. O governo foi julgado. E reprovado. Embora a “onda
Lula” tivesse ajudado o PT a fazer a maior bancada do Congresso, as eleições
estaduais mostraram que Lula não foi eleito só por petistas.
Pelo contrário: na federação, o PT só elegeu
três governadores, e de estados de pouca influência política
e quase nenhuma significação econômica, como Acre,
Piauí e Mato Grosso do Sul. No plano estadual foi justamente o partido
do governo, o PSDB, que fez mais governadores (7), inclusive os de dois
dos estados mais importantes do país, Minas e São Paulo.
Também merece registro o fato de que o PT não
é dono da verdade: na sua vitrine mais visível, o Rio Grande
do Sul, que governava, foi derrotado, o que prova que “o modo petista de
governar” não é infalível. O PT, como qualquer outro
partido, também se desgasta quando assume o poder. Entretanto, o
fato do PT só ter feito três governadores não é
obstáculo para a governabilidade de Lula. Nenhum governador, com
um mínimo de sensatez, deseja o confronto com quem tem nas mãos
a chave do cofre. Ninguém vai fazer o que Itamar fez, equivocadamente.
Outro fato digno de registro é de que não será rompida
a hegemonia paulista, tão criticada. Os melhores quadros do PT estão
em São Paulo, haja vista os nomes que compõem a comissão
de transição.
As primeiras palavras do presidente eleito foram contra
a fome. É de se esperar que não a combata apenas com o assitencialismo
da distribuição de gêneros alimentícios. Esta
prática, inaugurada por Betinho, pode funcionar de maneira emergencial,
mas ,dificilmente vai resolver o problema. Aliás, Lula já
pega o bonde andando. O próprio governo FHC instituiu programas
na rede de proteção social que tinham o mesmo objetivo. O
que se vai fazer é implementá-los e ampliá-los.
O presidente sabe, e tem repetido isto, que não
pode fazer milagres. Apesar de ter sido eleito numa aura que beira conotações
messiânicas, a realidade concreta é bem outra. Mais do que
nunca, Lula precisará do apoio popular e político da sociedade
brasileira, isto é, dos que votaram nele e dos que votaram contra
ele. Não é a hora dos ressentidos, nem o momento de opor
mais obstáculos. Os que existem já são numerosos.
O país precisa partir para o desenvolvimento sustentado
e é urgente maior atenção para as questões
sociais. Nem uma coisa nem outra poderá ser feita apenas com vontade
política. A solidariedade supra-partidária é fundamental
nesta hora. Queremos, todos, um Brasil melhor. E isto não se há
de fazer sem sacrifícios. Estejamos preparados para fazê-los.
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| Edição nº 220 de 26
de outubro de 2002 |
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Um novo pacto
Tudo indica que amanhã, finalmente, Lula chegará
ao poder com a idéia de um novo pacto social. Pactos sociais são
raros na nossa história política. O último, e talvez
único significativo, foi o que foi tecido com extrema habilidade
por Tancredo Neves para levá-lo à vitória no Colégio
Eleitoral, depois da frustrada tentativa das “diretas já”. Mas Tancredo
era um conservador e, naquela época, os objetivos eram consolidar
a democracia e superar a herança econômica da ditadura. Agora,
Lula tentará um pacto social com tintas progressistas, um acordo
entre diferentes forças sociais com vistas à retomada do
desenvolvimento, geração de empregos e redução
dos custos de produção, criando condições para
o que a analista política Tereza Cruvinel chamou de “capitalismo
petista, uma opção social-democrata ao receituário
neoliberal”. Quando eu disse o mesmo, com outras palavras, numa das minhas
colunas, recebi um e-mail de uma petista indignada, lamentando o meu despreparo
e dizendo que eu estava “falando bobagens”. Respondi, diretamente, que
ela talvez tivesse razão e que eu ia tentar melhorar o meu despreparo...
Qualquer analista político da imprensa do país
tem demonstrado que o PT deslocou-se para o centro e sabe que não
lhe resta outra alternativa senão o da social-democracia. E isto
não desmerece em nada o PT. Num mundo globalizado, o único
modelo econômico, reconhecem os analistas, é o do mercado.
E não se controla o mercado com estatismo, mas com economia aberta
e mecanismos de intervenção do Estado. E isto é social-democracia.
Nas vésperas da eleição, são os próprios
gurus econômicos do PT que dizem que não se baixa os juros
por vontade do governo e que eles não serão baixados se isto
implicar em inflação (O Globo, 23/10). Na social-democracia,
foi onde mais falhou o governo FHC. O que se deve esperar de Lula é
que ele promova o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e responsabilidade
social. E este é o desafio e o objetivo de um novo pacto social.
FHC entrega a Lula um país que avançou
muito em educação, saúde, erradicação
do trabalho infantil e assentamentos da reforma agrária, além
de conquistas importantes da rede de proteção social e a
indiscutível eficiência das iniciativas da Comunidade Solidária
de D. Ruth Cardoso. A estabilidade fiscal está garantida, as contas
em dia, a inflação sob controle, mesmo com as turbulências
deste semestre. Mas, são apenas etapas de um processo e caberá
a Lula avançar mais, particularmente impedindo a insensibilidade
social que dominou os burocratas do Ministério da Fazenda e Planejamento
da era FHC.
É verdade que 97% das crianças estão
na escola. O Fundep, a mais vitoriosa das iniciativas do MEC, eliminou
o vexame de muitos municípios brasileiros que pagavam meio salário-mínimo
às suas professoras e que, hoje, ganham um salário e meio.
É pouco, mas muito melhor que antes. Entretanto, a melhoria da qualidade
do ensino fundamental, médio e profissionalizante está para
ser resolvida. Tarefa para Lula. No ensino superior, os avanços
foram poucos. A maioria dos hospitais universitários, que dependem
de verbas diretas do MEC, estão em condições precárias.
Também foram escassos os investimentos em pesquisa em áreas
estratégicas. Tarefa para Lula.
Por mais que se possa discutir as privatizações,
é impossível negar a melhoria dos serviços, principalmente
na área de comunicações. Mas o perverso modelo que
atrelou as tarifas ao dólar precisará ser revisto. Tarefa
para Lula. A reforma do Estado foi imenso progresso. Mas as reformas política
e tributária terão que ser feitas. Tarefa para Lula.
O PT assume com enorme carga de responsabilidade às
costas. Não pode reclamar de respaldo popular: os números
estão aí. Resta esperar que o Congresso tenha bom senso e,
sem o ressentimento dos derrotados, promova a governabilidade e conquistas,
particularmente sociais, que o governo FHC começou, mas não
com o ímpeto necessário. Este é o verdadeiro pacto
de que o país necessita.
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| Edição nº 219 de 19
de outubro de 2002 |
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Encurtar o passo
O recado das urnas no primeiro turno foi claro e indiscutível.
Os eleitores querem distância de qualquer coisa que se vincule ao
governo FHC. A estabilidade da moeda não é mais um trunfo.
Os acertos governamentais, e não foram poucos, são insuficientes
para fazer frente aos desejos de conquistas que só uma nova alternativa
parece ser capaz de realizar, embora nada possa garantir que se realizem.
Assim se explica a “onda Lula”. Aos votos petistas, somaram-se os dos insatisfeitos
da classe média. Quando as coisas vão bem, ganha o governo.
Se não vão, este é o caso, ganha a oposição.
Nada de temores infundados. Lula não representa
qualquer ameaça. Por um lado, e este é o grande mérito
da era FHC, a democracia está consolidada. As instituições
não correm risco. Por outro lado, Lula deslocou-se para o centro
e tem até apoios da direita. Tem razão Delfim Neto quando
diz que até apoia Lula, não porque ele, Delfim, tenha mudado
de lado, mas porque Lula é que veio para o lado dele...
Vai longe o ano de 1988 quando os deputados do PT, Lula
inclusive, recusaram-se a assinar a nova Constituição alegando,
textualmente, que “o PT, como partido que almeja o socialismo, é,
por natureza, contrário à ordem burguesa, sustentáculo
do capitalismo”. Ninguém se lembra mais desta afirmação.
A ala mais radical do PT começou a perder poder de fogo quando os
moderados, José Dirceu à frente, assumiram o comando do partido
em 96. Naquela ocasião, para o PT, o socialismo passou a ser “uma
herança de valores e não objetivo do partido”. Na eleição
de 98, o Partido dos Trabalhadores ainda recusava alianças que lhe
pareciam suspeitas. A experiência de três derrotas em pleitos
presidenciais acabou com as últimas resistências de uma atitude
purista e isolada que colocava o partido na confortável posição
de vestal e dono de uma possível verdade, mas não lhe rendia
os votos para a conquista do poder. Lula aprendeu. Adoçou o discurso
com o mel de quem promete mudanças, mas sem radicalismos, sem desprezar
o mercado, sem recusar apoios, ainda que estes estejam bem à direita
dos princípios partidários do PT. Lula não ameaça
ninguém porque sabe que sua margem de manobra é muito pequena,
se chegar ao governo. Foi difícil para FHC, que tinha considerável
base parlamentar no Congresso. Seria difícil para Serra, se chegasse
à presidência. E será tarefa mais espinhosa ainda para
Lula. Mas o jogo democrático é este. O vencedor tem que negociar.
O Brasil não é a Cuba de partido único. A situação
internacional é recessiva e grave. Só vontade política
não muda nada. Mas abre debates e confrontos. Assinala perspectivas.
Afinal, quem não quer uma mudança para melhor? O que é
falso é considerar o governo FHC como um bando de safados que só
queriam a infelicidade do povo e a desgraça do país, como
alguns ignorantes e beócios propalam por aí.
Os eleitores de Lula podem ir se acostumando com a idéia
de que só a sua eleição, como a de qualquer outro,
é insuficiente para multiplicar empregos e salários, garantir
segurança e saúde, moradia e terra, alimento e educação,
e sem inflação, este cancro que, pelo menos até agora,
esteve sob controle em limites suportáveis nos últimos oito
anos. Qualquer mudança exigirá penosa e difícil negociação.
Palavras sensatas disse o governador eleito Aécio Neves: “O importante
é o Brasil; é preciso que o PSDB trabalhe pela governabilidade,
ou seja, faça exatamente o que o PT não fez no governo Fernando
Henrique”. Qualquer que seja o presidente, Lula ou Serra, sabem que não
é possível dar passo maior que as pernas. E as de Lula, por
sinal, como as de Serra, não são muito grandes...
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| Edição nº 218 de 11
de outubro de 2002 |
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Ecos da eleição
Comecei minha coluna de véspera de eleições
dizendo que o dia seguinte poderia ser histórico para São
João com a possível vitória de Aécio Neves.
O resultado, entretanto, mostrou que o dia 6 foi, na verdade, um marco
da história sanjoanense. Não foi apenas a consagração
de Aécio com a maior votação da história de
Minas. É que a cidade, depois de mais de vinte anos, elegeu um deputado
estadual e um federal da região, os dois da coligação
PT-PL, tão criticada pelos mais puristas. Ainda é cedo para
explicar, com base lógica, os 64.204 votos de Reginaldo Lopes, embora
possamos incluir como fatores determinantes a dobradinha com Sidinho, a
ausência de qualquer outro candidato a federal da região,
a onda Lula, sua origem em Bom Sucesso (que lhe deu 4.369 votos ), sua
surpreendente votação em B.H. (5.666 votos), além
do apoio financeiro e logístico de numerosos diretórios municipais
do PT. Também não é importante explicar. O que importa
é que São João del-Rei contribuiu com 40% dos seus
votos, o que sela, ao menos por lealdade, os seus compromissos de parlamentar
para com a cidade. Favorecido pela coligação PT-PL, Sidinho
também chegou à Assembléia Legislativa, com 74% de
votos de sanjoanenses. Não interessa a nós, da cidade, em
que partido estão estes vencedores. Fizemos a nossa parte. Votamos
e elegemos, com expressivos percentuais, um governador com raízes
fincadas na cidade, um deputado federal e um estadual identificados conosco.
Temos o direito de esperar que a cidade receba atenção, não
privilegiada, mas condizente com a nossa contribuição.
Mais importante que este fato marcante é a indiscutível
afirmação de novas lideranças políticas na
cidade, que delas carece há bastante tempo. Lideranças inovadoras
e promissoras, que também começam a aparecer na Câmara
Municipal, descontados os serviçais, bajuladores e vassalos de sempre.
Realmente foi um dia histórico. Há razões
para comemorar. 66% dos votos foram dados a candidatos da cidade. O restante
foi pulverizado entre os paraquedistas ( mais de 200 ), dos quais, mais
de 100 receberam entre um e dez votos. Estamos aprendendo. E será
melhor quando vier o voto distrital, para impedir aberrações
como a que aconteceu em São Paulo, com o Prona, que elegeu deputados
de 300 votos.
O certo é que temos representação
confiável. Fizemos nossa parte. É esperar que os eleitos
façam a deles.
Mas há outras razões para comemorar. Em
Minas, sepultou-se politicamente, com toda a pompa, a figura sinistra e
rotunda de Newton Cardoso, com seus ridículos 6,69% de votos, pouco
mais dos obtidos pela inexpressiva Margarida Vieira. Na rebarba, deixou-se
na suplência sua mulher, Maria Lúcia Cardoso. Derrota familiar.
Ao “ ex-trator”, tão suspeito na sua maneira de governar como inexplicável
na sua maneira de acumular fortunas, resta sentar-se na varanda de uma
de suas numerosas fazendas e tentar juntar os pedaços de um PMDB
destroçado, dividido e que o traiu escandalosamente praticando o
velho voto útil em favor de Nilmário. Mas, ao contrário
de Newton, Nilmário não precisa preocupar-se. A conhecida
solidariedade petista não deixará de reconhecer-lhe os méritos
indiscutíveis de integridade e princípios éticos.
No plano nacional, vamos para o segundo turno. Embora
negue, o PT tinha certeza de que o jogo acabaria no primeiro tempo. Vai
ter que jogar o segundo. As conversas no vestiário já começaram.
E é um jogo em que os donos da bola são os eleitores.
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| Edição nº 217 de 5 de
outubro de 2002 |
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Dia de decisão
Amanhã é um dia histórico. Pela Segunda
vez, no espaço de vinte anos, pode ser eleito governador do Estado
alguém que tem raízes afetivas e familiares fincadas em S.João
del-Rei. Tancredo foi eleito em1982. Em 2002 pode ser a vez do seu neto,
Aécio Neves. É fato inusitado. Uma notável coincidência.
Todos os indicativos são da vitória de Aécio no primeiro
turno. Que assim seja. Haverá mais tempo para uma transição
tranqüila.
Das intenções de Aécio não
se pode duvidar. Seu programa de governo é consistente e foi elaborado
com certa margem de segurança. Não fará , se eleito,
nenhum milagre. Nem mágica. Mas na sua trajetória, da convenção
ao dia de amanhã, conseguiu reunir em torno de sua candidatura ponderáveis
forças políticas e sociais do Estado que, se desejáveis
na campanha, serão indispensáveis para que sua gestão
signifique, realmente, um tempo novo para Minas. E não será
uma tarefa fácil. O Estado tem problemas graves para serem resolvidos.
Mas nenhum deles sem solução, se Aécio puder contar
com o apoio de todos os mineiros.
No balanço da campanha, algumas questões
não foram abordadas. Em Minas, por exemplo, ninguém falou
dos salários milionários dos deputados estaduais. De todos,
de todos os partidos, inclusive do moralista PT, sempre tão presto
a se dizer ético e inatacável. No plano federal nenhum candidato
discutiu os problemas da previdência, o mais grave de todos. Também
não se falou de energia elétrica. Ninguém tocou no
tema polêmico da universidade pública paga, nem defendeu-se
sua gratuidade.
Lula está a um passo, ou meio, de se eleger no
primeiro turno. Se ocorrer, e Aécio for eleito, o jovem governador
será o natural interlocutor para ajudar a construir a governabilidade
de Lula. E não sou eu quem o diz. São os principais caciques
políticos do PT que o estão dizendo. Lula caminhou para o
centro nesta eleição, inclusive com alianças que seriam
impensáveis em 98. O tempo ensinou-lhe que não se chega ao
poder com sectarismos, por mais justificadas que sejam as teses da oposição.
Precisará de bons articuladores políticos para governar em
paz. E Aécio será um deles. Tem com Lula um diálogo
aberto e boas relações com o PT na Câmara Federal.
Mas também é possível que venha o segundo turno. As
últimas projeções indicam que Lula teria que ter mais
dois milhões e meio de votos para ser vitorioso no primeiro
turno. É possível, mas pouco provável.
Amanhã é um dia histórico. Principalmente
porque, amanhã, talvez sejam alijados do cenário político
algumas figuras de passado nebuloso e métodos políticos discutíveis.
Embora tenham permanência garantida muitos candidatos que deveriam
ser banidos, pelo voto, da vida pública, alguns outros estão
correndo o risco de não sobreviver, como Collor em Alagoas, Quércia
e Maluf, em S. Paulo. A dinastia dos Sarney, no Maranhão, está
a perigo. E, em Minas, é possível que amanhã mesmo
os eleitores estejam sepultando, politicamente, pelo menos por algum tempo,
a figura sinistra de Newton Cardoso que, segundo o jornalista Marcio Moreira
Alves, foi o único governador de Minas que saiu milionário
do Palácio da Liberdade, desde os tempos do famigerado Cunha Menezes,
o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, em 1788...Aliás,
noticiaram os jornais, que no dia 12 de setembro último, o Sr. Newton
Cardoso comprou mais uma fazenda no valor de um mihão e oitocentos
mil reais.
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| Edição nº 216 de 28
de setemto de 2002 |
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Paraíso anunciado
Se as promessas dos candidatos à presidência
forem cumpridas à risca, o Brasil vai ser a nova edição
do paraíso. E sem o perigo de serpentes enganosas nos estimulando
a comer frutos proibidos. Desemprego, por exemplo, vai ser uma palavra
banida dos dicionários. Todos estão prometendo empregar todo
mundo. Lula fala em dez milhões de empregos; Serra, em oito. Ciro
e Garotinho não apontam cifras: vão ser criados os necessários.
A educação é prioridade dos quatro candidatos: o povo
brasileiro vai ser o mais instruído do mundo. Os excluídos
poderão optar por cursos profissionalizantes, escolas públicas
de qualidade exemplar, capacitação profissional, reciclagens
diversas e até por cursos universitários, inclusive com reserva
de mercado para negros, amarelos, índios e, naturalmente, brancos
pobres, que também são muitos. Professores não farão
mais greves, com o aumento de salário prometido. A criança
vai ter maternal, jardins de infância em profusão, creches
aos borbotões. São uns mágicos estes candidatos.
Segurança, para eles, é questão
de honra. Os policiais corruptos serão banidos ou reeducados. Os
bandidos, postos na cadeia, ainda que todo o investimento seja empregado
na construção de novos presídios. A justiça
será feita. De imediato. Uma reforma repentina reduzirá a
indústria de habeas corpus e recursos judiciais e protelação
de prazos, acelerando as tramitações e impondo mais rigor
nas sentenças e penas.
A julgar pelo que tenho ouvido dos candidatos, o país
será saudável e os doentes, já que também é
impossível prometer que não haverá doentes, terão
todos tratamento imediato, eficiente, completo e barato, senão de
graça.
Impostos serão reduzidos. A classe média,
que se acha tão sacrificada, vai pagar menos imposto de renda, pelo
menos os que o pagam descontado na fonte. Outros, como os profissionais
liberais, com a redução do IR, não terão que
sonegar tanto, como fazem hoje em dia. Os comerciantes também vão
parar com a choradeira da carga tributária, da qual uma boa parte,
na verdade, é paga por nós, os consumidores, já que
é embutida nos preços. As instituições financeiras
estão com os dias contados. Vai acabar esta farra de 45% de lucro
num semestre. Isto, porque os juros vão baixar. Como? Ninguém
explica exatamente como, mas anunciam que o País vai crescer 5%
ao ano. É um milagre, já que em 2002 se chegar a 1.5% podemos
levantar as mãos para os céus.
Pelo visto, vai acabar o MST. Terra para todos. É
o que dizem os candidatos. Terra e crédito, já que uma não
vale nada sem o outro. Terra tem, é inegável. Crédito
é que são elas. Mas este é um detalhe sobre o qual
nenhum candidato se pronuncia com exatidão.
O paraíso se desenha na TV. Mas ninguém
fala se já combinou tudo isto com o resto do mundo, com o G8, com
o G7, com o capital externo, do qual dependemos até a raiz dos cabelos,
e cuja ganância não tem limites. Tudo que é prometido
depende de recursos financeiros que não temos. Basta ver o minguado
orçamento para 2003.
Mudanças virão, com qualquer candidato.
Mas ninguém espere o paraíso. A classe média, por
exemplo, que tanto reclama, vai continuar a ser saco de pancada, porque
justamente é a classe que detém mais privilégios.
A classe média ainda não percebeu que só é
média porque tem crédito, cheque especial e cartão
de crédito. Tirem-lhe estes instrumentos e passa a ser proletária.
Como classe média é classe dominante. E em qualquer mudança
é sobre ela que cairá o ônus, não sobre os excluídos,
que são o resto, e para os quais, obviamente, se deve governar.
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| Edição nº 215 de 21
de setemto de 2002 |
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Palanque eletrônico
A fase hippie de “Lulinha paz e amor” extrapolou. Recentemente
deu para elogiar até mesmo os governos militares da “revolução”.
Especificamente, afirmou que aqueles governos “pensaram o Brasil, tinham
um propósito”. Lula referia-se, evidentemente, ao fato de que, na
ditadura militar, houve crescimento econômico, o chamado “milagre
brasileiro”. Ateve-se, portanto, a um período da ditadura, a década
de 70, porque o que lhe interessava, eleitoralmente, era dizer, com todas
as letras, que o Brasil cresceu sob o comando dos generais e agora, com
FHC, não cresceu ou cresceu muito pouco, embora a agricultura tenha
registrado no primeiro semestre deste ano um crescimento de 8%. Mas Lula
prefere omitir este dado para registrar apenas que a indústria caiu
1,7%. Agora que vê perspectiva de vitória com a linha moderada
e até gentil que adotou, Lula esqueceu a repressão, atos
institucionais, perda de direitos humanos, tortura, cassações,
censura prévia e autoritarismo que caracterizaram aqueles 20 anos
de arbítrio. Sutilmente, também está aplainando arestas
para abrir canais de diálogo com as Forças Armadas. Lula
é gato escaldado. Está em campanha eleitoral há doze
anos. Um recorde. O Brigadeiro Eduardo Gomes, na vetusta UDN, tentou duas
vezes. Lula está na quarta.
O mais interessante é que, cada vez mais, o discurso
de Lula é social democrata. Ainda outro dia disse, textualmente,
que o Estado não pode ser pai, tem que ser parceiro. É bem
o oposto do PT estatizante de antes da campanha eleitoral. Contrário
a tudo que se viu o PT defender desde 94, agora Lula diz respeitar os contratos,
quer a estabilidade da moeda e até aprovou o acordo com o FMI. Bem
diferente daquele PT que achincalhou o Plano Real e fez soar trombetas
estridentes preconizando o seu fracasso. Ou estou enganado?
A julgar pelo discurso atual do mais novo adepto do lema
dos hippies de 60, alguém menos avisado poderia pensar que o Lula
é do PSDB. O que prega é pura democracia social, a mesma
que a aliança com o PFL não permitiu que fosse realizada
satisfatoriamente no governo FHC. O PT que Lula mostra na TV não
é, definitivamente, o PT que conhecemos. Ou conhecíamos.
Mas, para um candidato, sempre é possível, se vitorioso,
mostrar depois de eleito a sua verdadeira cara. O velho PT pode ressurgir
com a faixa presidencial.
Não é por outra razão que Serra
passou a mostrar, com a rara competência de seus marqueteiros, que
o Lula da TV não é o PT, é alguém disposto
a chegar ao poder, ainda que para isto tenha que abraçar Sarney,
unir-se a um partido indiscutivelmente neoliberal, como o PL, e aceitar
o apoio informal de Quércia, de duvidosa biografia. Serra não
tem outro caminho. Já que as propostas de Lula são tão
social democratas quantas as suas próprias, Serra tem que mostrar
que é mais preparado para colocá-las em prática do
que Lula. É a nova fase do embate eletrônico. Se der resultado,
as próximas pesquisas vão mostrar que o segundo turno será
inevitável. E aí – quem sabe? – Lula talvez tenha que mostrar
sua verdadeira cara. A cara do PT estatizante, a do Estado pai, a do PT
que nunca acreditou no real e que já pregou o calote internacional.
A não ser que realmente o PT tenha mudado para Partido da Social
Democracia dos Trabalhadores.
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| Edição nº 214 de 14
de setemto de 2002 |
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Opções e alternativas
Há estranhos dilemas eleitorais. A cidade já
teve, em tempos imemoriais, dois representantes na Assembléia Legislativa.
Ninguém se lembra mais disto. Depois, tivemos aqui e ali representantes
no órgão legislativo do Estado que, por inexplicáveis
razões, ou nebulosamente explicáveis, não se reelegeram.
Foi assim com Nelson Lombardi, Mauro Moraes e Antônio Fuzatto. Decorrido
um bom espaço de tempo, Nivaldo chegou lá, ascendendo da
suplência a titular. Durou pouco. Preferiu a disputa municipal, foi
eleito prefeito, perdemos nossa representação na Assembléia.
Foram mais de 30 mil votos que a região jogou fora na última
eleição proporcional. Naquela eleição, a última,
Nivaldo foi favorecido, entre outros fatores, pelo fato de que era, praticamente,
o único candidato com alguma identificação mais próxima
da cidade.
Agora temos vários candidatos, três a quatro,
para deputado estadual. No federal, viramos terra de ninguém. Ou
de todos. São inúmeros os paraquedistas que sempre estiveram
pipocando por aqui às vésperas de eleições
mas que, rigorosamente, não se sabe de nada que tenham feito pela
cidade. Seguramente, alguns deles beneficiaram cidadãos sanjoanenses.
É possível que alguns tenham, ao longo do tempo, distribuído
cestas básicas, contribuído com alguma associação
filantrópica ou pago alguma conta de luz, de farmácia, de
água, sacos de cimento, tijolos ou carroças de areia. É
possível. Fora os beneficiados, ninguém ficou sabendo deste
clientelismo antigo, mas persistente. É compreensível que
os que foram aquinhoados com estes favores tenham, digamos, um certo compromisso
com os candidatos-doadores, se existiram. A lei do toma lá dá
cá vem dos tempos de Matusalém. Uma mão lava a outra,
é o que se diz. Pedir voto consciente destes beneficiados é
pura perda de tempo, jogar conversa fora. Não há nada pior
e mais doloroso do que tentar convencer pessoas que já definiram,
seja por quais razões, o seu voto, a mudar de opinião. Aprendi
que é inútil, com certos eleitores, tentar discutir, com
seriedade, as razões para se votar em um candidato e não
em outro. Na política, há ódios genéticos.
Intransigências patológicas e histéricas. E também
convicções partidárias que beiram ao fanatismo. É
preciso saber conviver com estas variáveis numa democracia.
Mas é certo que há toda uma legião
de eleitores que estão diante de várias opções
de candidatos “da casa”. Pode ser que a divisão acabe por não
eleger nenhum deles. Mas, também, pode ocorrer que algum seja eleito,
quem sabe? De qualquer modo, caberia aos eleitores a decisão de
escolha e aí, é preciso comparar os currículos, verificar
que trabalho cada um tem feito junto à comunidade, associações
de bairro, entidades filantrópicas e assistenciais, que participação
tem tido em defesa dos interesses da cidade e, sobretudo, qual deles terá,
se eleito, mais condições de carrear benefícios para
S. João del-Rei. São reflexões que ajudam na escolha.
O que seria lamentável é o eleitor destinar
seu voto ao forasteiro, àquele que, tendo mais recursos, é
capaz de colocar mais galhardetes, cartazes e out-doors pela cidade, mas
cuja presença só se faz sentir nestes momentos eleitorais,
permanecendo omisso e distante depois das eleições, quando
mais precisamos de sua intervenção, assistência e parceria.
Por difícil que seja a escolha, é em candidatos
locais que devemos pensar, gente que nos conhece e que conhecemos e nos
quais podemos confiar. Voto consciente. É tudo o que se deseja,
embora esteja tão em desuso.
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| Edição nº 213 de 6 de
setemto de 2002 |
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Números duvidosos
Ninguém pode dizer que o País é um mar
de rosas. Porque não é mesmo. Neste semestre, a economia
está em baixa e houve perda de poder aquisitivo. Não se pode
tapar o sol com a peneira. Além de inútil, seria faltar com
a verdade do desemprego, dos gastos astronômicos com a dívida
externa, dos juros altos, dos problemas com o câmbio, das desigualdades
regionais. Mas é igualmente falso distorcer os indicadores como
alguns candidatos à Presidência vêm fazendo. Falar de
desemprego sem relacionar o problema à população existente
é enganoso. Tenho ouvido candidatos referindo-se aos 11 milhões
de desempregados no País. Onze milhões assusta. Mas nenhum
candidato, atento aos dados oficiais, diz que a taxa de desemprego em 2001
foi de 6,2%. O desejável, segundo as fontes confiáveis da
ONU é de 4 a 5%. Não estamos, portanto, à beira de
nenhum abismo sem fundo. Para se ter uma idéia do que representa
6,2%, na União Européia a taxa foi de 8,4%; na Argentina,
14,3%; na Espanha, 12,8%; a média na América Latina foi de
9,6%. Mas os candidatos continuam falando em 11 milhões para serem
mais convincentes. Aumentar a oferta de empregos é crucial, inclusive
para alavancar o consumo e, conseqüentemente, o desenvolvimento agro-industrial.
Mas as propostas, justas, não devem estar escudadas em dados que
não correspondem à realidade dos indicadores que estão
à disposição de qualquer cidadão em vários
saites de informática.
É o mesmo quando se fala em fome. Aí, os
exageros extrapolam qualquer nível de racionalidade. Fala-se, convictamente,
em 30 milhões de famintos, como se o Brasil fosse uma nova Somália
ou uma Biafra. Pode-se admitir um percentual elevado incluso na faixa de
subnutrição, mas “passar fome”é outra coisa. Os candidatos
não fazem diferença: são trinta milhões que
não têm o que comer, é o que afirmam. Lula fala em
43 milhões, uma deslavada distorção. Para prová-lo,
mostra no seu programa eleitoral um casebre no meio de um deserto no Vale
do Jequitinhonha. Com toda a certeza foi preciso contratar um guia
para que a equipe de filmagem descobrisse aquele local. Mas Lula não
é o único que conhece o Jequitinhonha. Ali há pobreza,
sem dúvida. Mas a população do Jequitinhonha não
é a massa faminta que as imagens sugerem.
A dose repete-se com o salário mínimo.
Houve um tempo recente em que uma cesta básica representava 70%
do salário mínimo. Hoje representa 50%. Mas esta relação,
salário mínimo/cesta básica, nunca é mencionada
pelos que preconizam aumentos delirantes, impossíveis de serem contemplados
numa proposta orçamentária realista, como fazem Ciro e Garotinho.
É claro que também se justifica a insatisfação
generalizada quando o governo anuncia um aumento do salário mínimo
que não chega a compensar a inflação prevista para
2002, em torno de 7%. Mas prometer salários paradisíacos
sem lastro de recursos é propaganda enganosa.
O eleitor consciente não é um consumidor
de sabão em pó que vai na onda da publicidade que promete
um branco cada vez mais branco. É preciso medir bem as promessas
feitas por candidatos e as possibilidades de que venham a ser cumpridas.
Pode-se jogar com números e estatísticas. Mas as variáveis
devem ser levadas em consideração e tornadas claras, para
que o simples enunciado de dados não seja tomado como verdade absoluta.
Um pouco mais de cuidado e atenção com o que é dito
na propaganda eleitoral de qualquer candidato não faz mal a ninguém.
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| Edição nº 212 de 31
de agosto de 2002 |
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Mania de futebol
Não adiantava. Todo o seu raciocínio girava
sobre futebol. Tinha a coleção do Placar e da Gazeta Esportiva,
uma raridade. Sabia tudo da seleção brasileira, desde 1938.
Era capaz de dizer a escalação do Avaí e do Tremembé,
com os reservas. Sabia até o celular do Zico e do Ronaldinho. Depois
da segunda dose da “da roça”, se o assunto não fosse futebol
era inútil estabelecer qualquer contato com Raimundo Chaves, 62,
três filhas, viúvo, bombardino da Banda Municipal, bombeiro
nas horas vagas, que eram todas, desde que se aposentou como funcionário
público estadual, zelador que era do grupo escolar de Coroas. Retifico:
Coronel Xavier Chaves, que já fui recriminado por trocar o nome
atual pelo nome antigo, com veladas ameaças de protesto formal junto
à Gazeta.
Pelo sobrenome, advinha-se, era natural daquela cidade,
onde o sobrenome Chaves remonta às antigas sesmarias do século
XVIII, talvez antes, do tempo da corrida do ouro, nunca se sabe ou saberá,
e mesmo talvez de antes de antes, quando nem a capitania existia e o ouro
nem pensava em ser protagonista de tanta história.
E a roda, noite avançada, falava de política.
Raimundo nem se ligava. Alguém discutia a sucessão no Estado:
-Até que é um bom sujeito. Calmo, tranquilo.
Destes PT laite. Mas não emplaca. O Nilmário não emplaca.
-Romário – corrigiu Raimundo, que já estava
na sexta dose – Não é Nilmário. É Romário.
Como não emplaca? O homem só faz gol de placa! Arrebentou
no Vasco. Tá arrasando no Fluminense! Placa é com ele mesmo,
o baixinho perseguido pelo Filipão.
-Estou falando do Nilmário, Raimundo. Candidato
ao governo.
-Governo? Que governo? Romário é Rei, sô!
Monarca! Ele manda, governa, desgoverna. Talento, cara, talento!
-Ô Raimundo, nós não estamos falando
de futebol! É sobre política. Eleição. Candidatos
ao governo do Estado. Aécio, Newton...
-Nilton Santos! Do Botafogo! Maior zagueiro de todos
os tempos! Lateral também, se quiser. Que que tem o Nilton? Adoeceu?
-Não é Nilton Santos, Raimundo! É
Newton Cardoso!
-Cardoso? Nilton Cardoso? Deve ser reserva. Titular não
é. Nem do XV de Piracicaba, onde também tem um Nilton
mas é Nilton Picolé. Este Nilton Cardoso deve jogar na segunda
divisão. Ou terceira. Tem um Nilton Cardoso que jogava no Vila Nova
em 87. Mas nunca foi escalado.
-Raimundo, pelo amor de Deus! Estamos falando de candidatos
ao governo de Minas! Aécio...
-Elcio, meu caro. Elcio! Grande ponta direita do Taubaté!
Goleador! Não é Aécio, não. É Elcio.
Quando ele pegava a bola e saía fazendo fila na defesa adversária
a galera gritava “Aí Elcio”! De tanto a galera gritar aí
Elcio, aí Elcio, aí Elcio, tem gente que pensa que o nome
dele é Aécio. Mas não é não. É
Elcio. Do Taubaté. Tenho foto dele lá em casa.
-Ô Raimundo, você quer me escutar? Só
um minuto? Não se trata de futebol! É política, tá
entendendo? Candidatos ao governo! Política!
-Política? Coisa de eleição?
-É, Raimundo, coisa de eleição!
-Na CBF? Ricardo Teixeira? Esculhambação!
Na Federação Mineira é pior!
-Não, Raimundo! Entenda! Estamos falando dos caras
que vão dirigir o estado de Minas Gerais!
-Agora percebi. Estádio de Minas Gerais! É
coisa da ADEMG! Que que tá havendo por lá? Vão querer
demolir o Mineirão? É isso? O Galo num vai deixar. Nem a
Raposa. Tudo boato. É por isso que eu não gosto de papo de
botequim! Só tem gente mal informada. Precisa ler jornal, cara,
ver a TV! Dá um tempo, pô! É preciso ser mais informado!
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| Edição nº 211 de 24
de agosto de 2002 |
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Solucionática
O título vem de uma frase de Dadá Maravilha:
“não me venha com a problemática que eu já tenho a
solucionática”. É o caso do Brasil. Como todos já
perceberam, o problema do Brasil tem solução. E não
é, como se pensa, solução que emana de acadêmicos,
doutores em economia, magistrados do saber, políticos de alto coturno
( alguém ainda se lembra desta expressão? ). Nada disto.
É o freqüentador mais humilde da mais humilde roda de botequim
que a conhece e proclama. Fácil como água de fonte. Simples
como dois e dois são quatro. Transparente como vidro.
A solução para os problemas do país
é aumentar a oferta de empregos, dar segurança ao cidadão,
acabar com a dependência do capital estrangeiro, pagar salários
dignos, promover o acesso à moradia e à terra, proteger idosos
e crianças, baixar o custo dos medicamentos, escola para todos,
saúde para todos, varrer a corrupção, agilizar a Justiça,
manter a soberania, controlar a inflação, manter a estabilidade
da moeda, reduzir os juros, diminuir os impostos, segurar o dólar
em níveis adequados, ampliar as oportunidades, suprimir as desigualdades
sociais e econômicas, exportar mais, desonerar os empresários,
dar dignidade aos aposentados com salário compatível, aprimorar
a democracia, criar um mercado interno, distribuir a riqueza, prover a
alimentação da população a baixo custo, proteger
a natureza e o meio ambiente, respeitar as tradições, cultuar
a memória, preservar o patromônio, estimular as manifestações
culturais e o turismo, investir no saneamento básico e tratamento
adequado da água em todos os municípios, estimular a tecnologia,
erradicar as endemias, manter reservas cambiais, aumentar a poupança
interna, defender a liberdade de credo, considerar mulheres e homens com
direitos iguais, difundir o hábito da leitura, implantar o pré-escolar
para todas as crianças, aprimorar o ensino público, erradicar
o analfabetismo, proteger as fronteiras, combater o tráfico de drogas
e armas, cuidar dos deficientes, condenar os culpados, impedir fugas de
deliquentes, construir mais penitenciárias fora dos grandes centros,
democratizar o acesso à cultura, manter as cidades limpas, implementar
a pesquisa, criar hospitais regionais bem aparelhados, dar destino conveniente
ao lixo, reciclá-lo, ser justo na tributação do imposto
de renda, amparar a maternidade, criar creches para as mães trabalhadoras
poderem cumprir os horários de seus empregos sem preocupações,
reduzir a tramitação dos processos judiciários, impor
a fidelidade partidária para os políticos, com perda de mandato
para os dissidentes ou que resolverem mudar de partido, construir estradas,
conservar as existentes, prover a geração de energia elétrica
para evitar apagões e promover a instalação de novas
indústrias, não inflacionar as tarifas públicas, construir
represas sem liqüidar com os peixes, a flora e a fauna, disseminar
indústrias, aparelhar os pequenos produtores rurais com equipamentos
e tecnologia, aumentar os rebanhos e as safras, apoiar as cooperativas,
facilitar o crédito agrícola, construir metrôs nos
grandes centros metropolitanos, ordenar o trânsito, ser auto-suficiente
em petróleo, proteger as reservas minerais, combater as madeireiras
clandestinas no Amazonas, irrigar as terras assoladas pela seca no Norte
e Nordeste, punir o racismo, criar condições de competitividade
para as empresas, reaparelhar as Forças Armadas, modernizar a frota
mercante, só assinar acordos internacionais que favoreçam
o Brasil, impedir o êxodo rural, desenvolver os pequenos municípios,
moralizar a CBF e, sobretudo, promover o lazer e a vadiagem porque nem
só de trabalho vive o homem.
Não é simples? Resta é saber que
candidato vai fazer tudo isto. E com que meios. Mas uma coisa é
certa: “Não me venha com a problemática que eu já
sei a solucionática”.
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| Edição nº 210 de 17
de agosto de 2002 |
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Campanhas
Estou para as eleições como estive para a
Copa do Mundo. Vendo tudo. Lendo tudo, cada entrevista, cada aparição
de
candidatos, todo detalhe das campanhas. Estou obtendo algumas informações,
às vezes. Mas quase sempre estou mesmo é me divertindo, tais
as incoerências, as frases truncadas, as promessas fantasiosas, a
desinformação, a distorção de dados e números
e as muitas inverdades anunciadas com a convicção dos fanáticos
e dos beatos.
Garotinho, por exemplo, com a ingenuidade daqueles dos
quais assumiu o nome, promete um salário de 280,00 a partir de maio
de 2003. No ano seguinte, 400 reais. Perto do que ouvi ser proposto por
um candidato do PCO a governador do estado no debate da Bandeirantes, no
domingo passado, Garotinho prometeu pouco. Para o candidato do PCO, o salário
mínimo deveria ser de 1.500 reais! Como não se divertir com
propostas desta natureza? Falando sério: será que alguém
acha mesmo que qualquer governante, se pudesse, não aumentaria o
salário mínimo de maneira substancial?
Na Fiemg, Newton Cardoso disse que há 40 mil condenados
à solta em Minas Gerais e que vai mandar trancafiá-los todos
no primeiro dia de seu governo. Como o candidato afirmou no mesmo pronunciamento
que só há quatro mil vagas nas penitenciárias de Minas,
ficou difícil entender onde serão presos os 40 mil que ele
vai mandar prender “no primeiro dia de seu mandato”. Alguém da platéia
levantou a questão. Newton não titubeou: vai começar
a fazer celas, dia e noite, “a partir do primeiro dia de seu governo”.
Ou seja, será preciso fazer as celas na mesma proporção
em que as prisões forem efetuadas. E haja obra...
Serra e Ciro perderam um bom tempo de seu debate discutindo
os 100 dólares que o Ciro promete pagar de salário
mínimo logo que assumir a presidência. Com certeza, pensa
em ter uma maioria esmagadora no Congresso, já que isto depende
de aprovação parlamentar. Mas ainda assim, como o câmbio
anda flutuando como folha ao vento, o salário mínimo vai
mudar todo dia. Vai ser até difícil registrar na carteira
do empregado o quanto ele vai receber no fim do mês. O que Ciro não
disse é que votou em Maluf, contra Tancredo, em 85. Também
não disse que, quando assumiu o Ministério da Fazenda, o
real já tinha sido implantado e estava em circulação.
Nada teve a ver com sua atuação naquela pasta. Mas, tudo
é diversão. Inclusive, ver o Lula ser apoiado por um partido
sabidamente de direita, como o PL, e ainda aceitar a companhia de Quércia.
Também é divertido ver as dificuldades do Serra para explicar
“continuismo sem continuidade”, dificuldades só comparáveis
às que teve para dar uns passos de samba na quadra da Mangueira,
ao som da bateria da Verde e Rosa.
No entanto, FHC, falando para os estagiários da
Escola Superior de Guerra, mostrou de maneira clara e didática,
a origem da dívida interna do país, tão criticada
pelos opositores. Serra poderia ter aprendido com o presidente. Mais da
metade da dívida interna é constituída de dívidas
de estados e municípios, assumidos pela União (275 bilhões),
acrescidos dos chamados “esqueletos” (mais de 100 bilhões), dívidas
que sempre existiram e não foram reconhecidas e que, agora, fazem
parte do bolo para tornar transparente as contas públicas.
Aliás, a manipulação de dados é
o que mais se vê nas entrevistas e debates entre candidatos. Todos
criticam os erros, porque é mais fácil expô-los do
que reconhecer avanços e conquistas. Nem tudo vai bem, é
certo, mas nem tudo é só mal, como alguns candidatos fazem
crer. Ninguém diz, por exemplo, que o país gasta 30 bilhões
anuais em programas sociais, uma quantia considerável, até
mesmo para países desenvolvidos. Pode-se sempre argumentar que ainda
é pouco, mas é preciso dizer também que 30 bilhões
é tudo que o governo arrecada de imposto de renda por ano.
Ouvi de um candidato ao governo de Minas que, em matéria
de segurança, o que é preciso fazer é privatizar as
penitenciárias! Como não se divertir? Newton Cardoso afirmou
que vai criar uma taxa judicial para financiar a construção
de cadeias. Segundo ele, este novo imposto seria incluído nos custos
do processo e assim, “não pesaria no bolso de ninguém”. Como
não pesaria? Pois alguém não terá que pagá-lo?
Diversão, muita diversão.
Talvez seja exatamente por estas razões que seja
tão fascinante a campanha eleitoral. Se não esclarece muita
coisa, se não ajuda muito na hora de votar, pelo menos é
uma alternativa para os programas humorísticos da TV, que andam
repetitivos, sem imaginação e de baixo nível. E agora,
a partir do dia 20, é que vai haver mesmo diversão pra valer.
Será preciso ver nas entrelinhas, ouvir o subtexto e tirar todo
o proveito possível da avalanche de futilidades que vem por aí.
Alguma coisa se há de salvar para orientar melhor os eleitores.
Espera-se.
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| Edição nº 209 de 10
de agosto de 2002 |
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Chato absoluto
Ali, na João da Mata. Tem placa na porta, humilde
placa, um tanto desbotada. Parece até que tem vergonha do que anuncia:
Bar do Léo. Mas o Léo não tem nada a ver com os tira-gostos
da Zely e com a atenção de Antônio José, o proprietário,
dividida entre servir bebida e conversar sobre o Vasco, Carnaval e S. João
del-Rei.
Pois foi ali, que dei de cara com o Platão, o
filósofo de botequim, sempre um papo inusitado e atraente, cercado
por uma roda de botiquineiros como o Pedrão, o Binho, o Luiz Carlos,
o Marcinho. Platão, cerveja no copo e boa pinga no copinho ao lado,
pontificava:
-O chato de botequim é um produto imperecível.
Tem data de fabricação mas não tem data de validade.
Dura exatamente o tamanho de sua chatice, o que, em alguns casos, é
a vida inteira.
-Em que casos, Platão? – perguntou um da roda.
-Nos casos de chato absoluto. É um tipo pouco
comum, mas surge de quando em quando. O chato absoluto é o cara
que quando chega na porta do botequim a turma que está lá
dentro pede a conta imediatamente. Como não é possível
trazer a conta de todos ao mesmo tempo, ele acaba conseguindo sentar com
os remanescentes à espera.
-Mas a identificação é assim, tão
imediata, Platão?
-Instantânea. O botiquineiro é, geralmente,
um cara educado. Os mais experientes percebem o chato absoluto pelo faro.
Mas há os inexperientes, que acabam dando guarida ao “espanta-boteco”.
É uma terrível experiência.
-Como assim?
-Se o tira-gosto já está na mesa, a primeira
pergunta que ele faz é a seguinte: “Lingüiça? Vocês
sabem a procedência desta lingüiça?”. Se alguém
diz que sabe, que vem de um fabricante conhecido, ele ataca em seguida:
“Estou falando do porco; qual a ração que os porcos comem,
hein? Como é o chiqueiro? Alguém sabe se os porcos são
vacinados?”. E logo acrescenta: “Carne de porco contaminada pode causar
cisticercose”. E antes que alguém possa dizer qualquer coisa, arremata:
“O culpado é o governo; não trata nem das pessoas, quanto
mais dos porcos. E o dólar vai subindo”.
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| Edição nº 208 de 3 de
agosto de 2002 |
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Vices
A chapa é uma só: presidente e vice. Mas a
campanha é presidencial. Tudo se concentra em Lula, Ciro, Serra
e Garotinho. O que dizem e o que fazem estão nas páginas
dos jornais, nas telas da TV. Farpas, ironias, duplo sentido, promessas,
planos mirabolantes, respostas evasivas, críticas ao governo, acender
de esperanças, tudo que os presidenciáveis pronunciam tem
espaço garantido na imprensa, no rádio, no telejornalismo.
E o vice? Figura decorativa. Em alguns momentos, como
papagaio de pirata, lá está ele ao lado do candidato, meio
espremido no meio de seguranças, de candidatos a deputado, dos promotores
do evento, dos que querem aparecer a qualquer custo. Patricia Pilar é
mais vista que o candidato a vice de Ciro, às vezes mais fotografada
do que o próprio candidato seu marido. Nas aparições
de Serra, ainda é possível descobrir, vez em quando, a figura
louríssima de Rita Camata concordando com um gesto de cabeça
com tudo que o Serra vai falando. José de Alencar é uma múmia,
uma esfinge que, aqui e acolá, ocupa o cantinho da tela, meio corpo
se tanto, meio rosto, enquanto o centro do vídeo é tomado
integralmente pela barba exuberante, e agora bem aparada, de Lula. O vice
de Garotinho ninguém vê. Nem sabemos exatamente quem é.
O vice, parece, é um apêndice político:
existe, mas não faria falta, a julgar pelo que se vê na campanha
eleitoral. Um ornamento da chapa. Igual ao papel de embrulho que envolve
um presente: descartável.
Mas outro dia, no Penna’s, depois de muito tempo, encontrei
meu velho amigo Platão, o filósofo de botequim, que andava
meio sumido da praça. Estava com uns probleminhas, segundo me disse:
- Estou acometido por uma doença milenar: a velhice.
E não tem cura, meu caro. A sintomatologia é estranha: estou
ficando cada vez mais impaciente, mais chato, mais irritado. O sinal mais
evidente da doença é uma exacerbada intolerância contra
a burrice generalizada.
O mesmo velho Platão, sempre desconcertante. E
foi ele que me alertou para a gravidade da situação.
- O vice existe. Está na chapa. É um corpo
estranho na campanha mas é eleito com o vencedor. Com todas as prerrogativas
constitucionais. E ninguém se dá conta disto. Mas deveria.
Ninguém sabe o dia de amanhã. Vai que o Lula ganha esta disputa
e empacota de repente, hein? Pois é. Aí assume o dono da
Coteminas, um empresário bem sucedido que chegou ao senado por puro
acaso. Pense nisto. Assume o Zezé Alencar, com aquela cara de peão
boiadeiro que não inspira a menor confiança como estadista.
Se o Serra vence e tem um enfarto, porque nem ex-ministro da saúde
está livre disto, lá vem a loura Rita Camata. Tudo bem. É
uma deputada que merece um certo respeito. Mas alguém votaria nela
para presidente, se ela fosse a candidata? Se o Garotinho, com muita reza
e cânticos de salmos, fosse eleito e esticasse as canelas, assumiria
um cara do qual não sabemos nem o nome! Mas isto não é
o pior. E se o Ciro ganha e bate as botas? Aí assume o Paulinho,
um líder sindical sem nenhuma experiência administrativa,
a não ser na promoção de greves dos metalúrgicos!
Já pensou nisto? Sem nenhuma representação política,
com um conhecimento limitado à linha de montagem de um automóvel!
Trágico, muito trágico. É isto aí, meu amigo.
Ninguém pensa no vice na hora de votar. Não quero ser agourento.
Desejo a todos os candidatos a presidente vida longa. Mas a morte é
possível. Possível, não. É certa. Ninguém
sabe é a hora. Mas tudo bem. Devo estar exagerando. Deve ser mais
um sintoma desta minha doença milenar...
-O dólar, Platão?
É só a dica para o chato absoluto começar
a discorrer sobre economia. E vai em frente: “Até o mês de
outubro estaremos pior que a Argentina. É por isso que não
vai ter Carnaval em 2003 em São João del-Rei”...
-Mas Carnaval, Platão?
O chato absoluto é assim, mistura tudo. E logo
prossegue: “São João del-Rei vai acabar; não dura
mais que cinco anos. No momento é bairro de Tiradentes. Mas em pouco
tempo vai ser só periferia de Tiradentes”.
-Mas isto é um absurdo, Platão!
O chato absoluto é absurdo. É contra tudo.
Outro dia dei o azar de encontrar um deles num boteco do Tijuco. O sujeito
adentrou o bar, aboletou-se numa cadeira, na minha mesa, e atacou: “Você
sabe qual é o maior problema de São João?”. Eu disse
que não sabia, só pra ver onde ele queria chegar. Ele arrematou
com toda segurança: “É a Funrei”. A Funrei? – perguntei.
E ele:
-É. A Funrei. Vai acabar com a cidade. Está
formando uma porção de gente que não vai arranjar
emprego! Ou seja, a Funrei está mesmo é aumentando o número
de desempregados no país! Tem mais é que fechar!
Disse o Platão que, depois dessa, pediu a conta.
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| Edição nº 207 de 27
de julho de 2002 |
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Invasores
Os paraquedistas políticos já pousaram em galhardetes
nos postes da cidade. Os que nunca fizeram nada pela cidade e jamais puseram
os pés aqui estão chegando com a mala preta, comprando cabos
eleitorais improvisados para distribuir santinhos, colocar faixas, pintar
muros e, eventualmente, pagar algumas contas de farmácia, da Cemig,
sacos de cimento, carroças de areia, cestas básicas. Alguns
estão associando-se a candidatos locais: os de fora entram com a
erva e os daqui com o trabalho braçal.
Os paraquedistas estão chegando com sua cara-de-pau,
seu despudor, sua caretice. Chegam com o velho discurso de sempre. Ninguém
os viu por aqui nos últimos quatro anos. Agora começam a
aparecer. São visões, o sorriso largo enchendo o rosto estampado
em cartazes, em panfletos, em filipetas que trazem seus dados biográficos
e suas realizações das quais, nenhuma, na cidade. Estão
chegando para buscar os votos que não merecem, pois nunca fizeram
por merecê-los.
E há os que os defendem. Os que, de alguma forma,
são seus intermediários, seus porta-vozes, seus apadrinhados.
Chegam sorrateiramente. Ou acintosamente, recebidos até por autoridades,
e sob os pretextos mais descabidos e ingênuos, respaldados por pequenos
favores prestados aqui e acolá, na última hora.
E há quem os acolha. E há quem os desculpe.
E há os que para eles trabalham arrancando, a duras penas, algumas
centenas de votos que vão fazer falta para eleger candidatos de
berço, os da cidade, os que estão aqui o tempo todo, mal
ou bem, tentando contribuir. E não é só. Na eleição
de 98, Nivaldo era, praticamente, o único candidato que tinha alguma
relação com a cidade. O outro era Baldonedo. Agora, pelo
que se sabe, temos quatro ou cinco candidatos na mesma situação,
o que já divide votos e dificulta a vitória de qualquer deles.
Não bastasse este complicador, os paraquedistas estão chegando
com seu sorriso amarelo e suas surradas promessas. E são votados,
não pelas promessas que fazem, nas quais ninguém acredita
mais, mas pelos pequenos favores que distribuem, de hoje até o dia
da eleição, inclusive pelo que pagam para pseudo-militantes
improvisados. Em tempos de vacas magras, uns trocados no bolso fazem muita
diferença.
Esta avalanche de candidatos invasores, que está
apenas começando, é problema antigo que os parlamentares,
de uma maneira geral, se recusam a discutir. A raiz da questão está
na adoção de novas normas nas eleições para
deputados, como o voto distrital, misto ou puro. Mas ninguém quer
aprofundar a discussão sobre o assunto. O voto distrital restringiria
a área de atuação e presença eleitoral dos
candidatos e é justamente isto que não lhes interessa. A
capilaridade da campanha acaba por ocasionar um pinga-pinga de votos que,
somados, ajudam a conseguir o coeficiente eleitoral exigido. É melhor
o voto pingado do que a disputa acirrada em território geograficamente
restrito.
Até que venham as reformas eleitorais tão
proclamadas e nunca realizadas, estamos à mercê dos paraquedistas
políticos, os que aparecem de quatro em quatro anos com a cara inocente
e muito papo furado. Já estão chegando. E outros chegarão.
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| Edição nº 206 de 20
de julho de 2002 |
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Tambores e Fitas
O que mais me comove é a infinita pureza que exala
de um grupo de Congado. Parece-me um ritual de outros tempos, um evento
tribal onde, de alguma maneira, e sem qualquer explicação
lógica, sinto-me inserido.
Sou parte daquilo, como se fosse o fruto de uma semente
plantada há séculos e que germinasse dentro de mim toda vez
que ouço aqueles tambores.
Bem andou o Inverno Cultural promovendo o cortejo de
Congadeiros, que percorreu o curto trajeto entre o Carmo e o Rosário,
na manhã de domingo, sob as vistas atentas, embora restritas, daqueles
que ainda são sensíveis às manifestações
mais autênticas da cultura popular brasileira.
E chegaram com a voz rouquenha de seus Capitães
improvisando versos de uma singeleza, de uma inocência e de uma devoção
enternecedoras:
“Fui chegando e fui cantando,
foi cantando que cheguei,
pra colocar muitas flores
na coroa deste Rei”.
E chegaram com a profusão de seus instrumentos:
tambores, sanfonas, cavacos, pandeiros, reco-recos de bambu ou de mola
esticada em PVCs vazados, triângulos, velhos tamborins sem tarracha,
violões a tiracolo. E fitas, muitas fitas, saiotes, talabartes de
tear, quepes ornados de brilhos, chapéus de flores e espelhos, turbantes,
estandartes bordados, bandeiras, capas de veludo e cetim. E a dignidade
do Rei e Rainha Congos, em passo marcial, soberanos ao tempo e às
circunstâncias, impávidos, eretos, majestosos na sua humildade,
simples no seu orgulho, mandatários ancestrais que só se
curvam à devoção de N. S. do Rosário, Santa
Efigênia e S. Bendito, os santos que a negritude escolheu como substitutos
de suas divindades primitivas.
Quem pode ficar indiferente a esta exuberante manifestação
de cultura popular que não é só canto e dança:
é reza, oração da raça, afirmação
da identidade roubada pelos que se julgam donos da História, da
Civilização e da Cultura
E chegaram. Num percurso de pouco mais de duzentos metros,
desfilaram séculos de tradição, de sofrimentos e conquistas
(mais dos primeiros que das segundas), de genuína criatividade,
sem a interferência de influências estéticas que lhes
são estranhas e suspeitas.
E chegaram. Como imagino que chegam os tocados pela santidade,
o coração aberto e as vozes soltas em preces, e tomados de
uma alegria serena e confiante, velhos e maduros, jovens e crianças,
Rei e Rainha protegidos do mundo pela sombrinha de cetim que Maury de Souza
empunhava como um símbolo de realeza. Ou seria de dignidade,
de tradição, de raiz?
E eu os admirei como num ato de fé, como se com
eles rezasse e me incorporasse à festa colorida destes maravilhosos
exemplos de resistência cultural. E tão simples, tão
mansos, mesmo quando o corpo se contorcia ao som dos tambores e as vozes
gralhavam os versos puxados pelos Capitães, ladainha de inspiração
secular. E pareceu-me que era a cidade inteira que cantava o verso tão
necessário:
“Nossa Senhora do Rosário,
toma conta de mim”.
Pois a cidade anda precisando mesmo da proteção
divina. Ou não? Pelo menos os Congadeiros acham que sim.
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| Edição nº 205 de 13
de julho de 2002 |
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Missão cumprida
O ofício de jornalista não se resume ao texto
que escreve. A notícia final, que chega aos leitores, é só
a etapa derradeira de um processo que levou dias para ser elaborado. Às
vezes, semanas. Ou meses. Há o imediatismo da última hora,
a urgência, a informação mais recente que envelhece
no dia seguinte. Mas há também a complexidade da reportagem
investigativa, a busca de fontes confiáveis, o confronto necessário
das versões, a eventual denúncia comprovada ou o esclarecimento
devido da verdade. A redação de um jornal é
local de criação permanente, de discussões acirradas,
de revisões constantes, de copidescagens contínuas, de dúvidas
persistentes na busca de certezas incontestáveis.
E há que pensar a manchete da edição.
A chamada de capa. A diagramação mais atraente, a foto da
semana mais apropriada. A revisão ortográfica. O editorial.
O noticiário social. As últimas esportivas. Paralelamente,
a busca incessante pelos recursos de manuntenção, a comercialização
de novos anúncios, a caça aos clientes. A difícil
tarefa de persuasão. E o respeito aos leitores. E a prestação
de serviços informativos à comunidade. Por último,
mas não menos importante, a impressão, a distribuição,
o atendimento aos assinantes.
Nestes quatro anos, esta foi a rotina na Gazeta. Rotina
na sequência de trabalho, mas sempre novidadeira, sempre vária,
sempre diversa, sempre surpreendente, sempre desafiante. Cada semana um
mundo novo, uma cidade diferente. Toda uma equipe desdobrando-se, multiplicando-se,
de segunda a quinta quando, altas horas, missão cumprida, vem a
certeza de que a Gazeta estará nas ruas no sábado, informando
com responsabilidade, trazendo aos olhos da população ela
mesma, suas reivindicações e problemas, suas conquistas e
desacertos, alegrias e tristezas.
Um jornal é a memória da cidade e de seu
povo. A memória recente e a mais remota. O registro dos fatos, o
porta-voz de opiniões, o testemunho de decisões, a previsão
de conseqüências, o esclarecimento de dúvidas, a denúncia
de irregularidades, o canal de pretensões e desejos do cidadão.
Nestes quatro anos, a Gazeta procurou, exatamente, cumprir esta tarefa
com ética, com idoneidade, com responsabilidade, com consciência
do papel que a imprensa desempenha na vida das comunidades.
Eventualmente, a Gazeta pode ter cometido erros. Mas
nunca por má fé. E quando os cometeu, desculpou-se. Não
deixou de reconhecer méritos, quando merecidos, como nunca transigiu
em apontar falhas que acabam se refletindo em prejuízo da comunidade.
Denunciou muitas vezes, sempre procurando ouvir as partes atingidas. Em
diversas ocasiões, deixou registrada a omissão de dirigentes
e detentores do poder municipal. Era o que lhe cabia fazer, pois não
tem poder para punir nem para tomar iniciativas corretivas
que estão fora de suas atribuições. Um jornal retrata
a realidade. Pode até alertar para o fato de que é preciso
repensá-la, mudar os rumos, buscar soluções, mobilizar
esforços, congregar forças em favor do bem comum, apoiar
movimentos dispostos a encontrar caminhos mais adequados. Mas não
pode, por si mesmo, ser este rumo, este caminho.
Um jornal responsável é a consciência
de seus leitores, o coração da cidade, o sentimento da população.
É o que a Gazeta vem tentando fazer nestes quatro anos. E é
o que pretende continuar a fazer, se merecer a confiança e a credibilidade
que, até hoje, não lhe faltaram, do povo de S. João
del-Rei e da Região das Vertentes. A Gazeta agradece.
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| Edição nº 204 de 6 de
julho de 2002 |
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Desculpas
Preciso pedir desculpas pelos muitos palavrões com
que cobri as mães de Roque Júnior, Edmilson, Lúcio
e Anderson Polga. Particularmente, preciso desculpar-me com Lúcio,
que escrachei com a violência de um Elias Maluco quando deu um passe
de bandeja para a Inglaterra fazer aquele 1 x 0. Preciso desculpar-me por
tudo que berrei nos botequins como um possesso, um celerado, contra uma
defesa que me parecia uma baba, uma peneira, um bando de incompetentes,
súcia de poltrões, corja de ignorantes, sarrafaçais
do futebol. Até o jogo com os ingleses, cada escanteio era um Lexotan
goela abaixo. Cada bola alçada na área, um apocalipse. Cada
falta nas proximidades da área, eu já via a turma com cara
de sexta-feira da Paixão, embarcando de volta para o Brasil, onde
eu os esperaria com uma enciclopédia de palavrões. E em várias
línguas. Pois não é que a Alemanha não levou
vantagem na área, nem por cima nem por baixo? Devo desculpas. A
zaga ergueu uma muralha da China na final. Roque Júnior criou asas.
Lúcio flutuou acima das cabeças adversárias como um
condor sobre as nuvens. À frente deles, Edmilson, Kléberson
e Gilberto Silva fecharam os espaços sem a truculência do
Emerson e ainda contaram com a eficiência de Cafu e Roberto Carlos.
Mas em relação a Felipão é
diferente. Reconheço sua competência, mais de psicólogo
do que de estrategista, mais pai do que tático. Méritos
indiscutíveis de sua personalidade forte e conciliadora. Tão
paizão que conseguiu fazer jogar todos os jogadores do elenco (com
exceção dos dois goleiros reservas), até o medíocre
Luizão, o “dá-pro-gasto” Edilson, o desabalado Juninho Paulista
e os novatos Cacá e Beletti. Mas vamos com calma nos elogios a Felipão.
Não estávamos, eu e o resto do Brasil, tão errados
assim. Foi o clamor público que fez Felipão colocar Kléberson
para dar equilíbrio ao meio de campo e cobertura à zaga.
Foi a gritaria da imprensa e dos torcedores que o fez acabar com a idéia
obcessiva de três zagueiros: no final, Edmilson estava jogando à
frente dos dois zagueiros. Seu maior acerto foi confiar em Ronaldinho,
que correspondeu plenamente à confiança, provando inclusive
que, nesta Copa, Romário não tinha vez.
Se devo desculpas a Felipão, é por achar
que ele nunca tiraria Juninho Paulista do time, um jogador que errou 90%
dos passes quando esteve em campo, inclusive na final, quando só
não fizemos um terceiro gol por culpa de seu passe equivocado. Se
devo desculpas a Felipão, é por achar que ele insistiria
eternamente naquele 3 – 5 – 2 estranho ao futebol brasileiro.
Mas justamente porque mudou de idéia, cabem-lhe
os louros da vitória. Talvez, por esta razão, não
gritou como Zagalo “vocês vão ter que me engolir”, desabafo
emocional que não se recomenda a nenhum técnico equilibrado
e consciente de suas limitações.
Não há o que discutir: foi o talento do
jogador brasileiro que fez a diferença nesta Copa, como o gol de
bico de Ronaldinho, a ginga de Ronaldo Gaúcho no passe para Rivaldo,
o gol espírita de Edmilson. Fez diferença também a
interferência do poder divino na cobrança magistral de Gaúcho
no segundo gol contra a Inglaterra, além das defesas impossíveis
de Marcos.
Como não podia deixar de ser, a FIFA resolveu
consolar a Alemanha dando o título de craque da Copa a Oliver Kahn.
A Alemanha, na verdade, só jogou contra dois adversários
de peso, Irlanda e Brasil. Contra a Irlanda, Kahn engoliu um gol; contra
o Brasil, dois. E bateu roupa no primeiro. Mas levou a glória. Média
da FIFA.
Mas valeu. Principalmente porque o povo brasileiro andava
precisando de um grande momento de alegria. Teve o melhor que poderia desejar.
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| Edição nº 203 de 29
de junho de 2002 |
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Polarização
A eleição em Minas nasce polarizada. Se Aécio,
chegando agora, tem contra ele a defasagem, porque Newton Cardoso está
em campanha há quatro anos, por outro lado a candidatura do Presidente
da Câmara brotou naturalmente, por pressão de forças
políticas consideráveis, lideranças de inegável
prestígio e apelos de contingentes eleitorais aos quais não
se pode deixar de atender. A candidatura Newton, pelo contrário,
nasceu de imposição pessoal, de sua conhecida dominância
sobre os convencionais de seu partido. A postura de Itamar Franco no episódio
é bem indicativa da conjuntura que se coloca: os interesses de Minas
falam mais alto e, neste caso, a escolha do governador não podia
ser outra, a não ser apoiar Aécio.
É possível levantar a hipótese de
incoerência quando Itamar pretende apoiar Lula, em plano federal,
e Aécio, no plano estadual. Mas não é bem assim. O
governo foi um oposicionista de FH nos últimos três anos e
meio e vê em Serra, pela sua ótica, apenas a continuidade.
Nesta linha de seu pensamento, existe alguma coisa de pessoal que não
lhe deixa outra alternativa, a não ser apoiar o candidato do PT.
Escapa-lhe o fato de que Serra não é Fernando Henrique. Mas
em Minas, e pensando em Minas, Itamar conhece, e bem, o seu vice-governador.
Conhece seus métodos e sua biografia. Mais do que tudo, sabe que
lhe cabe parcela de responsabilidade, no interesse de Minas, nesta eleição
estadual. Por conhecer tão bem o candidato do PMDB, cortou-lhe as
asas há mais tempo para não ser chamado de conivente, ou
relapso, com métodos de atuação que não são
de sua índole, nem dizem respeito à sua conduta ética
no trato da coisa pública. E aí, a alternativa mais acorde
com seu passado e biografia era a de apoiar Aécio Neves, como fez.
Talvez tenha pesado na decisão do governador o pronunciamento mordaz,
contundente e inábil de Newton Cardoso, na convenção
do PMDB, sobre sua pessoa, ainda que ela não tenha sido feita explicitamente.
Newton pegou pesado porque, naquele momento, reinava absoluto entre os
comparsas que vem afagando há muito tempo. Talvez tenha medido com
exagero a sua força. Não é numa convenção
que se ganha eleição majoritária, embora nela pode-se
perder uma eleição.
Newton carrega consigo uma rejeição assustadora.
Quase 50%. Deixa atrás de si um rastro de suspeição
que os anos não conseguiram atenuar, inclusive um pedido de impeachment
quando era governador e que os governistas, majoritários na Assembléia
naquela época, trataram de arquivar. Newton também nunca
enfrentou uma eleição de segundo turno, quando pesa mais
a rejeição. Seu maior problema na campanha será a
de reverter a convicção enraigada, em amplos setores do eleitorado,
de que ele não é o Quércia de Minas, nem guarda semelhanças
com Maluf e Jader Barbalho. Em tempos de exacerbado desejo de transparência,
idoneidade, ética e moralidade pública, não será
uma tarefa fácil para os mentores de sua campanha.
Aécio entra na campanha com o respaldo de uma
carreira parlamentar conduzida com lisura, acerto e até com brilhantismo.
Sua atuação como Presidente da Câmara o fez ser eleito
como o parlamentar mais influente do Congresso Nacional. Não tendo
exercido cargos executivos, não há cobranças a fazer.
Sua defesa dos interesses de Minas é reconhecida até por
opositores do governo federal. Inclusive pelo governador de Minas que o
apoia e com ele marcha para que Minas não seja o caminho de duvidosas
lideranças e suspeitas maneiras de administrar. Mas é aos
eleitores, como sempre, que caberá a última palavra. Aos
sanjoanenses, particularmente.
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| Edição nº 202 de 22
de junho de 2002 |
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Mário Lago
Em pleno clima de Copa do Mundo, sinto-me na obrigação
de fazer uma pausa para dizer o quanto me doeu a morte de Mário
Lago. E por muitas razões.
Morreu o comunista Mário Lago, convertido ao marxismo
em 1930, preso sete vezes durante a vida por defender idéias consideradas
pelos poderes constituídos como pertencentes a “doutrinas exóticas”,
como se registrava na imprensa. Nunca foi um militante “subversivo”, nem
o viram defendendo a luta armada preconizada por João Amazonas,
o fundador do PC do B, dissidência do PCB, e que engendrou a malograda
guerrilha do Araguaia nos tempos da ditadura militar. O marxismo de Mário
Lago era mais filosófico que prático. Nos últimos
anos, era uma espécie de comunista folclórico, como Niemeyer.
Morreu o compositor Mário Lago, contemporâneo
de Noel Rosa, de quem roubou uma das namoradas, a Ceci. De talento instintivo,
deu à música popular brasileira algumas de suas pérolas,
como o antológico “Amélia”, com Ataulfo Alves. Muitas de
suas músicas, entretanto, igualmente requintadas, com letras de
exuberante poesia, não são conhecidas do grande público.
E não foi grande só no samba. Sua valsa “Nada Além”
atravessou gerações. Nos últimos anos apresentou-se
em diversos shows contando sua vida de compositor e que se constituíram
em memoráveis sucessos.
Morreu o ator Mário Lago, de interpretações
irretorquíveis no cinema, no teatro e na televisão. Foi destes
atores que chegaram ao estrelato sem estrelismos, sóbrio, comedido,
mas de técnica irrepreensível, apurada, sensível na
composição de seus personagens, disciplinado no trabalho
coletivo, afável no convívio com os companheiros de cena.
Digo-o muito à vontade, porque com ele contracenei num filme, “Idolatrada”,
lá pelos idos de 80. Foi quando o conheci de perto e, num almoço
em minha casa, ouvi dele sambas que, infelizmente, se perderam no tempo.
A música popular brasileira tem sido desfalcada,
nos últimos anos, de alguns dos seus mais talentosos compositores.
Uma pena. Talvez agora, com sua morte, Mário Lago seja revivido
em coleções de CDs re-masterizados de suas obras mais significativas.
O momento musical brasileiro não é dos
mais férteis. Ou melhor, fértil talvez seja, em quantidade
e variedade de ritmos e gêneros. Mas a qualidade não tem sido
a virtude da maioria dos lançamentos. Mário Lago não
estava mais compondo, oficialmente, há muitos anos, mas certamente
composições suas estarão escondidas nas gavetas de
seu escritório. Elas virão à tona.
De qualquer modo está de luto a música
popular brasileira. Mas não só ela. Também está
de luto o teatro, o cinema e a televisão. A Nação,
para dizer tudo. Mas poucos terão, como Mário Lago, o privilégio
de ter, como ele teve, um velório musical no saguão do velho
Teatro João Caetano, ao som de sambas antigos e novos. Como ele
sempre desejou. Para algumas pessoas, a morte também deve ser comemorada
com festa. Seu talento viverá para sempre em suas canções.
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| Edição nº 201 de 15
de junho de 2002 |
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Nem tudo é azul
Vão dizer que é radicalismo. E é mesmo.
Completo e concreto. Para um torcedor verde-amarelo como eu, fanático,
só resta ser radical, preconceituoso, intransigente, impiedoso.
Não me peçam para não tripudiar sobre a desgraça
alheia em Copa do Mundo. Não me peçam para ter misericórdia.
Não me peçam para ter compreensão. Adieu, les bleus!
Adiós muchachos! Tenham bom regresso. Chorem todas as lágrimas.
Não tenho lenço para emprestar, nem consolo para oferecer.
Sofro com a Argentina desde os tempos da Copa Roca, que ninguém
mais sabe o que é. Já chorei muito por causa destes portenhos.
Sei que a crise da Argentina é lamentável. Os muchachos estão
comendo o pão que todos os diabos amassaram, do General Gualtieri
ao Menem e De la Rue. Disto posso ter pena. Mas a eliminação
da Argentina só me dá alegria. É como se o Brasil
já tivesse ganho a Copa. Au revoir Zidane! Sidane-se!
Lição para ser aprendida. Os les bleus
chegaram posando de campeões do mundo, de campeões da Europa,
com a empáfia dos imbatíveis, com os narizes empinados dos
orgulhosos. Mas também com os saltos Luiz XV, que por sinal foram
eles que inventaram. Já estão em Paris. Nos últimos
quatro anos só se falou da França, no mundo inteiro. Agora,
um pouco de silêncio não faz mal. O silêncio do velório.
Los hermanos chegaram com seus milhares de gols nas eliminatórias,
que lideraram de ponta a ponta, enquanto nós íamos aos trancos
e barrancos, aos Chiles e Equadores, cada hora um time, cada hora um treinador.
Uma baderna futebolística, corrupção na CBF, cartolagem,
mais de cem jogadores convocados. E assim mesmo, nesta bagunça própria
de brasileiros, esbarrando aqui, tropeçando ali, conseguimos a classificação
nas eliminatórias na última hora. Mas na Copa do Mundo ainda
estamos sob a proteção dos Budas e los hermanos já
voltaram para o inferno em que se transformou Buenos Aires. Maradona, o
falastrão, chegou à Copa atrasado. Ou teria chegado bem na
hora? Chegou na hora sim, da despedida, do pranto do Batistuta, o Bat-gol
que não deu certo. Quem fala demais dá bom dia a cavalo.
Agora o “homem-do-gol-mão” calou-se. Ainda que fale não há
ninguém que queira ouvi-lo.
E ainda me vem o Rivelino dizer que com a saída
da França e da Argentina a Copa perde muito da sua grandeza! Perde
uma pinóia! Melhorou. Para nós, é claro. Dizer que
há grandeza na derrota é sofisma, pura retórica. Em
competições esportivas só a vitória engrandece.
Competir é só a exigência das regras do jogo, pois
não há jogo sem a competição. Mas o que importa
é vencer. Por esta razão estamos comemorando neste sábado.
Na segunda-feira, poderemos estar chorando. Mas não hoje. Hoje estamos
celebrando três emoções de uma mesma semana: a classificação,
o adeus da França e a despedida da Argentina. Não me venham
com este papo de que é uma pena para o futebol mundial. Pena coisa
nenhuma. Adieu, France! Adiós, muchachos!
Vamos comemorar enquanto é possível porque,
o Brasil inteiro sabe, nossa defesa é pouco mais do que uma peneira.
Um bate-cabeça que assusta. O técnico é turrão,
encasquetado, tem mania de números, 7, 17, 3 - 5 - 2, parece o Oswald
de Souza. Não, não. Não somos inocentes. A seleção,
sabemos, não inspira confiança. E também sabemos que
não há substituições possíveis na zaga.
Todos são farinha do mesmo saco. É pegar com o santo, minha
gente. Mas estamos nas oitavas quando favoritos já se foram. Então,
vale comemorar e estar preparado se chegar a hora de chorar. Por enquanto
há esperança. Esperança que acabou para a França
de Zidane e Bartes. Esperança que morreu nos pés de Crespo
e Veron. Até segunda-feira, pelo menos, vou gritar aos quatro ventos:
Adieu, les bleus! Adiós muchachos! Boa viagem! Com todo o radicalismo.
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| Edição nº 200 de 8 de
junho de 2002 |
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In Memoriam
Para D. Mariana Neves Dornelles
E foi-se a vida.
Como um sopro que apaga
a luz da vela.
Como a folha que cai sem ser outono,
e antes do tempo já amarela:
apenas cai,
e ninguém sabe como.
E foi-se a vida.
Como o sol que se põe
em meio à tarde.
E, inusitado,
com ele leva a luz e a claridade
quando ainda é cedo para
dar lugar à noite. Covarde.
E foi-se a vida.
Como a gota de orvalho se equilibra
sobre a pétala
que a sustenta,
e, fluida, não adere à sua margem,
e, atenta,
prefere a queda
a se perpetuar em equilíbrio.
E foi-se a vida.
Como quem pressente
que, já exaurida,
não mata mais a sede
dos que buscaram, o tempo todo,
a água que brotou da sua fonte.
E foi-se a vida.
Como curva-se o galho
ao peso dos seus frutos.
Como se rompe a linha
ao fim de uma costura.
Como a flor se despetala.
Como a voz que cansada de falar
enfim se cala.
E foi-se a vida.
Como se o tempo que se vive
fosse apenas uma longa despedida
para a única viagem sem retorno,
para a única viagem só de ida.
E foi-se a vida.
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| Edição nº 199 de 1 de
junho de 2002 |
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Copa do Mundo
Eu estava certo de que já tinha superado o entusiasmo
juvenil que sempre me assaltou na proximidade de Copas do Mundo. Afinal,
desde que me entendo por gente acompanho estes certames. Desde 50, para
ser mais preciso, quando derramei copiosas lágrimas no gol de Ghigia,
vencendo a perícia de Barbosa. Depois, foi a decepção
de 54, onde foi impossível superar aquela máquina de fazer
gols da Hungria de Puskas. Seguiu-se a euforia de 58, a batalha de 62,
onde brilharam as estrelas de Garricha e Amarildo, com Pelé todo
quebrado. Veio o desastre de 66, o deslumbramento de 70, a melhor de todas
as seleções embalada pela marcha de Luiz Gustavo, a derrota
de 74, o campeonato moral de 78, numa Copa toda armada para a Argentina
e onde o Coutinho inventou o “over-lap”, a infelicidade de Cerezzo em 82,
outros infortúnios em 86 e 90, a vitória nos penalties em
94, as convulsões de Ronaldinho em 98. Pesando prós e contras,
muito mais sofrimento e angústia do que gritos de arrebatamento
e orgulho. Por esta razão, pensei estar vacinado, maduro bastante
para ter um comportamento equilibrado, sereno, realista, ciente de que
não temos mais uma seleção de Zicos, de Pelés,
de Rivelinos, de Gersons, de Tostões, de Didis, de Zizinhos ou de
Garrinchas, de Falcões ou de Ademires, de Jairzinhos ou de Gilmares.
Pensei que estava imunizado contra esperanças vãs, juízos
temerários, pronto para aceitar como inexorável a presença
dos Polga, dos Edimilsons, dos Roque Juniors e dos Vampetas como coisa
do destino, fatalidade, castigo dos deuses.
E eis que, de repente, me descubro, como em todas as
outras Copas, devorando as páginas de jornais esportivos que nunca
leio, procurando, como um alucinado, reportagens na TV para saber o que
estão comendo os jogadores na hora do almoço, se não
houve lesões no último treino, se aquele espirro do Ronaldinho
Gaúcho não progrediu para uma dengue coreana, se o joelho
do Ronaldinho não está dando fisgadas, que fisgadas podem
ser sinal de distensão nos adutores da coxa, e quantas horas dormiram
ontem, e se o Felipão não largou esta mania de 3-5-2, e se
o pessoal não está sentindo o fuso horário, a falta
de sexo, o banzo, sim, o banzo, pois afinal somos todos meio africanos.
E escravos, de uma certa maneira, continuamos todos, do FMI, do capital
internacional. E banzo pode liquidar uma seleção.
Só não enviei e-mails pra Malásia
porque tive vergonha. Não foi por falta de vontade. Cheguei até
a digitar alguns. O primeiro deles dizia: o Brasil espera que cada um cumpra
o seu dever. Quase assinei Almirante Barroso (ou seria Tamandaré?).
Uma vergonha. Recuei a tempo. Num outro escrevi: nas chuteiras da seleção
está o orgulho da pátria. Gagá. Frase copiada de raspão
do Nelson Rodrigues. Um rasgo de bom senso me fez deletar a mensagem. Mas
isto não importa. O diabo é que entrei em comoção
permanente. Sonho com os gols do Capetinha. Vejo Rivaldo diblando até
a trave. O Marcos defendendo penalties no ninho da coruja e cobrados da
linha da pequena área. Uma loucura. Estou ficando verde e amarelo,
literalmente, na pele. Outro dia me peguei num botequim dizendo que nem
o Leônidas da Silva foi melhor que Luizão e que o Polga é
uma mistura de Carlos Alberto Torres, Luizinho, Domingos da Guia e Gamarra,
apesar do Gamarra nem sequer ser brasileiro!
Perdi completamente a noção do ridículo.
Há uma semana, comecei a acordar, subitamente, às três
da madrugada: é o meu organismo adaptando-se, por si mesmo, ao horário
dos jogos da Copa! De quando em vez, tenho momentos de lucidez: “você
não está exagerando, não? Pára com isto. Que
importância tem a Copa do Mundo para um Brasil tão difícil,
tão complicado, tão tão”. São só relampejos.
Logo estou de novo buscando as notícias, os pormenores, tentando
decifrar os esquemas do Felipão, descobrindo no rosto dos jogadores
a confiança, a garra, o destemor, o desejo de morrer em campo, se
preciso for. Confesso: a Copa do Mundo pode não trazer a taça
para o meu Brasil, mas que me fez voltar aos 20 anos, ah! isto fez! Mesmo
que não cheguemos sequer às oitavas de final. Opa! Sai pra
lá! Quem foi que disse que esta taça não é
nossa? Tá brincando?
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| Edição nº 198 de 25
de maio de 2002 |
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Vandalismo
Levou-se perto de 70 anos, ou mais, para construir um monumento
como a Igreja de S. Francisco. Centenas de escravos deixaram ali os seus
suores, a força de seus braços. Muitos deles deixaram a vida.
Os potentados locais, muitos deles pensando comprar um lugar no céu,
privaram-se de parte de suas fortunas para contratar mestres de obras,
artífices, cinzeladores, escultores, mestres de cantaria, entalhadores.
Entre projeto e construção, a mesa da Ordem Terceira examinou
sugestões, aprovou modificações. Fiéis fizeram
doações, óbulos, enquanto os escravos matavam-se no
trabalho brutal, pagos pela comida na cuia e a água nas canecas.
Décadas esculpindo a pedra, acertando arestas, ajustando marcos,
polindo vergas, talhando retábulos, fundindo sinos. Geração
morreu sem ver a obra construída, inclusive seu construtor Lima
Cerqueira. Ou teriam sido gerações?
E, de repente, no curto espaço de duas horas,
se tanto, dois representantes da espécie chamada homo sapiens, um
deles universitário, galgam andaimes e depredam o monumento bisecular.
Vinham de uma festa. A aventura de depredação
pareceu-lhes fácil. Não estavam em seus sentidos, dizem.
Ou jamais estiveram neles? O que os teria levado à insanidade do
gesto? Não há explicação. Não foi uma
simples pichação, o que já seria indesculpável.
Nem se trata apenas de terem atingido um templo religioso. É que
depredaram a História. Que diferença existe entre os dois
insanos e o governo Talibã que dinamitou a imagem de um Buda milenar?
E agora? O que vai acontecer? Confessam o crime, os pais
lamentam, a sociedade se revolta, o jornal publica, a polícia investiga.
E depois? Ninguém saiu ferido, a não ser o patrimônio
cultural que, infelizmente, não derrama lágrimas, nem sangra.
No inquérito, logo os advogados de defesa vão apelar para
a irresponsabilidade típica da juventude, para a falta de cultura(!)
dos deliqüentes, para o “não houve má fé”, “são
coisas de jovens que beberam um pouco demais”. E vem a advertência:
“da próxima vez a justiça não terá contemplação”.
Mas as feridas abertas na fachada do nosso mais importante
monumento não serão cicatrizadas com a restauração,
se ela for possível. O ultraje, a ação deletéria,
a estupidez do gesto, o atentado à memória daqueles que levaram
anos para construir o frontispício, ficarão apenas na sentença
amenizada, “porque os jovens são assim mesmo, inconseqüentes,
com o tempo vão amadurecer”.
A impunidade, neste País, é um dos fatores
que tem permitido a escalada da violência, seja nos atos corruptos
das administrações públicas, nas rebeliões
carcerárias, nas invasões injustificadas do MST, no império
dos traficantes dos morros cariocas, seja nas demolições
do patrimônio, planejadas por proprietários insensíveis
ou perpetradas pela ignorância, como no caso destes dois jovens.
A violência não atinge somente pessoas. Também é
violência o assalto aos cofres públicos, a propaganda enganosa,
a promessa política inexequível, a licitação
fraudulenta, a subserviência de vereadores, a imprensa facciosa,
o salário indígno, os juros que se paga pela dívida
externa, o corporativismo de certos segmentos organizados, a condição
de miserabilidade a que estão sujeitos os mais carentes, a desigualdade
que impera há quarenta anos. Mas, se para muitas destas situações
não é tão fácil encontrar soluções,
o crime contra o patrimônio cultural pode ser punido. Leis específicas
existem. Mas e daí? Alguém acredita mesmo em punição?
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| Edição nº 197 de 18
de maio de 2002 |
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Confissões
Eu tenho horrores particulares. Um deles é entrar
em shopins, assim mesmo, com um p só e sem g . Pois é
justamente aí que começa a minha irritação,
nesta invasão da língua inglesa, expressa em letras garrafais
no pórtico (é isto mesmo, pórtico, que lembra os umbrais
de um palácio ou de um templo), e se esparrama pelo interior em
Sale, Hot Zone, Free, Mcburger, Store, Delivery, e por aí vai. Aquele
mundo de lojas e vitrines reluzentes me apavora. Logo me vêm à
lembrança os anos que morei nos Estados Unidos. Sinto-me um peixe
fora d´água, um visitante em outro País. Aquilo não
é o Brasil. É um outro mundo. Quem será que tem dinheiro
para comprar aquelas gravatas de 180 reais? E este sapato de 320? Brasileiro?
Não acredito. Os brasileiros, pelo menos os que são da minha
convivência diária, não usam aquelas grifes. Gente
de teatro, por exemplo, é esmulambada: nunca se sabe se estão
vestindo suas próprias roupas ou se apenas não tiraram do
corpo o figurino da última peça produzida. Alguns, mulheres
principalmente, inventam um trajes esquisitos para chamar a atenção.
Dizem que é criatividade. Bobagem. É falta de grana mesmo:
pegaram uma camiseta Hering e tingiram com corante Guarani, quanto mais
manchada melhor. Outros caras que eu conheço, nos botequins de Belô
ou de S. João, estão usando é camisa do Vasco, do
Athlético, do Cruzeiro, do Botafogo, aliás, as destes times,
com exceção do Cruzeiro, andam meio sumidas. Mas vem aí
a Copa do Mundo. Durante o mês de junho vai sobrar camisa verde e
amarelo. Espero que não seja em vão. E ainda tem a eleição:
camiseta é que não vai faltar...
Quem será que compra aquelas coisas que eu vejo
nas lojas do Shopim? Bem, vão dizer que também há
livrarias, comércio de quinquilharias e artesanato. Opa! Pera aí.
Artesanato, não. As lojas de artesanato do Shopim abusam. Os objetos
são da Tailândia, da Conchinchina, do Casaquistão,
das Ilhas Virgens, de Bali, da Carolina do Norte. Não existe uma
única peça do Vale do Jequitinhonha. Nada de Prados, de Resende
Costa, de Coronel Xavier Chaves, de Monte Sião, de Cachoeira do
Campo. Definitivamente, artesanato não.
O problema é que sou vou ao shopim para levar
minha neta que, aos nove anos, pertence a esta geração azucrinada
pela mídia, criada entre os Reebock e os programas da Xuxa, entre
as Barbies e as Sachas, entre a Casa dos Artistas e os Big Brothers,
cuja bússula são as grifes, os Harry Porter e as Jades da
vida.
E aí vamos para a Praça da Alimentação,
nome prosaico para um País como o Brasil. Vem uma pitsa (assim mesmo,
com t), que para mim é comida de paulista, mais que de italianos.
No revestimento da bolacha de massa tem uma horta inteira: alho, azeitona,
pimentão, palmito, cebola, tomate, orégano, até champinhão
(assim mesmo, com pinhão no fim). Dobro o chope ( no shopim não
se vende cerveja, é claro ) porque é difícil para
um estômago acostumado a tira-gostos de botequim, à carne
de sol, ao chouriço do Penna´s ( veja que diabo de nome foram
inventar para um bar de S. João del-Rei! Por que não Bar
do Penna? ), ao pernil do Jacy, às panquecas da Zeli, ao caldo de
feijão do Espaço Livre, ao torresmo, ao sanguinho, à
carne cozida, é difícil, repito, é muito difícil
encarar comida de paulista.
Mas vou ao Shopim. Tenho que ir. Meus horrores não
são nada perto da alegria que vejo nos olhos da minha neta, outra
geração, para quem aquele mundo estranho é familiar
e natural. E assim deve ser. Os que estão chegando são os
que podem mudar o mundo. Eu só posso, a esta altura, suportá-lo.
E haja chope!
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| Edição nº 196 de 11
de maio de 2002 |
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Ano Eleitoral
Nada como o ano eleitoral para abrir a temporada de denúncias
e escândalos. Boa parte delas, e deles, alimentam as páginas
da imprensa diária, aumentam as vendas dos semanários ditos
“ investigativos”, levam os parlamentares à tribuna para marcar
posição, pró ou contra, suscitam flashes bombásticos
nos telejornais e proporcionam as mais tenebrosas profecias dos comentaristas
políticos especializados. Aí surgem as pesquisas eleitorais,
logo depois da última denúncia ou do último escândalo
e, de novo, as páginas dos jornais se enchem de especulações
sobre a descida ou subida nos percentuais dos pré-candidatos. É
ano eleitoral. E como não se passam 15 dias sem um novo fato escabroso,
os anteriores são esquecidos ou caem na tramitação
regular, complexa e demorada dos órgãos judiciários.
Ali adormecem na parafernália dos recursos, no vai e vem das instâncias,
na interminável discussão sobre competências para julgar,
no esgotamento de prazos, nas provas que nunca são apresentadas
ou são logo contestadas quando aparecem. Perplexa, a sociedade mal
tem tempo de assimilar uma denúncia e lá vem outra sepultando
a primeira. Se algumas trazem consequências imediatas, outras passam
em branco, logo que se percebe que foram motivadas por armações
políticas ingênuas e sem consistência.
No ano passado o então governador Garotinho sofreu
um bombardeio da imprensa, envolvendo-o com fraudes em sorteios de carros
e casa. Ninguém mais fala disto. Logo depois, Olívio Dutra,
no Rio Grande do Sul, chegou às manchetes nacionais: o PT
comprara sua sede na capital gaúcha com recursos do jogo do bicho.
Ninguém mais fala disto. O PFL inventou Roseana como um mágico
tira um coelho da cartola. Bornhausen, o inventor da Cinderela, com seu
estilo ariano, tomou gosto, ultimamente, pelos ultimatos. O coelho inventado
por ele, como bom Pernalonga, deu no pé. Mas ninguém fala
mais do milhão e trezentos mil em notas de cinquenta encontrados
na sede da Lunus.
O senador Luiz Estevão voltou às manchetes,
recentemente, no caderno esportivo dos jornais: é dono do Brasiliense,
finalista da Copa Brasil. O senador que desviou recursos do TRT de S. Paulo
está disputando uma final com o Corintians. O senador, com certeza,
estará no banco, lugar que conhece bem. Do dinheiro desviado por
ele e pelo juiz Lalau ninguém fala mais.
Aliás, a CPI do futebol mostrou os descalabros
da CBF. Quem lia os jornais daquela época diria que os dirigentes
do futebol brasileiro iam curtir uma de Carandiru. Nada disto. Acabaram
de receber o apoio dos quatro grandes clubes esportivos do Rio.
Agora, as manchetes ocupam-se do ex-diretor do Banco
do Brasil. Surgem denúncias de pedido de propina, em 98, na privatização
da Vale. Como o suspeito fez parte do governo e foi tesoureiro da campanha
do Serra para o Senado, em 98, a oposição e a malta da imprensa
aproveita a oportunidade para desestabilizar a candidatura do ex-ministro
da saúde. É ano eleitoral. Olho vivo. A campanha já
começou, e guerra é guerra.
Daqui até agosto, quando começam os programas
eleitorais oficiais, ainda há espaço para novos tumultos,
denúncias e escândalos. Boa matéria para os jornais
e revistas. E vamos nós. Parafraseando os americanos, que têm
predileção pela frase, “este é um País livre”
. Tão livre que ninguém vai preso. A não ser, é
claro, o pobre coitado que roubou um pão na padaria porque estava
com fome. Estou exagerando. Também não é bem assim.
Cassar mandatos talvez seja mais exemplar do que mandar o cassado para
a cadeia. E, ultimamente, o País tem cassado vários mandatos
de senador e de deputado. Sem contar o histórico impechment de Collor.
Mas no jogo da impunidade ainda tem muito culpado dando as cartas. E com
um ás escondido na manga.
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| Edição nº 195 de 4 de
maio de 2002 |
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Cigarro
“Cuidado, heim? Cuidado”. E nem ligava. Entrava por um ouvido
e saía pelo outro. Afinal, o bisavô, ele acreditava, tinha
fumado o cachimbo da paz durante 95 anos. Não adiantava falar com
ele que cachimbo da paz era coisa de Apache, índio americano, e
o bisavô dele, se é que ele falava a verdade, era botocudo,
do Vale do Rio Doce, furava beiço, punha argola no nariz, mas não
fumava cachimbo da paz.
Aí ele invocava o avô: 89 anos fumando charuto.
Não adiantava falar com ele que charuto era coisa de granfino, de
gente rica, nunca chegou no meio rural onde o avô fazia capina, plantava
milho de meia, moía cana no engenho e vivia de vale no armazém
do seu Aparício para poder comer.
Ele não se dava por vencido. Invocava o pai, 87
anos fazendo cigarro de palha, picando o fumo com o canivete, alisando
a palha, perdendo metade da vida enrolando fumo. “Vagabundo” era o que
ele era, diziam de seu pai. “Onde já se viu perder seis horas por
dia neste enrolar de fumo na palha, no Deus dará, no à toa,
no não fazer, só para fabricar o veneno que minava o peito,
arruinava a garganta e ralentava o coração?”
E ele defendia: “enquanto fabricava a fumaça,
pensava. Atinava. Assuntava. Cismava. Foi assim que chegara aos 87, inteiro,
fazendo filho e prevaricando, que é do homem desejar a carne”.
Não havia argumento que o convencesse a deixar
de fumar. “Olha o câncer de pulmão!”, diziam. Respondia com
a “literatura médica” que tinha lido na Seleções do
Rider Digest: “câncer de pulmão é dois por cento de
todos os cânceres; estou jogando com 98% a meu favor”. Os amigos
desistiram. O cara justificava-se com todas as tendências genéticas,
do bisavô ao pai, e sugava os cigarros com a volúpia de uma
Messalina. Um vulcão ambulante, com erupções freqüentes,
quando se sentava num bar: um cigarro depois do outro.
“Você acabou de fumar”, dizia um amigo que ainda
tinha alguma esperança na regeneração. “Um gambá
cheira o outro”, respondia, usando o provérbio em outro contexto.
Até que o governo lançou a campanha obrigando
os fabricantes a ilustrar os maços de cigarro com fotos que mostravam
os malefícios do fumo. Primeiro andou procurando os estoques antigos,
nos quais os maços ainda não traziam as fotos de advertência.
Depois não teve mais alternativa. De alguma maneira, aqueles alertas
o incomodavam. Davam o que pensar. E aí, passou a ser um andarilho.
- Tem cigarro?
- Tem.
- Deixa eu ver a foto.
O cara mostrava os maços.
- Estes não servem.
- Mas você não quer cigarro?
- Quero. Mas só compro com foto de que “fumar
não é bom pra gravidez”. Tem?
- Tenho câncer de pulmão, impotência
sexual, enfarte e falta de fôlego.
- Não tem de gravidez?
- Não.
Parou de comprar cigarro. Faz dois meses que não
fuma. Cigarro. Trocou pelo cachimbo.
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| Edição nº 194 de 27
de abril de 2002 |
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Sogra
Oliveira Ramos. José de Oliveira Ramos, era o nome
dele. Através de um vereador, conseguiu uma boca na prefeitura.
Boca mesmo. Não sabia fazer coisa alguma. Era destes caras que têm
uma disposição incrível para não fazer absolutamente
nada. Franzino, miúdo, tímido, raquítico, pepino que
encolheu desde menino, como diria Guimarães Rosa. Mas macho, sexualmente
hiper-ativo. Tão hiper-ativo que acabou engravidando Dolores, 19
anos, moradora no conjunto da Cohab, Matosinhos. Transa rápida,
às pressas, em pé mesmo, na porta do apartamento dela, que
morava com a mãe viúva. Viúva, mas uma fera.
- Seu Ramos, já marquei o casamento. Comeu a carne
tem que roer os ossos.
- D. Idolina, eu não posso casar. Ganho salário
mínimo. Sou funcionário fantasma.
- Que que é isto?
- Sou cabo eleitoral, D. Idolina. Emprego de favor.
- Não me meto em política. É tudo
safado como você. Engravidou, vai casar. Ou mando chamar meu compadre
Zé Garrucha, lá do Rio das Mortes, pra treinar tiro ao alvo.
Você mora aqui em casa, mas casa. Filha minha não tira filho
e nem tem cria sem pai. Já marquei o casamento.
Casou. Gostava da Dolores. Isto era o de menos. O problema
era a sogra, sempre azucrinando.
- Vou te dizer uma coisa, seu Ramos. Pra vagabundo você
tá na distância de uma cuspida. Você faz o que na prefeitura?
- Assino o ponto.
- Escrevendo ou metendo o dedão?
Ramos se continha. Não havia dia que a sogra não
o humilhava.
- O menino que você gerou na porta do apartamento
tá precisando de fralda. Se vira, seu Ramos. E o tanque tá
cheio de cueiro pra lavar. Como você não faz nada mesmo, dá
uma de lavadeira.
Ramos suportava. Gostava de Dolores. Gostava do filho.
Foi levando.
- Seu Ramos, tem que encerar a sala. Cera taí.
Escovão também, pra passar palha de aço.
- D. Idolina, já tem cera líquida, que
dá brilho sem enceradeira...
- Mas aqui em casa é na antiga. Palha de aço,
escovão, cera e flanela. E óleo de peroba nos móveis,
não se esqueça. Aproveita e passa um bocado na sua cara de
pau.
Foram quatro anos de humilhação, indiretas,
diretas e ironias. Ramos, submisso, amargando o seu destino. Era apaixonado
por Dolores, não tinha condições financeiras, adorava
o filho: tinha que agüentar. Em março, 22, D. Idolina sofreu
um enfarte fulminante, às 10 da noite. Deu uns roncos profundos,
Ramos e Dolores correram para o quarto mas já chegaram no último
suspiro da sogra.
O enterro foi no dia seguinte. Muita choradeira, particularmente
de Dolores. Ramos, sisudo, tomou todas as providências, com uma presteza
nunca vista, para o enterro no Quicumbi. Poucas horas antes do enterro
foi ao cemitério e teve uma conversa com o coveiro.
- Minha sogra vai ser enterrado em pé.
- Em pé, como?
- Você vai furar um buraco na vertical, tá
entendendo? Fundo. O caixão vai entrar em pé e com a cabeça
da defunta pra baixo.
- Mas, seu Ramos, isto não é normal!
- Não quero saber. Eu tou pagando. Na vertical
e com a cabeça pra baixo.
- Por que isto, seu Ramos?
- Porque se esta desgraçada voltar, vai sair lá
no Japão, meu caro. Pode começar a cavar.
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| Edição nº 193 de 20
de abril de 2002 |
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Boas intenções
De boas intenções o inferno está cheio,
diz o ditado. Estamos vivendo o tempo das boas intenções.
Explico-me. O período é pré-eleitoral e as candidaturas
presidenciais estão postas. Difícil surgir outras. O que
ainda está em discussão são os vices. E os vices,
todos sabemos, são de conveniência. Pesa mais, na sua escolha,
o palanque eleitoral que podem oferecer do que seu preparo para o cargo.
É hora de ouvir, portanto, as boas intenções. E todas
convergem para o mesmo ponto: desenvolvimento, salário justo, segurança,
juros baixos, crédito, inflação controlada, terra,
casa, emprego, transporte, comida, saúde. Ou seja, a felicidade
geral.
Os meios para conseguir fazer das boas intenções
realidades é que variam. Mas sobre isto os candidatos pouco falam.
Como, antes dos votos nas urnas, tudo são só promessas, é
possível prometer qualquer coisa. E também inventar soluções
mágicas, como tem feito Garotinho. Mas ainda que haja pequenas
variações, os discursos presidenciáveis estão
convergindo: Lula não descarta mais o capital externo e condena
invasões do MST. Serra tem restrições à política
econômica do atual governo.
Mas todos os candidatos sabem que a hora de agir só
chega com o poder. Sem ele não há nem promessas nem intenções:
só campanha. Assim, não é surpreendente que o PPS
de Ciro flerte com o PFL. Que o PT, tão cioso de sua ideologia,
pense numa aliança com o PL, tão à direita. Que o
PSDB insista em reatar com o PFL, um partido que, definitivamente, não
tem nada de social democrata. E que o PFL, depois do desastre Roseana,
está à procura de um porto seguro para ancorar o seu navio
com
danos irreparáveis no casco. O PFL é o Titanic que bateu
num iceberg: está à beira do naufrágio.
Boas intenções não bastam. A política
é, antes de tudo, a luta pelo poder. E antes de chegar a ele, todo
disparate é possível. É o quadro que estamos presenciando.
E outros absurdos estão por vir até junho. É que todos
os candidatos sabem, por experiência e vivência políticas,
que chegar à presidência é um fato eleitoral. Governar
o País, entretanto, é reunir forças políticas
no Congresso que sustentem, com votações, as teses de governo.
Ou seja, as boas intenções da campanha podem entusiasmar
eleitores, mas só serão realidades concretas se aprovadas
no Parlamento. O jogo é bruto. Não há campanhas eleitorais
sem concessões. Nem governo sem elas. O PT já descobriu isto.
Seu discurso, antes radical, está ficando cada vez mais ameno. Agourou
o real com as mais negras profecias. Hoje defende a estabilidade da moeda.
Sente que pode chegar ao poder. E para isto, não convém assustar
facções que, no Congresso, terão que lhe dar condições
de governar. Ou ficará apenas nas boas intenções.
Dois dos maiores partidos do País, o PMDB e o PFL, são hoje
entidades fragmentadas. O PSDB, embora mais coeso, sabe que por si só
não chega ao poder. O PPS não tem sequer tempo suficiente
para mostrar sua cara na TV. Nem o PSB de Garotinho. E numa era eletrônica
como a que vivemos, é na TV que as boas intenções
são divulgadas.
O poder, infelizmente, não é conquistado
só com boas idéias. No processo interfere um conjunto de
forças que não constituem propriamente um partido político.
A este conjunto chamamos de poder dominante, que trabalha em função
de suas conveniências. É por isto que boas intenções
não bastam. O destino das oposições ditas populares,
quase sempre, tem sido o da frustração. Quando chegaram ao
poder, com raras exceções, foi através de revoluções.
E estas também, quase sempre, não deram certo. O último
reduto que ainda permanece é Cuba. Mas Cuba, convenhamos, não
é exatamente uma democracia.
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| Edição nº 192 de 13
de abril de 2002 |
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Chico olho
Chamava-se Francisco Ventura. Mas era conhecido como Chico
Olho. E já adianto a razão. Era colocar as vistas em alguma
coisa e acontecia uma tragédia. Sempre fora assim, desde o dia em
que foi fazer a primeira barba no Salão Três Irmãos,
na rua Artur Bernardes. Era adolescente, com uma penugem ridícula
pela cara. Foi entrando na barbearia e botou o olho na gaiola:
- Eta curió bom de bico!
O passarinho de estimação caiu do poleiro
e esticou as canelas no ato. O barbeiro azedou: “Vai ter olho ruim assim
lá no inferno!” O apelido pegou. Chico Olho ganhou fama de ter parte
com o diabo, dono de mau olhado. Na procissão dos Passos, contrito,
ergueu os olhos para o santo. Ninguém sabe como, a cruz caiu dos
ombros da imagem. Contava-se as mais estranhas fulminâncias do Chico.
Foi para uma pescaria. Não no rio, ou na represa de Camargos. Num
destes locais de peixe cevado, um Pesque e Pague perto de Coronel Xavier
Chaves. Enquanto esteve lá, vara na mão, olhando o lago,
ninguém pescou bulufas. O cardume entocou. O proprietário
exigiu que desse o fora: “aqui, não; vai azarar em outra freguesia...”.
De outra vez foi visitar a fazenda do seu Plínio, perto de Vitória.
Madrugadinha, o Chico resolveu inspecionar a ordenha. O leite azedou nas
tetas, sem qualquer explicação. Resolveu pintar a casa. Cada
vez que ia ver como andava o serviço caía um pintor da escada.
Teve que terminar a pintura ele mesmo.
E, no entanto, era manso. Manso de passo. Manso de fala.
Manso de trato. Uma ovelha humana, com perdão do exagero da
metáfora. Os amigos mais chegados aconselharam:
- Use um óculos escuro, Chico.
A primeira vez que usou o óculos deu um apagão
na cidade que a Cemig nunca conseguiu explicar. A luz só voltou
quando tirou o óculos. Desistiu.
Pensou em usar um tapa olho duplo quando ia a algum lugar.
E na rua só andava olhando para o chão, sem virar a cabeça.
Mas descuidava. Numa festa de casamento, foi cumprimentar a noiva e estava
diante da mãe, de tapa olho.
- Parabéns à nubente, com meus respeitos.
- Eu sou a mãe, seu Chico. Não me reconhece?
Chico deu bobeira. Levantou o tapa olho. A mulher teve
um enfarte fulminante.
Depois disto não saiu mais de casa. Trancafiou-se.
Embotou. Por precaução, cobriu todos os espelhos da casa
com pano preto: olhar para si mesmo poderia ser também perigoso.
Solitário, quando atendia à porta para receber a quentinha
que mandava buscar para o almoço, usava o tapa olho. Nada de riscos.
Envelheceu no auto-exílio, enfurnado, vivendo dos dois salários
mínimos que as irmãs lhe mandavam de Brasília.
A cidade inteira, pesarosa, rezava pelo Chico. Uma pessoa
tão boa, tão prestativa, tão mansa, carregar um carma
destes...
Até que um dia, anos e anos depois, o Chico Olho
saiu de casa. Passou nas barbearias com suas gaiolas, olhou os operários
na construção, encarou pessoas e vitrines de lojas. Nada
aconteceu. Correu logo a notícia. Chico Olho estava curado. Logo
acorreram os amigos. Foram encontrá-lo num boteco onde, um dia,
tinha aguado todas as cervejas.
- Chico! Que milagre é este?
- Milagre nenhum. Estou com catarata nos dois olhos.
- E...tudo bem?
- Não de todo.
- Como assim?
- Ainda seco uma samambaia chorona num piscar de olhos.
Mas enfarte, nunca mais!
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| Edição nº 191 de 6 de
abril de 2002 |
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Cidade musical
A tradição musical de S. João del-Rei
remonta ao século XVIII. A música sacra embalou o sono e
o sonho dos mineradores, encantou os súditos de dois imperadores,
soou Te-Deums na proclamação da República, deu graças
à Ferrovia e à Indústria Têxtil, tocou misereres
na destruição do nosso patrimônio e encomendou almas
nas ditaduras, passadas ou mais recentes. E permanece.
Esta tradição não é só
erudita. No começo do século XX, a Ribeiro Bastos alegrava
os foliões nos bailes da Filarmônica durante o Carnaval. No
Clube X, no Boi Gordo, no Rancho Custa Mas Vai, compositores sanjoanenses
compunham polcas, maxixes, valsas, marchas-rancho e até samba. A
religião, em del-Rei, nunca deixou de ter fundo musical, seja da
Ribeiro Bastos, seja da Lira Sanjoanense. O Carnaval também nunca
deixou de ter seus compositores. Sem esquecer os concertos da Orquestra
Sinfônica e as temporadas de operetas que José Viegas e o
maestro Cavalcanti realizavam. Estão aí a Banda Teodoro de
Faria, que completa 100 anos, a Santa Cecília, a Banda do Regimento,
a Camerata, o Coral do Conservatório e os seresteiros e sambistas
de sempre. Esta é uma cidade pautada pela música, é
o que se pode dizer.
Tudo isto vem a propósito da publicação
do Anuário Musical de S. João del-Rei, lançado agora
por iniciativa de Sérgio Farnese, um destes remanescentes desta
espécie em extinção que são os idealistas,
gente que ainda acredita que é preciso fazer alguma coisa sem esperar
nem reconhecimento nem vantagens financeiras. Ou políticas, diga-se
de passagem.
Através do apoio do BDMG Cultural, Sérgio
pediu a colaboração de Aloísio Viegas e Pedro Farnese
para publicar, mensalmente, o repertório musical das nossas
duas orquestras bicentenárias. Uma iniciativa que foge aos padrões
convencionais dos folders turísticos e que só em S. João
del-Rei, em todo o País, pode ser feito. Segundo Sérgio,
são 500 intervenções musicais ao ano de peças
sacras de compositores sanjoanenses como o Padre José Maria Xavier,
Antônio dos Santos Cunha e Martiniano Ribeiro Bastos, além
de outros compositores da época como Manoel Dias de Oliveira, Emerico
Lobo de Mesquita e o Padre José Maurício Nunes Garcia.
Não se atinou ainda, em nossa cidade, para o que
representa nossa música sacra como filão turístico.
Aliás, é enorme o potencial turístico de nossas festas
religiosas. E não estou falando só da Semana Santa.
Turismo é, por natureza, uma atividade típica
da iniciativa privada, porque é ela que se beneficia diretamente
desta atividade. Mesmo quando não é “do ramo”, a empresa
ganha em imagem se investe em cultura e turismo. Nada é mais turístico
do que a programação que a Industrial Fluminense tem promovido,
com recursos próprios, na Praça S. Francisco. A isto chama-se
responsabilidade social da empresa.
Mas se à iniciativa privada cabe papel preponderante
na atividade turística, seu parceiro natural na empreitada é
o Poder Público. Especificamente, em matéria de turismo,
uma das responsabilidades que cabe ao Poder Público é a confecção
de uma folheteria de qualidade e informativa, que atenda não só
ao turista que chega à cidade, mas também às agências
de viagem, pólos emissores, vendedoras de roteiros e pacotes turísticos.
Em que hotel ou pousada da cidade se pode encontrar
uma folheteria turística de qualidade?
Sérgio Farnese cansou de esperar pelo Poder Público.
E acabou mandando imprimir um dos mais curiosos, inusitados e importantes
folhetos turístico/culturais de que a cidade se ressentia. Quando
é que o Poder Público seguirá seu exemplo? Ou dependeremos
sempre dos idealistas?
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| Edição nº 190 de 30
de março de 2002 |
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São Miguel e Almas
As Irmandades em S. João del-Rei estão na raiz
da fundação da cidade. São das primeiras décadas
do século XVIII. As Ordens Terceiras surgiram um pouco depois. Os
pobres arregimentaram-se nas Irmandades; as elites nas Ordens Terceiras.
Não era só uma questão de devoção
ou a garantia de um lugar no paraíso. Ou pelo menos no purgatório.
As Irmandades cumpriam papel social relevante. Davam assistência
aos enfermos/irmãos, arcavam com despesas do enterro em caso de
desenlace fatal, socorriam seus filiados em casos de extrema necessidade.
E, eventualmente, alimentavam os que, por delitos cometidos, iam parar
na cadeia. Porque no século XVIII o poder público prendia,
sentenciava e fim de papo. Comida na prisão? Nem pensar. Se a família
do condenado ou a Irmandade à qual pertencia, não lhe levava
as refeições, ninguém estava preocupado com a sua
sobrevivência. Talvez tivesse água para beber. Mas nada sólido
para comer. Não se falava em direitos humanos. Ou melhor, os direitos
humanos cessavam quando os deveres tivessem sido transgredidos. Podia não
ser uma norma muito humanitária, mas esta era a regra.
Portanto, fazer parte de uma Irmandade não era
só um pretenso passaporte para o céu. Envolvia motivos bem
mais práticos e imediatos aqui na terra. Não pertencer a
uma Irmandade era não só ter parte com o diabo, mas
também prova de burrice. Obviamente, as Irmandades, muito mais que
as Ordens Terceiras, proibidas aos pretos e pardos, os de “sangue impuro”,
viviam de esmolas e donativos precários. As Ordens Terceiras, ricas,
tinham sempre dinheiro em caixa. Em Ouro Preto, até faziam empréstimos
ao próprio poder constituído, cobrando juros, é claro.
Vivendo e aprendendo. Descobri, recentemente, que S.
Miguel é o protetor dos botequins. Vejam só. Secularmente,
em muitas tavernas, existia um pequeno cofre da Irmandade de S. Miguel
e Almas. E ainda os há, em muitos botequins. Se quiser confirmar,
como eu o fiz, é só percorrer os botecos da cidade. Vai encontrar
sobre o balcão, quase escondido, um pequeno cofre para arrecadar
donativos para S. Miguel e Almas. No antro do pecado, no berço do
vício, pois é assim que muita gente adjetiva o botequim,
a arrecadação é mais segura: entre uma dose e outra,
o freguês tem um meio arrependimento, talvez pense na morte, e procura
o aval do Santo no Juízo Final. É honorário antecipado
de um advogado celestial. E custa barato: uma simples moeda de vez em quando.
Decidi colocar uns cofres nos botecos que freqüento.
Seguindo tradição já esquecida, vou fazer um oratório
externo na minha casa, em louvor a S. Miguel. Estou em débito com
o Santo Guerreiro. E pensando bem, apesar da minha dívida, ele não
me tem negado proteção neste cinqüenta anos de botequim.
Felizmente.
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| Edição nº 189 de 23
de março de 2002 |
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Pílulas
Há duas semanas atrás, o Secretário
de Cultura declarou à Gazeta que a prefeitura gastou 200 mil no
Carnaval. Fiquei surpreso. Comecei a pensar onde foi gasto tanto dinheiro.
Com a terceirização, que incluiu som, iluminação,
banda e faxina, foram gastos 31 mil, pelo que se sabe. Os banheiros químicos
não apareceram. Não se construiu arquibancada. As bandas
pré-carnavalescas levaram uma mixaria: não somam oito mil
reais, juntas. A ornamentação foi a mesma de dois anos atrás.
Mesmo assim, com reparos, mão-de-obra e quebrados, vá lá,
5 mil. Bem, tem a imprensa, o marketing. Que imprensa? Que marketing? Tá
bom. Mais 15 mil. E o reforço policial, alimentação?
Quanto? Outros 15 mil. Coloquemos mais 15 mil de “sei lá o que”.
Esta soma deu 89 mil. Onde se gastou os outros 111 mil? Duzentos mil era
o que seria gasto se as escolas tivessem recebido a subvenção
de 12 mil cada, mas não houve desfile de escolas. O secretário
deve ter se equivocado. Ou melhor, seria bom que a Secretaria publicasse
o balanço dos gastos com o Carnaval.
Uma das coisas que o governo federal mais alardeia são
os avanços no sistema educacional do País. Os dados estão
divulgados na TV. Tudo bem. Não tenho como contestar números
porque não disponho de outros. Mas na Internet é possível
encontrar, mais uma vez, as pérolas que os alunos derramam nas provas
dos vestibulares. Algumas delas:
“O nosso ambiente ele estava muito estragado e muito
poluido por causa que os outros não zela o ar puro”.
“Porisso eu luto para atingir os meus obstáculos”.
“Todos os fiscais são subordinados. É a
propina”.
“A natureza foi inventada há mais de 500 anos”.
“Isto tudo é devido aos raios ultra-violentos”
O País inteiro espantou-se com o dinheiro vivo
encontrado na sede da empresa Lumus, de Roseana Sarney. Um milhão
e trezentos e quarenta mil reais. Confesso que não me espantei.
Achei a quantia até um tanto ridícula. Para quem fundou uma
dinastia no Maranhão que já dura 36 anos, quando Sarney (o
imortal, da Academia Brasileira de Letras) foi eleito governador daquele
Estado, destronando uma outra dinastia, a de Vitorino Freire, em 1966,
um milhão e pouco é bagatela. Agora, diz-se que era dinheiro
de campanha. E eu que já estava acreditando que era para pagar o
vale transporte dos funcionários da Lumus? Pelos próximos
500 anos, quero dizer. Aliás, Maranhão é nome de Estado,
mas é também o aumentativo de maranha, que o dicionário
registra: embrulhada, confusão, astúcia, esperteza...
A mania de isenção em S. João del-Rei
continua. A última isenta os funcionários da Prefeitura do
pagamento de impostos municipais. Todos. Os que ganham pouco, os que ganham
mais ou menos e os que ganham razoavelmente. Puro corporativismo. Puro
populismo. Os vereadores estão garantindo os votos da futura reeleição.
Enquanto isto, o DAMAE está indo à falência. Quando
a inadimplência aumenta não é à toa.
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| Edição nº 188 de 16
de março de 2002 |
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Pai e filho
De repente,
descobri que nunca disse a meu pai
o quanto o admirava.
E o quanto a minha vida
na sua buscava a fonte
de maneira insuspeitada.
E o quanto me vejo hoje,
dele, imperfeito espelho.
Será sempre assim?
Cobre-se a mãe de carinhos,
talvez só recompensando
os que foram oferecidos
dos cueiros à velhice,
e ao pai se pede a bênção,
dinheiro,
e, quase nunca, conselhos?
Talvez as filhas não sejam
exatamente como os filhos:
seguem o exemplo de Hamlet:
“meu pai, minha mãe, uma só carne,
portanto, minha mãe”.
Ou meu pai, diriam elas.
Será que, sendo homens, os dois,
filho e pai se enternecem à distância,
seguram emoções que não externam,
e é apenas em reclusão
que se comunicam em sentimentos?
Será que os machos,
por necessidade orgânica,
ou cultural – quem sabe? –
se fecham às afeições paternas
e às próprias afeições resistem?
Que filho diz ao pai “te amo”,
a não ser quando são tão pequenos
que desentendem o que estão falando?
E descobri, de repente,
que nunca disse a meu pai
mais do que o necessário.
Ou o que me era necessário?
Serei o único?
E não será de mão dupla
este mistério?
O pai se expõe ao filho,
abertamente,
como alisa o cabelo às suas filhas?
E, no entanto, pai e filho,
ambos sabemos,
são mais do que só continuidade.
E quando o descobrimos
é tarde pra reversões,
fazer presente o passado.
É que entre pai e filho,
se não se aponta pecados,
não se dá absolvições.
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| Edição nº 187 de 9 de
março de 2002 |
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Por gratidão
A pelada foi na quadra do Athletic. Mas, começou muito
cedo e durou quase sete horas, com intervalos para natação
e belisquetes de todo tipo: salame, lingüiça, bolinho de feijão,
pão de queijo, pastéis. Eu tinha exatos 17 anos e dez meses,
férias de julho. Cursava o terceiro ano do chamado Científico,
do Colégio Santo Antônio.
Cheguei em casa já com um pouco de dor de cabeça
e uma certa fraqueza nas pernas. Foi difícil subir as escadas que
me levavam ao segundo andar do casarão onde, hoje, fica o Mosteiro,
no meio da rua da Prata. Era onde meu pai morava. Era tudo enorme, os quartos,
as salas, um corredor interminável por onde se chegava à
copa, cozinha, dispensa e escritório de meu pai, nos fundos. Vasto
terreno que ia até o Rio Acima, infestado de gambás e ratazanas
que o nosso cão, um policial alemão, King, vivia perseguindo.
À noite, eu já estava com febre de 40 graus,
dores por todo o corpo, diarréia líquida e em jatos. Foi
assim que o Dr. Cid Rangel me encontrou, molhado em suores, apático,
frágil, um trapo, saco de carne e ossos jogado sobre a cama. Cid
Rangel receitou um antitérmico e recomendou banhos intermitentes,
durante toda a noite. Meu pai arrancou a banheira do seu lugar, levou-a
para meu quarto, colocou-a do lado da cama e, durante a noite inteira,
fui mergulhado na água de hora em hora.
O diagnóstico não tardou: febre tifóide,
hoje uma doença da qual mal se ouve falar. Se quiserem, uma gastroenterite
de proporções assombrosas, uma infecção intestinal
generalizada. Foram três meses de cama, com a assistência permanente
do Dr. Cid Rangel. Não havia antibióticos. Estávamos
em 49, lá se vão 53 anos. Cid receitou o único medicamento
disponível: Intestífugo. Era vendido em cápsulas de
vidro cujo conteúdo se mistura em meio copo d’água. Tinha
gosto de fel. Deve ter sido a mistura que o soldado romano ofereceu a Cristo
para saciar a sua sede.
Cid foi claro: “não há mais nada a fazer;
se ele reagir, sobrevive”. Reagi. Mas não foi só a reação
orgânica. Foi o carinho, a dedicação de meus pais,
sempre ao lado da cama e, mais que tudo, a assistência sacerdotal
de Cid Rangel que restauraram as minhas condições físicas.
Foram noventa dias de socorro médico, três
a quatro vezes por dia. Quando saí da cama, tive que aprender a
andar de novo. Dificilmente uma balança registraria meu peso.
Claro, houve muitas orações de minha mãe,
pois eu, naquela época, já não era de muito
rezar, pelo menos orações convencionais. Para mim, pelo resto
do meu tempo, foi o Dr. Cid que, me trouxe de volta à vida. Eu o
admirei à distância, pela sua competência, pelo seu
amor à Medicina, por sua irrepreensível conduta como cidadão,
como político e como médico. Eu o respeitei em silêncio,
com a gratidão dos ressuscitados. Sua morte tocou o fundo da minha
sensibilidade. Ou do que resta dela que, a cada ano, diminui sensivelmente.
É que estou me distanciando de emoções, endurecido
pela visão do que vejo acontecer, pela terrível constatação
de que já são poucos os seres humanos com a integridade e
o sentido profissional de Cid Rangel. O que é uma pena.
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| Edição nº 186 de 2 de
março de 2002 |
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Dengue
Evaristo, 42, casado, dois filhos, chegou à repartição
naquela manhã de segunda feira e teve a sensação de
que havia algo errado. Das doze mesas, cinco estavam sem seus ocupantes.
Já ia tirando o paletó, quando o chefe do setor o chamou.
Era um obeso, nos limites de um elefante, de rosto avermelhado e um bigode
que mais parecia um espanador, vasto, felpudo, cobrindo as narinas e descendo
para os cantos dos lábios, à maneira dos velhos portugueses
donos de botequim. Era formal no trato.
-Seu Evaristo, estamos desfalcados. Há cinco funcionários
com dengue, de modo que o senhor vai ter que fazer o trabalho de dois deles,
além do seu.
Com chefe não se discute. Ainda mais quando emprego
anda difícil e o patrão usa um bigode de Viking.
Nunca se sabe se ele não tem uma adaga pendurada
na cintura. Evaristo foi para a mesa e reparou que os processos extras
já estavam devidamente empilhados, à sua espera. Neste dia,
saiu da repartição às 20 horas. Teve que dar explicações
à mulher que não se convenceu e telefonou para o Téo,
colega do marido na repartição, para comprovar. O Téo
também tinha saído às 19h50.
Na terça-feira já eram oito mesas desocupadas.
-Seu Evaristo, novas baixas. Dengue. É uma desgraça.
A epidemia está avançando. A Diretoria comprou repelente
para os funcionários. Está aqui o seu. Tivemos que dividir
o trabalho. E como o de ontem não foi completado, a hora de almoço
vai ser só de 15 minutos. Eu mesmo vou ter que examinar alguns processos.
Realmente, o bigodudo estava com uma pilha sobre a mesa,
bem menor do que a que ele encontrou sobre sua própria mesa, é
claro. Desta vez, saiu às 23 horas e ainda deixou serviço
acumulado. A mulher estrilou:
-Tá de sacanagem comigo, ô Vavá?
Você não me conhece!
-Pois tô te falando, Leda! É a dengue!
-Que mané dengue! Isto tá me cheirando
é a dengo, isto sim! Olha lá! Você não me conhece!
Vou telefonar para a casa do Téo.
-Não adianta, Leda. O Téo foi um dos que
pegou. Nem foi lá hoje!
A mulher telefonou assim mesmo. O Téo estava com
um febrão de 40 graus.
Na quarta-feira, foi entrando no prédio e o porteiro
avisou:
-Seu Evaristo, o superintendente quer falar com o senhor.
Segundo andar.
Foi. O Superintendente, exalando repelente, foi claro:
-O Sr. Matias, seu chefe, pegou dengue. O sr. vai substituí-lo
e coordenar os trabalhos da repartição que, aliás,
estão emperrando todas as outras repartições, que
também estão funcionando com um terço do pessoal.
Há 130 processos em atraso. O pessoal do seu setor, que agora
são só quatro,vai receber uma quentinha e um refrigerante,
lá mesmo. O horário de almoço foi suspenso. E hoje,
como o seu chefe adoeceu, o senhor vai representá-lo na reunião
do departamento, às 18 horas.
Entre reunião e processos, Evaristo não
teve tempo de comer a quentinha. Não deu tempo nem para um cafezinho.
A mulher ligou de hora em hora para confirmar sua presença na repartição.
Chegou em casa a uma da madrugada e levando trinta processos para examinar,
processos que nem pudera abrir durante todo o dia. A mulher sentenciou:
-Mais uma vez, Vavá! Só mais uma vez! Experimente
chegar em casa a esta hora, só mais uma vez! Procuro um advogado!
Você não me conhece!
Evaristo foi dormir às quatro da manhã,
debruçado sobre a papelada que trouxera da repartição.
No dia seguinte, acordou às nove horas. Atrasado.
-Quer ficar desempregado, Vavá? – cutucou a mulher.
Evaristo ligou para a Defesa Civil.
-Escuta aqui, ô meu. Onde é que está
o foco mais terrível da dengue?
-No Ferro Velho do seu Anastácio. Por que?
-Estou indo pra lá, meu chapa. Tenho que pegar
dengue. Prefiro o risco da doença a morrer de trabalhar e perder
a mulher. Tiau.
E foi. Passou a manhã inteira zanzando no Ferro
Velho do Anastácio, sem camisa. Lá pelas tantas, ficou só
de cuecas. Depois do meio dia foi trabalhar. Encontrou um aviso na porta
do edifício: “Por causa da dengue, não estamos funcionando.
Só reabriremos daqui a 10 dias”.
Evaristo foi internado, no domingo, com suspeita de dengue
hemorrágica.
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| Edição nº 185 de 23
de fevereiro de 2002 |
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Ainda Momo
Perdoem-me insistir no tema, mas o que aconteceu no Carnaval
de 2002 precisa ficar na memória dos sanjoanenses. Por onde andei
nesta semana, as reclamações surgiam, de todos, indistintamente.
E passado o vendaval, o verdadeiro, das chuvas que caíram, e o dos
descalabros acontecidos, ninguém se entende, ninguém entende
e todo mundo procura um culpado. Mas reclamar de que? Reclamar por que?
Em nenhum lugar do Brasil, o poder público terceiriza
Carnaval. Se o fizer, terá que ser feito sem qualquer ônus
para os contribuintes. Se é a Prefeitura que vai pagar o som, a
iluminação, banda e serviços de limpeza, faça
ela mesma a concorrência pública, já que tem órgãos
específicos para isto. Se vai ceder o espaço público
para ser arrendado para terceiros, não há justificativa para
que ela mesma, através da sua Secretaria de Administração
ou Fazenda, não assuma esta responsabilidade, particularmente quando
não tem mais nada a fazer, já que eliminou o desfile dos
blocos e escolas de samba por não ter ouvido os clamores que, desde
julho de 2001, as agremiações carnavalescas gritavam aos
quatro ventos: é preciso planejar o Carnaval com antecedência.
Então, reclamar de que, se planejamento foi exatamente o que não
houve?
O chefe de gabinete, com inocência angelical, afirma
“que a empresa contratada teve um prejuízo de quase dois mil reais
e que este prejuízo poderia ser da Prefeitura”. Ora, prejuízo
teve a Prefeitura, pagando 31 mil reais à empresa contratada para
fazer um serviço que ela mesma poderia ter feito. Ou a empresa recebeu
31 mil sem sua margem de lucro? Expliquemos o fato didaticamente. Se a
firma contratada recebeu 31 mil para pagar som, iluminação,
banda e pessoal de limpeza, não teve aí nenhum prejuízo.
E certamente deve ter embutido neste montante sua taxa de administração,
ou seria uma empresa filantrópica, não uma empresa comercial.
Se a empresa só arrecadou 2.600,00, cobrando as taxas de barraqueiros
e ambulantes, como afirma, teve lucro, pois não pagou nada à
Prefeitura por esta arrecadação. Mas isto tudo é pouco
relevante. Se a Prefeitura resolveu terceirizar, a firma não tem
nada com isto. O relevante mesmo foi o Carnaval que existiu, ou seja, nenhum,
com as exceções. A manada solta, como previsto, foi para
as ruas no Vamos a la Playa, o que é legítimo. O Alvorada
soltou os foguetes que queria, honrando a tradição do foguetório
sanjoanense. O Bloco da Chácara fez seu modesto percurso, com bateria,
o que é elogiável. Os Cambalhotas deram muitas:esporte é
cultura, não é? Os flamenguistas conseguiram, afinal, a sua
primeira vitória neste ano, nas ruas, com o Coração
Rubro-Negro. Tudo dentro do figurino. Boa parte da população
se mandou para Tiradentes e entupiu aquela cidade, inclusive os turistas,
que em S. João del-Rei só dormiram. Então, reclamar
de que? Não era exatamente isto que se esperava?
Faltaram os banheiros químicos. E daí?
Nunca os tivemos em número suficiente. E mesmo quando existiram,
as ruas continuaram servindo de mictório, porque educação
não é exatamente o forte do povo brasileiro. Mas entre
não ter e ter alguns vai uma grande diferença.
O secretário de Turismo diz que não teve
nada a ver com a terceirização. A firma contratada diz que
cumpriu todos os ítens do contrato. Na terça-feira, o prefeito
liberou os carros de som para trafegarem onde quisessem: as ruas estavam
vazias. Então, por que tantas reclamações? Este era
o Carnaval previsto. O próprio presidente da AESBRA acha que desfile
de escolas de samba deve ficar em segundo plano. Deve ser coisa de desocupados,
parece.
Se alguém quiser achar um culpado não precisa
procurar muito. Não é a firma contratada. Não é
o secretário de Turismo, que não tem autonomia para decidir
nada, nem dispõe de recursos financeiros que possa gerir. Nem o
presidente da AESBRA, mesmo com declarações tão disparatadas.
Culpado é o prefeito mesmo, que manda, que desmanda, que decide,
que transgride, que não ouve ninguém e está muito
pouco interessado em fazer um Carnaval diferente deste que aconteceu. Trata-se
apenas de falta de vontade política. E como foi eleito por enorme
maioria, o prefeito deve estar certo. É este o Carnaval que a cidade
tem. Reclamar de que? Tudo aconteceu como programado. E estamos conversados.
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| Edição nº 184 de 16
de fevereiro de 2002 |
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Desfiles
O desfile das Escolas de Samba do Rio continua sendo o maior
espetáculo da terra. Só mesmo o presidente da AESBRA é
que acha, para espanto das agremiações carnavalescas cujos
interesses ele deveria representar, que desfile de escolas deve ficar em
segundo plano no carnaval sanjoanense . É como se o presidente do
Vasco declarasse que os vascaínos deveriam torcer pelo Flamengo...
Mas vale, sobre o Rio, algumas observações.
A primeira delas é constatar que ver o desfile pela TV não
tem nada parecido com a visão que se tem ao vivo, do próprio
sambódromo. Por esta razão, não me lembro de nenhuma
vez em que a consulta por telefone, feita pela Globo aos telespectadores,
tenha coincidido com o resultado oferecido pelos jurados.
A feérica iluminação no sambódromo,
por outro lado, atendeu muito mais à TV do que ao público
presente na passarela do samba. Os efeitos, na TV, são muito mais
impressionantes. Na passarela, depois do primeiro impacto, ninguém
presta mais atenção às mutações cromáticas.
O que chama mesmo a atenção são as escolas de samba.
E quem soube iluminar bem as alegorias levou vantagem, como a Mocidade,
a Grande Rio e a Viradouro. Iluminação de alegorias não
exige equipamentos sofisticados de última geração,
como os usados pela Mangueira: embora o iluminador fosse um especialista
em iluminação de espetáculos teatrais, o conhecido
Quinderé, os carros, lindíssimos, foram mal iluminados.
O avanço tecnológico foi surpreendente.
A movimentação das esculturas gigantes ganhou sutilezas que
só o cinema de ficção domina com propriedade. Não
faltaram exemplos na passarela, como o mágico da Mocidade, o tigre
da Porto da Pedra, as mulas-sem-cabeça da Grande Rio, a águia
da Portela (excepcionalmente bem confeccionada) e muitos outros efeitos
especiais.
A teatralização está ganhando terreno,
não só nas Comissões de Frente (Mangueira) mas também
em alas especiais, onde os componentes encenam e interpretam personagens
sem preocupação com o samba enredo.
Continua, entretanto, a profusão de “ cangalhas”,
armações que os componentes levam às costas e que
foram criadas por Joãozinho Trinta, em meados da década
de 70, para substituir os enfeites de mão. Estas armações,
usadas por todas as escolas e em quase todas as alas, muitas vezes são
de mau gosto e mal elaboradas.
Os enredos continuam sendo mal explicados. Na TV, como
os comentaristas têm em mãos a sinopse descritiva, o telespectador
tem muito mais noção dos enredos do que aqueles que presenciam
o desfile na Sapucaí. Somente uma escola, a S.Clemente, utilizou
estandartes explicativos, favorecendo o entendimento.
Houve também aberrações injustificadas.
Na Mangueira, a reprodução de um arraial de festa junina
nordestina estava ornamentada com lanternas japonesas de papel de seda,
completamente fora dos nossos padrões culturais. No arraial da Mangueira
não havia uma única bandeirinha, o elemento mais brasileiro
e popular das festas juninas.
No balanço final, fica a certeza de que é
cada vez mais difícil julgar as escolas de samba. A campeã
é aquela que comete menos erros e sabe resolver imprevistos na hora
do desfile. O nível de qualidade é geral e altíssimo.
Para S.João, restou um consolo: o samba enredo
da Unidos da Ponte, que homenageou Tancredo, ganhou o Estandarte de Ouro
da Globo. Com toda a justiça era o melhor samba do grupo de acesso.
E a escola não fez feio.
Gostaria de estar escrevendo sobre as escolas de samba
de S.João Del-Rei. Mas aqui, o Poder Público parece estar
interessado em outras coisas. Não sei exatamente em que coisas.
Talvez na próxima licitação discutível.
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| Edição nº 183 de 9 de
fevereiro de 2002 |
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Silêncio
Para mim, a cidade hoje mergulha no silêncio. Pode
ser que haja, e certamente haverá, uma grande algazarra nas ruas,
e um alarido confuso queira demonstrar que há uma festa acontecendo.
Haverá música no ar. Música? Algo parecido talvez.
Mas como não ouvirei o apito do mestre de bateria, conclamando os
ritmistas, tudo o mais será silêncio.
A choldra, liberando instintos, buscará na bebida
a animação necessária para justificar o Carnaval.
A patuléia formará arrastões humanos e, desafinadas,
entoará qualquer coisa parecida, mas semelhante, a ritos tribais
que, no passado, deram autenticidade à cultura popular. Estes grunhidos
de hoje, dizem, é o som da modernidade. Mas como não ouvirei
os tamborins em harmônicos contra-pontos, tudo o mais será
silêncio.
Como manada em estouro, a massa humana gritará
slogans de torcidas de futebol. O cheiro acre de urina invadirá
as ruas centrais. Em algum lugar a alegria cederá espaço
à violência. As caixas sonoras amplificarão este caos
melódico, no qual será difícil reconhecer qualquer
traço de poesia. Mas, como não ouvirei os puxadores entoando
sambas enredo, tudo o mais será silêncio.
Aos berros, os vendedores ambulantes anunciarão
os seus produtos: milho verde, cerveja, cachorro quente, a pinga da roça.
A onda de corpos, esbanjando suores no encontro e desencontro, no empurra,
no redemoinho, fará a festa. Não faltarão os “Mengo”
e os “Galo”. Mas como não ouvirei o canto uníssono das alas
no refrão que incendeia a Escola de Samba, tudo o mais será
silêncio.
Os bares fecharão suas portas com balcões
improvisados e negarão acesso aos sanitários. Mas correrá
dinheiro. Os desavisados lotarão hotéis e pousadas. Um grande
número de turistas, entre aspas, dormirá dentro dos carros
turbinados com equipamentos de som de vários megawatts. Mas como
não ouvirei as marcações, nem os chocalhos de platinelas,
nem os repiniques, tudo o mais será silêncio.
Pode ser que, em algum boteco da periferia, no Senhor
dos Montes, no Bonfim, no Tijuco, no Matosinhos, sambistas da velha guarda
se reúnam para uma roda de samba tranqüilo, sem gritos, sem
desespero, e ali se possa ouvir o velho Silas de Oliveira, Mano Décio
da Viola, Ismael Silva, Monarco, Candeia, Nelson Sargento, Martinho da
Vila, Paulinho da Viola, e os nossos Agostinho França, Hélio
Alex, Pistilim, Roberto Wolbert, Tirapele, Chacal e Nilton Zeferino. Mas
como estarei enclausurado em minha casa, nem isto ouvirei, e tudo o mais
será silêncio.
E este silêncio vem da insensibilidade. Vem
da falta de respeito com que as entidades carnavalescas foram tratadas
pelo poder público este ano. E assim só restará o
silêncio. E não será só neste ano, porque sensibilidade
não é só coisa de berço como também
de longo aprendizado cultural. E depois de uma certa idade, não
dá mais para aprender.
O problema do Carnaval em São João del
Rei é mais simples do que eu pensava. É que desfile de Escolas
de Samba não dá dinheiro, nem voto. Ou seja, não interessa.
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| Edição nº 182 de 2 de
fevereiro de 2002 |
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Divagações I
Há luas que não deveriam
ser tão cheias quanto são.
Perturbam.
Há mulheres que não deveriam
ser tão curvas quanto são.
Perturbam.
Há espelhos que não deveriam
ser tão fiéis quanto são.
Perturbam.
Há paixões que não deveriam
ser tão humanas quanto são.
Perturbam.
Há vidas que não deveriam
ser tão mortas quanto são.
Perturbam.
Há Credos que não deveriam
ser tão Pilatos quanto são.
Perturbam.
Há verdades que não deveriam
ser tão duvidosas quanto são.
Perturbam.
Há mentiras que não deveriam
ser tão necessárias quanto são.
Perturbam.
Há sons que não deveriam
ser tão silêncio quanto são.
Perturbam.
Há começos que não deveriam
ser tão finais quanto são.
Perturbam.
Há deuses que não deveriam
ser tão deuses quanto são.
Esta é a maior perturbação.
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| Edição nº 181 de 26
de janeiro de 2002 |
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Botiquineiros
Eles são cheios de manias. Os freqüentadores
de botequim são gente de uma outra espécie, talvez porque
estejam sempre em órbita. Não, não. Não é
esta órbita de viagens, “todo mundo doidão”. Outra órbita,
meu caro, literalmente, fora desta rotina insuportável de trabalhar-ganhar
dinheiro-assitir TV e ainda achar que o que o Jornal Nacional diz é
que é verdade. Ou a Veja. Ou Isto é. Os botiquineiros têm
sua própria concepção do mundo. Cada um a sua. E não
se irritam com as concepções diferentes. Para quem os observa
à distância, parecem normais, comuns. É o detalhe que
os distingue, o momento, o gesto, uma frase ou o repentino silêncio.
No Penna’s, há os que, de terça a sábado,
jamais se sentam à mesa. É no balcão que ficam bebericando.
Mas no domimgo, nada de balcão: sentam-se confortavelmente nas cadeiras
e pedem um mocotó ou dobradinha.
Há os que só tomam um tipo de cerveja:
outra não serve. E não é por paladar apurado. Questão
de tradição. Em BH, conheci um botiquineiro que só
tomava cerveja quente. Ele entrava na Gruta Metrópole, sentava-se
solitário numa mesa do fundo e pedia seis cervejas de uma vez. Era
a quota do dia. Ou da noite. Como não eram geladas, vinham
a seis cervejas num pedido só, todas abertas. Perguntei-lhe
que razão havia para tomar cerveja quente.
-Tenho uma faringite crônica. O médico proibiu
gelado. No começo era um purgante. Agora já não faz
diferença. E tem uma vantagem; ninguém fila a minha cerveja...
No bar do Antônio José, na João da
Mata, há dois níveis. Para chegar ao balcão é
preciso subir alguns degraus. Tem botiquineiro que nunca sai do primeiro
nível, nem para ir ao banheiro, que fica no segundo. É arriscado
tentar subir os degraus. Nem sempre é fácil, depois de umas
e outras, saber como anda nosso equilíbrio quando se levanta da
mesa.
No Zé da Bia ainda rola, com certa frequüência
e para certos freqüentadores, a “com mel”, uma das misturas mais explosivas,
desde o tempo da Comarca do Rio das Mortes. Ali, a rotatividade é
tão grande que mesas e cadeiras ficam encostadas na parede. Se o
freguês tem intenção de permanência mais
prolongada, arma seu próprio reduto.
Na padaria do Léo, o costume é beber em
pé, junto ao balcão, sentindo o aroma do pão fresco
e de doces caseiros. É das poucas padarias do mundo onde trigo e
álcool convivem em harmonia, embora seja bíblico
o binômio pão e vinho...
Há também os botiquineiros glutões.
A bebida é essencial, mas o tira-gosto imprescindível. Escolhem
o boteco pela comilança: segunda, feijão amigo no Espaço
Livre; terça, torresmo no Carlitos Bar; quarta, lingüiça
no Feitiço Mineiro; quinta, pé-de-porco na Tia Maria; sexta,
panqueca no Antônio José; sábado, chouriço no
Penna’s; domingo, mocotós e dobradinhas dando sopa em vários
botequins. Sem contar os que andam léguas por uma rabada ou se arriscam
à subida do Senhor dos Montes ou S. Geraldo porque ouviram falar
de uma buchada genial.
Há os botiquineiros falantes e os introspectivos.
Os que gritam e os que sussurram. Os que se dizem poetas. Os que se acham
intelectuais. Os mansos e os exaltados. Os que se intrometem na conversa
da mesa ao lado e os que entram e saem sem dar uma boa noite a quem
quer que seja. Sem ofensa. Os que saem cambaleando e os que recusam qualquer
ajuda:
-Estou na minha. É que eu ando balançando
mesmo. Coisa de nascença.
E ninguém duvida. Porque uma coisa que botiquineiro
respeita é a individualidade de cada um da irmandade. Assim seja.
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| Edição nº 180 de 19
de janeiro de 2002 |
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Psicologia
Flaviano Teodoro formou-se em medicina e especializou-se
em radiologia. Foi em B.H., quando se especializava, que conheceu Wilma,
sanjoanense, que estava terminando o curso de psicologia. Namoro curto,
noivado rápido e casamento urgente. Não é o que está
pensando, não. Urgente pela paixão. E se estabeleceram em
São João del Rei, onde Wilma tinha herdado uma pequena casa
de seu pai.
Teto garantido, comida garantida pelo rendimento dos
dois, dava para ir levando. Decidiram que filhos, só mais tarde,
quando pudessem ter condições de comprar uma casa ou apartamento
maior, mais confortável, talvez um sítio nas Águas
Santas. Amavam-se. E o que é mais preciso para, no primeiro momento,
correr tudo bem se havia cama e comida? Ou devo dizer só comida
para fazer um trocadilho?
Flaviano se ajeitou no Hospital das Mercês. Wilma
fez concurso e acabou na Funrei, preferindo a carreira acadêmica
em tempo integral. Logo fizeram amigos,uma roda alegre, como alegre é
quase tudo quando se é jovem, ainda que haja atritos, pequenas desavenças,
bebedeiras ocasionais e agressões que acabam no roçar de
corpos sob os lençóis.
E foi que Flaviano se encantou pela sua assistente no
serviço de radiologia. Um tipo mignon, mas de olhos mongóis,
cintura fina e ancas largas, discreta de gestos, mas de andar ondulante,
como se soubesse que seus encantos residiam no balanço das nádegas.
Começaram um caso. Honesto, Flaviano resolveu ser ético.
Chegou em casa e foi direto:
- Wilma, aconteceu. Não vou esconder. Estou tendo
um caso com minha assistente.
Wilma não se abalou. Por dentro, estava uma brasa.
Mas gelo por fora. Pensou um pouco antes de responder.
- Olha aqui, Flaviano, se você pensa que eu vou
desistir de você está enganado,esquece. Estou na minha casa.
Nos meus cômodos. Se você tá afim de outra mulher, tudo
bem. Te faço uma proposta: você fica com ela e eu vou
ser sua amante.
Flaviano tremeu nas bases.
- Como assim?
- Assim, nada. Você fica com ela. E eu sou a amante.
Invertemos os papéis. Simples.
Pega suas coisas e se manda. Estou te esperando
na cama quando você quiser.
Confuso, Flaviano topou. E passou a namorar a assitente
e dormir com as duas. Mas não tinha casa. A namorada era uma menina
que vivia com os pais. Passou a ser inquilino de motel. Com duas semanas,
começou a perceber que não era tão fácil assim.
Falou com a amante:
- Não dá pra lavar a minha roupa aqui em
casa, não ?
Wilma foi taxativa.
- Sou amante. Meu compromisso é sexo. Que casa?
- E almoço? Não aguento mais comida a quilo.
- Problema seu. Almoça no Hospital. Foi lá
que você arrumou namorada, não foi? Aqui estou te esperando
na cama. É só.
No fim do primeiro mês Flaviano pesou os prós
e os contras. E chegou à conclusão de que os contra ganhavam.
Despachou a assistente e voltou para casa. Chegou com mala e cuia. Wilma
atendeu.
- Mulher ou amante?
- Mulher, Wilma.
- Pode entrar. A água está quente. Tome
um banho que vou pôr o jantar na mesa.
Vão fazer quinze anos de casados na semana que
vem. Uma festa. Wilma pediu que Flaviano convidasse sua assistente para
a comemoração. Ela vai. Com o marido.
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| Edição nº 179 de 12
de janeiro de 2002 |
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Cruzada
Toninho Ávila está em cruzada ecológica.
Mas, guerreiro moderno, sua bandeira é a esperança. Sua armadura,
o otimismo. E suas armas, mudas de ipês amarelos para, com elas,
daqui não sei quantos anos, formar um maravilhoso túnel vegetal
e florido no trajeto da ferrovia São João del Rei-Tiradentes.
Compartilho do sonho de Ávila, principalmente
porque tinha no meu quintal dois dos mais imponentes ipês amarelos
das proximidades do Bonfim. Tinha. Há pouco mais de um mês,
se tanto, ventania e temporal feriram de morte um daqueles majestosos exemplares.
O gigante resistiu quanto pode, mas acabou sucumbindo. Vergou-se o tronco,a
galharia debruçou-se sobre a fiação da CEMIG, que
a amparou. Rente à terra, as raízes ainda seguraram o colosso
para que não desabasse de todo. Mas não havia como salvá-lo.
A moto-serra do Corpo de Bombeiros teve que completar o holocausto. O irmão
solitário resistiu à fúria do vento. É esperar
que não sofra a perda do companheiro e embirre, recusando-se a florir
quando julho chegar. Aliás, do falecido tenho algumas mudas: se
alguém quiser é só ir buscar lá em casa. Faço
parte do exército ecológico.
Mas nem só de ipês vive Toninho Ávila.
Como uma ONG de um homem só, enveredou por projetos comunitários/sociais
mais amplos, procurando uns e outros, solicitando apoio, entusiasmando
moradores que, eventualmente, são os mais beneficiados por estas
idéias solidárias. Este é o caso do projeto do Reservatório
D’Água Pasto do Antenor, na serra do Lenheiro, no intuito de preservar
as nascentes que formam o pequeno córrego, conscientizar a comunidade
local da importância da preservação das matas ciliares
que envolvem as nascentes, além de incentivar a comunidade a arborizar
o local, utilizando principalmente árvores nativas.
São tentativas de proteção ao meio
ambiente e de educação ambiental. O problema de arborização
nas cidades históricas é antigo e difícil de resolver.
No centro histórico, as calçadas estreitas, e estreitas as
próprias ruas, impedem qualquer plantio. E não houve, verdade
seja dita, muito boa vontade para arborizar onde isto é possível.
O que falta à cidade é um grande parque municipal, uma área
de lazer de largas proporções, com vegetação
abundante, setores de recreação e quadras esportivas. Em
300 anos, ninguém pensou em proporcionar à cidade, particularmente
à população mais carente, esta área verde que
existe, com exuberância, nas estâncias hidrominerais
mineiras. Onde vão as crianças dos bairros periféricos
num domingo pela manhã? O que se oferece a elas? O passeio de trenzinho
para Tiradentes? É muito caro para o poder aquisitivo de seus pais.
A construção de um Parque Municipal em
São João del Rei está sugerido, desde os começos
de 80, no diagnóstico do Município feito pela Fundação
João Pinheiro. Diagnóstico, com soluções e
sugestões que nenhum prefeito, desde aquela época, se interessou
em ler. Se leram, não entenderam. Ou simplesmente desconsideraram.
De resto, é acreditar nas bandeiras e na armadura
de Toninho Ávila: esperança e otimismo. Pode dar certo.
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| Edição nº 178 de 1 de
janeiro de 2002 |
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Balanço
O balanço do ano é sinistro. Tentei ser
otimista mas fora a constatação egoísta de que permaneço
vivo, e meus familiares idem, descobri poucas razões para brindar
a passagem do Ano Novo. E olha que eu fiz uma devassa.
A seleção brasileira conheceu um ano negro.
Sua classificação para a Copa do Mundo foi vista como obra
do acaso: não convenceu a ninguém. Aliás, em matéria
de futebol, a CPI mostrou um quadro digno de Al Capone. Guga, depois de
Roland Garros, esqueceu de como se joga tênis. Dinheiro demais atrapalha.
No Senado, a cassação, fraudada pelo expediente
da renúncia, correu solta. A Câmara saiu-se melhor, principalmente
com algumas matérias aprovadas recentemente, como o código
de ética parlamentar, a limitação da edição
de medidas provisórias e o fim da imunidade parlamentar para crimes
comuns. Entusiasma, mas não enche a minha taça de champagne.
A inflação bateu recorde, embora nosso
superavit primário esteja dentro do figurino do FMI. O preço
dos combustíveis ( principalmente em S.João) foi às
nuvens. Houve avanços na saúde: os genéricos ganharam
as prateleiras das farmácias e enfrentamos os poderosos no caso
dos medicamentos para a AIDS. Deu para encher meia taça.
O Presidente, aplaudido na França pela esquerda,
resvalou em frases pouco felizes e desnecessárias aqui dentro. Lula,
o candidato eterno, mudou o discurso: já não fala em moratória
e acredita em capital estrangeiro. Na França só disse
bobagem. Algumas das propostas do PT para governar o País, se chegar
lá, seriam cômicas se não fossem trágicas. O
PFL, não tendo mais o bigode do Sarney, que agora é do PMDB,
decidiu investir na filha do maranhense, que não tem bigode nem
é da Academia Brasileira de Letras, mas fotografa bem na televisão.
O PMDB finge que quer ser oposição mas não larga os
cargos: prepara um tacho para fritar o Itamar. O PSDB não sabe ainda
qual é o seu candidato. Todos que não indicou não
decolam. Como na Transbrasil, falta combustível nas turbinas. Pelo
menos por enquanto.
O governo de Minas ainda não existiu. Ultimamente,
despejou uma carga publicitária nas TVs que faria inveja a qualquer
supermercado. Itamar é o mesmo Itamar de sempre: vai criando
caso. De todos os tipos.
O terror atacou com fúria. Os Estados Unidos desabaram,
momentaneamente, com as torres do WTC. Ferido, Bush ordenou a devastação
de um País já devastado. Matar parece ser a palavra de ordem.
Em todo lugar, e não só em Israel, Palestina e Afeganistão.
Os universitários da rede federal perderam 100
dias de aula. O Ministro da Educação engrossou. A negritude
parece querer resolver um problema social ( e também racial ) por
decreto: reserva de mercado. E onde ficam os amarelos? E os brancos paupérrimos?
Aqui, asfalto. Rolo compressor na Câmara Municipal.
Licitações questionadas. Anistias. Aumento de contratações
de recrutamento amplo. Funcionários fantasmas. Populismo deslavado.
Poluição visual. Uns poucos vereadores resistindo como podem.
Mas as obras do Teatro Municipal começaram, com o patrocínio
da USIMINAS, não tem nada a ver com a Prefeitura. Resta saber onde
estão os grupos de teatro da cidade. O Parque de Exposições
está em construção. O que foi feito na cidade dependeu
de verbas federais. Mas a Prefeitura está, no momento, inadimplente.
E no ano que vem?
O Carnaval. Bem, o Carnaval deixa pra lá.
Já prometi que não falo mais sobre o assunto.
Ano sinistro, minha gente. Mas soltou-se foguetes. Muitos
foguetes. As festas religiosas foram solenes e espetaculosas. Nos botequins
da cidade, todos os problemas foram resolvidos. Ou pelo menos equacionados.
Soluções líquidas e incertas... A Funrei virou Universidade.
Taí. Pensando bem, descobri finalmente uma razão para levantar
um brinde no Ano Novo. Parabéns, FUNREI! Aproveite a chance. Se
o MEC deixar...
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| Edição nº 177 de 22
de dezembro de 2001 |
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Invasão
Em Sergipe, uma banda de rock, denominado Snooze, só
canta músicas em inglês. Conheci grupos musicais, em B. Horizonte,
que diziam que a língua portuguesa não tinha condições
de servir à poética dos seus letristas: era muito pobre...
Vindo de um grupo que era incapaz de dizer uma frase sem intercalar um
palavrão entre cada duas palavras, não me causou surpresa
alguma.
Há um deslavado descaso pela língua pátria.
O comércio encarregou-se de imitar o primeiro mundo na publicidade
que fazem. Nunca nos serviços que prestam. Os vendedores de pizza
(palavra que já se incorporou ao nosso vocabulário) têm
“home delivery” em vez de serviço de entrega ou entrega a domicílio.
Os restaurantes de comida a quilo anunciam “fast food” ou “fast service”.
As placas das lojas dão a impressão de que estamos nos Estados
Unidos, e não no Brasil. É “toy”, “baby”, ”kids” e “kits”
pra todo lado. Há pouco, tempo a gíria da moçada
era “brother”. Os sanduíches (outra palavra incorporada ) do Bob’s
(olha aí: eu escrevi Bob’s) ou da Maquidonaldi (para escrever
em português) têm nomes em inglês. Se eu pedir um bom
pão com queijo e presunto, o vendedor não vai me entender.
Tem que chamar o gerente de vendas para traduzir.
A invasão do americanês chegou às
raias do absurdo. Todas as línguas do mundo incorporam no próprio
idioma palavras alheias, mas na devida proporção. Bidê
e abajur vieram do francês. Falamos em week-end com a maior naturalidade.
Mas estamos passando dos limites. Os obesos vão às prateleiras
dos supermercados procurar produtos “light”. Tem até cerveja light.
Pelo menos a cachaça continua bem brasileira, por enquanto.
Houve um tempo, em que soubemos reagir a estas invasões
semânticas. Houve tempo, em que o meio-de-campo era “center-half”,
o lateral era “half” e o zagueiro era “back”. Até escanteio era
“corner”. Mesmo assim, até hoje, a penalidade máxima continua
sendo “penalty”. Mas, se no futebol conseguimos eliminar boa parte dos
estrangeirismos, eles hoje invadiram furiosamente todas as áreas.
Na computação, nem é bom falar.
Tudo bem. Vou suportando como posso essa degradação
da nossa língua. Vou reclamando mas vou convivendo com este absurdo.
Mas nunca pensei que chegaria o dia em que veria um enredo
de Escola de Samba ser escrito em inglês! Cheguei no meu limite.
Comprei o CD das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, como faço
sempre, e deparei, logo na primeira faixa, com um insulto. O enredo da
Imperatriz Leopoldinense, a tri-campeã do carnaval, é
exatamente este: “Goytacazes... Tupy or not Tupy in a South American
Way”. Foi a gota d’água que entornou o meu copo de tolerância.
Se até as Escolas de Samba já foram contaminadas
por este antraz linguístico, não há mais nada a fazer,
não há mais salvação. É abaixar a cabeça
e, humildemente, começar a pensar, seriamente, em escrever esta
coluna em inglês.
Talvez assim tenha mais leitores...
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| Edição nº 176 de 15
de dezembro de 2001 |
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Donos de Botequim
Palavras são armas perigosas. Melhor não brincar
com elas. Antigamente, palavra era coisa de honra. Dizia-se que “empenhou
a palavra”. Se empenhava, era porque palavra devia valer alguma coisa.
Hoje palavra é som. Não serve de garantia. No botequim, escuto
gente falando atrocidades, mas fica por isto mesmo. No boteco, tudo é
permitido, até mesmo pendurar a conta sob palavra. Algumas vezes,
até mesmo é permitido não pagar nunca a conta pendurada.
O máximo que o proprietário faz é não servir
mais o freguês. Mas anistia a dívida. Conheço gente
que já não pode freqüentar nenhum boteco do centro:
não é servido. Incontáveis as anistias que já
recebeu. O que resta fazer é atacar na periferia. Passa a frequentar
os bares da Vila Santa Terezinha, os duas portas das Águas Férreas,
os porta única dos fins do S.Geraldo, os quiosques da Bela
Vista. Vai chegando como se não quisesse nada, às vezes,
paga a primeira cerveja e a primeira dose. No dia seguinte, já começa
a operação pendura.
Botequim é um lugar com muito pouca discriminação.
Ao contrário dos bancos, ali não se pede referências
nem avalista. O crédito é direto, na hora, na bucha. Segue-se
estritamente a lei: todo mundo é honesto, até prova em contrário.
E o cano come solto.
Conheci botecos rigorosos e mais precavidos. Nos confins
de S. Efigênia, em B.H., havia um bar com um cartaz enorme na entrada,
bem à vista: “Não peça de graça,
ou fiado, a única coisa que eu tenho pra vender”. Em outro boteco,
deparei com dizeres mais criativos: “O fiado morreu ontem e eu fui ao enterro”.
E há também os agressivos: “Se não quiser que eu ofenda
a mãe, não peça fiado”.
Mas tenho reparado que não há gente mais
compreensiva do que donos de botequim. Dão banho na Cruz Vermelha.
Nem o Exército da Salvação é capaz de mais
generosidade. Deixam o Padre Paiva no chinelo. Os “pendura” se acumulam
meses e meses e os prejudicados vão levando na maré mansa,
ouvindo desculpas esfarrapadas e fingindo acreditar nelas para não
criar caso.
-Semana que vem. Semana que vem eu acerto. Tou com uma
grana pra receber na segunda-feira, de uns trambiques que eu vendi prum
cara do Rio das Mortes. Gente fina. Coisa certa. Semana que vem, tá?
-Sabe que eu já vinha te trazendo o dinheiro e
perdi a grana? Bolso furado. Olha aqui! Já falei com a minha mulher
pra consertar este bolso umas duzentas vezes! Semana que vem a gente acerta.
-Pagar eu pago. Você sabe que eu pago. Você
me conhece desde os tempos do João dos Santos. Pagar eu pago. Não
é sacanagem, não. Minha filha adoeceu. Meningite. Quase morreu.
Mas eu pago. Você sabe que eu pago. Pendura esta aí junto.
-Quanto? Vinte e três reais? Pensei que fosse mais.
Deixa inteirar trinta que é conta redonda. Eu não gosto de
pagar conta picada. Inteirando trinta eu acerto...
E os donos do boteco vão levando. E os “pendura”
aumentando, aquele monte de papeizinhos espetados numa haste de metal,
ou jogados dentro de uma caixa de papelão, ou anotados num velho
caderno escolar. Paciência de Jó. Até que chega o dia
da anistia.
-O problema é simples. Tem quatro meses que você
diz que vai acertar e não acerta. Tudo bem. Não precisa acertar.
Eu sou meio franciscano. A pobreza é mesmo um problema, neste País.
No último mês, você adoeceu sua família inteira,
da avó, que já morreu há uns três anos, até
os primos de terceiro grau. Tudo bem. Não precisa pagar nada. Eu
sou irmão das Almas. Só que de hoje em diante, vai ter que
beber em outro lugar. Tá entendendo? Nada pessoal. A gente continua
amigo.
É. Vida de dono de botequim não é
mole, não.
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| Edição nº 175 de 7 de
dezembro de 2001 |
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Foguetório
A história ensina que foi a China quem descobriu a
pólvora. Não ouso duvidar dos historiadores, quem sou eu?
Mas, se a China descobriu a pólvora, os sanjoanenses inventaram
o foguete. E ninguém vai me convencer do contrário. Porque
não há lugar no mundo que goste mais de foguetes do que São
João del Rei. É raro o dia em que não espouquem nos
ares as baterias de estrondo. Ou a noite em que os rojões não
cortem os ares, em assovios, e as chuvas de lágrimas incandescentes
não iluminem os céus.
No princípio, eu procurava justificativas. Por
que os foguetes? Dia de São Francisco. Rasora do Carmo. Festa da
Boa Morte. Páscoa. Uma infindável lista de santos e santas
e Nossas Senhoras, novenas de várias devoções, tríduos,
trezenas. Coroações da Virgem Maria, batizados, crismas.
Todos os versículos do evangelho eram, e são, motivo
para o foguetório.
Na pesquisa, começaram a aparecer outras motivações,
desta vez cívicas: Tomada de Montese, Dia da Cidade, Independência,
Dia da Bandeira, Proclamação da República, Dia do
Expedicionário, Tiradentes, sem contar o Carnaval e o fim do ano.
Em del Rei, não há comemoração que não
comece com uma saraivada de estrondos.
Acertou no milhar? Lá vai foguete. O Flamengo
ganhou do Vasco? Foguete. Perdeu? Foguete dos vascaínos. Empatou?
Foguete dos botafoguenses. O deputado chegou na cidade? Foguete pra ele.
O
Prefeito rabiscou mais um bilhetinho doando sete sacos de cimento? Merece
meia dúzia de traques. Foram quinze sacos? Solta a “cabeça
de negro”. Tem de ter é barulho. A cidade só é pacata
no resto. Mas, todo mundo aqui tem sangue de chineses, gosta de uma polvorazinha.
Não sabemos viver sem sinos e sem foguetes.
Olha aí o foguetório! Por quê? Fulano
desquitou. Mais foguete? Chico Bento acabou de pagar a última prestação
da geladeira. Olha lá o rojão: a sogra do Fulgêncio
bateu as botas. Outro estrondo: inauguração de boteco no
S.Geraldo. Mais barulho: o exame de paternidade do Genésio deu positivo.
Uai! E ele soltou foguete? Não. Foi a mulher que soltou.
A última me aconteceu na quarta-feira. Topei com
o Câncio, um funcionário burocrata do Damae, com um pacote
nas mãos. Entrou no Bar do Léo para tomar uma rapidinha e
sentou-se à minha mesa.
- Que que é isto, Câncio?
- Foguete.
Tratei de apagar o cigarro.
- Casamento?
- Não.
- Batizado?
- Que batizado!
- Jogo?
- Que mané jogo!
- Então pra que o foguete?
- Pra soltar. É o meu hobby. Eu solto meia dúzia
de foguetes todo sábado, ao meio dia. Gosto do barulho deles...
Durma-se com um barulho destes.
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| Edição nº 174 de 1 de
dezembro de 2001 |
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Dia de festa
As festividades que marcaram a presença do deputado
Aécio Neves, em São João del Rei, no começo
da semana, merecem alguns comentários. Ainda há na cidade
quem, teimosamente, torça o nariz quando se fala em Aécio.
É compreensível. Certamente, estes não se sentem beneficiados
pelos inúmeros projetos, de toda natureza, da saúde ao esporte,
da assistência social ao meio ambiente, da educação
à cultura, que foram implementados graças aos recursos federais
liberados, devido à decisiva interferência do deputado Aécio
Neves. E é bom que assim seja, que existam os renitentes detratores,
os que discursam inflamados nos botequins da cidade, usando argumentos
de uma avassaladora mediocridade e desinformação. É
bom que seja assim. Nelson Rodrigues dizia “que toda unanimidade é
burra”.
Nenhum político, como qualquer ser humano, é
perfeito. Pelo contrário. Como homem público e partidário,
nem sempre pode tomar as decisões que, aos que não têm
qualquer responsabilidade coletiva ou decisória, parecem ser as
mais acertadas. Por esta razão, um homem público, qualquer
que seja ele, e de qualquer tempo ou partido, não pode ser julgado
com base em simples interesses pessoais ou setorizados contrariados, ou
com argumentações emocionais e frustrações
eleitorais. Os grandes líderes não foram grandes pela sua
vocação à santidade, mas porque souberam sobrepor,
a interesses menores, interesses nacionais, ao proveito próprio
o bem estar coletivo, à maquinação subreptícia
a defesa pública de seus princípios e idéias, ainda
que não concordássemos com estas idéias e princípios.
Ainda outro dia, ouvi um cidadão instruído
defender, com veemência, que o administrador público está
absolutamente correto quando recebe comissão de empreiteiros. O
argumento que usava para apoiar a sua tese é o de que “todo mundo
faz isto”. Não é verdade. Conheço muitos que não
o fazem. E muitos que nunca o fizeram. Ouvindo-o, tive a certeza de que,
se aparecesse oportunidade, o cidadão em questão teria o
mesmo procedimento que defendia para o administrador público...
Aécio foi eleito recentemente pelo DIAP, uma entidade
idônea, o mais influente deputado da Câmara Federal. Sua atuação
à frente daquela Casa é surpreendente. Projetos adormecidos
há anos, no arquivo morto da pauta do plenário, foram ressucitados
e aprovados, inclusive o que limita os poderes do Executivo em editar medidas
provisórias. A criação da Comissão de Ética
da Câmara e o projeto que restringe a imunidade dos parlamentares
foram aprovados graças à sua iniciativa e seu empenho. São
ações que contam para o julgamento de sua conduta como político
e como cidadão.
À festa política, que aconteceu nos salões
do Círculo Militar, com a presença de inúmeros prefeitos
e correligionários, seguiu-se um congraçamento popular em
Matosinhos. Ali, encontrei o Cocão, mestre de bateria do bloco Águia
de Ouro de Ritápolis, já em preparativos para o carnaval
de 2002. A mão amiga do Gomide bateu no meu ombro. O velho Agostini,
sempre de preto, circulava pelo salão. A tônica do discurso
de Aécio foi o de quem estava em casa, entre sua gente, entre amigos.
Pelos amigos falei eu, ressaltando que amizade e lealdade são tudo
que os amigos podem oferecer.
Os caminhos estão abertos. Não é
só Aécio Neves que está em evidência. São
João del Rei também está. Suas conquistas são
também nossas. Naquela segunda-feira, tivemos certeza disto.
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| Edição nº 173 de 24
de novembro de 2001 |
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Os adolescentes
13 de novembro – Foi a primeira vez que o viu. Encostado
na moto, em frente da Cantina Calabreza. Calça jeans, uma camiseta
preta, com o logotipo do Olodum. Dezoito, dezenove anos. Cabelos encaracolados,
como se nunca os tivesse penteado. Ou os penteasse sempre daquele jeito.
Um brinco na orelha esquerda, discreto. Mas o que reparou mesmo foi nos
olhos cinzas, porque o olhar trocado foi rápido, mas intenso, como
punhais que se tocam pelas pontas. Estremeceu. Viram-se fundo, no fundo,
como se ambos tivessem nascido naquele momento. Empinou os seios dos seus
dezesete anos, agitou a cabeça fazendo balançar o rabo de
cabelo com violência. Ameaçou ficar nas proximidades para
tentar um novo olhar. Não teve coragem.
14 de novembro – Véspera de feriado. Anita entregou-lhe
um bilhete sem maiores explicações. Dele, o bilhete, não
as explicações. Não quis abrir na presença
de ninguém. Correu para a Praça S. Francisco e ali, debaixo
de uma palmeira, rasgou o envelope e devorou as palavras:
“Mansa como um riacho, passas.
Facho de luz, graça de garças,
gazela tímida que se assusta.
E como um pássaro esvoaças
na incerteza do primeiro vôo.
Foi só te olhar e trespassei teu corpo
porque tens a transparência das vidraças.
E teu olhar há de ficar em mim, aceso,
mesmo quando teu vulto for só vulto,
e as lembranças forem só fumaças.”
Romeu
Suspirou. E disse tudo neste suspiro.
15 de novembro – Voltou ao lugar do olhar trocado. Uma,
duas, dez vezes. Nada. Perguntou a Anita se o tinha visto. Nada. À
noitinha, tentou outra vez. E, de repente, lá estava a moto, no
mesmo lugar de antes. Varreu a paisagem com os olhos. Correu o quarteirão.
Pensou vê-lo na Confeitaria da Vovó, de costas, debruçado
sobre o balcão, como se estivesse pedindo alguma coisa. A camisa
preta era a mesma. Mas, quando a figura se virou, era outro rosto. Um menino
aproximou-se e entregou-lhe um guardanapo de papel, dobrado. Não
teve tempo para fazer perguntas. O moleque saiu em disparada. Abriu:
“Nem é preciso tanto.
O procurar é bastante. Vale o mistério.
Se já te tenho em mim
como imagino e quero, corpo etéreo,
de que vale te encontrar, carne com carne,
se nunca hás de ser como te sonho?
Melhor que seja assim.
Trocar uma palavra já desgasta.
Eu posso te perder se te encontro.
Estou te vendo agora. E isto basta.”
Olhou em torno. Já eram muitos nas vizinhanças,
colorindo a rua. Voltou ao ponto inicial a tempo de vê-lo, sobre
a moto, dando a partida. Viu que ele voltou a cabeça sobre os ombros.
O capacete lhe encobria o rosto. Por um momento pensou em chamar: “Romeu!”
Não teve voz. A moto saiu em disparada. E nunca mais o viu.
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| Edição nº 172 de 17
de novembro de 2001 |
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O jogo
Naquele dia, dera tudo errado. O Botafogo levara de três.
No meio do jogo, ele já tomara umas cinco para ver tudo embaçado.
Não tendo coragem para desligar a TV, pelo menos via mal as jogadas.
Aos trinta minutos do segundo tempo, nem sabia mais quem era do Botafogo
e quem era do time contrário. Viu-se de repente aplaudindo o terceiro
gol, crente que era do Fogão. Não era.
Foi neste embalo que se preparou para assistir
ao jogo do Brasil com a Bolívia. Mandou a mulher fritar umas lingüiças,
pois ia ter companhia para ver o jogo, o Pinduca, seu colega de trabalho
na Serraria Agostini. Fernandão, como era conhecido, trocou de camisa.
A mulher recomendou uma chuveirada, vendo o desequilíbrio com que
andava pela sala.
-Que banho, que nada! Banho é o que a seleção
vai dar na Bolívia!
Como eu disse, trocou de camisa. Tirou a do Botafogo
e vestiu a verde e amarelo, da seleção. Trocou e jogou a
do Fogão no cesto, perto do vaso sanitário:
-Merda fica com merda. É aí que é
o seu lugar. Você e o Wagner, aquele vagabundo. E o resto do time
também.
O Pinduca, outro botafoguense, chegou quase meia hora
antes do jogo, tão chumbado quanto o Fernandão. Mal conseguia
falar.
-Cê viu, Fernandão? Joguei a camisa no lixo.
-Pois eu joguei no lugar certo. Vamos esquecer. Agora
é Brasil.
-Tô com mau pressentimento, Fernandão. Vi
o seu gato preto na porta da sua casa.
-E daí, Pinduca? Tem nada, não.
-O gato estava arrastando as pernas, Fernandão.
-Foi atropelado. Vai dar sorte.
-Foi atropelado? O Garrincha?
-Depois do acidente passei a chamar ele de Romário.
Tem nada, não.
Até o Hino Nacional, já tinham emborcado
umas quatro, fora as cervejas. A mulher veio avisar que tinham chegado
mais dois, o Jorge e o Chico. Fernandão arrepiou:
-Flamengo aqui, não! Pode despachar!
Não deu tempo. Os dois já tinham entrado
com dois frangos assados e uma garrafa de Bela Vista, de Coronel Xavier
Chaves.
-Só tô deixando entrar porque é o
Brasil e vocês vieram com o suprimento.
O suprimento foi logo distribuído. Passaram para
o quintal. Fernandão buscou mais copos, alguns pratos, destrinchou
os frangos e serviu as doses.
-Viu o seu Botafogo, Fernandão? – perguntou o
Jorge com ironia.
-Não. Vi a mãe. E vi também o seu
Flamengo, lá nas lanterna...
-E vocês? Estão onde?
-Na frente de vocês. Mas como a desgraça
é a mesma, vamos levantar um brinde à segundona.
A Boa Vista correu. E lá se foram os frangos,
destroçados aos últimos ossos. Rolou o samba. Pela metade,
porque já nenhum deles conseguia se lembrar da letra inteira. Uma
hora depois, a mulher do Fernandão apareceu, na porta da cozinha:
-O jogo tá acabando. Ferro tá comendo.
-Que jogo? – perguntou o Fernandão.
-Brasil e Bolívia.
-Tão jogando? Por quê?
-Copa Mercosul, Fernandão - balbuciou o Pinduca.
- Mercosul? E nós com isto? Traz mais cerveja
mulher!
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| Edição nº 171 de 10
de novembro de 2001 |
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O Terrorista
Era assim. Um poço de bílis. Amargo como losna.
Entrava no boteco e o ambiente já não era o mesmo. Onde será
que este merda vai sentar, se perguntavam os fregueses. Porque já
sabiam que dali pra frente, era esperar pelo pior. E ele vinha, sorridente,
escolhendo as vítimas. Logo, um se levantava para ir ao banheiro.
Outro para ir ao balcão. Havia um rápido rearranjo para que
todas as cadeiras de uma mesa estivessem ocupadas, de modo a não
sobrar espaço. Lá vem ele. Mas isto não resolvia:
ele sempre descobria uma cadeira vaga e a levava para a mesa que lhe apetecia.
Fazer o quê? O boteco tem uma ética especial: todo mundo é,
em princípio, bem-vindo. Ele acabava numa roda que, para disfarçar,
continuava o papo sem dar muita atenção à sua chegada.
Pura ilusão. Ele só esperava a dica. Até que alguém
dizia:
-Não sei o que é isto, mas não estou
me sentindo muito bem nestes últimos dias...
Ele nem esperava o cara terminar a frase. Atacava com
virulência:
-Deve ser câncer. Na sua idade, bebendo, fumando,
sei não. Deve ser câncer, igual ao seu tio.
A roda já esfriava.
-Que câncer que nada! Fala bobagem não.
Já fui ao médico ontem.
-Médico? Piorou. Você ainda acredita em
medicina? Minha sogra foi tirar uma unha encravada e bateu as botas no
ambulatório. Teve uma parada cardíaca. Caiu dura. Tá
sentindo o quê?
-Sei lá. Uma dor de cabeça.
-Tumor cerebral. Minha tia morreu assim. Dor de cabeça
aqui, dor de cabeça ali, foi-se.
-Era tumor cerebral?
-Ia saindo pro médico e morreu atropelada.
-Então não tinha nada a ver!
-A medicina legal exigiu autópsia. Tumor cerebral.
-Não diga!
Pesava logo o silêncio. Todo mundo com medo de
falar. Mas como não era possível ficar calado eternamente,
alguém recomeçava, só para puxar assunto:
-Mas tem chovido, heim gente?
Ele não perdia a chance, Vinha logo o bote.
-Sinal de enchente. Igual a de 79...
-Bem, não tem chovido tanto assim...
-Aqui. Nas cabeceiras tá caindo tromba d’água.
Quando a corrente chegar aqui vai levar a Ponte do Rosário...
-A Ponte do Rosário?
-Primeiro. Depois a da Cadeia.
-Ora! Estas pontes estão aí há duzentos
anos, cara!
-Pois é. O alicerce está solapado. Não
precisa nem ser chuva forte. Uma garoa de dez dias leva tudo embora. E
vem epidemia.
-Epidemia?
-Febre tifo.
-Febre tifo? Tem cincoenta anos que não vejo falar
nisto!
-Tá voltando. Em Vitória, oito casos.
A vigilância sanitária tá escondendo, para evitar pânico.
Aqui mesmo, no Faria, já teve dois casos.
-De febre tifo?
-Aqui foi brucelose. É outra que está espalhando.
Virou-se para o garçon e comandou: “me traz uma
água mineral, Pedro!”
-Água mineral? No sábado de manhã?
-Tão sabendo não? A cerveja está
contaminada. Em Nazareno, internaram 30, só num botequim. Até
o padre está no CTI.
-O padre? Por que?
-Vinho de missa. Contaminado. Diarréia hemorrágica.
Gravíssimo.
A roda pediu a conta e mudou de botequim.
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| Edição nº 170 de 3 de
novembro de 2001 |
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Fim de novela
Se fosse uma CPI, eu diria que tinha acabado em pizza. Mas
como é novela, o final foi infeliz. Estou falando do carnaval de
2002. Pela última vez, espero. Cheguei à conclusão
de que há muito pouca gente interessada em fazer do desfile das
Escolas de Samba um verdadeiro espetáculo, uma atração
turística. Alguns dos interessados têm razões próprias.
As costureiras, por exemplo, como os artesãos, defendem sua cesta
básica no carnaval. Atualmente, alguns carnavalescos recebem uma
ajuda de custo. Mestres de bateria também. Outros poucos são
interessados porque gostam de carnaval, como os dirigentes das Escolas,
e ainda outros porque, para eles, o carnaval só faz sentido participando
de uma Escola de Samba. E há também os que insistem nos desfiles
porque são apaixonados pela cultura popular, como eu. Estatisticamente,
este aglomerado de entusiastas não é significativo. Por força
de função, a ele deve-se acrescentar o Secretário
de Turismo e Cultura. É muito pouco.
Em julho, o Sindicato do Comércio Varejista disse,
em seminário então realizado, que o carnaval não
dá retorno para os comerciantes. A Associação Comercial
e Industrial se mantém reticente quando se fala nisto. Donos de
hotéis e pousadas, donos de bares, ficam na sua. Sabem que, com
desfile ou sem ele, vão aumentar seus lucros, ainda que boa parte
dos hóspedes se mandem na segunda-feira de carnaval por falta de
opções: já entraram no caixa algumas diárias.
O poder público não mostra a menor intenção
de considerar o carnaval das Escolas de Samba como algo que mereça
algum respeito ou atenção: oferece uma verba, paga nas vésperas
do evento, tudo é de última hora, e a turma que se vire.
Se acontecer alguma coisa, ótimo. Se não acontecer, o que
importa? Existirá carnaval de qualquer jeito. A choldra comparecerá
aos montes, trazendo no porta-malas bebida e colchonetes, 700 W de som,
muitos CD’s de ritmo e barulho, provavelmente energéticos de todos
os tipos, dos sólidos aos líquidos, e muita urina para verter
pela cidade. E daí? Os órgãos fazendários da
Prefeitura também dizem que o carnaval dá prejuizo
para o município. As autoridades já chegaram à conclusão
de que é impossível disciplinar a baderna, então,
viva a baderna!
Diante disto, é melhor reformular o enunciado
do início deste artigo: a novela teve final feliz. Às favas
com as Escolas de Samba! E depois, sempre haverá alguma disposta
a aceitar as condições impostas pela realidade e, fazendo
das tripas coração, aparecer na avenida para justificar a
tradição centenária. Parabéns para aquela que
se habilitar.
Por mim, cansei. Desisti. Não tenho mais argumentos.
Não quero mais voltar ao assunto. Não vale a pena. Pior do
que isto: acho que estou errado. Tenho que pôr os pés no chão
e manter-me discreto. Na minha. Há muito tempo que a cidade está
enferma, culturalmente. O Inverno Cultural é apenas uma injeção
de adrenalina para manter os batimentos cardíacos. Nossa cultura
está vivendo de procissões, cada vez mais lindas. Mas também,
a fé remove montanhas, dizem.
Restam as Bandas. Que também já estão
cada vez mais descaracterizadas, arrastões que perderam a criatividade,
o som das baterias, os traços peculiares, com poucas exceções.
Mas são nossas e pré-carnavalescas. E o último refúgio,
os Caveiras, onde ainda poderemos exercitar alguma criatividade, sem ter
que ficar esperando decisões da Prefeitura, verbas sempre minguadas
e inexistente planejamento. Os que gostamos de carnaval já temos
nosso destino: o Bloco dos Caveiras. Pelo menos isto.
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| Edição nº 169 de 27
de outubro de 2001 |
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Velhos amigos
A roda no Recanto da Gruta Mineira era de antigos amigos.
Tão antigos, que era como se fossem irmãos. De sangue. E
antigos eram todos, pra cima ou beirando os sessenta. E disse um, o Romeu,
nome que carrega uma tradição de paixão no nome, pelo
menos desde Shakespeare.
-Tá me acontecendo uma coisa estranha. Reparei
que, desde algum tempo, ando chorando muito. Entrei aqui no bar e só
de ver vocês sentados me esperando, marejei. Verdade que a gente
não se encontra há uma porrada de anos. Mas tem cabimento?
Vocês não perceberam que eu disfarcei? Dei um tiauzinho e
fiz sinal de que ia ao banheiro. Mentira. Estava vertendo pelos olhos.
Fui enxugar as lágrimas. Pode?
Os outros três olharam-se em silêncio. Parecia
que um assunto proibido tinha vindo à tona. Vieram as cervejas.
O segundo, o Cícero, resolveu dar o ar de sua graça:
-Já que você falou, Romeu, eu vou te dizer
mais. Ando p da vida. Vocês se lembram duma expressão que
a mãe da gente usava? Manteiga derretida. Pois é. Eu estou
assim, uma manteiga derretida. Escuto um samba antigo, lá vem água.
Bateria tá ensaiando? Lágrimas. Filha telefonou? Mais água.
Estou vindo de Belo Horizonte, passo a ponte do Bezerrão, entro
na rua das Fábricas, os olhos começam a coçar. Quando
chego no centro da cidade, já estou fazendo concorrência ao
Lenheiro. Um inferno. Dá pra explicar?
Ninguém explicou. E foi só beberico, por
alguns momentos. E, em silêncio, sem brindes, tocaram os copos, como
se soubessem, cada um, que brindavam à mesma coisa. O Toninho, o
terceiro, dos quatro o mais distante, pois residia em Conselheiro Pena,
um lugar que até hoje não sei se pertence a Minas ou ao Espírito
Santo, tomou a palavra:
-E é pra cima de mim que vocês vêm
com este papo de choro? Eu moro no fim do mundo. Olho uma foto da Igreja
S. Francisco e é o bastante. E quanto mais olho, mais choro. Sabem
o que que eu fiz? Engavetei todos os quadros e fotos que eu tinha de S.
João del Rei na minha casa. Não adiantou. Não tive
coragem de tirar da minha carteira aquela nossa foto, nós quatro
sentados na Ponte da Cadeia, se lembram? Quando a gente se formou no Santo
Antônio.
E foi abrindo a carteira e tirando de lá o retrato
mencionado, meio roto nas margens, meio amarelado, mas ainda nítido:
os quatro sentados na murada da Ponte da Cadeia, a Prefeitura ao fundo.
O retrato passou de mão em mão e, à esta altura, os
olhos de todos estavam se avermelhando. Foi quando o quarto deles, o Hildebrando,
interrompeu:
-Vocês não vão acreditar, pessoal.
Minhas torneiras estão abertas. E nem preciso de motivo. É
tão estúpido que eu vou confessar, sem sacanagem: eu ando
chorando até em lançamento de um novo eletrodoméstico!
Era só o que faltava para acender outro
astral. Foi impossível conter o riso. E com ele, mais cervejas,
logo algumas guias, e logo os velhos sambas, e logo as relembranças,
e logo o prazer de estar juntos de novo, velhos amigos chorões,
mas ainda capazes de celebrar a amizade e a vida. Apesar das lágrimas.
Inevitáveis e benditas.
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| Edição nº 168 de 20
de outubro de 2001 |
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Divagações
Se for para dizer: “muito obrigado”,
esqueça.
Não quero sentir que é obrigação.
As flores desabrocham em silêncio,
sem perguntar
quem as plantou ou tem regado.
Se for para dizer: “que Deus lhe pague”,
esqueça.
Deus não tem nada com isto.
O sol aquece a terra descuidado,
e não reclama
se as nuvens enfraquecem os seus raios.
Se for para dizer: “e custa quanto?”,
esqueça.
Não quero comprar, mesmo favores.
A lua ilumina a noite escura
e nem percebe
que é só espelho, luz refletida.
Se é para ajudar, seja bem-vindo.
Apareça.
Mas não espere recompensa.
O trigo que viceja pelos campos
nunca soube
que é o pão que se serve em cada mesa.
Se for para cobrar o gesto amigo,
desapareça.
Não se trata de troca ou de barganha.
O que se dá, se dá, de mão aberta.
Não é oferta
aquilo que se dá sabendo o que se ganha.
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| Edição nº 167 de 13
de outubro de 2001 |
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Tancredo na Sapucaí
A quadra da Unidos da Ponte fica em S.João de Meriti,
a uns 45 minutos do Rio, onde chegamos perto de meia-noite de sábado.
É um grande galpão maltratado, cobertura de zinco em estrutura
metálica, um palanque para a bateria, um palco e um mezanino para
convidados especiais e dirigentes da escola. Era uma noite de gala, para
a apresentação dos cinco sambas finalistas para o carnaval
de 2002. Uma festa que deveria estar ocorrendo em muitas outras quadras
naquele sábado e que ainda ocorrerá até o dia 12,
prazo final para a escolha do samba vencedor.
Mas, para nós, um grupo de sanjoanenses e amigos
de sanjoanenses, era uma noite diferente. O enredo da Unidos da Ponte é
“De Minas para o Brasil: Tancredo Neves, o mártir da Nova República”.
E isto mudava tudo. A festa apenas começava, com a quadra lotada,
passistas mirins dando um show à parte, Porta-bandeira e Mestre-sala
em evoluções circulares. A bateria teria, no máximo,
30 elementos, com quatro marcações, 4 surdos de corte,
seis chocalhos e um grande naipe de repiques e caixas de guerra que abafavam
o som dos três ou quatro tamborins. Mas era um ritmo perfeito, como
só as escolas do Rio conseguem manter. Os grupos de torcida organizada
se aglomeravam nos fundos da quadra com bandeiras, faixas, balões
coloridos, esperando a hora de invadirem o espaço central quando
o puxador iniciasse a cantoria do samba de suas preferências.
Sempre que vou a uma quadra de escola de samba sinto
uma emoção estranha. Transporto-me no tempo e passo
em revista toda a minha vida de carnavalesco, todos os carnavais de S.João
del-Rei. Os compositores distribuíam os panfletos com as letras
dos sambas e a cerveja corria solta. Um ritual de preparação
para o momento culminante. Dei de pensar. Enquanto nos debatemos
em S.João del-Rei, sem definição sobre o carnaval,
verbas, parcelas, infra-estrutura, problemas de todo tipo, ali, em S. João
de Mereti, um sanjoanense ilustre é enredo da Unidos da Ponte. S.João
del-Rei, pelo menos na letra do samba, vai chegar à
Sapucaí, pois todos os sambas finalistas mencionam a minha terra
natal. Não pude deixar de me sentir vaidoso. Justificado orgulho
se apossou de todos nós, os sanjoanenses que ali estavam.
Quando a apresentação dos sambas começou,
o clima de encantamento tomou conta do ambiente. A massa humana, agitada,
entrou em delírio coletivo, como se já estivesse no dia do
desfile, na larga passarela, sob os aplausos da multidão. A cada
vez que o nome de S.João del-Rei era ouvido eu me sentia o dono
da festa, como se aquele fosse o enredo que deveríamos ter feito,
há muitos anos, nos tempos áureos do carnaval sanjoanense.
O samba explodia: “Salve S.João del-Rei / Foi lá que o menino
nasceu / Hoje o seu filho querido / vem brilhar no carnaval / mártir
guerreiro, bom brasileiro / o seu sonho triunfal”.
Indescritível. Era apenas uma escola modesta,
que está lutando para voltar ao grupo especial, onde já esteve.
Mas a quadra era só entusiasmo e som. E dentro de nós aquela
satisfação incontida de saber que S. João del-Rei,
por causa de Tancredo, está na mídia nacional. Às
quatro da matina o refrão do samba de Piteira, Carlinhos Anchieta,
Ademar Barbosa e Julinho “coração de leão” ainda era
ouvido na quadra da Unidos da Ponte: “Tancredo fez, o destino quis /
Aécio Neves com a caneta do País/ Pela raiz que fez brotar
/ a esperança vai continuar”.
Apesar de tudo, ainda é uma benção
ser sanjoanense.
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| Edição nº 166 de 6 de
outubro de 2001 |
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Casa da mãe Joana
Passei a semana tentando entender dois fatos que estão
na ordem do dia na cidade: o caso dos barraqueiros da Avenida e a licitação
para o transporte coletivo. Não sei qual dos dois é mais
confuso. No primeiro caso, por sentença judicial impetrada pela
ACI, os barraqueiros teriam que desocupar o local. O prazo já se
esgotou. O prefeito aproveitou-se bem da situação para fazer
o meio de campo: eximiu-se de qualquer culpa, uma vez que quem tirou os
barraqueiros da Avenida foi a ACI e não ele. Pelo contrário,
destinou a eles uma faixa de terreno público( como pública
era a Avenida) junto à velha rodoviária, prometendo material
para construção em alvenaria. A mão de obra é
dos barraqueiros. Existe um projeto? Alguém responsável?
Cada um constrói como quer? Ou seja, daqui por diante o problema
acabou, quer dizer, a cidade vai conviver eternamente com aquele comércio
que, na ação impetrada pela ACI, era ilegal, causava poluição
visual, não emite nota fiscal, não paga imposto e faz concorrência
ilegal com os comerciantes estabelecidos. Ao que parece, a ACI esqueceu
algumas das razões pelas quais impetrou a ação judicial.
Na rodoviária velha não tem importância a ilegalidade.
Só na Avenida. Tanto que a ACI até desistiu, pelo menos em
princípio, de qualquer outra ação, satisfeita com
a nova localização dos barraqueiros.
Aí assaltou-me outro problema. A área,
por lei municipal, está sob tutela patrimonial, quer dizer, não
é possível nenhuma construção naquele local
sem ser ouvido o Conselho Municipal do Patrimônio. Não me
consta que o tenha sido. E nem ví qualquer manifestação
daquele órgão sobre o assunto. Moradores também
não foram ouvidos. Ou foram? Fui ao local. Não fiz medições,
mas achei que a área não é suficiente para abrigar
o que está instalado na Avenida. Mais confusão. E se aparecerem
outros barraqueiros querendo também o seu espaço? E como
apareceram os que já estão estabelecidos? E se o comércio
é ilegal, como alega a ACI, por que a promotoria pública,
que ultimamente está tão atenta às irregularidades,
não age? E a polícia? Desisti de compreender. Se é
preciso resolver o problema, que ele seja resolvido sem soluções
precipitadas. Mas quem sabe estou é preocupado com coisas que não
me dizem respeito?
O caso da licitação é ainda mais
estranho. A prefeitura abriu licitação antes do término
do contrato com a empresa. Na verdade, o contrato terminara em 98 e, desde
então, a empresa estava prestando serviços na irregularidade.
Isto ocorreu uns 30 dias depois da Câmara instituir o passe livre
para estudantes em geral, pobres e ricos. A Meier rompeu acordo que tinha
feito com a Câmara e impetrou liminar contra a lei do passe livre.
Foi negada. A licitação pegou a Câmara de surpresa:
ela queria participar do processo, não sei se com razão ou
sem razão. A licitação prevê concessão
de 10 anos, quando lei anterior prevê apenas cinco anos. Sentindo-se
desprestigiada, a Câmara decidiu apresentar um projeto de lei que
prevê “mais de uma empresa para o transporte coletivo em S.João
del-Rei”. Por sua vez, a licitação determina tarifa de 0,70
para o preço das passagens quando naquele momento era de 0,65.
Ou seja, a licitação já foi feita com aumento da tarifa.
Ime-diatamente, a Meier elevou sua tarifa para 0,70. A Câmara, por
esta razão, acha que a licitação tem vício
de origem, pois preço da tarifa é exatamente motivo da licitação,
entre outras coisas. A licitação também não
fala em passe livre, como queriam os vereadores. Para complicar, os motoristas
da empresa fizeram uma manifestação de protesto porque nem
salário nem a garantia de emprego estão assegurados
na licitação! Nem poderiam. Este é um problema deles
com a empresa que vencer a licitação. Desisti de compreender.
Mas quem sabe estou é preocupado com coisas que não
me dizem respeito? O clima é de casa da mãe Joana.
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| Edição nº 165 de 29
de setembro de 2001 |
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Fim de tarde
Osama bin Laden!
-Sei, sei, você já repetiu este nome dez
vezes. Tá pensando que eu sou surdo?
Era um papo de fim de tarde, nos confins do Tijuco, num
boteco de uma porta só, três mesas, um balcão, uma
travessa com molho onde dezenas de moscas disputavam um lugar em cima das
oito ou dez almôndegas sobrenadantes, três garrafas de
51, duas de Velho Barreiro e um garrafão da “da roça”.
O papo já se arrastava desde as quatro da tarde, o que podia ser
medido pelos doze cascos acumulados na mesa vizinha (fora as guias) e restos
de pão molhado em três pires empilhados.
-Se não está surdo, parece.
-Já ouvi, já ouvi. Bin Laden. Qual é
o negócio dele? Confecção? Retalho? Caixa de ferramenta?
Paraguai? Colcha de Resende Costa?
-Terrorismo, seu besta! Terrorismo!
-Que diabo de mercadoria é esta?
-O cara não é comerciante, imbecil! É
milionário!
-Vende petróleo.
-Não vende petróleo, não. É
guerrilheiro, compreende?
-Hum! Palestino. Tá metendo os ferro nos Israel.
-Não é palestino não, cara.
-Então é traficante. Se é milionário,
não é deputado estadual de Minas, não é trambiqueiro,
não vende petróleo, tá ganhando no pó.
-O cara derrubou duas torres nos Estados Unidos!
-De igreja?
-Não, cara. Dois edifícios, em Nova Iorque!
-Você falou torres. Torre é torre. Não
começa a me confundir.
-Pô! Você não viu na televisão,
não?
-E eu tenho lá grana pra comprar televisão?
-O cara derrubou dois edifícios de 400 metros
de altura!
-Tá brincando! Na mão? Empurrando?
-Enfiaram dois aviões comerciais pelas torres
a dentro.
-E ele pilotando os dois? Ao mesmo tempo?
-Ele não, sua besta. Outros caras.
-Então não foi o cara. Esse Bingo.
-Bin Laden. Ele é que mandou. Se estrumbicaram
junto com as torres.
-Morreram?
-Pô! Tá difícil conversar com você.
Os caras enfiam o avião na torre e você acha que eles saíram
de lá andando e foram tomar uma pra comemorar?
-Tomaram antes. E muitas. Só chumbado se faz uma
coisa destas...
-Eles são terroristas radicais, cara!
-Lá vem você de novo com esta palavra. Tá
querendo me enrolar?
-Não, não. Estou querendo te dizer que
esse tal de Osama bin Laden complicou tudo.
-Gente rica tá sempre complicando mesmo. Sempre.
Qual é o problema? Complicou pra você? Você foi
despedido lá do barracão da prefeitura?
-Eu não tenho nada a ver com isto não,
cara!
-Então por que que tá me enchendo o saco
com este tal de...de...como é que é?
-Osama bin Laden!
-É isto aí. Desde quatro da tarde, pô!
Você sabe porque que eu te chamei pra tomar umas e outras?
-Não.
-Porque hoje é meu aniversário. Nós
somos amigos há mais de trinta anos. E você nem lembrou disto.
Veio me encher o saco com um milionário que, não sei porque,
não gosta de igreja e saiu por aí derrubando torres. Pô!
Você não vai nem me dar os parabéns e pagar essa conta?
Falta de solidariedade, cara...
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| Edição nº 164 de 22
de setembro de 2001 |
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Ponto de vista
Não há nada que justifique o ato terrorista
que liquidou as torres do WTC e abriu uma cratera no Pentágono.
Além de alvos civis, as armas utilizadas, aviões comerciais
repletos de passageiros, deram ao ataque uma conotação de
insanidade e estupidez, selvageria e barbárie.
A ex-ministra de Estado norte-americana, Madeleine Albright,
declarou enfaticamente que “fomos atacados pelo que nós somos”,
querendo dizer que os terroristas agiram contra os Estados Unidos porque
eles são os guardiões da democracia e da liberdade.
E é com esta liberdade tão propalada por ela que interpretei
sua frase de outro modo. Isto é, historicamente. É provável
que os terroristas tenham atacado New York pelo que os Estados Unidos são.
E o que são os Estados Unidos? São um país e
um governo que deixaram atrás de si um rastro nada elogiável
de ações políticas, econômicas e militares em
todo o planeta. Na década de 60, apoiaram todas as ditaduras
militares ou para-militares na América Latina. A CIA coordenou,
com o auxílio de empresas americanas, todas as ações
que levaram à queda de Allende no Chile, que fora eleito democraticamente
pelo povo chileno. Foi o começo do truculento, despótico
e criminoso governo de Pinochet. Enviaram para o Brasil, nos tempos da
“redentora”, Dan Mitrioni para preparar grupos de elite do DOI-CODI em
técnicas de interrogatório, tortura e desaparecimentos. Os
Tupamaros liqüidaram o agente americano. Nos idos de 60, o governo
Kennedy armou milícias de mercenários cubanos fugidos
da ilha do Caribe e orientaram a fracassada invasão da Baía
dos Porcos. Aventuraram-se a uma guerra suicida no Vietnã,
onde despejaram mais bombas (inclusive de Napalm) do que em toda a segunda
guerra mundial. Saíram de lá com o rabo entre as pernas,
como já tinha acontecido na Coréia. Interviram na Guatemala
e em El Salvador. Nunca retiraram suas tropas da base, que até hoje
mantêm em território cubano e insistem no bloqueio comercial
daquela ilhota que não representa perigo algum, a não ser
para si mesmo, principalmente depois do debacle da União Soviética.
Cuba está indo aos trancos e barrancos, graças ao estoicismo
de seu povo: é a única ditadura do continente americano.
A interferência dos Estados Unidos no Oriente Médio foi sempre
um desastre, em virtude de sua deslavada preferência por Israel.
Suas leis protecionistas são exemplo do que há de mais
perverso na globalização. Quando lhe foi conveniente, armou
as milícias Talibãs contra a União Soviética,
das quais surgiu Osama bin Laden, o mesmo que agora procuram vivo ou morto
e está protegido pelo próprio governo Talibã. O governo
Bush é o mesmo que se recusou a assinar o acordo de Tókio,
essencial para a conservação da saúde ecológica
do mundo. É o mesmo que se retirou da Conferência Mundial
sobre o racismo, recentemente. Os Estados Unidos são governados
por um presidente que, graças a uma lei anacrônica, foi eleito
no tapetão contra a maioria dos votos populares. Isto também
são os Estados Unidos.
Se for preciso atos extremos de truculência e covardia
para manter o “american way of life”, os Estados Unidos não pensarão
duas vezes. Não é este exatamente o meu conceito de uma Nação
exemplar. Com esta interpretação, acho que a frase
de Madeleine Albright está correta: os Estados Unidos foram atacados
pelo que são. E pelo que foram, embora sob nenhum pretexto o ato
terrorista possa ser justificado.
Mas a lição que se deve tirar do episódio
não é a da vingança. É legítimo que
o governo americano, e o mundo inteiro, queira investigar, descobrir autores
e mentores do atentado e puni-los. Paralelamente, entretanto, os Estados
Unidos e as grandes potências do mundo precisam fazer uma reflexão
sobre sua conduta política e econômica, absolutamente excludente,
do mesmo modo que as minorias fanáticas, raciais e religiosas, precisam,
com urgência, rever seus textos de cabeceira, seja o Alcorão,
seja a Bíblia, para entender que somos apenas pó e que um
pouco mais de fraternidade, compreensão e tolerância ajudam
a assentar a poeira. E isto vem antes da vida eterna.
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| Edição nº 163 de 15
de setembro de 2001 |
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Governos
Governar é tarefa de Hércules. Aliás,
se entre os desafios do grego mitológico estivesse o de governar
o Brasil, ele teria sucumbido de estalo. Perto das exigências do
FMI, do entrave burocrático, da morosidade da justiça, da
corrupção rotineira, da ganância dos meios financeiros,
da ignorância de milhões, retirar Teseu do Inferno ou derrotar
a Hidra de Lerna são tarefas ridículas. Estou convencido
de que Hércules teria desistido diante da primeira medida provisória,
diante do primeiro piti do Itamar, da primeira histeria do PT, da mais
simples das exigências da base governista, do primeiro Lalau, ACM,
Jader Barbalho et caterva.
Governar é complicado. Existe uma idéia
generalizada de que é preciso agradar a todos, quando se trata de
governo. Mas cada um de nós sabe que, mesmo numa indústria
de fundo de quintal, isto não é possível. Mesmo no
âmbito da família, sabe-se que os pais não podem satisfazer
tudo que os filhos querem, ainda que os desejos sejam legítimos,
simplesmente porque não é possível. Pense em 170 milhões
de habitantes querendo coisas. Dez por cento pedindo emprego; 30% pedindo
aumento de salário; cinco mil prefeitos pedindo verba para obras;
vinte e tantos governadores de pires na mão; empreiteiros pedindo
reajuste de preço ou pagamento de atrasados; um milhão de
comerciantes reclamando dos impostos, dos quais uma boa parte somos nós,
os contribuintes, que pagamos; banqueiros querendo cobrar cada vez mais
taxas pelos serviços porque acham que os lucros são baixos;
uma maioria de empresários reclamando dos juros que são uma
exorbitância; milhares de ONGs precisando de recursos financeiros;
noventa por cento suplicando mais segurança; o FMI pronto para novas
extorções maquiavélicas; bancos internacionais querendo
receber os empréstimos; o Congresso ávido por barganhas que
favoreçam os parlamentares em suas regiões eleitorais...É.
Governar é complicado.
Em del-Rei deram passe livre para os estudantes. A empresa
já acionou a justiça. Em crônica anterior, eu previ
exatamente o que iria acontecer: alguém vai ter que pagar pelo que
os estudantes não pagam, é claro. O preço das passagens
vai aumentar. Ou alguém tinha esperança de que a empresa
iria diminuir os seus lucros?
Leio nos jornais que a Rodovia Mercosul, uma importante
via de escoamento de produção, com verbas já liberadas
para sua construção, esbarrou no Morro do Cavalo, uma elevação
que fica a 30 quilômetros de Florianópolis. No topo do morro
moram 80 famílias de índios. A solução técnica
para atravessar o morro era um túnel. As ONGs indígenas protestaram:
as explosões para cavar o túnel iriam perturbar a vida dos
índios. Buscou-se outra solução: construir um viaduto
pela encosta. Aí veio a FUNAI e disse que era necessário
construir dois passa-índios, um aéreo, outro subterrâneo.
Foram feitos. Mas surgiu outro problema: os índios não estão
acostumados com o tráfego. Foi preciso dar cursos de educação
no trânsito para a tribo inteira! Que cronograma de obras resiste
a uma loucura destas? É, companheiro, governar é difícil.
Agora a justiça determinou prazo para a retirada
dos barraqueiros da avenida. Para onde vão? Para a praça
Augusto Viegas? Em que lugar? O que pensam os moradores daquele local?
Um local que está sob tutela do patrimônio, por lei municipal.
Governar é complicado. Muito complicado. Mas há quem goste.
FHC pegou um segundo mandato. O Lula vai tentar pela quarta vez. Haja persistência.
Ou muita vontade de governar...
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| Edição nº 162 de 8 de
setembro de 2001 |
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Cretinice
Cento e nove anos separam-me do dia em que,
pelo menos oficialmente, o Brasil se fez independente. Eu pensava justamente
nisto, copo à minha frente, quando o cara me interpelou com uma
certa ironia que não me passou despercebida:
- Como é que você se sente fazendo 70 anos?
Tive vontade de responder que isto não era da
conta dele. Não ando por ai perguntando a idade de ninguém
e, depois, se olhasse bem para minha cara, para as pintas marrons que vão
me aparecendo, às dúzias, na testa, no pescoço,
no dorso das mãos, para as pálpebras que se vão dobrando
sobre sí mesmas e estreitando a rima palpebral, para os cabelos
que se vão rareando e embranquecendo, a pergunta seria absolutamente
cretina.
E nem precisava notar estes sinais de degenerecência
físíca. Se observasse que ando cada vez mais silencioso,
mais recolhido, mais impaciente, turvo, opaco, reticente, impreciso, gutural,
lento de passos, de fôlego curto, rateando movimentos, sua pergunta
teria sido absolutamente cretina.
E ainda que lhe escapassem estas mutações
de comportamento, se observasse que já há algum tempo, muito
tempo, não sei mais o que é um grande e devastador porre,
destes em que a gente se esquece de si mesmo e, irreconhecível,
anda sobre nuvens e flutua como quem caminha na lua, sem gravidade que
o segure à terra e sem dons divinos que o alcem aos céus,
então sua pergunta seria totalmente, absolutamente, cretina.
E mesmo que o cara não fosse da minha intimidade
para presenciar, em outros tempos, estas fugas da realidade, se observasse
que ando monossilábico, um tanto ausente, só ouvindo o que
interessa, sacerdote sem sermão, pastor que não prega, fiel
infiel, apenas atento, apenas inquieto porque há neurônios
intáctos, batimentos cardíacos, e fluxo de fluidos, e idéias
em fervura que nunca chegam à ebulição, sua pergunta
seria absolutamente cretina.
E se lhe fosse possível privar dos meus momentos
mais reclusos, e visse com que concupiscência devoro cada vez mais
livros sem saber exatamente que proveito prático isto poderia ter,
e como continuo a me interessar pelas razões que levam o homem a
estupidezas sem limites, a matanças éticas e religiosas,
à devastação da natureza, à exclusão
dos mais desprotegidos, mesmo que este interesse, puramente intelectual,
ditado pela sensibilidade, não resulte em nenhuma ação
concreta, inércia ridícula, então sua pergunta seria
absolutamente cretina.
E como estas invasões tão íntimas
não são possíveis, se ao menos soubesse de saudades
que me assaltam, vez ou outra, dos que já se foram, com os quais
reparti afetos e sorrisos, lágrimas e dores, feitos e desfeitos,
vida e energia, sua pergunta seria absolutamente cretina.
Mas, se mais atento, ele conhecesse os amigos que fiz
pela vida afora, e com os quais contei em momentos de alegria e tristeza,
se aos meus mais chegados pudesse ter acesso, porque estes, sendo eles,
são eu mesmo, por força genética, e eu os amo não
como mais próximos mas mais do que a mim mesmo pois são minha
carne e sangue, então ele saberia a resposta de sua pergunta cretina
sem que eu precisasse dizer uma única palavra. E, calado, levantaria
comigo um brinde à beleza da vida.
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| Edição nº 161 de 1 de
setembro de 2001 |
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Passo à frente
A Funrei, através e com o apoio do Ministério
de Turismo e Esportes, acaba de transpor um abismo. O abismo que a separava
de uma das funções sociais de uma instituição
de ensino superior. Abrir espaço para as práticas esportivas
de um contingente de jovens que está na faixa etária mais
propícia para estas atividades é dever e obrigação
de qualquer instituição de ensino, pública ou privada.
Não é o que acontece, em geral. A criação de
um complexo poliesportivo nos terrenos da Funrei, com recursos federais
provenientes de convênio que contou, como sempre, com o apoio do
deputado federal Aécio Neves, é uma conquista que precisa
ser enfatizada.
Nunca duvidei das boas intenções dos gestores
da Funrei que precederam Mario Neto. Mas, com dupla experiência,
na universidade e no serviço público, aprendi que boas intenções
não são suficientes. Quase sempre esbarram em obstáculos
que escapam ao controle dos que se batem por realizações
necessárias e imprescindíveis. Para que se concretizem há
o momento certo, quando vários fatores se conjugam e, o mais importante
– os recursos financeiros – acabam aparecendo. É o que aconteceu
agora graças, evidentemente, aos esforços de Mario
Neto. Tarde? Não, não. Apenas tardio, mas ainda em tempo.
Sempre é tempo de construir o futuro.
A edificação do complexo poliesportivo
não vai apenas dar oportunidade aos alunos da Funrei de testar habilidades
esportivas. Vai inserir, numa outra dimensão, a Funrei na comunidade,
abrindo outros horizontes para suas atividades de extensão, como
ela já faz em outros setores puramente técnicos e, na área
cultural, com o seu evento humanístico mais relevante, o Inverno
Cultural. Ninguém pode duvidar de que em breve todo o esporte na
cidade verá dias melhores. Na cidade? Na região. Um foco
esportivo como este que vai ser criado vai se estender para além
dos limites do município. Levou tempo, mas os fatores se conjugaram.
Aos trancos e barrancos, vamos indo. Ainda há
muito que fazer, é verdade. Somos uma cidade pobre. Pobre em muitos
sentidos. Mas estamos tomando, lentamente, consciência de que não
é potencial que nos falta. Aprenderemos. Com o tempo aprenderemos
que somos especiais porque somos históricos e carregamos, atavicamente,
uma carga cultural relevante. E é daí que vamos arrancar
forças para construir um presente melhor e projetar um futuro que
faça valer o que fomos, somos e seremos capazes de construir. Temos
300 anos. Um antigo ditado diz que o diabo não é mais sábio
porque é o diabo, mas sim porque é mais velho.
Paralelamente, este convênio vai resolver um problema
crônico em del-Rei: o tráfego pesado no centro histórico,
inclusive dos &ocir