Pelas EsquinasJota Dangelo

 

 


Edição nº 456  de 26  de maio de 2007 Voltar


Em 35 mm

A cidade precisa aprender a ter orgulho de algumas relíquias que possui e às quais não dá a importância que devia. Quando, nas cidades do interior, e mesmo nas capitais, cinemas estão fechando as portas, graças ao espírito indômito e à paixão arrebatadora de Wellerson Itaborahy, o Lilinho, pelo cinema, São João del Rei não só ganhou mais uma sala de projeções cinematográficas no novo Shopping da cidade, como teve reformado, completamente, o velho Glória que, desde 47, serve aos aficionados da sétima arte.

O advento do videocassete, primeiramente, e depois do DVD, transferiu para as locadoras um número considerável de clientes que antes eram freqüentadores assíduos dos cinemas. As distribuidoras também viram, na cessão de direitos de exibição dos filmes para as televisões, um negócio mais lucrativo do que fazer milhares de cópias para distribuir para os municípios do país. Daí para o fechamento das salas de projeção foi um átimo. A maioria das cidades de médio porte não possui mais cinemas. São João del Rei não só resiste, abre mais uma sala de projeção. E, para quem gosta realmente de cinema, DVD, mesmo em tela plana de 50 polegadas, não é a mesma coisa que assistir a projeção de um filme num cinema de verdade. Ali há todo um ritual que precede o início do filme, os trailers, o apagar das luzes, a pipoca, os drops comprados dos baleiros ou no balcão do saguão.

Lilinho me enviou uma preciosidade: o folder de inauguração do Cine Glória, em 21 de agosto de 1947, construído pela Empresa F. Cupello & Cia. Ltda, de Francisco Cupello e do Dr. Gabriel Martins Vilela. O Glória, portanto, é sexagenário. Pelo documento histórico tomei conhecimento de que sua construção começou em 45, no mesmo local onde existira o Cine Pavilhão, de vida efêmera, do qual ouvi falar na minha infância. As solenidades de inauguração foram transmitidas pela ZYI-7, Rádio São João del Rei, na voz de um locutor da Rádio Globo, do Rio de Janeiro, Celestino Silveira. O ato de inauguração foi feito pelo jornalista José Belini dos Santos, diretor de "O Diário do Comércio", que muito contribuiu para a realização da obra, e que entregou ao Sr. Prefeito Municipal as chaves do Cine Glória para que sua Excia. o franqueasse ao público.

O programa da sessão inaugural, gratuita, respeitada a ortografia, era o seguinte:

Cine Jornal Brasileiro nº 8 x 49

Fox Movietone – Atualidades

Dois no céu (filme da Metro) - Trailer

Aqui começa – Short (Paramount)

Às 29 horas: A Universal apresentará "o majestoso filme em tecnicolor"

VIVO PARA CANTAR, com Deana Durbin

Preços: poltronas Cr$3,00 Estudantes Cr$1,50

Velhos tempos. Lilinho, saudosismos à parte, está mantendo a tradição. São João del Rei não ficará sem cinema, se depender dele. O que é não só raro, mas milagroso, hoje em dia. A cultura agradece.

 

 

 

 

 


Edição nº 455  de 19  de maio de 2007 Voltar


Istra Rapa Tefren (2)

A publicação inédita da gramática do dialeto sanjoanês, "de istra rapa tefren", logo recebeu a colaboração de filólogos estudiosos do dialeto, como o Miguel Marcelino que, logicamente, assina Guelmi. Suas sugestões estão englobadas nos itens da gramática que se seguem.

GRAMÁTICA DO DIALETO SANJOANÊS

(continuação)

2.0 – Das exceções

b) Conjunções "e", "ou", artigos "o", "a", bem como as preposições "de", "da", "do", "dos", "das" não sofrem inversão. Assim, suco de manga é cosu de gaman.

c) A palavra "não", na inversão é "una", como se tivesse duas sílabas na-o.

Exemplo: Não coma; no dialeto é una maco.

 

3.0 – Palavras de duas sílabas

Simples inversão. Exemplos: sala é lasa; pinga é gapin; copo é puco

ATENÇÃO: na inversão a sílaba tônica permanece como a da palavra original, assim como a pronúncia. Como na pronúncia mineira regional, grande parte das palavras com "o" e "e" normalmente são pronunciadas como se fossem "u" e "i" respectivamente, na inversão isto deve ser conservado. Assim, na inversão de "copo", pronuncia-se "puco" e não "poco", com "ó" aberto. "Suco", na inversão é "cusu" e não "cósu".

 

4.0 – Palavras de três sílabas

Simples inversão. Caderno é noderca; janela é laneja; pancada é dacapan; macaco é cocama; cadeira é radeica.

ATENÇÃO: Palavras de três sílabas em que a primeira e a última são iguais, a inversão é feita tomando-se como primeira sílaba a do meio – Exemplo: caneca é necaca; careca é recaca.

 

5.0 - Dos aumentativos

No uso de aumentativos, o aumentativo continua na última sílaba quando se faz a inversão. Assim, garanhão é nharagão; garrafão é farragão; Entretanto nas palavras de duas sílabas pode-se fazer a inversão mantendo o aumentativo na primeira sílaba: salão é lãosa; carrão é rãoca (pronunciar duplo r)

 

6.0 – Palavras de quatro sílabas

De difícil inversão, o dialeto, podendo, evita-las. Os mestres fazem a inversão completa, normalmente: lamparina é naripalam. Os que não são mestres costumam dividir a palavra e fazer a inversão só de uma das duas partes: lamparina é rinapalam, mas isto é considerado gíria grosseira no dialeto.

 

7.0 – Do plural

Quando uma palavra está no plural, na inversão o "s", do plural, continua no final da inversão. Assim, caras não é rasca e sim racas; vidros não é drosvi, mas drovis. Deles não é lesde, e sim ledes (pronuncia-se lides).

(Breve, outras regras do dialeto)

 

 

 


Edição nº 454  de 12  de maio de 2007 Voltar


Botequins

Fui e sou um freqüentador de botequins. Não sei desde quando. Desde que me entendo por gente, o que acontecia, na minha geração, aos 18 anos. Bem mais tarde do que acontece hoje. Agora, os de 14 estão enchendo a cara sem que ninguém os incomode. Nem a eles nem aos que vendem bebidas alcoólicas a menores. Dizem que são outros tempos. As pré-adolescentes de 14 anos vão aos Axés, às Folias e aos assemelhados, sem os pais e voltam às 4 da manhã. São outros tempos. De fato, são. Piores. Bem piores.

Mas, voltando aos botecos. A fauna botiquineira é eclética. Há os encismesmados, reclusos, que se aquietam num recanto do boteco e ruminam sabe-se lá o quê. Não participam. Bebem e se embotam. Fazem parte do grupo silencioso dos bares.

E há os festivos. Os que falam alto. Os que maltratam os ouvidos dos fregueses com decibéis acima dos que humanos podem suportar. E gargalham. E são ruidosos, de fala e de gestos, de palavras e ações. E incomodam. E entram em todas as rodas, circulam de mesa em mesa.

E há os estabanados. Os que estão sempre derramando o conteúdo de copos e garrafas, quando não derrubam cadeiras e deslocam mesas. E entornam os conteúdos líquidos sobre os companheiros de mesa, eles mesmo saindo enxutos da operação, da avalanche, e dando risadas dos que ensopam camisas e calças por sua desastrada e intempestiva gesticulação.

E há os que, com remorso, abrem temporadas de quarentena etílica: não bebem na quaresma, por exemplo. Em compensação, passado o recesso alcoólico, tiram a diferença: bebem o dobro. Ou seria o triplo?

E há os que acariciam os copos, suavemente, antes de levá-los à boca e ingerir seu conteúdo. Namoram primeiro a cerveja no copo, alisam o vidro, eroticamente, gostam de sentir o cheiro do malte antes que ele chegue ao paladar. E ficam ali, tempos, flertando com o objeto do desejo. Quando se decidem pela posse, ela é rápida: sorvem de um gole o conteúdo, saciando sede e gozo ao mesmo tempo.

E há os que comem. E acreditam que, comendo, podem beber o dobro sem perigo de embriaguez.Armadilha que, eventualmente, conduz a porres homéricos. E haja tira-gostos. É para estes, e para os que apenas são glutões, que inventaram o "Comida de Buteco". E aí já não é bem um tira-gosto. É refeição mesmo, cada prato um jantar suculento. E o cardápio é variado, tão váriado que atrai pelo nome e pelos ingredientes. E sentar e aproveitar. Estes fregueses são outro tipo de botiquineiros. São os do "bom-apetite". Fico sabendo que suspenderam a promoção do "Comida de Buteco" em São João del Rei. Lamentável. Era o tipo do evento culinário apropriado para fazer parte das celebrações da Capital Brasileira da Cultura. Culinária também é uma arte.

 

 

 

 

 


Edição nº 453  de 5  de maio de 2007 Voltar


Maioridade penal

O assunto em pauta é a maioridade penal. No Senado, a Comissão de Constituição e Justiça antecipou a maioridade penal de 18 para 16 anos, talvez sensibilizada pelas lágrimas derramadas por inúmeras famílias que perderam parentes pela fúria assassina de alguns menores infratores. Menores infratores que, diga-se de passagem, cometido o crime, por mais hediondo que seja, recebem pena de até (eu disse até) três anos numa casa correcional, tipo FEBEM e assemelhados. Decorridos os três anos, o criminoso sai de lá com a ficha limpinha, ainda antes das famílias das vítimas tirarem o luto, antes mesmo de secarem as lágrimas derramadas por elas. Há exceções, raríssimas, quando por laudo psiquiátrico, o ex-menor é considerado de alta periculosidade e não está apto a viver em sociedade.

Mas o novo arcebispo de S.Paulo, por exemplo, não gostou da decisão da Comissão do Senado. Ele é contrário à antecipação da maioridade penal porque "fazer leis não resolve o problema". Que problema? O do menor infrator. O arcebispo não está preocupado com a impunidade do menor infrator. Nem com o pranto das famílias enlutadas. Acredito, como ele, que a antecipação da maioridade penal não vai resolver o problema do menor infrator, mas também não vai dar aval à impunidade. Aos 16 anos os adolescentes estão votando; estão fazendo filhos; estão tomando porres homéricos às ocultas dos pais; sabem muito bem o que é certo e o que é errado. Não dão um tiro na cabeça de alguém pensando que estão brincando de bandido e mocinho. Estão matando, esta é que é a verdade. E devem pagar por isto. É uma questão de justiça. Justiça que, no Brasil, é cada vez mais condescendente, a ponto de criminosos, responsáveis por delitos hediondos, terem agora, por lei aprovada recentemente, direito a progressão de pena decorrido apenas 1/6 da pena a que foram condenados.

Obviamente, não é só o arcebispo de S.Paulo que está contra a antecipação da maioridade penal. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) também está, com o apoio do jurista Dalmo Dallari, que até está pensando em entrar com um mandato de segurança no Supremo Tribunal Federal para bloquear a tramitação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que antecipa a maioridade penal para 16 anos. Com certeza o Dalmo Dallari não teve ainda nenhum filho seu esfaqueado por um menor delinqüente. Não estou sequer interessado nos seus argumentos jurídicos para defender sua opinião.Penso nas vítimas, na família das vítimas, na vida ceifada estupidamente por um menor infrator que depois de três anos sai da reclusão com a ficha tão limpa quanto a de um querubim, para quem acredita em querubins. Penso, antes, na justiça. Resolver o problema de menor infrator não é uma coisa simples, todos reconhecem. Nem sei se vamos resolvê-lo. De qualquer modo é solução de longo prazo. Até lá a justiça não será feita? O menor assassina e fica por isto mesmo?

No mundo inteiro, a grande maioria dos paises já antecipou a maioridade penal para 16 anos. E até para bem menos. Alguns até com exagero, como na Austrália, onde é de sete anos. Na Alemanha é 14; na Dinamarca é 15; na Áustria, 14; na Rússia, 14; na Itália, 14; no Japão, 14; na Holanda, 12; na Espanha, 12; nos Estados Unidos, de sete a 14. Onde é 18? Em paisecos como Colômbia, Equador, Venezuela, Costa Rica e, como defendem o arcebispo de S. Paulo e o jurista Dalmo Dallari, no Brasil. No dia em que o problema do menor infrator for resolvido, muitos outros problemas estarão resolvidos no Brasil. Mas até lá, o sangue dos que morrem nas mãos assassinas dos menores infratores clamam, não por vingança, mas por justiça.

 

 

 

 


Edição nº 452  de 28  de abril de 2007 Voltar


No boteco

Mesa do fundo do bar do Antônio José. 18:30. Os dois e uma cerveja. Ninguém no pedaço, a não ser eu, no balcão, na escuta.

E disse um:

-É para o seu bem. Você não quer, mas é para o seu bem. Eu até compreendo suas razões. Mas só tem um jeito. O cara é legal. Procure o analista. Você vai ver. Vai se sentir muito melhor.

-Ô cara, eu vou te contar uma coisa. Você me conhece e sabe que eu não gosto deste negócio de analista. Papo furado. Tem gente que precisa. Tudo bem. É gente que tem problema.

-E então? Experimenta.

-Eu não tenho problema, cara! Eu tenho é temperamento, tenho gênio. E não vou a analista para ele mudar o meu gênio, meu temperamento. Eu sou assim mesmo e pronto.

-Assim mesmo, como? Você não sabe! Nunca foi ao analista!

-Como eu sou, pô! Com minhas manias, meu jeito.

-Está vendo? É aí que começa o seu problema.

-Que problema?

-Manias, jeito. É isto que o analista vai consertar.

-Cara, eu tenho 62 anos. E sempre fui assim mesmo. Quem foi que disse que eu estou querendo mudar? Não quero, pô!

-Mas você vai lá só para conversar!

-Conversar o quê? Eu não tenho nada para falar para o analista, tá me entendendo? E ele não fala. Só escuta.

-Fala também.

-Fala nada. Pergunta, de vez em quando. E eu não quero ninguém se metendo na minha vida.

- Este é exatamente o seu problema. Solitário. Enrustido. Embotado. Não deixa ninguém se aproximar de você.

-Não deixo mesmo. Homem, não. Muito menos analista. Ainda mais que eu estou lá, indefeso, deitado num sofá. Reconheça que é uma posição desvantajosa...

-Fala besteira, não! Ficou maluco? Tá confundindo tudo.

-Confundindo coisa nenhuma. Eu não tenho problema para deixar as mulheres se aproximarem de mim. Mas homem, não.

-Isto já é preconceito, cara. É uma das razões pela qual você precisa ir ao analista.

-Pera aí. Você é sócio deste analista? Ta levando quanto pra arranjar clientela pra este safado?

-Que safado?

-O imbecil deste analista que você está querendo que roube o meu dinheiro.

-Imbecil, como? O cara é meu irmão!

- Então são dois safados! Dois imbecis. Coisa de família. Também, têm a quem puxar!

-Agora ofendeu, cara! Já é agressão!

- Ofendeu nada! Que agressão? Eu sou assim mesmo, não te falei? É gênio. Coisa de temperamento. Você se espinhou à toa. Fica nervosinho não. Pede outra cerveja que isto passa. Ou será que você num está precisando de um analista?

 

 

 

 


Edição nº 451  de 21  de abril de 2007 Voltar


Dos nomes

Outro dia, inusitadamente, por acaso, fixei a atenção sobre um documento que tinha minha assinatura. Melhor dizendo, fixei o olhar sobre a assinatura: José Geraldo Dangelo. E achei estranhíssimo. José Geraldo? Que, diabo, era aquilo? Ninguém me chama de José Geraldo. Ou é Jota, ou é Jota Dangelo, ou é só Dangelo. Ou ainda Zé Dangelo. De modo que José Geraldo, ainda mais escrito, me pareceu ser qualquer outra pessoa, mas não eu mesmo.

Descobri que não tenho cara de José Geraldo. Não me acho José Geraldo. Não tenho nem o jeito de José Geraldo. Na minha família sempre fui Zezé. No meio da molecada era o Zé. No teatro sempre fui Jota Dangelo. Na Faculdade de Medicina, Dangelo, mais tarde, Professor Dangelo. Por que aquele José Geraldo? Dois santos no mesmo nome: José e Geraldo! José ainda é compreensível: lembra o velho carpinteiro, pai de Jesus, quer dizer, pai de criação, porque Maria, segundo a Igreja, concebeu sem pecado, o que no mais meridiano entendimento, quer dizer sem relação sexual com o marido, uma afirmação difícil de entender e mais difícil ainda de explicar. Só a fé explica, já que Freud jamais explicaria.

Mas, Geraldo, por que? São Geraldo não tem tantos devotos assim. Pelo menos, não como Santo Antônio, o casamenteiro; ou São Cristóvão, o protetor dos motoristas; ou São Miguel, o anjo-da-guarda mor; ou São Benedito, o santo negro. Na minha família nenhum ancestral é Geraldo. Ops! Caiu a ficha! Foi quando me lembrei que um tio meu, piloto da aeronáutica, falecido em 1937 num desastre de aviação, chamava-se exatamente José Geraldo Dangelo. E fui revirando a memória para relembrar que, na verdade, fui batizado José da Silva Dangelo, o Silva vindo da minha mãe. Foi depois da morte do meu tio, quando eu tinha seis anos de idade, que decidiram, obviamente sem consultar-me, trocar o Silva por Geraldo, a meu ver pior a emenda que o soneto, embora Silva fosse também, não um soneto, mas um verso bem estropiado. Pois é, cortaram o Silva e colocaram um Geraldo logo depois do santo carpinteiro. Hoje, até mesmo José Dangelo me soa estranho. A José Dangelo prefiro Zé Dangelo, como me chamam a mais das vezes em São João del Rei, ou mesmo de Zé Danjo, para quem tem dificuldade em pronunciar o sobrenome italiano.

O certo é que José Geraldo me parece ser outra pessoa. Tem cara de corretor de imóveis, de tabelião de cartório. Nada contra estas profissões, entendam-me. Têm todo o meu respeito. É só que não consigo estar confortável dentro desse José Geraldo e fico sempre imaginando que ele é de outro cidadão.

Ou será que estou é ficando mesmo meio descompensado? Ou sem assunto para escrever a coluna?

 

 

 

 


Edição nº 450  de 14  de abril de 2007 Voltar


Expressões

Volta e meia algumas expressões caem no gosto do povo e passam a ser de uso comum. É assim que um dos mandamentos, aquele que proíbe o uso do nome de Deus em vão, é o mais desrespeitado. E por todo mundo, sem exceções. Por qualquer motivo, e até sem motivo algum, invoca-se o nome de Deus. "Graças a Deus" é a expressão mais utilizada no dia-a-dia. "Você vai bem"? – Graças a Deus. "Fulano chegou ontem"? – Chegou, graças a Deus. Ou então é o "se Deus quiser". "Você vai tirar férias? – Se Deus quiser. Isto sem contar os suspirosos "Ai! Meu Deus!", que vivemos repetindo diante de qualquer notícia ruim ou tendo que enfrentar quaisquer dificuldades. E tem mais: "Deus é grande!"; "Deus é pai", "Deus é quem sabe"; "Seja feito o que Deus quiser". Não há dúvida: o mandamento que proíbe o uso do nome de Deus em vão é dos mais transgredidos de todo o elenco de normas da igreja católica.

Não faz muito tempo, outra expressão ganhou a primazia de uso: "com certeza". Não há pergunta que não comece a ser respondida por um "com certeza". "Vocês estão esperando ganhar este jogo?" – Com certeza. Para isto trabalhamos a semana toda. "Mas você cortou o cabelo!" - Com certeza. Cansei de cabelo comprido. "O senhor considera importante este projeto de lei?" – Com certeza. Vai beneficiar os contribuintes. (Aqui pra nós, há anos que estou esperando um projeto de lei como este).

Há algum tempo atrás tudo tinha a palavra super na frente: super-legal, super-careta, super-bacana, super-gostoso. Depois foi o tri, que já caiu em desuso: tri-legal era o que mais se escutava.

Recentemente descobri outra novidade nas expressões coloquiais. Procurando informações sobre um apartamento posto à venda por uma imobiliária num jornal de Belo Horizonte, liguei para a empresa. Disse da minha intenção de saber onde se situava o tal apartamento que estavam anunciando. Disseram-me o nome da rua, as ruas próximas, e logo verifiquei que o imóvel ficava na boca de entrada da Favela do Papagaio, em Santo Antônio. Foi o que eu perguntei, de maneira clara, para ter certeza: "quer dizer, o apartamento fica na boca de entrada da Favela do Papagaio?" Para espanto meu, o funcionário respondeu: "Não, não, meu senhor. O apartamento fica na entrada da Comunidade Carente de Santo Antônio". Favela virou Comunidade Carente. Pelo menos para as imobiliárias de Belo Horizonte. E estamos conversados.

 

 

 

 


Edição nº 449  de 7  de abril de 2007 Voltar


Ofício de Trevas

A escuridão é tamanha que já não se pode distinguir o bem do mal. Das grandes cidades, as megalopes, vem um murmúrio dolorido que soa como um pedido de socorro. Já não gritam. Apenas murmuram. Perderam a voz nos protestos contra o caos. Contra a violência. Contra o império do medo. Não é só a voz que perderam. Perderam também as esperanças diante das promessas jamais cumpridas dos governantes.

Não abra a porta. Pode ser uma bala perdida pedindo para entrar. Pedindo? Qual nada. Elas entram mesmo sem bater. Pelas vidraças. Pelas frestas. Cruzam as ruas. Não escolhem alvos: inocentes e bandidos estão no seu caminho.

A escuridão é negra. Trevas. O negrume está chegando nas cidades de médio porte. Diz-se que a culpa é das elites. Meia verdade. Diz-se que a culpa é das condições sócio-econômicas. Meia verdade. A imensa maioria de pobres deste país é absolutamente honesta. Se a miséria fosse a causa do caos, metade da população seria bandido. E não é, sabemos. Há outras causas, como a televisão, anunciando diariamente o paraíso do consumismo, induzindo a adolescência a ver na grife afirmação de status social, abusando do baixo nível cultural da população com programas farsescos, enganosos e sumamente ridículos como o BBB. E há a impunidade, a morosidade secular da Justiça, o aparelhamento partidário do Estado, uma lei de primeiro mundo feita para um país de quinto, como a que protege a adolescência infratora. E há a incapacidade do Governo Federal, de todos os governos federais, em coibir o contrabando de armas e o tráfico de drogas; e há a incapacidade do Governo Federal atual até mesmo de resolver o problema do tráfico aéreo, que se arrastou por seis meses até desaguar numa greve ilegal que quebrou, perigosamente, a hierarquia militar, pedra angular de uma instituição como a das Forças Armadas. Trevas. Escuridão. E, complacente, a tudo assiste o Ministro da Defesa, o sr. Valdir Pires, indefeso, incompetente, desmoralizado. E permanece no cargo: não se demite, nem o presidente o demite.

São as trevas. Os políticos migram de partido para partido como trocam de terno. Deveria dizer cueca, cuja troca, em princípio, é mais freqüente? Não lhes chega à face nenhum rubor de vergonha pela troca constante. Migram para as hostes da base governista atrás de favores pessoais: o governo é o caminho mais curto para satisfazer ambições. Os eleitores dos deputados camaleões que se danem.

A escuridão avança em outras frentes. A qualidade do ensino, segundo o próprio presidente da República, "está entre os piores do mundo". O analfabetismo funcional é a regra, quer dizer, o cidadão lê, mas não entende o que está lendo. Trevas. Se a educação pudesse ser resolvida só com aumento do salário, o governo acaba de estabelecer um piso salarial de R$850,00 para professores do ensino básico, fundamental e médio. É medida justa. Mas sem reciclagem, sem aprimoramento pedagógico, profissional, os professores vão continuar a fazer jus à mediocridade do ensino, embora ganhando um pouco melhor. São as trevas da ignorância assombrando o país.

 

 

 


Edição nº 448  de 31 de março de 2007 Voltar


De "Istra Rapa Teandi"

Aviso que hoje não estou para brincadeiras. Foram muitos anos de estudo e pesquisa, observações pessoais, convívio com os mais avançados e experientes expoentes do dialeto sanjoanense. Já viram que estou falando de uma língua semi-morta, a de "istra rapa teandi", que muitos chamam também de "istra rapa tefren". Coisa seríssima, que nenhum professor de letras da UFSJ estaria em condições de discutir com um dos luminares do dialeto, o sanjoanense Ari Gomes. Trata-se de dar a público as regras gramaticais deste ancestral e um tanto esquecido meio de comunicação verbal, criado nestas paragens do Lenheiro, ninguém sabe por quem, nem quando, eis que é coisa do povo, dono da própria língua, para não dizer dono de tudo, apesar dos governantes continuarem achando que são eles que mandam e, pior, agirem com esta convicção.

O "sanjoanês" não está registrado em nenhum dicionário, falha imperdoável do Aurélio e do Houaiss. O dialeto não foi reconhecido pelo MEC, outra incompetência indesculpável. Nem o próprio Instituto Histórico e Geográfico de São João del Rei dele tomou conhecimento, o que acho um lamentável deslize histórico. Na verdade, preconizo inclusive seu tombamento pelo IPHAN e reconhecimento oficial pela Câmara Municipa. A idéia é transformá-lo em uma alternativa de comunicação comunitária, ainda que seja preciso negociar com os vereadores e mesmo usar de suborno, o que não deve ser muito difíci. Ou ainda valer-se de pressões da comunidade organizada, o que deve ser bem mais complicado, já que a sociedade está cada vez mais passiva e desorganizada.

O grande problema, descobriu-se, é que o dialeto, como língua alternativa, não tinha respaldo formal, isto é, um elenco de regras que lhe dessem o status de língua falada e praticada. Sua pura e simples existência não era suficiente para reivindicar reconhecimento oficial, já que toda língua que se preza, tem sua gramática. E mais: com o correr do tempo, o dialeto está em vias de extinção, é cada vez menos utilizado, o que o condena a breve desaparecimento. E isto seu deu, principalmente porque os seus mais experientes e exímios praticantes, os engraxates, já não existem mais como antes, e alguns dos mestres do dialeto, como Dudu e Rubinho Mattar já faleceram, e outros, como Wilson "Galinha-preta" e Raul Português, nem moram mais na cidade.

Por esta razão, de hoje em diante, após pesquisas aprofundadas, damos a público a gramática deste dialeto para mostrar que ele não é uma casa-da-mãe-Joana, mas que tem suas regras, suas normas, seus princípios lingüísticos. Começamos hoje, mas outros capítulos seguir-se-ão, num sábado ou outro.

GRAMÁTICA DO DIALETO SANJOANÊS

1.0 – Do princípio básico

O "Sanjoanês" é um dialeto que é falado invertendo as sílabas, não as letras. Portanto, a palavra "verdade" não é "edadrev", mas "dedaver". Atente, entretanto, para uma regra fundamental e genérica: mesmo na inversão, a sílaba tônica continua sendo a mesma. Assim, em "verdade", a pronúncia é "dedáver" e não "dedavér"

2.0 – Das exceções

Há inúmeras exceções e variantes no dialeto. E é aí que residem as dificuldades para se dominar a língua:

a) palavras monossilábicas, em geral, não são invertidas, uma vez que só possuem uma sílaba. Elas são mantidas, com a colocação de um "i" na frente da sílaba. Por exemplo, "sim" é "isim"; "que" é "ique"; "por" é "ipor"; "já" é "ija".

(continua qualquer dia destes)

 

 

 

 


Edição nº 447 de 24 de março de 2007 Voltar


Tempo de espera

Não me apresso.

Já foi o tempo em que eu corria

como se a vida se esgotasse

antes que eu desse o primeiro passo.

Ou como se findasse

no momento seguinte

à ação proposta.

 

Não me apresso.

Sei que ninguém gosta

de esperar. Pois eu espero.

E mais:

peço que a espera se prolongue

num nunca chegar.

Pois o que eu não quero

É justamente que chegue,

pois chegando, acabou-se

o meu tempo de esperar.

 

Não me apresso.

Sei que ela flerta com a vida

e ameaça até se aproximar.

Sinto que observa, escondida,

o meu mais leve descuidar.

E eu me descuido. Corro o risco.

Me arrisco.

Mas resisto. Não me apresso.

Embora saiba, impotente,

que ainda que eu a prolongue,

não vai durar eternamente,

falta pouco para esta espera terminar.

Mas não me apresso.

Fico na espera.

E apenas peço

que eu não sofra muito,

quando o tempo de espera se acabar.

 

 

 

 

 

 


Edição nº 446 de 17 de março de 2007 Voltar


Tópicos

A CORDA E O LIVRO

Para quem gosta de teatro, de um bom texto e de atores com talento, ainda há tempo, hoje, para conferir, no Teatro Municipal, o espetáculo escrito e dirigido pelo neurologista e homem de teatro, Jair Raso, "A corda e o livro".

Recebido em Belo Horizonte com merecidos elogios da crítica e com aplausos pelos espectadores, o texto de Jair Raso conta, com boa dose de humor e inteligência, o encontro de um catador de papel com um jovem que está à beira de cometer suicídio.

A encenação é primorosa, com um cenário realista de Felício Alves, construído com gosto apurado e técnica irrepreensível. A dupla de atores está num dos melhores momentos do teatro em Minas, particularmente José Maria Amorim, preciso e comovente no personagem do catador de papel. Vale a pena conferir.

PRAGA

O Papa, para não fugir à regra, retrocedeu mais algumas décadas, proibindo que se dê comunhão a ex-divorciados. Não é um bom exemplo de tolerância, nem um preceito que se harmonize com a pregação de Cristo, sempre mais para o perdão do que para a punição. Por outro lado, o Papa disse que o segundo casamento é uma praga. Bem, aí a história já é outra. Tem muita gente que acha que o casamento é sempre uma praga, o primeiro ou o último... Talvez seja por esta razão que o Papa defendeu também o celibato para os sacerdotes. Se o segundo casamento é uma praga, o primeiro pode também ser, nunca se sabe... E, para completar o retrocesso, o Papa agora quer que a missa volte a ser em latim, isto depois de 40 anos de missa em português. Dura lex sed lex.

PONTO "G"

O presidente da República, o "iluminado", é realmente um sujeito inventivo. E misterioso, às vezes. Na visita do Bush ao Brasil, em entrevista, disse que as negociações ainda não tinham chegado ao "ponto G". Até agora ninguém sabe de onde Lula tirou esta expressão e o que será o tal ponto G. Tem gente que acha que o G é de gole; outros, que é de gol.Os cientista políticos estão procurando na Internet o que será o tal ponto G. Por falar em Bush, dizem que o melhor da viagem que ele fez à América Latina foi quando ele foi a Mérida, no México...

ASFALTO

Finalmente a Prefeitura asfaltou a continuação da Avenida Tiradentes, que estava uma cratera só. Parabéns. Agora falta a estrada velha das Águas Santas, que está um horror.

 

 

 


Edição nº 445 de 10 de março de 2007 Voltar


Justiça

O dia 8 de março é dedicado às mulheres. Nas vésperas, precisamente no dia 6, terça-feira desta semana, às 11:30, o empresário Moacir Moraes foi preso por tentativa de assassinato do seu sobrinho, o taxista José Agnaldo, a quem acusa de ser amante de sua ex-mulher. Bem, ex-mulher é, rigorosamente, relação zero, ou seja o sr. Moacir Moraes não é marido da ex-mulher, ele foi marido, e ela foi sua mulher. Atualmente, ele é o cidadão Moacir Moraes e ela é a cidadã Márlia Mesquita, de 56 anos, professora universitária. Ou melhor, ela foi a cidadã Márlia Mesquita, uma vez que em 2001, o sr. Moacir Moraes a assassinou, de maneira covarde e premeditada, em frente a um shopping, no bairro de Lourdes.

O assassinato ocorreu em 12 de fevereiro de 2001. O assassino fugiu em seu Mercedes Benz, em direção ao aeroporto de Confins, embrenhou-se na mata em Vespasiano e só foi preso 48 horas depois, fugindo ao flagrante, mas confessando o crime. Respondeu à fase de inquérito policial e parte da processual atrás das grades. Mas quatro meses depois, em julho de 2001, foi beneficiado com relaxamento da prisão preventiva. A promotoria apelou e em 26 de agosto Moacir voltou para a prisão, agora na Casa de Detenção Dutra Ladeira, em Ribeirão das Neves. Em julho de 2002 foi mandado a júri popular, mas o julgamento não foi marcado. Um ano depois, entretanto, com o diagnóstico de câncer de próstata, Moacir ganhou o direito à prisão domiciliar. Saiu da cadeia.

Em janeiro de 2004, foi marcado, pela primeira vez, o julgamento do assassino para o mês seguinte. Dias antes, o Júri foi cancelado. Moacir deveria voltar para a cadeia, mas foi beneficiado por decisão do Juiz Glauco Soares, que mesmo entendendo "o risco de perturbação da ordem", manteve a prisão domiciliar, que justificou pelo estado de saúde do assassino. Depois de duas sessões suspensas, Moacir Moraes foi a Julgamento, em 6 de fevereiro de 2006, cinco anos depois de cometido o crime premeditado e confessado. Foi condenado a 14 anos de reclusão em regime fechado, por ter cometido homicídio qualificado. Entretanto foi-lhe concedido o benefício de aguardar em liberdade o julgamento de recursos. O benefício lhe foi garantido com a justificativa de que "o sr. Moacir Moraes não representava nenhum risco para a sociedade". Entre o crime, de 2001, e a condenação de 2006, o sr. Moacir ficou atrás das grades somente pouco mais de dois anos.

Na terça feira, quem não representava perigo algum para a sociedade, disparou cinco tiros em José Agnaldo, no cruzamento de duas das mais movimentadas ruas do centro de Belo Horizonte, Guarani com Tamoios. Desta vez, foi preso em flagrante. Será que vai ficar preso? Por quanto tempo? Dois meses? Sua ex-mulher está enterrada, faz tempo, vítima do sr. Moacir Moraes, o tal que não representa perigo algum para a sociedade. A violência contra a mulher, e contra todos, prossegue. E a Justiça também.

Mas como todos sabemos, a Justiça é cega. Ou será mesmo é vesga?

 

 

 

 


Edição nº 444 de 3 de março de 2007 Voltar


Quaresma

Não sei mais o que significa Quaresma para mim. Já houve um tempo em que ela era semanas de mistério, de mulas-sem-cabeça tirando fogo com os cascos, no galope desenfreado sobre os pés-de-moleque do Largo da Câmara. Isto foi há muito tempo, tempos da minha infância, quando a negra Ana, filha de escravos e criada por minhas tias, sentava-se, à noite, à beira da minha cama e me horrorizava com histórias de assombrações que povoavam os meus pesadelos.

Mais tarde, a Quaresma significou recolhimento, contrição, algo de purgação, embora eu nunca soubesse muito bem o que havia para purgar. Mas sei que havia jejum às sextas-feiras, o dia todo, antes da liturgia da Via-Sacra pelas ruas do centro histórico, o canto pungente do coral da Ribeiro Bastos entoando o Mi-se-ri-cór-di-a, que me emocionava, adolescente e contrito, certo de que havia uma vida eterna e acompanhar a Via-Sacra fazia parte do ritual para merecê-la.

Era bonito este tempo de crenças, tempo em que ouvia falar das "Encomendações de Almas" com olhos de espanto e imaginado cenas teatrais na porta dos cemitérios, perto da meia-noite, quando os vivos, na sua maioria, imitavam os mortos no sono repousante, e os mortos despertavam ao som das cantorias fúnebres. Era o que imaginava das "Encomendações de Almas", às quais, mais tarde, acompanhei, sem temores juvenis, sem fervor religioso, mas maravilhado pela música e pela fé dos participantes, pelo respeito aos que já não se encontravam mais entre nós.

Mas hoje, o que significa a Quaresma para mim? Perdida a inocência sugestionável da infância, o período obscuro e indefinido da adolescência, restou apenas um certo distanciamento dos ritos litúrgicos, embora permanecesse o respeito e admiração por eles e pela fé dos que ainda jejuam na quaresma, e os há, e pelos que vivem em recolhimento e oração nas semanas que antecedem o festivo domingos de Ramos, prenúncio da tragédia bíblica da paixão, agonia e morte de Cristo no Calvário.

Gostaria de poder voltar a ter medo das mulas-sem-cabeça. Ou a ter a emoção com que acompanhei a primeira Via Sacra e a primeira Encomendação de Almas. Deus sabe que isto não é possível. Mas deve perdoar-me. Diz-se que é misericordioso. E misericórdia não era o que o coro pedia nas Vias-Sacras de rua?

 

 

 

 


Edição nº 443 de 24 de fevereiro de 2007 Voltar


Tópicos

NOVA FANTASIA

O vereador Adenor Simões animou-se no Carnaval. Meteu uma fantasia de gari e saiu varrendo a rua, com outros varredores, numa inovação(?), ao que parece, dos organizadores do Carnaval. Realmente há muitas coisas que precisam ser varridas na cidade, além das ruas, mas o vereador não precisava ter exagerado para denunciar isto tão publicamente...

FALTA DE CURIOSIDADE

Na terça feira de Carnaval, em pleno horário dos desfiles, as casas da Rua Direita, que teimam em chamar de Getúlio Vargas, estavam com as janelas e portas fechadas. Nenhum morador sequer apareceu numa fresta de janela para ver o que estava acontecendo na rua, apesar de todo o barulho das baterias.

PREFEITURA PREFERE O AXÉ

Pela primeira vez na cidade, a Prefeitura Municipal montou um palco na avenida Tiradentes e pagou uma banda (40 mil reais por cinco dias), de Belo Horizonte, que tocou axé até todo mundo que teve saco para ficar ouvindo se sentir meio baiano, justamente na cidade que vê desfilar escolas e blocos que cultivam a tradição do bom samba.

TURISMO?

O fluxo turístico na cidade, por todos os indicativos, foi pequeno. E não só aqui. Também em Tiradentes. Os flashes de televisão mostraram Diamantina e Ouro Preto mas nada de São João del Rei. O título de Capital Brasileira da Cultura não foi gancho para as Tvs. Mas os desfiles aconteceram, com o esforço das agremiações carnavalescas que, como sempre, tiveram um tempo mínimo para se prepararem para o evento.

VELHA HISTÓRIA

Para não contrariar a regra, a sonorização foi da pior qualidade, sem potência e impossível de entender o que os puxadores de samba estavam cantando. A microfonia deitou e rolou. Enquanto a Prefeitura não entender que licitação de sonorização tem que ser precedida de qualificação das empresas competidoras e acompanhada por um técnico que verifique a qualidade dos equipamentos contratados, a história será sempre a mesma.

O VELHO ASILO

O Asilo de São Francisco, ali em frente ao Regimento, é dos poucos exemplares do século XVIII na cidade. Está sendo reformado. Jamais deveria ter sido a sede do DAMAE. Trata-se de local nobre, que deveria ser ocupado pela própria Secretaria de Cultura. A casa de Bárbara Heliodora, na praça São Francisco, deveria ser recuperada e mobiliada como uma casa do século XVIII para ser colocada à visitação pública dos turistas, com entrada paga. Pelo jeito, parece que o DAMAE se prepara para voltar ao local onde nunca deveria ter estado. O DAMAE não precisa ficar em lugares privilegiados como é o caso do Asilo de São Francisco.

 

 

 

 


Edição nº 442 de 17 de fevereiro de 2007 Voltar


Surdo de terceira

Gostava de Carnaval. Gostava é pouco. Fanático, eu diria, pelo Carnaval de S. João. Viu o auge dos anos 70 e acompanhara os desfiles de 80 participando sempre, ativamente, na bateria do Bate-Paus. Em 87, o destino o levou para outras paragens, confins de Mato Grosso, na construção de uma rodovia daquela região. Dinheiro curto, mas emprego garantido, nunca mais voltou a São João del Rei, nem no Natal, nem na Semana Santa e muito menos no Carnaval ou em qualquer outra época, embora boa parte da família ainda morasse aqui. Fazia planos, tentava economizar, mas Mato Grosso era longe, o salário mínimo e acabava trocando o samba do Bate-Paus por uma guaranha, entre uma e outras doses da pura e que acabava sempre numa choradeira e saudades dos bons tempos do Carnaval sanjoanense.

No Bate-Paus, com o passar dos anos, mais de 30, ninguém se lembrava mais dele, o Zé Pitanga, surdo de terceira da bateria, justo o surdo de corte, o que dá mais vida e mais brilho ao truncado.

Aconteceu de repente. Zé Pitanga desembarcou na rodoviária de São João del Rei no domingo de Carnaval daquele ano, sem aviso, sem mais nada. Nem foi para casa dos poucos parentes que ainda lhe restavam na cidade. Com mala e tudo subiu para o Senhor dos Montes. A turma do Bate-Paus estava dando os últimos retoques nas alegorias. Foi chegando e perguntando pelo presidente da agremiação. Indicaram-lhe. Apresentou-se.

-Zé Pitanga. Sou o surdo de terceira do Bate-Paus.

O presidente achou que era mais um doido que lhe aparecia na última hora para encher-lhe o saco.

-Cara, eu estou muito ocupado para brincadeiras.

-Mas sou o Zé Pitanga. Da bateria.

-Sei, sei. Aqui tá cheio de Zé Pitanga. Na bateria tem uns cem. Só que você é o único com mala.

-Eu desfilei aqui no Bate-Paus, seu presidente, na década de 70, 80.

-Cara, eu nem era nascido. Dizem que era um Carnaval legal. Eu não tô nem aí. Comecei em 98, peguei a presidência o ano passado e já estou arrependido. Não te conheço nem quero conhecer. Agora me diga: o que é que você quer?

-Sair na bateria.

-Tá brincando. Não ensaiou, o chefe da bateria é quem escolhe os ritmistas e nem tem instrumento sobrando, cara!

-Na ala.

-Nem pensar. Não tem fantasia.

-Coordenador.

-A diretoria não aprova. Aqui tem mais coordenador que gente na ala.

- Mas eu vim de Mato Grosso pra desfilar no meu Bate-Paus, seu presidente!

-Tem duas opções: carregador de enfeite de mão ou empurrador de alegoria. Empurrador ganha cinco pratas, ou duas cervejas.

- Pode deixar, seu presidente. Acho que eu vou ficar vendo o desfile do Rio pela televisão.

 

 

 

 

 


Edição nº 441 de 10 de fevereiro de 2007 Voltar


Turismo?

Não gostaria de ser desagradável. Mas existem coisas que ficam me remoendo por dentro, me atazanando, me espicaçando de um jeito moleque, de uma maneira travessa, me incitando à reação, quase me obrigando a questionar, não sei bem a quem: "mas ninguém vai fazer nada?"

Moro em uma cidade turística. Pelo menos, é o que ouço todo mundo proclamando em solenidades chatíssimas, em reuniões oficiais, em palanques eleitorais, em pronunciamentos governamentais, estaduais ou municipais, e em publicações publicitárias de deputados que têm votos na cidade. Vão até ao extremo de dizer, e não tiro a razão de quem o diz, que o turismo é a vocação natural de São João del Rei.

E acho que é mesmo, até por força de circunstâncias, já que novas indústrias aqui não se instalaram, nem se instalam. Pelo contrário, muitas fecharam as portas, particularmente as têxteis, e o nosso agronegócio é meio frouxo, uma coisa meio doméstica, agricultura de sobrevivência, com alguns êxitos pontuais, como o laticínio de Vitória.

Pois então. É aí que a porca torce o rabo, para usar uma expressão da minha avó. Há três anos, talvez quatro, a Universidade Federal de São João del Rei entregou ao poder público (na época era prefeito o Sr. Nivaldo) um Plano Diretor de Turismo, elaborado durante meses de trabalho e com a participação de vários segmentos da sociedade civil que, inclusive, também foi ouvida. O Plano Diretor de Turismo estabelecia metas, prazos, ações pertinentes, e até mesmo quais entidades, públicas ou privadas, deveriam participar em cada etapa e em cada meta a ser atingida.

E agora eu pergunto: quem tomou conhecimento desse Plano? Que providências foram tomadas? Além da solenidade de entrega do Plano Diretor de Turismo, com os discursos de sempre, que outra iniciativa foi tomada? Por quem?

Que eu saiba, nada foi feito, nada foi implementado, nadinha de nada. Necas. Necas de pitibiriba. O Plano nasceu morto. Natimorto. Morreu no dia em que foi entregue ao poder público. É possível que nem se saiba mais onde o arquivaram, ou melhor, em que gaveta o esqueceram.

Digam-me, com sinceridade: não é para ficar incomodado? Ou sou eu que, desconfio, com o passar dos anos, estou ficando cada vez mais intolerante? Pior do que isso só o Museu de Arte Sacra que está fechado à visitação pública faz bem uns quatro anos...

Cidade com vocação turística? Tá bom: me engana que eu gosto.

 

 

 

 

 

 


Edição nº 440 de 3 de fevereiro de 2007 Voltar


Reflexos

Não prestou atenção quando apareceu a primeira ruga no canto do olho esquerdo. Acho que nem a viu. E não a viu durante muito tempo, apesar de olhar-se detidamente no espelho, todas as manhãs, à procura de algo diferente: uma pinta ali perto da raiz do nariz, que antes não existia, uma pequena saliência no sulco naso-labial (seria uma espinha?), uma certa flacidez abaixo do queixo.

E se examinava, dizia, porque não queria surpresas no envelhecimento. Havia que antecipar-se a ele para tomar as devidas providências: ungüentos, pastas, cremes, lavandas, loções, massagens e até mesmo plásticas cirúrgicas, que não era de entregar-se assim, sem luta, sem mais nem menos, passivamente, submissa ao tempo e à idade.

Mas aquela primeira ruga escapou-lhe. Quando percebeu, já eram algumas, talvez meia dúzia, ou mais, suficientes para fazê-la entrar em pânico e cobrir o rosto com uma máscara de creme anti-rugas, dos vários que, preventivamente, comprara às dúzias; alguns deles anunciados como milagrosos nos balcões de venda da televisão, um destes produtos que a gente compra por telefone, ou internet, e ainda "ganha", "de brinde", mais umas duas ou três mercadorias de embelezamento.

E dali para frente a paranóia instalou-se. Já não se contentava com o exame matutino da face. Passou a examinar-se duas, três e até quatro vezes ao dia, em espelhos de aumento que mostravam até os poros, além das rugas, é claro, que aumentavam em proporção assustadora mês após mês. E haja máscaras cremosas. E haja toalhas quentes no rosto. E haja consultas a esteticistas, visagistas, maquiladores. Depois de algum tempo, passou a procurar dermatologistas, diferentes a cada novo nevus que surgia, implacável, circular, em vários tons de marrom, ora na testa, ora perto da orelha, ora junto à pálpebra inferior.

E logo passou a examinar-se por inteiro, assim que manchas inéditas, intrusas e estranhas começaram a aparecer no dorso das mãos, nos antebraços, nas costas, no abdome. E ao examinar-se por inteiro, percebeu que perdera a suavidade das formas, que havia protuberâncias em lugares inusitados, acúmulos salientes na lateral dos quadris, os seios, antes tão rígidos, já apresentando certa flacidez, embora ainda aparentassem algo dos velhos tempos. Como não se apercebera disto antes? Como apareceram estes evidentes sinais de inexorável senilidade sem que os notasse? E de que adiantaram os cremes, as pomadas, as plásticas, as tinturas?

Na semana passada, decidiu deixar os cabelos em paz. Embranqueceram em dias. Olhou-se no espelho pela última vez: achou-se linda. Ontem, mandou retirar todos os espelhos da casa.

 

 

 

 


Edição nº 439 de 27 de janeiro de 2007 Voltar


O arrepio do samba

Antes de seguir para a quadra do Salgueiro, no Rio de Janeiro, a galera sanjoanense, obedecendo uma orientação de Suzana Neves, marcou ponto na casa da Lígia, a filha do Donga, aquele mesmo que em 1917 gravou o que seria considerado o primeiro samba da discografia nacional, o famoso "Pelo telefone".

Ligia é uma senhora de 73 anos que aparenta 63, simpatissíssima, papo inteligente, jornalista, com largo trânsito no universo das escolas de samba e entre os sambistas cariocas. Tem uma credencial respeitável: faz parte da Comissão Julgadora do Estandarte de Ouro promovido pelo jornal "O Globo".

Entre cervejas e salgadinhos, a galera sanjoanense, composta de gente do Copo Sujo e do Cambalhotas, mais alguns agregados, preparou-se para a festa vermelha e branca do Salgueiro. A casa da Ligia é pequena, mas cercada de conforto. Na parede da sala, dentro de uma vitrine, a relíquia: o violão de Donga, para comprovar que ele está presente; em espírito, porque o clima é todo de samba e, materialmente, porque o violão é concreto. Era muita gente e, por essa razão, a turma invadiu o pequeno jardim da frente da casa. E foi dali que, lá pelas onze da noite, partimos todos para a quadra do Salgueiro.

A quadra, decorada com banners que faziam referência ao enredo, estava lotada. Uma impecável organização presidia a festa, da portaria aos serviços de bar, além de eficiente atendimento nas mesas e camarotes. Na loja, as pessoas se acotovelavam para adquirir as camisetas, de vários tipos, a um preço não muito acessível.

Foi depois da meia-noite que o "ensaio", na verdade um grande baile, começou a esquentar. Primeiro, com os sambas-enredos antigos da escola, alguns deles marcos de vitórias memoráveis, como "As minas do Rei Salomão" e "Visita do Rei de França na Ilha da Assombração", ambos os enredos com concepção de Joãozinho Trinta; outros, de triste lembrança, porque trazem a marca de derrotas incompreensíveis, como aconteceu com "Rua do Ouvidor", de Rosinha Magalhães, um dos maiores esbulhos já sofridos pelo Salgueiro.

Finalmente,chega o momento crucial: Quinho assume o comando da folia para entoar o samba enredo de 2007, uma homenagem às mulheres africanas, rainhas na África e escravas no Brasil, mães-de-leite de sinhozinhos e cobiça sexual dos poderosos e governantes. O intérprete comunica entusiasmo frenético com indiscutível presença de palco, simpatia e potência vocal. Surgem as passistas e os passistas abrindo um claro no salão para a entrada da porta-bandeira e do mestre-sala em sua exibição de gala. Um arrepio me assalta. Em segundos, toda uma trajetória carnavalesca me passa pela memória, desde os primeiros tempos quando um bloco humilde, com não mais de 45 pessoas, desceu a rua Municipal de São João del Rei. E me lembrei também de outros ensaios no Salgueiro, com amigos que já se foram, como André Ottoni e João Bosco Nascimento Teixeira. Já vai longe esse tempo. Mas, ali, naquela noite no Salgueiro, senti que o samba ainda me emociona, escolas de samba ainda me arrepiam, e o Grêmio Recreativo Escola de Samba do Salgueiro ainda é uma paixão.

 

 

 

 


Edição nº 438 de 20 de janeiro de 2007 Voltar


Divagações V

É muito estranho.

Apesar de manter a identidade,

somos dois e apenas um.

Não me refiro ao sexo ou à idade.

Há uma coisa comum que nos afina:

onde começa um e outro termina?

 

Não digo as feições, tão diferentes.

Nem as opiniões, até opostas.

O que eu sinto não é o que tu sentes,

e muito do que eu gosto, tu desgostas.

 

Mas há uma comunhão.

Será genética?

Terá vindo da paixão adolescente?

Será estética?

O que sei é que te pressinto e me advinhas,

e as dores que eu sinto

são tão suas quanto minhas.

E se acaso te invade a alegria

o meu sorriso a denuncia,

como se as emoções, de um ou outro,

só ocorressem mesmo em parceria.

 

É que estou onde começas

e tu estás sempre onde termino.

Assim, sou tu, meio às avessas,

e tu me fazes sentir sempre menino.

 

Não sei explicar o que acontece.

Mas sei que se estás ausente

me ausento de mim. Derivo.

E só quando apareces

É que eu sinto de novo que estou vivo.

 

 

 

 

 


Edição nº 437 de 13 de janeiro de 2007 Voltar


Borrasca

Ei-la. Às carradas. Aos borbotões. Em catadupas ou garoando, chata, irritante. Mas permanente. Mofando tudo. A chuva.

Já escrevi uma crônica para dizer o quanto eu detesto a chuva. É uma aversão genética. Acho que é trauma fetal, por ter vivido nove meses envolvido pelo líquido amniótico, ou seja, dentro d´água, embora fosse líquido nutritivo indispensável à vida e no qual, recentemente, descobriram células-tronco que podem, no futuro, salvar muita gente e curar muitas doenças.

Houve uma época em que eu desejei ter nascido beduíno para viver no deserto do Saara. Depois, descobri que no Saara o sol só castiga de dia; à noite, invariavelmente, chove e as temperaturas caem assustadoramente. Minha repulsa à chuva é tão grande que sabendo pela TV que no sertão do Piauí não chove há sete meses não me comove a sorte dos nordestinos sujeitos a tanta seca. Pelo contrário, sinto ganas de tomar um avião e arranchar-me num chapada daquelas, sob o sol inclemente. Nem me passa pela cabeça o fato de que é preciso ter água para beber e cozinhar, pelo menos, sem contar o banho e a lavagem da roupa.

O certo é que a chuva me tira do sério e me faz duvidar da sapiência divina. Por que Deus não deu um jeito de só chover na roça e nunca nas cidades? E, mesmo assim, na roça, a regra para a chuva deveria ser como nestas propagandas de cerveja: caia com moderação.

O pior é que insisto em acompanhar, diariamente, pela TV, a previsão do tempo. Fico com a esperança de ver o mapa do Brasil todo amarelo, sinal de que o sol esplendoroso vai brilhar em todas as regiões. Qual o quê! Nas últimas três semanas, é tudo cinza, ou pior, negro, com aquelas nuvenzinhas envergonhadas despejando gotículas. Gotículas na TV, porque a verdade é que a chuva vem caindo aos montes, incessante, sem dar mostras de querer dar uma trégua.

E para completar meu desespero, as previsões são acompanhadas por explicações detalhadas das razões pelas quais não haverá, até não sei que dia, a menor chance de o sol reaparecer sobre o Centro-Oeste e o Sudeste. E dizem que são ondas que se formam na Bolívia e avançam sobre o Brasil e, justamente sobre Minas, encontram outras ondas térmicas que vêm do Atlântico, e é isso que faz desabar a chuvarada sobre nós. Fico pensando se essas ondas da Bolívia não são provocadas pelo cocaleiro Evo Morales para inundar a nossa região, só de inveja, já que a Bolívia é um "paiseco" sem qualquer projeção na América Latina. Se bem que nós também não somos nada do que pensamos...

Nesta última semana, em Belo Horizonte, reascendeu-se a esperança: o sol costuma dar as caras pela manhã. É aproveitar logo para vê-lo, porque lá pelas onze o azul começa a desaparecer, o cinza toma conta do céu e, logo, logo, desaba o aguaceiro costumeiro. E lá se vai meu bom humor. Até quando?

 

 

 


Edição nº 436 de 6 de janeiro de 2007 Voltar


Leitura obrigatória

É pena que o povo brasileiro leia tão pouco. A quantidade de analfabetos espanta. E isso não é o pior. Mesmo os que sabem ler, muitas vezes, não entendem o que estão lendo. São analfabetos funcionais, a maioria. Leitura não é o forte nem mesmo de universitários, quanto mais daqueles de instrução média. E é uma pena, porque é a leitura é capaz de aprofundar o conhecimento e expandir e amadurecer a capacidade de análise e compreensão da vida e do seres humanos. A TV tem substituído a cultura analítica pela cultura visual, insuficiente e, muitas vezes, distorcida e vazia de conteúdo.

Todo esse preâmbulo é para recomendar a leitura do livro do jornalista Guilherme Fiuza, lançado recentemente, "3.000 dias no bunker". O livro narra, com riqueza de detalhes e informações inéditas, a criação e implantação do Plano Real, que estabilizou a moeda, e a dura batalha para modernizar o Estado nos oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, a epopéia começou no governo de Itamar Franco, em 93, que acertou em cheio e, por acaso, na escolha de FHC para o Ministério da Fazenda. À frente daquela pasta, Cardoso conseguiu reunir sete elementos-chave, técnicos do mais alto gabarito, alguns deles geniais, para conter a inflação e dar ao país uma moeda estável, o Real. Isso, contra os gritos histéricos do PT, que sempre foi oposição pela oposição, e contra a crítica um tanto velada, mas não menos nociva do fogo amigo, particularmente de José Serra.

Reunidos numa sala que passou a ser conhecida como "O bunker", donde o título do livro, Persio Arida, Gustavo Franco, Pedro Malan, Clovis Carvalho, André Lara Resende, Edmar Bacha e Winston Fritsch assumiram um compromisso, mais que um compromisso, um pacto com a causa: domar a inflação. Para isso, começaram por descobrir e aniquilar os ralos por onde fluíam os recursos financeiros do Tesouro, particularmente nos Estados, pelos empréstimos feitos pelos governadores nos bancos estaduais e que nunca foram pagos, gerando o que se convencionou chamar de "esqueletos".

Com FHC já presidente, eleito em primeiro turno em 94, à equipe inicial juntaram-se outros nomes importantes, como Pedro Parente, Murilo Portugal, Sérgio Bessermann e David Zylbersztajn, este último o introdutor da idéia de agências reguladoras no país, instrumento do Estado moderno e que, no governo Lula, entupidas por militantes partidários sem qualificação, perderam muito de sua função.

O livro descreve o esforço monumental daquela equipe para tirar o Brasil da visão míope de um nacionalismo inócuo e levá-lo para sua inserção num mundo globalizado que exige competitividade, moeda estável e mecanismos para atrair investimentos nacionais e internacionais. O plano real vingou, apesar da oposição. Ninguém duvida mais do Real, nem quer a volta da inflação. Entre 1998 e 2002, o governo FHC enfrentou grandes crises internacionais: do México, da Rússia, dos Tigres Asiáticos e da Argentina. Sobreviveu a todas, graças ao esforço hercúleo daquele núcleo de tecnocratas que se reuniu em 93 no "bunker" instalado numa sala qualquer do planalto central.

A história ainda dará ao governo de FHC e àquela equipe de alta competência os méritos devidos. Entregou-se a Lula, em 2003, um Estado moderno, uma moeda estável, uma inflação domesticada, com os ralos de escoamento das finanças públicas fechados: a isso Lula chamou, equivocadamente, de "herança maldita".

De qualquer modo, "3.000 dias no bunker" é leitura obrigatória, pelo menos para quem não tem histeria partidária, porque, para estes, nenhuma leitura impedirá que o fanatismo supere a razão.

 

 

 

 


Edição nº 435 de 30 de dezembro de 2006 Voltar


Fim de ano

Fim de ano, hora de balanço. Hora de deixar para trás o que aconteceu e esperar que as coisas em 2007 sejam mais promissoras. Por exemplo: que os passageiros possam viajar tranqüilos pelos céus do Brasil. E que suas malas também cheguem, com eles, ao destino pretendido.

No plano federal, Lula foi reeleito com folga, como se esperava. Não sendo de todo imbecil, quem está no poder dificilmente deixa de ser reeleito. Está às voltas para formar um ministério. No primeiro mandato colocou os seus amigos à frente das pastas mais importantes. Os "amigos" alopraram. Hoje, segundo palavras do próprio presidente, ele não tem a quem convidar para um jantar íntimo no Palácio da Alvorada. Agora, está elogiando Delfim Neto, o que é de menos, mas recebe de braços abertos Paulo Maluf, Jader Barbalho e até mesmo Newton Cardoso. Uma facção do PT treme nas bases quando isso acontece. Lula continua acreditando no crescimento, aquele espetáculo que prometeu em 2003 e até hoje não estreou. É só da boca para fora. Lula sabe que não há crescimento sem corte de gastos, sem austeridade de gestão. O que Lula quer é ficar bem com os grupos que o apóiam, sejam eles quais forem, dos banqueiros aos beneficiários do bolsa família. O futuro não tem grande importância.

A Polícia Federal trabalhou bem o ano inteiro. No primeiro momento, prendeu um bocado de gente em muitas operações importantes. Mas, aqui no Brasil, o problema não é prender: é manter preso o falsário, o estelionatário, o traficante, o ladrão, o dilapidador do dinheiro público, o assassino. Prender, prende-se. Fazer justiça é que são elas. O assassino confesso, jornalista Pimenta Neves, do Estadão, assassinou a ex-namorada pelas costas, em crime premeditado, considerado hediondo pela Justiça, foi condenado a 18 anos de cadeia (só?) e ainda não ficou um dia , um único dia. São os efeitos das leis brasileiras.

O governador Aécio Neves foi também reeleito com a segunda maior votação para governador no País: 77%. Tem ampla maioria na Assembléia Legislativa. Já nomeou seu secretariado, de alto nível, como o primeiro. Em vez de "choque de gestão", a palavra de ordem, agora, é "Estado de resultados". Com as contas em dia, é hora de fazer investimentos, mais dos que os que já foram feitos. E também avançar na área social.

A UFSJ abriu outro campus avançado nas proximidades de Lafaiete e implantou o Curso Superior de Música, duas iniciativas dignas de registro, além do já consagrado Inverno Cultural.

No âmbito municipal, três notícias boas no apagar das luzes de 2006. A primeira, a aprovação, pela Câmara Municipal, da lei que impede o nepotismo dos governantes. A segunda, a confirmação de que o Ministério das Cidades destinou 10 milhões para São João del Rei implementar seu Plano Diretor. A verba chegou à cidade com a interveniência do deputado federal Francisco Dornelles, eleito senador pelo Rio de Janeiro. A terceira é a próxima inauguração da sede do Batalhão da Polícia Militar, o que deverá significar mais segurança para os sanjoanenses. Mas ainda há problemas na cidade que precisam ser resolvidos: a poluição visual no centro é grande; os trailers continuam onde estavam; há passeios mal conservados e ruas invadidas pelo mato; a sinalização é precária: uma cidade turística tem que pensar nisso.

No mais, é desejar, para todos, que 2007 seja, de fato, um ano melhor do que 2006.

 

 

 

 

 


Edição nº 434 de 23 de dezembro de 2006 Voltar


Natalinas

Tenho birra do Natal. Não estranhem o termo. É birra mesmo, que é coisa de criança, já que não consegui, até hoje, saber as razões desta ojeriza (outra palavra antiga), desta má vontade natalina. E já busquei na memória possíveis causas deste meio rancor/meio desprezo pelo Natal. Poderia, é claro, ser trauma de infância, eterna espera de presentes que nunca vieram, infindáveis e numerosas cartinhas dirigidas ao velho Noel e nunca respondidas, enfim, frustrações dos primeiros anos de existência quando a gente ainda acredita em renas, trenós, Pólo Norte e Noéis.

Minhas lembranças, pelo contrário, não condizem com decepções. Embora a família fosse apenas remediada, lutando com dificuldades para ter um mínimo de sobrevivência digna, os sapatos, colocados na janela ou perto do fogão à lenha, nunca amanheceram sem algum regalo natalino. E não faltaram os mais desejados: velocípede, bolas, carrinhos de vários tipos, cavalinhos de crina de corda e soldadinhos de chumbo, que era o que se pedia naqueles tempos, os anos 30 do século passado. Não existiam os eletrônicos de hoje, robôs de toda espécie, de incrível mobilidade, videogames de criatividade insuperável, bolas oficiais da FIFA, tênis de grife, e até celulares que, desde cedo, estão nas mãos da meninada.

Não posso me queixar dos Natais da minha infância. Até mesmo o Papai Noel aparecia lá em casa, em carne e osso, com barba e bigode postiços: um amigo de meu pai, também oficial do exército, prestava-se a desempenhar o papel do bom velhinho, para alegria e espanto de minha irmã mais velha e minha própria.

Talvez seja uma certa hipocrisia que vejo no Natal a causa da minha indiferença pela data. Talvez a ganância com que o comércio se atira sobre os clientes na ânsia de vender até a última peça do estoque. Ou a fúria consumista que se alastra como epidemia por todo o mundo, uma necessidade de comprar, seja o que for, simplesmente porque é Natal. E, no Natal, tem-se que comprar.

A causa da minha aversão talvez seja o fato de que noto uma falsa fraternidade se esparramando por todos os ambientes. E são as festas de confraternização reunindo gente que mal se fala durante o ano todo no local de trabalho. E são os milhares de amigos ocultos, já que os verdadeiros não existem mesmo. E são as generosidades para com os mais carentes, como se purgássemos a culpa de não ter feito nada por eles durante o resto do ano. E aí, tome 5 reais para os lixeiros, quando não menos.

Creio que nunca vou descobrir porque sou tão avesso ao Natal. A verdade é que não gosto da festa, não me toca, não me comove, não me interessa, embora cumpra os rituais natalinos como todo mundo, por simples obrigação, tradição, sei lá. A única coisa que ainda me apetece, no Natal, é uma rabanada, que me agrada ao paladar. Quem gosta mesmo de Natal, sem qualquer restrição, são as crianças. E com toda a razão. E, pelo menos neste ano, também gostam do Natal os deputados e senadores que vão ter um aumento salarial, estabelecido por eles mesmos, que é um insulto à Nação. Isto, sim, é que é presente de Natal! Sem contar o fato de que eles já têm direito a 14 salários por ano, fora todas as outras mordomias.

 

 

 

 

 


Edição nº 433 de 16 de dezembro de 2006 Voltar


A morte abençoada

Celebrar a morte pode parecer estranho a qualquer ser humano. Morte é lá coisa que se celebre? - dirão todos. Credo em cruz! Vade retro satanás! Embora a morte não seja a pior coisa do mundo, segundo creio, mas apenas a última, ninguém a deseja nem lhe dá as boas vindas, quando vem. Apesar disto, e pedindo desculpas aos eventuais leitores desta coluna e aos defensores empedernidos dos direitos humanos, estou hoje, dia 11 de dezembro de 2006, celebrando a morte do sanguinário Augusto Pinochet, um dos mais cruéis ditadores de toda a história da humanidade. E digo-o com franqueza: celebrei como achei que deveria celebrar, levantando um brinde e saudando o seu desaparecimento com indizível prazer e, mesmo assim, ainda insatisfeito, já que o tirano partiu deste mundo sem julgamento e sem expiar as suas culpas.

Pinochet deixa um rastro de sangue que o tempo não apagará: 28 mil torturados nos porões imundos da ditadura chilena, 3.000 assassinados ou desaparecidos. O governador eleito de S.Paulo, José Serra, na época exilado no Chile fugindo de outra ditadura militar, a brasileira, foi um dos que escaparam à sanha da polícia chilena: esteve preso no Estádio Nacional, do qual poucos saíram com vida.

Ninguém se espante em ver na imprensa noticiários dando conta de que simpatizantes de Pinochet, em minoria, é certo, mas de qualquer modo, alguns milhares, foram prantear o ditador no seu velório, ou tumultuaram as ruas com manifestações de pesar. Os ditadores sempre favorecem alguns e é natural que haja beneficiários do totalitarismo da época Pinochet. Seguramente, eram em muito maior número os que se regozijaram com sua morte, como eu. O governo chileno nem sequer se deu ao trabalho de decretar luto oficial, ou de conceder honras militares no enterro do general carniceiro. Nos últimos anos já estava no ostracismo, solitário e confinado em prisão domiciliar, um zumbi à espera do desfecho fatal. Só não se pode dizer que morreu como indigente porque amealhou uma das maiores fortunas do mundo enquanto estava no poder. Do que se já descobriu, e é muito pouco o que se descobriu, são 27 milhões de dólares em várias contas em paraísos fiscais do mundo inteiro. Além de ditador, larápio, ladravaz.

Os poucos que o defendem dizem que suas reformas liberalizantes alavancaram a economia chilena na época da ditadura. Na ditadura é fácil fazer estas reformas e à custa de muito sangue derramado. Difícil é fazê-las na democracia. A economia chilena também avançou depois da redemocratização, mais do que no tempo de Pinochet, e sem sacrificar vidas humanas.

A morte de Pinochet é abençoada. O mundo ficou livre de um dos ditadores mais desumanos do universo. Sua memória será execrada. Saudei na sua morte, a morte acontecida, ou para acontecer um dia, de todos os outros ditadores que, infelizmente, existiram e ainda existem em muitos paises, para a desgraça e infelicidade de seus povos.

 

 

 

 


Edição nº 432 de 9 de dezembro de 2006 Voltar


Minha terra

Ah! Minha terra! Terra minha que te quero a ti, berço meu que ouviu meu primeiro choro, e tantos outros escutou, pela vida afora, derramados quando abrigaste nas entranhas amigos de jornada que se foram sem regresso, muitos deles sem completar sonhos e ideais.

Ah! Minha terra! Terra minha que te quero assim como te vi menino, entre as brumas do inverno, o sol tentando perfurar a neblina, dourando telhados antes do chão das ruas, velhos casarões, janelas de guilhotina, grades de ferro rendilhado, imponência de torres e planger de sinos, arautos do quotidiano, instrumentos musicais de bronze, companheiros da infância peralta e inocente.

Ah! Minha Terra! Terra minha que te quero, amoroso, mesmo quando a ganância deturpou tua arquitetura e não respeitaram teus 301 anos de tradição, mesmo quando destruíram ruas inteiras para edificar o aparente progresso de edifícios opacos, mesmo quando dirigentes obtusos mancharam tua história com a incompetência, quando não com a fraude, com a subtração do dinheiro público, com a conduta aética, o suborno como norma e o descompromisso como regra.

Ah! Minha terra! Terra minha que te quero insano, em dimensão profunda, ainda que zombem de mim por esta dedicação incestuosa, ainda que recriminem meu bairrismo provinciano, ainda que me chamem tolo por esta afeição eterna. Não me importo. Vou contigo. Estou contigo. Morrerei contigo. E irás comigo para outros mundos ou céus, se é que existem.

Ah! Minha terra! Terra minha que te quero inteira, no vale e nas encostas, no riacho que te corta pelo meio, nas mais longínquas periferias, no recorte da serra do Lenheiro que te cerca, no Cristo que te abençoa, ainda que mergulhado entre as torres de ferro que o aviltam, quero-te toda, como inteira cabes dentro de mim, por mais imensa que sejas, porque sou teu como tu és minha, carne e terra, misteriosa e inexplicável simbiose.

Ah! Minha terra! Terra minha que te quero tanto que estás presente mesmo quando me ausento, e longe de ti te arrasto comigo, me pertences, estás no meu sangue, corres nas minhas veias, estás onde estou. Não sou sem ti.

No teu aniversário, te saúdo.

 

 

 

 

 


Edição nº 431 de 2 de dezembro de 2006 Voltar


Ossos do ofício

Eu sei que deveria "deixar o homem trabalhar", mas não resisto à tentação de comentar as últimas declarações do "nosso Guia", como diz o escritor João Ubaldo Ribeiro. Na Venezuela, para onde foi com a finalidade exclusiva de dar apoio ao presidente Chavez nas eleições legislativas daquele país, Lula, para variar, em discurso improvisado, se disse vítima da "imprensa preconceituosa". O "nosso Guia" não gosta de receber críticas. Como, aliás, também o seu partido. As críticas, em geral, são consideradas por Lula e pelo PT como "conspiração das elites" um slogan que remete aos anos 60 quando íamos para rua, nós, os militantes de esquerda, gritar "reforma agrária na lei ou na marra!" Aliás, recentemente o presidente da Colômbia, o cocaleiro Evo Morales disse exatamente esta frase numa mensagem ao Congresso daquele país, congresso no qual ele não tem a maioria. Em Estados de Direito a frase não tem sentido.

Mais recentemente, o apedeuta foi mais contundente: numa solenidade, discursando, Lula disse que "o ministério público, os órgãos ambientais, o judiciário e o Congresso dificultam governar". Só faltou dizer que a democracia dificulta governar...

Na reunião com o PDT, buscando apoios, ainda nesta semana, Lula declarou que não pensa em fazer reforma da previdência, muito menos elevar a idade mínima de aposentadoria. O assunto é explosivo, mas ninguém quer assumir a responsabilidade de atacar o problema pela raiz. Com 40 bilhões de rombo, a previdência, sem reforma, está condenada à inadimplência. Na previdência dos militares ninguém tocou. Dos aposentados, jogando por terra direitos adquiridos, a União está cobrando 11% para o INSS. Na verdade, um imposto, uma expropriação, já que ninguém vai se aposentar uma segunda vez, a não ser que viva 110 anos.

O Planalto, agora, fala em cortar gastos. Já deixou claro que o aumento do salário mínimo será de 5%, bem diferente dos 16,6% deste ano de 2006, o eleitoral. Mas ao mesmo tempo o judiciário está propondo um aumento para si mesmo, sob a forma de jeton. Em Minas 318 membros do judiciário, entre ativos e aposentados, ganham mais que o teto fixado em lei. Os deputados federais também estão querendo aumento. Se aumentados, os estaduais também serão beneficiados. É a cascata. Então, onde cortar gastos? Não parece que vão diminuir os ministérios. Muito menos os cargos de confiança, particularmente nas estatais, já que são estes cargos o objeto de barganha para o governo conseguir apoio no Congresso, em nome da governabilidade.

Em Minas, o governo limitou em 600 mil o teto para emendas individuais, pelos deputados, ao orçamento de 2007. Os parlamentares querem um milhão. Ameaçam, mais para marcar posição do que para valer. Mas atrasam a votação do orçamento. Lula tem razão: segundo ele " quando se está na oposição a gente tem tudo pronto na ponta da língua; quando se é governo tem-se que fazer coisas". É isto aí. Criticar é fácil. Governar é difícil, porque governar é conciliar receita e despesa...Receita só aumenta com crescimento econômico e o nosso tem sido pífio. E vai ser pífio este ano também. O outro meio de aumentar a receita é aumentar ou criar novos impostos. Os governos têm feito isto. Os anteriores e este. Mas chegamos no limite. Esta alternativa está esgotada. É difícil imaginar que governantes possam dormir tranqüilos atualmente....

 

 

 

 

 


Edição nº 430 de 25 de novembro de 2006 Voltar


Os aloprados

Não é só no Brasil que o desvario acomete os legisladores, embora talvez, aqui, seja mais freqüente o disparate, a esbórnia e a insuspeitada ação de deputados e militantes partidários. Leio nos jornais que um deputado do PT, do Piauí, encarnou a Zélia Cardoso de Melo, aquela do Collor, de nefasta lembrança, e apresentou um projeto de lei que seria um espanto, não estivéssemos já acostumados com as lambanças dos aloprados do presidente Lula. O digníssimo representante do povo do Piauí, nobre deputado, propõe que todo brasileiro só pode ganhar 8.700,00, oito mil e setecentos reais. O que exceder a esta quantia será confiscada, sem maiores delongas nem meias conversas, para um Fundo que, obviamente, irá financiar outras tantas ações assistencialistas do governo nas áreas de saúde, educação, moradia, alimentação e inclusão social, inclusive, como é de esperar-se, a inclusão digital. Confisco, puro e simples. Pior do que o do Collor, que aquele, o da Zélia, atingiu a poupança, e este ataca é o salário mesmo. E tem mais: o dinheiro confiscado aos esbulhados, será devolvido a eles depois de 14 anos! Nem os mais empedernidos comunistas dos tempos mais obscuros do regime de Stalin sequer pensaram nesta hipótese!... O deputado petista do Piauí pensa, é claro, que com este projeto neurastênico vai acabar com as desigualdades sociais e econômicas do País.

É o caso de perguntar aos seus pares, os deputados federais, o que eles acham de abrir mão de muito mais de dois terços do que recebem em favor do tal Fundo de salvação nacional. E também perguntar aos juízes, que hoje recebem perto de 24 mil reais/mês, o que eles acham de entregar, todo mês, 15.300,00 do seu salário para o Fundo do deputado petista do Piauí.

Pois é, isto, aqui. Mas fico sabendo que na Argentina, acabaram de aprovar uma lei, por unanimidade, que obriga o casal a dividir as tarefas domésticas. Lei, sim senhor. Preto no branco. Não sou tão machista a ponto de querer que a mulher arque com todas as tarefas domésticas, embora eu seja de um tempo em que o homem era de cama, mas não de mesa, e pouco dos filhos. Hoje isto já mudou. Mudou pela compreensão, por concordância, novos tempos, outros costumes. Mas, por lei? E como será isto? A mulher vira-se para o marido e: "Ou você troca a fralda do Juanito ou então eu te taco um processo na justiça!" Ou: "Faça você o jantar que hoje eu fiz o almoço". Ou ainda: "Você escolhe, ou faz o café ou esquenta o leite; as duas coisas eu não faço; olha que eu processo!" Os argentino que me desculpem, mas esta lei não vai pegar. Não é só no Brasil que tem aloprado. É no mundo todo. O Bush que o desminta.

 

 

 

 


Edição nº 429 de 18 de novembro de 2006 Voltar


Filhos

São três.

Do óvulo herdaram certa doçura,

o vício de ver a vida como boa,

e de pensar qualquer pessoa

como capaz de um gesto de ternura

pelo menos até que mostre seu avesso.

Do óvulo herdaram o olhar travesso

de quem nunca deixou de ser criança.

(Pena que a gente não percebe, se criança,

que o melhor da vida é ser menino).

Do óvulo herdaram a fantasia,

o prazer de viver como num sonho,

ainda que enfrentar o dia-a-dia

não seja só alegre ou só tristonho.

Que é isto a fantasia:

acreditar que o mal tem sempre cura,

e que o bom, que bom o seja,

mesmo sabendo que tem fim, que não perdura.

 

São três.

Do sêmem herdaram, sutilmente,

o que talvez sejam seus defeitos:

a dúvida permanente,

uma certa rigidez consigo mesmo,

um ou outro preconceito,

uma atitude intransigente

quando se trata de saber

o que é certo, de fato e de direito.

 

São três.

De óvulo e sêmem concebidos. Gente.

Tão iguais e tão diferentes.

Melhor se tivessem vindo só do óvulo

e pudessem não ser o que é do sêmem...

 

 

 

 

 

 


Edição nº 428 de 11 de novembro de 2006 Voltar


Depois da tempestade

Agora, tudo voltou ao normal. Normal, no Brasil, é a mesma baderna de antes, de sempre. A tempestade eleitoral foi só um momento. Mas aqui, depois da tempestade não vem exatamente a bonança. Lula foi reeleito confortavelmente e, para comemorar, D. Marisa, a de cara de paisagem, vestiu um maiô com uma estrela vermelha para passear na praia. Muito justo: cada um usa o que quer, embora bom gosto não seja para qualquer um. Um estilista pode usar a dica e criar a grife "estrela vermelha", por que não?

Reitores voltaram às suas universidades. Num fato nunca antes visto em toda a história republicana, alguns deles foram ao planalto, na campanha, hipotecar apoio ao Lula! Reitores representam a comunidade acadêmica e quando falam, falam em nome dela. Como não é possível haver unanimidade na comunidade acadêmica, estão eticamente impedidos, como reitores, de manifestarem suas preferências eleitorais publicamente, embora possam fazê-lo como pessoas. O reitor da UFMG não compareceu ao ato bizarro e disse porque não foi, isto é, por questão ética e por proibição do Estatuto da UFMG. Mas Brasil é Brasil.

A senadora Roseana Sarney voltou ao Senado, depois da derrota para o governo do Maranhão: a clã dos Sarney levou tinta, pelo menos nisto. Voltou ao Senado é modo de dizer, já que pouca gente sabe que ela é senadora, uma vez que nunca foi vista na tribuna daquela Casa para qualquer pronunciamento nestes últimos quatro anos... Se duvidar, é capaz de não saber onde fica o Senado.

A turma dos desempregados do PT e alguns dos seus aliados estão rondando Brasília atrás de emprego: Nilmário Miranda, Olívio Dutra (o homem pendurado no bigode), o balofo Ney Suassuna, o Professor Luizinho e Newton Cardoso. Alguns mensaleiros foram eleitos pelo voto inconsciente de seus eleitores, como João Paulo Cunha. Mas outros foram justiçados, como Romeu Queiroz. Dos 67 sanguessugas, a turma das ambulâncias, só cinco foram reeleitos. Já é alguma coisa.

Alguns brasileiros, entretanto, continuam fazendo algumas perguntas sem resposta até agora. Digo alguns porque a maioria dos brasileiros não pergunta nada, vai só engolindo sapos. Por exemplo, o que será que aconteceu com Marcos Valério, o homem do valerioduto? Preso não está. Ou será inocente?

José Dirceu, cassado pelo Congresso, diz que vai pedir uma lei que o anistie, já que não tem qualquer culpa. E não duvidem que seja anistiado. O PMDB exige de cinco a oito ministérios! Bem, em 34, não é muito. Setores do governo dizem que vão cortar gastos. Na campanha diziam que não fariam isso de maneira alguma. Mas campanha é campanha e governo é governo. Pela segunda vez, Lula promete o espetáculo do crescimento. Diz que não vai cometer os erros do primeiro mandato. Um dos seus erros da política externa foi ficar viajando para paises sem qualquer importância comercial para o Brasil, alguns deles comandados por conhecidos ditadores, atrás de votos para conseguir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Para isso, perdoou dívidas de paises africanos e da América Latina para com o Brasil, assumiu a Força de Paz em Haiti, fez até a nossa seleção de futebol jogar naquele país, o único que, diga-se de passagem, cresceu menos que o Brasil em 2005. Resultado: o Panamá levou a melhor na eleição, sem fazer nada que o Lula fez. O Brasil nem sequer apresentou a candidatura na ONU ao ver que seria derrotado fragorosamente.

Enfim, tudo voltou ao normal. Esperemos pelo melhor.

 

 

 

 

 

 


Edição nº 427 de 4 de novembro de 2006 Voltar


Chumbo trocado

O que vai abaixo circula pela internet em circuitos mais ou menos restritos, mas creio que os eventuais leitores desta coluna podem muito bem ter direito à informação, um tanto quanto íntima, já que se trata de correspondência privada entre marido e mulher, ele professor universitário, matemático, 54, ela do lar, também 54, de boa índole, ambos vindo de longo namoro, 28 anos de casados, sem maiores desavenças, fora aquelas de sempre, que acometem qualquer relação a dois que não seja na cama e, mesmo na cama, pode dar zebra. Isto sabe qualquer um que não seja um adolescente, destes que acham que estão descobrindo o mundo depois da primeira trepada, já que qualquer adulto sabe que, em matéria de sexo, mulher dá de goleada no homem.

Pois então. A mulher chegou em casa e achou um bilhete do marido, o tal professor de matemática: "Querida: não quero que você fique magoada nem ressentida; por outro lado sempre fui muito sincero com você, mas deve compreender que um homem da minha idade tem necessidades sexuais que você não pode mais satisfazer. Não se trata de desamor; é só uma questão de apetite carnal, volúpia, libido, coisas que uma mulher de 54 anos nem sequer compreende bem o que seja. Estou agindo assim, com absoluta sinceridade, como sempre fiz, porque não quero que faça um drama desta confissão. Neste exato momento, estou no Motel Senta-a-Pua, com minha secretária de 18 anos para o que der e vier. Não fique preocupada. Chegarei um pouco mais tarde em casa".

Realmente, o matemático chegou mais tarde em casa. Não encontrou a mulher. Mas sobre a mesa estava um bilhet dela:

"Maridinho: recebi sua correspondência e achei muito natural. Muito legal mesmo. Você é sempre um cavalheiro. Mas devo lhe dizer que, quando chegar em casa, não vai me encontrar. Estarei no Motel Pirulito, com meu professor de tênis, 18 anos, para umas brincadeirinhas de cama, não sei se as mesmas que teve com sua secretária, mas você sabe que tenho muita imaginação. Mas tenho certeza de uma coisa: você, como matemático, também deve saber que 18 entra em 54 pelo menos três vezes; agora, 54 não entra em 18 nunca!...Não me espere porque, como eu disse, vai demorar...."

 

 

 

 

 


Edição nº 426 de 28 de outubro de 2006 Voltar


Depois de 29

A partir de segunda-feira, como por encanto, as acusações, as grosserias, as mentiras, as bravatas, as promessas serão varridas para debaixo de invisível tapete: a governabilidade impõe o diálogo com a oposição, seja ela qual for. Governar é preciso. E há coisas que necessitam ser feitas e que o Governo Lula não fez: a reforma tributária está pela metade, a reforma política nem começou, a reforma trabalhista idem, a reforma previdenciária foi um arremedo que precisa ser revisto, é preciso cortar gastos sim, apesar de Lula, na campanha eleitoral, ter negado que o faria. Mas campanha é campanha e governo é governo. Por outro lado, a Bolívia ameaça a Petrobrás com novos contratos extorsivos e o não pagamento indenizatório dos investimentos feitos pela estatal brasileira que é, hoje, ainda que os esquerdistas mais histéricos não o queiram aceitar, uma multinacional, idêntica às que eles desprezam e demonizam tanto.

A partir de segunda-feira as lideranças mudam o discurso. Aliás, já começaram a mudar. Marta Suplicy, que disse horrores na campanha, no Estado de S.Paulo desta última quinta feira escreveu um artigo pregando a união nacional. Numa possível vitória de Lula, o PSDB vira anjo, algo que merece respeito. Se for vitorioso, Lula não vai mais dizer que "as elites são golpistas" e que "eles" ( leia-se o PSDB e partidos coligados) governam para os ricos, ainda que os banqueiros nunca tenham ganho tanto dinheiro como no governo lulista. As "elites", diga-se de passagem, são os que pagam a maior carga tributária no País, geram a maior parte dos empregos e pagam a maior parcela do imposto de renda, recursos que o governo tem em caixa para realizar os seus programas. Vitorioso, Lula vai apelar para o patriotismo da oposição, sua nobreza de sentimentos, para a necessidade de um esforço comum para fazer o País crescer mais do que os ridículos 2,3% de 2005 ou os sofríveis 3% de 2006. E não será diferente numa eventual vitória de Alkmim: ele também vai esquecer as farpas trocadas nos debates para mostrar que o Brasil é mais importante que os partidos, que o PT é bem intencionado, apesar da camarilha que arquitetou o mensalão e dossiê fajuto, gente que, no fundo, só queria ajudar o partido a ficar no poder, nada demais, e que é preciso que "cada um cumpra o seu dever", um slogan inventado na Guerra do Paraguai, tão velho quanto ela mesma.

Paralelamente, no Senado, o dinasta Sarney, imperador do Maranhão, e o capachildo Renan Calheiros, da gloriosa Alagoas de PC Farias e de Collor, estão aliciando senadores de outros partidos, recém-eleitos, para engrossarem (é bem o termo) as fileiras do PMDB, sem usar o mensalão, é claro, porque está todo mundo de olho. E isto porque, no momento, no Senado, o PFL tem a maior bancada, o que lhe dá o direito de presidir a Casa em 2007...

Estão vendo? Nada como a democracia tupiniquim, não é mesmo? E, ainda assim, louvemos as nossas instituições democráticas, porque ditadura, nunca mais! É como disse o Macaco Simão: "Abaixo a lei seca! Eu quero votar é bêbado! Prefiro a ressaca ao remorso!". Concordo plenamente.

 

 

 

 


Edição nº 425 de 21 de outubro de 2006 Voltar


O tema proibido

O terrorismo eleitoral de que lançou mão o PT no segundo turno, a partir de afirmações do próprio candidato Lula, assegurando que Alkmim, se eleito, iria privatizar Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás e Correios, é mais uma demonstração da falta de ética na campanha atual. No "Roda Viva" da TV Cultura desta semana, quando colocado sobre pressão quanto à questão de estar fazendo supostas afirmações, sem qualquer prova de que pudessem ser verdadeiras, o candidato Lula disse textualmente "o Alkimim que desminta"! É simplesmente asquerosa a lógica deste tipo de conduta: você mente e quando alguém o questiona pela mentira, você se defende dizendo que cabe ao adversário desmentir a sua mentira! Espantosa lição de ética.

Por uma questão de estratégia de campanha, creio eu, o PSDB prefere relegar ao esquecimento uma discussão, em profundidade, sobre o problema das privatizações. Alguns partidos, ditos de esquerda, inclusive o PT, pregam um nacionalismo canhestro, na verdade um estatismo bolorento e arcaico, onde o Estado deve ser dono de tudo. Em Cuba, nos anos 60, logo depois da chegada ao poder de Fidel Castro, até os botequins eram do Estado. E eu defendia esta posição, valha-me Deus! Ainda bem que mudei de opinião. As privatizações da era FHC foram fundamentais para a modernização do Estado brasileiro. Pode-se discutir até mesmo a forma como foram feitas, embora tivessem sido absolutamente transparentes, abertas, em concorrência pública. Empresas estatais, incluindo aí os Bancos Estaduais sempre foram, no Brasil, cabides de emprego e sinônimo de gastança irresponsável, gestão ineficiente e corrupção deslavada. Com a maioria dos cargos preenchidos por indicação política, sem levar em consideração aptidões e competência, o que se via era o déficit permanente que a União tinha que cobrir no fim dos exercícios fiscais. Com os rombos orçamentários, as estatais não apenas não pagavam os impostos devidos à União como também não tinham recursos financeiros para investimentos que lhes pudessem alavancar o crescimento, gerando mais empregos, competitividade e aumento da produção.

Algumas das estatais privatizadas nem tinham razão para existir. Outras, e sobram os exemplos, viviam em déficit crônico, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A Cia. Vale do Rio Doce, embora fosse, antes da privatização, uma empresa relativamente equilibrada financeiramente, pagava poucos impostos e não possuía recursos para investimento. Com a privatização, a Vale do Rio Doce teve suas ações valorizadas em 500%, em cinco anos, passou da 22ª colocação entre as empresas mineradoras para a 2ª do mundo, aumentou em nove mil o número de seus funcionários e hoje paga impostos que engordam a receita do Tesouro Nacional. E não deixou de fazer nada do que fazia antes na área da Cultura e do Social. Aqui mesmo, em São João Del-Rei, foi a Vale do Rio Doce que doou as poltronas do Teatro Municipal. A privatização tirou a EMBRAER, a nossa fábrica de aviões, do estado falimentar para ser uma das mais bem sucedidas empresas de construção de aeronaves do mundo, inclusive de jatos executivos. O setor siderúrgico, com a privatização, é hoje auto-suficiente e está em franca expansão. A privatização da telefonia foi um dos maiores avanços pelos quais passou o País nestes últimos 10 anos. A democratização do acesso à telefonia é fato notório: qualquer empregada doméstica, qualquer pedreiro, qualquer pessoa tem um celular para comunicar-se. A revolução na informática é uma conquista do governo FHC, por mais que o petismo queira negá-lo. Antes da privatização um telefone custava os olhos da cara e demorava uma eternidade para ser colocado em sua casa. Só não enxerga os benefícios das privatizações quem se pauta por ideologias superadas e anacrônicas, ou por pura ignorância ou fanatismo partidário. Não se trata de sair privatizando o que existir pela frente. Não há qualquer razão para privatizar Banco do Brasil, Petrobrás ou Caixa Econômica Federal. Alkmim sabe disto. Lula também sabe. Quando acusa, acusa por puro terrorismo eleitoral. E não falta quem acredite no que ele diz.

 

 

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Edição nº 424 de 14 de outubro de 2006 Voltar