Pelas EsquinasJota Dangelo

 

 


Edição nº 538  de 20 de dezembro de 2008 Voltar


ManiCômicos

Na vizinha cidade de Barbacena, um grupo de teatro, o Ponto de Partida, realiza um dos mais consistentes projetos culturais de Minas. Mas não começaram ontem. Na verdade, a epopéia do Ponto de Partida teve início em 1980, lá se vão 28 anos...Começou com humildade, buscando recursos financeiros através da Associação dos Amigos do Ponto de Partida, contribuições singelas de barbacenenses que acreditaram no idealismo, na dedicação e na determinação dos integrantes daquele grupo teatral.

Em 28 anos de carreira, o Ponto de Partida tornou-se uma companhia de repertório, itinerante e independente, com 21 profissionais em exercício permanente e cunhou uma marca. Sistematizou processos e métodos de criação e produção, conquistou parcerias, construiu um repertório de dramaturgia brasileira dos mais consistentes, inaugurou um canto aprendido no ventre das Minas e ele rompeu forte das entranhas das Gerais ressoando pelo Brasil e as lonjuras da África, da Europa e da América do Sul.

Este intróito todo é para dizer que em São João del Rei um outro grupo teatral, os ManiCômicos, vencendo obstáculos, lutando contra as dificuldades sem esmorecimento, começou sua trajetória na marra, apresentando-se sem nenhum apoio oficial no Inverno Cultural de 2003. Não passou despercebido o esforço de Juliano Pereira, Cynthia Botelho, Jean Fábio e Orlando Talarico, os abnegados "pau-para-toda-a-obra" dos ManiCômicos. Em 2004, já participaram oficialmente do Inverno Cultural da UFSJ e decidiram sentar pouso na barra do Lenheiro. Vinham de S.Paulo, mas gostaram do frio sanjoanense (o do inverno, que a hospitalidade é quente). Aboletaram-se em Matosinhos, criaram um projeto alucinado, o "Arte Por Toda Parte", firmaram convênio com a Prefeitura Municipal, buscaram recursos através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, conseguiram patrocinadores, desdobraram as atividades, multiplicaram os esforços. Hoje, estão em atividade em 25 comunidades, em bairros de S.João e em distritos, além de terem criado um curso profissionalizante de teatro reconhecido pelo Sindicato de Artistas e Técnicos de Minas Gerais (Sated/MG). Mas não é só: publicam um folder, trimestral, denominado "Com a palavra", não apenas para divulgar o que estão fazendo, mas também para dar voz e expressão a quem queira manifestar-se pela palavra, desde que seja sobre a cultura.

Recentemente, em outubro, a prefeitura rompeu o convênio que tinha com os ManiCômicos, como rompeu outros compromissos assumidos em outras áreas, como é do conhecimento geral. O "Arte por toda parte" correu o risco de desaparecer, mas os ManiCômicos não deixaram. Fazendo das tripas coração, estão indo em frente, com sacrifícios, mas sem perder o entusiasmo. É de se esperar que o novo prefeito, o novo secretário de Cultura e Turismo, todas as pessoas que se interessam pela cultura, estejam lado a lado, apoiando este persistente bando de loucos que se fixou por aqui para cometer uma sadia loucura, ou seja, aquela que acredita que desenvolvimento não se faz sem conhecimento, sem educação e sem cultura. E que seja renovado em 2009, na nova administração, o convênio rompido tão intempestivamente em outubro. Os ManiCômicos estão fazendo a sua parte, e estão querendo fazer mais, mas é preciso que o poder público também faça a parte dele.

 

 

 


Edição nº 537  de 13 de dezembro de 2008 Voltar


Tópicos

EM BUSCA DA RESSURREIÇÃO

Meu amigo Antônio José está de luto. O seu Vasco foi enterrado em São Januário e sobre a sepultura colocaram, solenemente, uma cruz de malta. Foi o que disseram em todos os botequins da cidade no domingo passado. Calma pessoal. O Vasco não está morto. Só vai passar um ano na UTI, nada demais. Lá já estiveram Fluminense, Botafogo, Palmeiras e o Corínthians. Nada como uma segundona para saber quem é mesmo vascaíno, de coração. Mas tem que agüentar a gozeira, pelo menos durante todo o 2009. Agora, cuidado! Se bobear, só volta para a elite do futebol em 2011...

VELHOS TEMPOS

Um que gosta de relembrar coisas é o Zé Lica. Gosto de bater um papo com ele, hoje cada vez mais raro, no Pennas ou no Antônio José. Nestas ocasiões passamos o passado em revista. O nosso passado, diga-se de passagem. Ficamos rememorando o que existia e já acabou na cidade. As pessoas que já faleceram. Os antigos vereadores, aqueles de um outro tempo, um tempo em que vereador não recebia coisa alguma para trabalhar pela cidade, nem comprava voto para se eleger. Se esta regra, a do salário zero, estivesse valendo nos dias de hoje, quem se habilitaria a ser vereador? Houve um período, na ditadura militar, que em cidades com menos de 100 mil habitantes os vereadores não podiam receber salário. Hoje, o que mais se faz é reajustar o preço dos mandatos, em todos os níveis, municipal, estadual e federal.

Pois é, mas como eu estava dizendo, o Zé Lica fica atento às coisas antigas. E sabe que também gosto destas preciosidades. Na semana passada, presenteou-me com um tal de Indicador Urbano, de 1934! Um documento incrível. Lista as principais casas comerciais da cidade e informa sobre todo o poder municipal constituído. Reproduzo abaixo o resumo do Poder Judiciário de 1934, como publicado no tal Indicador Urbano.

 

 


Edição nº 536  de 6 de dezembro de 2008 Voltar


Tópicos

A LUZ NO FIM DO TÚNEL?

Leio na imprensa que o presidente da Câmara Federal, Arlindo Chinaglia, está firmemente empenhado em colocar em votação, ainda este ano, o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que acaba, de uma vez por todas, com o fórum privilegiado para deputados, senadores, governadores, autoridades, enfim. É bom demais para acreditar e eu já passei do tempo do "Papai Noel existe". Nem mesmo a votação, neste ano, da tal PEC tem chances de acontecer, com o recesso do Congresso batendo às portas. Até hoje nunca se viu nenhum dos réus julgados em fórum privilegiado ser condenado. Aliás, pouquíssimos chegaram a julgamento. Chinaglia prestaria um favor à democracia e ao estado de direito se conseguisse mesmo a aprovação desta PEC. É esperar para ver.

MORDOMIA CONTINUA

O Diário Oficial da União publicou o decreto presidencial 6.381, de 27 de fevereiro de 2008, em que o Luiz Ignácio regulamenta a Lei no 7.474, de 1986. A lei já estava em vigor, mas Luiz Ignácio aprimorou as condições ali estabelecidas. O decreto determina que "os ex-presidentes da República, quando terminam seu mandato, passam a dispor de dois veículos oficiais, com os respectivos motoristas, quatro servidores para os serviços de segurança e apoio pessoal, assessoramento de dois servidores ocupantes de cargo em comissão do Grupo de Direção e Assessoramento Superiores (DAS), nível 5. Os servidores e motoristas referidos são de livre escolha do ex-presidente da República, nomeados para cargo em comissão destinado ao apoio a ex-presidentes da República, integrantes dos cargos em comissão e das funções gratificadas da Casa Civil da Presidência da República". Evidentemente, o decreto não disse, mas é claro que estas despesas correm por nossa conta, os contribuintes. Aliás, essas e todas as outras do governo...

295 ANOS DE VILA

Dia 8 de dezembro comemoramos os 295 anos de elevação do Arraial Novo à Vila. A elevação deu-se em 1713, quatro anos após o término da Guerra dos Emboabas (1707-1709) que trouxe como conseqüência imediata a transformação da Capitania de S. Vicente em Capitania de S. Paulo e Minas do Ouro, separada da Capitania do Rio de Janeiro. Só em 1720 é que seria criada a Capitania de Minas, separada da de S.Paulo. Não só por sua riqueza aurífera, mas também por ser um entreposto comercial de grande atividade, impunha-se, já em 1713, a elevação do arraial à categoria de Vila de São João del Rei.

SENSAÇÃO

Espera-se, com a curiosidade aguçada, o anúncio do secretariado do novo prefeito. Pela nomeação dos auxiliares já dá para se saber muita coisa sobre a próxima gestão. Antigamente, velho provérbio: pelo dedo se conhece o gigante...

 

 

 


Edição nº 535  de 29 de novembro de 2008 Voltar


Velhos tempos

No Brasil, a impunidade anda a passos largos. Os exemplos são conhecidos. Alguns delitos prescrevem antes de irem a julgamento. Juízes protelam processos. Advogados espertos usam da infinidade de recursos do processo penal para adiar sine die a sentença que talvez, eu disse talvez, condenasse o suposto réu. O jornalista assassino do jornal Estado de S.Paulo, condenado a 19 anos de cadeia, ainda não ficou atrás das grades um único dia. Criminosos que usaram da barbárie nos seus delitos, os tais crimes hediondos, são colocados em liberdade depois de cumprirem um sexto da pena. As sentenças, quando existem, se acumulam, mas ninguém, por lei, pode ficar mais de 30 anos na cadeia. E nunca se ouviu dizer que alguém tivesse ficado lá por este tempo. Há crimes que não são tolerados nem mesmo pelos assassinos, como, por exemplo, o estupro ou o sacrifício de crianças. Talvez seja interessante transcrever uma sentença transitada em julgado em 1833, na Província de Sergipe, conservando-se a ortografia da época:

"O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant´Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria coisa que não se pode trazer a lume, e como ela recuzasse, o dito cabra abrafolou-se della, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correa e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.

CONSIDERO:

QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ela e fazer chumbregâncias, coisas que só o marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;

QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que diz também fazer conxambranças com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;

QUE Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver cousa que atenue a perigança delle, amanhan está metendo medo até nos homens;

CONDENO:

O cabra Manoel Duda, pelo malefício que fez à mulher de Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa.

Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos

Juiz de Direito da Villa de Porto da Folha, Sergipe, 15 de outubro de 1833

 

 

 


Edição nº 534  de 22 de novembro de 2008 Voltar


Sem trauma

O escritor João Ubaldo Ribeiro tem toda razão: "a velhice não está na mente; está nas juntas". A minha, ao que parece, confirma o escritor: instalou-se sorrateiramente nas junturas, com predileção pelas articulações dos joelhos e dos ombros. Fazer caminhadas, nem pensar. Só dentro de uma piscina. Vestir uma calça já é um problema, o joelho grita como um condenado. Mas o pior é tentar colocar a fralda da camisa dentro da calça, nas costas. Horror! O ombro direito, com rotação e adução do braço para consumar o ato, não concorda definitivamente com o gesto. E, para protestar, dói. Dói e irradia a dor pela musculatura toda que envolve o movimento: deltóide, maguito rotador, todos os músculos, sinérgicos ou protagonistas, entram em espasmo doloroso. Não é mole, não. Não preciso explicar estes termos. Não são importantes. O que interessa é a dor. E dor, todo mundo sabe o que é.

Pois é. A velhice. Alguém me disse que há nela duas vantagens: uma, realmente extraordinária e incontestável, é o fato de você ter chegado até ela, sinal de longevidade; outra é a de ter um guichê especial para ser atendido nos bancos. Esta última eu trocaria por qualquer uma da idade madura (não sou tão ambicioso a ponto de querer trocar por algumas da juventude...). Ainda assim, a do guichê especial nem sempre funciona: muitas vezes a fila dos idosos está maior que as outras...

Mas a velhice tem também suas coisas boas, não quero ser tão radical. Não sou tão pessimista como Jorge Amado que dizia :"já ouvi falar muito das delícias da velhice, mas até agora nunca fui apresentado a nenhuma delas". Não é bem assim. Sempre há a satisfação de boas lembranças, o ruminar de bons momentos, inesquecíveis festas, porres homéricos, o nascer de filhos, o convívio com a família, a vida a dois com a companheira, viagens, a realização de sonhos como a de ter a casa própria, o primeiro carro os amigos mais próximos. Pode-se dizer que são apenas reminiscências. São sim, e daí? É claro que na idade avançada não dá mais para fazer muitas coisas que se fazia antes. Mas não há trauma nessa deficiência. A mente aceita esta impossibilidade sem angústias tolas ou lamentações lacrimosas. Não se trata apenas de não poder fazer. Também não queremos fazer, compreende? E isto é bem diferente. Assim, não há razões para lamentar. Simplesmente vamos deixando de nos interessar pelas coisas, ou por certas coisas. Multidões me aborrecem. Discursos estão ficando insuportáveis. Reuniões que não conduzem a nada, idem. Casamentos? Uma chatura.

Melhor mesmo é o aconchego do meu escritório, a companhia sempre carinhosa de quem vive comigo há 50 anos, que só sua presença já é carinho, meus livros, os de cabeceira e os que vão chegando, de quando em vez uma sessão musical de velhos sambas, algum jazz, um tanto de bossa nova. E isto basta. Para quê mais?

 

 

 

 


Edição nº 533  de 14 de novembro de 2008 Voltar


Para Vinícius de Moraes

O poeta é coisa de inexplicar. Coisa de levitar. Coisa das coisas. O poeta é coisa de...sei lá. De se deixar levar. De desver e imaginar. De viajar. O poeta é coisa de poetar.

O poeta é. O resto é desdizer...

Bença Vinícius. Bença poeta maior. Bença Vinícius, pai e mãe de santo, santo poeta do povo brasileiro.

Bença Vinícius de Orfeu, Vinícius de Eurídice, que desceu aos infernos e ascendeu aos céus.

Vinícius da Bahia, do Senhor do Bonfim e do Candomblé. Bença nego Vinícius que nasceu branco por acaso.

Diplomata da poesia, que a sua profissão, única e eterna, foi a de fazer versos, reinventar a alegria e celebrar o amor.

Bença Vinícius de Jobim, Vinícius de Baden, Vinícius de Toquinho, Vinícius que sabia, como ninguém, que a vida é parceria, é dividir a esperança e repartir o sofrimento, que a gente só cresce quando não deixa de ser criança.

Bença Vinícius de Ipanema, poeta curvilíneo que exaltou nádegas e coxas das ninfetas douradas pelo sol.

Bença Vinícius de todos os bares, de todas as dores, particularmente as de cotovelo, que seu ofício maior foi o de amar perdidamente. Que amor não se faz pela metade.

Bença Vinícius da paixão, Vinícius da liberdade, que semeou vento e tempestade para colher o furacão, pois sempre acreditou que a vida é efervescência e o poeta um Ser em ebulição.

Bença Vinícius da boemia, dose dupla de carioca e brasileiro, sertanejo do litoral, S. Jorge dos bordéis, nordestino da Miguel Lemos, gaúcho de Ipanema.

Bença Vinícius arquiteto, poeta construído e em construção, que sua tarefa foi edificar a esperança, arrimar a vida, estruturar o sonho e a fantasia, demolir o desamor, soterrar o desalento e construir a poesia.

Bença Vinícius musical, acorde de vida allegro e presto que envelheceu cantando a juventude do espírito, entoando hinos ao prazer de estar vivo e fazendo canções de amor.

Bença Vinícius de consoantes e vogais,

Vinícius de corais,

Vinícius de imortais,

Vinícius demais,

Vinícius plurais,

Vinícius, Vinícius de Moraes!...

 

 

 


Edição nº 532  de 8 de novembro de 2008 Voltar


Obama

Deu Obama nos Estados Unidos. Era previsto. É sempre um espanto ter um negro na presidência da maior potência mundial, mas não é prudente ter muito otimismo. Os governos governam em função dos interesses de seus países. O presidente Lula espera que o protecionismo americano seja revisto. Pode esperar sentado. Leis protecionistas dificilmente serão revistas, seja nos Estados Unidos, seja na Europa. E muito menos por um Democrata, partido que sempre foi mais protecionista do que o Republicano. Seja como for, o mais importante é que os Estados Unidos provaram ao mundo, malgrado todos os defeitos e mazelas de sua política externa, que a democracia, no país, está sólida. Entretanto, não custa ter um pouco de precaução: os americanos gostam de assassinar presidentes.

É sempre bom lembrar que em nenhum momento da campanha Barack Obama colocou a questão como se fosse um embate de negros contra brancos. Em nenhum momento colocou-se a questão racial em jogo. E isto, num país que já teve acirrado preconceito racial, quando a KKK matava os afro-americanos sem pedir licença a ninguém. Aqui no Brasil, pelo contrário, estão inventando leis que acirram o preconceito racial, como acontece com a criação de cotas em universidades. Os brancos pobres que se danem.

A vitória de Obama tem explicação. Em primeiro lugar houve um recorde de votação. Como lá o voto não é obrigatório, a abstenção sempre foi enorme. Desta vez, não: os americanos saíram de casa para votar, particularmente os jovens. E as pesquisas mostraram, bem antes das eleições, que entre os jovens, 62% eram por Obama e só 30% por McCain, ou seja, uma diferença bastante considerável. Pesou também, é claro, o voto dos negros. Entre eles só 5% eram por McCain; a impressionante cifra de 89% era por Obama. Para piorar a situação do candidato republicano, a crise econômica explodiu justo na fase final e mais decisiva da campanha eleitoral. Além disto, a vice de McCain demonstrou despreparo em matéria de política externa e andou falando asneiras pelos comícios e na televisão. Bush encolheu a crista, desapareceu do mapa, ofuscado por uma impopularidade recorde na história dos Estados Unidos.

Agora, a realidade bate às portas do presidente Obama: há duas guerras para serem resolvidas, no Afaganistão e no Iraque; a crise está instalada, o perigo de recessão à vista, a previdência social no país está num beco sem saída, particularmente para a classe média, há uma grande pressão para que seja suspenso o bloqueio a Cuba, aquele país do Caribe onde só existe um partido político, o que manda...A população cubana, é bom não esquecer, só recentemente recebeu "permissão" para comprar celulares. Ainda assim, Obama deveria ter um pouco de ética e tirar de Cuba a base militar de Guatânamo: é injustificável que um país que bloqueia comercialmente outro, tenha, no território deste outro, uma base militar sob sua jurisdição. Isto sim, já seria uma mudança. Pra valer.

 

 

 

 

 

 


Edição nº 531  de 1 de novembro de 2008 Voltar


Malandragem

Ultimamente tenho sido tomado por uma avassaladora e coercitiva tendência para a vagabundagem. Dirão que se trata de uma sensação um tanto quanto genérica, até mesmo genética do ser humano que, na verdade, em todos os tempos, trabalhar, trabalhou, mas sempre resistindo à tentação e ao desejo insopitável de não fazer coisa alguma. O que o homem sempre desejou foi sombra e água fresca. É só voltar à ficção bíblica para comprová-lo. Adão e Eva não tinham nada o que fazer no Paraíso, pelo menos até o caso da maçã. Foi só depois disso que descobriram um ao outro, Deus não gostou do incidente e aí deu no que deu: em Caim e Abel. Com a expulsão tiveram que pegar na enxada, ou sei lá o quê, e plantar para ter o que comer. Pelo menos tinham a terra toda para plantar, não precisavam invadir a terra de ninguém para isto...

Há outros segmentos humanos que também conseguiram reduzir drasticamente a necessidade de trabalhar. Monges e freiras trancafiaram-se nos seus conventos e se isolaram do mundo exterior. O quê faziam, reclusos e afastados de qualquer convívio social? Rezavam, o que, aqui pra nós, não é exatamente um trabalho. Nunca consegui descobrir quem pagava as despesas da alimentação desses abnegados discípulos da fé, já que orações não bastam para manter as células vivas. Quem sabe também não plantavam em hortas coletivas, o que já seria algum trabalho braçal.

A nobreza, naquele tempo dos reinados, quando se acreditava que reis tinham autoridade divina, é outro exemplo de boa vida. Na corte, vivia-se de banquetes e festanças, às custas de alguém que a nobreza nunca perguntou quem era. Nem banho a turma tomava. Ensopavam-se de perfumes para disfarçar o bodum, cobriam o couro cabeludo com cabeleiras cacheadas, viveiro de piolhos, e não estavam nem aí para o trabalho. E depois do banquete, a sesta pós-prandial era obrigatória...

Pois ultimamente estou me sentindo assim, tendendo a vagabundo, à inércia total, ao estado cataléptico, embora consciente. Pior do que a nobreza ou qualquer monge. A propensão é para o não-fazer absoluto. Nada de TV. Nada de música. Nada de abrir livros. E, o mais difícil, nada de pensar. Claro, é só propensão. Ainda resisto. Não sei porquê razão, de onde vem, onde nasce, o certo é que alguma coisa me impede de consumar o desejo extremo de abandonar-me ao nada-a-fazer. Continuo preocupado, isto sim, com a cidade, com a miséria, com a desigualdade, com as péssimas condições da saúde pública, com a baixa qualidade do ensino, em qualquer nível, e também com o DAMAE, com o lixo, com a corrupção, com o próximo secretariado da cidade, com a próxima Câmara Municipal, e com o futuro das nossas crianças, e com o desamparo dos idosos, e com outras mazelas do nosso dia-a-dia. E quando vejo, lá vou eu para o trabalho que não quero, lá vou eu saindo para o batente quando o que desejaria mesmo era ficar em casa, quieto, estático, alheio, inerte, prazer de vagabundar, ser inútil, desnecessário, fora de contexto.

Depois de tudo que passamos na vida, o ser humano não mereceria esse estar indisponível? Ainda que fosse por algumas horas, viver sem qualquer outro compromisso a não ser, simplesmente, existir?

 

 

 


Edição nº 530  de 25 de outubro de 2008 Voltar


BH: hora da decisão

Belo Horizonte está às vésperas de uma decisão fundamental: no segundo turno, os eleitores deverão escolher entre um candidato com cheiro de demagogia, mas bom comunicador, e um candidato de reconhecido talento administrativo, embora fora da mídia política, apoiado, entretanto por uma coligação de centro-esquerda, PSB-PT e, oficiosamente, pelo PSDB.

Leonardo Quintão, o candidato do PMDB, conhecido partido adesista, o mesmo de figuras políticas de nebulosa biografia, como o sr. Newton Cardoso, criou um personagem de ficção para fazer sua campanha eleitoral: com cara de bebê Johnson, falando errado de propósito para ficar mais parecido com o povão, com voz de pregador, que realmente é o que é, enganou os eleitores menos atentos a estes artifícios publicitários com propostas genéricas como "vamos cuidar de gente, gente", "olha que eu sou gente boa, gente", "só quero uma oportunidade, gente" etc. Para isto não relutou em usar até mesmo a filha, de sete anos de idade, e que nem sabia o que estava fazendo ali, diante das câmaras de TV. Uma tragédia. Uma reedição do Collor de Melo, o alucinado que esbravejava na telinha contra os marajás e acabou como acabou, vítima de um deles, o escroque e vigarista Paulo César Farias, assassinado (por quem mesmo?) na sua própria casa.

A eleição parecia ser resolvida no primeiro turno. Afinal, Lacerda era apoiado pelo prefeito Pimentel, 77% de aprovação, pelo governador Aécio Neves, 87% de aprovação, e ungido pelos diretórios estadual e municipal do PSB e do PT numa aliança que 86% da população da capital tinha aprovado. O pastor Quintão foi comendo pelas beiradas, com cara de vítima, com pedidos de misericórdia, com jeito de caipira de roça, foi chegando, foi enrolando o eleitor menos avisado (e são muitos, em todos os lugares) e acabou no segundo turno em segundo lugar, com uma diferença de menos de 3% para Márcio Lacerda.

Aí acendeu a luz amarela. E de repente, as pessoas mais responsáveis perceberam que era preciso fazer alguma coisa para evitar um desastre maior. A mobilização foi grande, em todas as classes sociais. Leonardo Quintão é não apenas neófito e de duvidosa competência para dirigir os destinos de uma cidade como Belo Horizonte. É, também, além de andar em péssimas companhias políticas, dado a promessas demagógicas, algumas delas simplesmente ridículas, como criar uma sala ao lado do gabinete do prefeito, para que ele, o próprio prefeito, possa ouvir as reivindicações do povo, como se BH fosse uma aldeia de 5.000 habitantes.

As cartas estão na mesa e o jogo é amanhã. Não é possível fazer prognósticos para esta disputa. A eleição de Quintão será, sem dúvida, um desastre político, interrompendo uma seqüência de gestões absolutamente idôneas e progressistas que vêm de Pimenta da Veiga em 89, a Pimentel, no momento atual. Mas é o eleitor, sempre sábio e soberano, como se diz por aí, que está com o poder de decisão...

 

 

 


Edição nº 529  de 18 de outubro de 2008 Voltar


Considerações eleitorais

Terminado o grosso das eleições, já é possível tirar algumas conclusões sobre o panorama partidário nacional. Ainda há disputa de segundo turno em algumas cidades importantes, inclusive em algumas capitais, mas seja qual for o resultado, o panorama geral não vai mudar de maneira significativa.

Ficou provado, por exemplo, que eleição municipal é um fato específico, local: se por um lado sofre pouca interferência de poderes estaduais ou nacionais, por outro, tem pouca repercussão, para não dizer nenhuma, em futuras eleições, sejam estaduais, sejam nacionais. Transferir votos, ao que parece, ninguém transfere. Também é precipitado tirar conclusões sobre uma possível conscientização do eleitor em relação ao próprio voto: se varreram da vida pública, pelo menos por um tempo, candidatos que são, reconhecidamente, despreparados para a gestão pública, também elegeram candidatos com folha corrida nada recomendável, alguns deles dados a práticas anti-éticas e useiros e vezeiros em usar do clientelismo mais deslavado em suas gestões e mandatos.

Em Belo Horizonte, o PMDB está no páreo, disputando com um candidato do PSB em coligação com o PT e apoiado oficiosamente pelo PSDB. Leonardo Quintão não faz campanha política: faz sermão. A última vez que o PMDB administrou Belo Horizonte foi em 1988, gestão de Sérgio Ferrara: foi a pior gestão da história política da capital mineira. Pior em todos os sentidos. Quando assumi a presidência da Belotur, a empresa municipal de Turismo da Prefeitura, em 1989, convidado pelo prefeito eleito Pimenta da Veiga, a prefeitura municipal não conseguia comprar, a crédito, um único prego nas lojas da cidade. Na Belotur, a lista de credores era de 380, alguns deles sem receber há 18 meses!

Nas eleições de 2008, o PT aumentou seu eleitorado em apenas 1%: passou de 16,3 milhões de votos para 16,5 milhões de votos, embora tenha aumentado significativamente o número de prefeitos que elegeu. Em 2004, foram 411; em 2008, 548. E onde deu-se o aumento? Nas cidades com menos de 10 mil habitantes, ou seja, o que funcionou foi o bolsa-família.

No Brasil, o PSDB perdeu 8% de eleitores, mas continua com mais prefeitos do que o PT: são agora 779. Em Minas, o desempenho do PSDB foi considerável, embora tenha perdido em algumas cidades importantes, elegeu o maior número de prefeitos, conquistando 159 prefeituras. Mas o que é inquestionável é a supremacia do PMDB: fez 1195 prefeitos e teve um aumento substancial de votos, nada menos que 30%. É inegável a capilaridade do partido, embora não tenha candidato próprio à presidência da república desde 1985, com Sarney, o homem da inflação de 80% ao mês.

De todos os partidos o DEM, ex-PFL, foi o que mais perdeu eleitores, perto de 17%, e dos quatro, foi também o que elegeu menos prefeitos, 495. Tem um trunfo na mão. Está em vias de ganhar a Prefeitura de S.Paulo, a maior cidade da América Latina, com Gilberto Kassab, que está suportando uma campanha sórdida pela petralha paulistana, motivada pelo desespero de Marta Suplicy, aquela do "relaxa e goza"...

A republiqueta é de bananas, mas pelo menos a democracia, aos trancos e barrancos, está preservada. E isto, para quem viu 21 anos de ditadura militar, é fundamental.

 

 

 

 


Edição nº 528  de 11 de outubro de 2008 Voltar


Eleições etc

VONTA DE SOBERANA

Pela vontade soberana do povo, como se diz em estados democráticos, foi eleito o homem das propinas. Os eleitores passaram por cima das acusações e deram a vitória ao achacador, ao candidato recebedor de propinas. Estou falando de Severino Cavalcanti, eleito prefeito da cidadezinha de João Alfredo, no interior de Pernambuco. Severino, aquele mesmo, que foi presidente da Câmara dos Deputados em Brasília e recebia dez mil reais mensalmente do dono do restaurante do Congresso. O homem do mensalinho. Nas suas declarações, logo depois de eleito, disse: "fui absolvido pelo povo". O povo, pois é, soberano. Povo que elegeu 69 prefeitos dos 150 que têm uma ficha suja. Tinha que ser mesmo 69 que, em linguagem chula, é uma sacanagem.

 

VARREDURA

Aqui, o povo, sempre soberano, fez uma varredura na Câmara Municipal. Dos dez vereadores, oito foram para as cucuias. E a nona ainda está correndo o risco de não poder tomar posse. Dançou quem apoiava o Executivo e quem lhe fazia oposição. O povo, neste caso, parece ter prestado atenção às despesas de vereadores, ao arquivamento da CPI do rombo da prefeitura, à enorme quantidade de projetos aprovados que só dão nomes às ruas e títulos, sempre muito discutíveis, de cidadão sanjoanense. A renovação foi completa. O povo fez uma limpa. Espera-se que os novos vereadores estejam prontos a exercer funções legislativas mais importantes para a cidade como um todo, e dispostos à fiscalização do Executivo, mais do que exercerem o conhecido assistencialismo às suas bases eleitorais.

 

NOVO/VELHO PREFEITO

O povo, sempre soberano nas suas decisões, preferiu voltar aos velhos tempos: elegeu Nivaldo mais uma vez. Às vezes, andar para trás pode ser necessário para dar um passo adiante. Pelo menos é o que diz um provérbio oriental. É esperar para ver. Ou melhor, não creio que tenha muito que ver, visto que já vimos muito do mesmo filme. Mas não custa ter esperanças. Pois é de esperanças que vive o povo soberano.

 

METEREOLOGIA

Os tempos de céu de brigadeiro estão terminando para Luiz Ignácio. A crise dos Estados Unidos está começando a tomar dimensões de tempestade e nuvens escuras começam a se formar sobre o planalto. A bravata do presidente – "A crise não vai atravessar o Atlântico"- está desacreditada. O dólar atingiu, na última quarta-feira, R$2,40. O Banco Central já está começando a comprar carteiras de empréstimos em consignação de bancos menores. Sabem o que é isto? É o começo de um novo Proer, que o PT tanto desancou e Luiz Ignácio condenou. O presidente, com seu costumeiro discurso histriônico, está colocando a culpa do desastre nos meios financeiros dos Estados Unidos e da Europa. Com certeza esqueceu-se de que os 200 bilhões de saldo que temos só foi possível pela liquidez da economia mundial. Agora os tempos são outros. Luiz Ignácio vocifera para as platéias incautas e puxa-sacos costumeiros que o Brasil não vai permitir que paises emergentes paguem pela ganância dos meios financeiros dos Estados Unidos e da Europa... Não vai permitir? Numa economia globalizada? O Brasil não vai permitir? Esta republiqueta de bananas? Só mesmo rindo...

 

 

 


Edição nº 527  de 4 de outubro de 2008 Voltar


O Dia D

Domingo é o dia D. Os eleitores vão para as urnas, apertar os botões, confirmar as preferências e sairão dos locais de votação com a consciência tranqüila e a sensação de ter cumprido com o seu dever. Será verdade? Terão mesmo a consciência tranqüila? Só cumprir o ritual de votar já tranqüiliza? Ou será preciso algo mais para ter certeza de que cumpriu o obrigatório ofício de votar?

Quantos terão pesado bem as conseqüências do seu voto? Já não houve, e não poucas vezes, tantas decepções com aqueles que chegaram ao poder graças ao nosso voto? Para começo de conversa, quantos analisaram bem os currículos dos candidatos? Não se pode dizer que sejam desconhecidos. Os sanjoanenses os conhecem. Sabem quem são, que qualidades e defeitos possuem, que confiança inspiram, ou não inspiram, se apenas divagam por promessas marcadas pelo populismo mais barato, cheias de contradições, ou se, mais atentos aos problemas prementes e prioritários, oferecem alternativas que atinjam a população como um todo e não segmentos minoritários, embora também estes mereçam atenção. Não há mistério nas eleições municipais. Partidos valem pouco neste tipo de eleição. Na esfera municipal há uma relação mais direta entre eleitores e candidatos, com toda sorte de conseqüências. Há os eleitores que votam em busca de vantagens pessoais, ou para o seu grupo familiar ou comunitário, sem pensar na cidade como um todo: são os que confundem políticas públicas com paternalismo do poder. Há os que pensam só partidariamente, e votam para que o candidato de sua escolha partidária, aparelhe o poder com a militância submissa, tenham ou não competência para exercer os cargos para os quais foram nomeados. Há os que não se importam com coisa alguma e votam em branco, ou nulo, simplesmente porque não estão interessados nos destinos da cidade e muito menos em quem a administra: são os que já desistiram, aqueles que Bertolt Brecht chamava de analfabetos políticos. Esses são os mais responsáveis pelas más administrações públicas. Omissos, poderiam ter mudado o sentido das coisas se tivessem votado com critério. E há muitos eleitores nesta categoria.

O voto vale quatro anos. É pouco tempo quando se pensa no futuro de uma cidade, mas é tempo suficiente para nos fazer arrepender, amargamente, do voto que foi sufragado por avaliação mal feita, por interesse subalterno, por compadrismo espúrio. Na eleição municipal não está em jogo apenas o candidato que se apresenta para ser prefeito. Seria bom pensar também em outras questões que estão além do candidato: com que equipe, com que quadros, ele poderá contar para governar a cidade? Que apoios políticos poderá obter em outras esferas, estadual e federal, para somar esforços em busca de soluções plausíveis para os problemas prioritários da cidade? E mais: terá coragem para desafiar grupos de interesse que, anos a fio, constituem classe dominante, não necessariamente econômica, e não cumprem as posturas municipais, bloqueiam os avanços e impedem soluções de largo alcance com argumentos primitivos e defasados da realidade? Domingo é o dia D. É preciso ter bom senso para não confundir maquiladores urbanos com gestão progressista.

 

 

 


Edição nº 526  de 27 de setembro de 2008 Voltar


Tópicos

NO HOSPITAL

- Bom dia. É da recepção? Eu gostaria de falar com alguém que me desse informações sobre um paciente. Queria saber se uma certa pessoa está melhor ou pior.

-Qual é o nome do paciente?

-Chama-se Celso e está no apartamento 302.

-Um momentinho só. Vou transferir a ligação para o setor de enfermagem.

-Bom dia.

-Bom dia. Com quem estou falando?

-Com a enfermeira-chefe, Lourdes, às suas ordens. O que deseja?

-Gostaria de saber as condições clínicas do paciente Celso, do quarto 302, por favor.

-Um minuto, vou localizar o médico de plantão e transferir a ligação para ele. É rapidinho.

-Aqui é o Dr. Jefferson, plantonista. Em que posso ajudar?

-Olá, doutor. Precisaria de alguém que me informasse sobre a saúde do Celso que está internado há três semanas no 302.

-Celso? Do 302? Meu senhor, um momento só. Vou consultar o prontuário do paciente. Hum, hum...Aqui está. Ele se alimentou bem hoje, a pressão arterial e pulso estão normais, responde bem à medicação prescrita e vai ser retirado do monitor cardíaco até amanhã. Continuando assim, o médico responsável assinará a alta em três dias.

- Graças a Deus! Muito obrigado, doutor! Que notícia maravilhosa!

-Pelo seu entusiasmo deve ser alguém muito próximo, certamente é da família?

-Não, doutor, eu sou o próprio Celso, telefonando aqui do 302. É que todo mundo entra e sai desta merda deste quarto e ninguém me diz coisa alguma! Eu só queria saber como estou...

 

PROPAGANDA ELEITORAL

No hilário eleitoral da TV e rádio, as pérolas estão correndo soltas em Belo Horizonte. Veja algumas delas:

"Vote em Dé do Requeijão. Para baixar o preço do pão".

"Vote em Dercino Passos. Este está por dentro".

"Vote em Zé do Topa Tudo. Preparado para qualquer coisa".

Vote em Ricardão Teixeira. Terceira idade, mas sabe das coisas".

No vidro traseiro de um carro, em Belo Horizonte, em letras garrafais:

"Para vereador, vote em Neim. Neim fez, Neim faz, Neim vai fazer"

 

 


Edição nº 525  de 20 de setembro de 2008 Voltar


Direitos que ninguém usa

A baderna é geral. Temos alguns direitos dos quais não fazemos uso. Um deles, inclusive, está para ser extinto porque ninguém reclama nem o invoca. Trata-se de uma instituição chamada Justiça Volante. Recentemente, divulgou seu novo telefone: 0800-6442020. Não sei se existe em cidades do interior. Mas, em Belo Horizonte, a Justiça Volante está equipada com cinco viaturas. E para quê? Somente para atender acidentes de trânsito de pequena monta. Sabe aqueles acidentes de trânsito chatos, esbarrões, arranhões, quebra de lanterna, amassados de pára-choque, que acabam levando a discussões infindáveis sobre de quem é a culpa? Pois é: é para resolver estes problemas que existe a tal Justiça Volante. Você telefona e lá vem a viatura, verdadeiro tribunal ambulante, para dar a palavra final sobre o assunto. Na hora. Acontece que ninguém sabe disto. O judiciário não divulga. Ninguém usa o serviço da Justiça Volante. No interior, acho que não tem este serviço. E onde tem, ninguém usa.

Mas este não é o único direito que existe e quase ninguém toma conhecimento dele. Você sabia que quem teve o veículo roubado pode solicitar a devolução do IPVA proporcional ao período em que não fez uso do veículo? É o tipo da informação que o governo não divulga. Está no art. 4 da Lei 8.115 de 30 de dezembro de 1985, parágrafo 6: "A dispensa do pagamento do imposto, na hipótese dos parágrafos 4 e 5 (veículo roubado ou furtado), no exercício em que se verificar a ocorrência, desonera o interessado do pagamento do tributo na proporção do número de meses em que o titular do veículo não exercer direito de propriedade e posse e, casos de furto e roubo, enquanto esses direitos não forem restaurados". E mais: "Art. 12, Parágrafo 7: Nos casos de veículos furtados ou roubados, sempre que forem restaurados os direitos de propriedade e posse violados, o contribuinte deve comunicar o fato, imediatamente, e por escrito, à Fiscalização de Tributos Estaduais".

E mais uma: a Lei Estadual 1.209 de 2004 estabeleceu a "gratuidade de estacionamento" em shoppings e está em pleno vigor. A lei garante que se você fez compras no shopping, com qualquer coisa, inclusive na praça de alimentação, em valor dez vezes superior ao preço do estacionamento, está isento do pagamento. Por exemplo, se o valor do estacionamento é de R$3 e você gastou R$30 no shopping, basta apresentar o cupom ou nota fiscal no caixa do estacionamento que ele terá que validar o ticket sem que você pague por ele. Será que alguém sabe disto? Consumidores e donos de shopping sabem disto?

 

 

 

 


Edição nº 524  de 13 de setembro de 2008 Voltar


Tópicos

MAIS UM ALOPRADO

A questão de cotas está começando a alcançar os seus limites. Na verdade, está passando dos limites da racionalidade. O senador Paulo Paim, do PT do Rio Grande do Sul, está defendendo, numa explosão de radicalismo racial, que é preciso aprovar uma lei estabelecendo que 46% das vagas no serviço público e nas empresas privadas sejam preenchidas por negros. O senador se diz baseado no IBGE que afirma, em pesquisa realizada não sei quando, que 46% da população brasileira é negra. E daí? Daí que o Paulo Paim quer empregar toda a população negra do país por decreto! E não se contenta em legislar somente para o serviço público, cujos salários são pagos pelo Tesouro, quer dizer com dinheiro de impostos que todos pagam, inclusive os brancos, até mais, com certeza, do que os negros. Paulo Paim quer que também as empresas privadas, cujo capital não vem de impostos (pelo contrário, elas pagam impostos, e muito), sejam obrigadas a ter 46% de negros entre seus empregados! Já é polêmica a reserva de cotas na universidade para "afro-descendentes", denominação supinamente ridícula, uma vez que ninguém fala em "eurodescendentes", para se referir aos brancos, nem em "índiodescendentes", quando se trata de cafuzos. Os negros, os brancos, os mulatos, nascidos aqui, assim como os índios, são todos eles brasileiros, filhos desta Republiqueta de Bananas, a nossa Bananolândia.

MAIS RESERVA DE MERCADO

Dentro do mesmo assunto, lá vem a Universidade Federal de Pernambuco com uma nova invenção. Já há Universidades Federais concedendo bônus de 10% para quem faz o vestibular e veio de escola pública. Já existe também bônus de 15% para quem faz vestibular e, além de vir de escola pública, é negro. É a farra das cotas. Agora, a Federal de Pernambuco inovou: está concedendo um bônus extra de 10% se o vestibulando veio de uma escola pública situada na periferia de Recife ou no interior do Estado! Vige! Como dizia minha avó. O conceito agora é de "bônus geográfico". Daqui a pouco estarão criando o "bônus etário" para quem faz o vestibular com mais de 35 anos! Ou o "bônus mulher", beneficiando vestibulandos do sexo feminino. Ou quem sabe, o "bônus sindical", para quem pertence à CUT , à Força Sindical ou a um sindicato qualquer . É preciso entender que Universidade não foi criada para fazer justiça social. Não é função dela. O que é preciso é cuidar bem do ensino fundamental, do ensino médio, do ensino profissionalizante, da formação de mão de obra em larga escala para setores produtivos. universidade não é casa da mãe Joana. Devagar com o andor que o santo é de barro. Fazer demagogia com este assunto é próprio de quem não conhece o que é uma universidade.

S.O.S.. CRISTO REDENTOR

Será que algum candidato a prefeito vai assumir o compromisso de revitalizar o Cristo como o mais importante mirante da cidade? E não falo de teleférico, não. Não há razão para teleférico quando já existe acesso fácil ao destino final. Eu falo é de tirar as antenas que estão lá, urbanizar o local, conservar o monumento, manter policiamento, colocar equipamentos urbanos de serviços para os turistas. Alguém se habilita? E a Copasa?

 

 


Edição nº 523  de 6 de setembro de 2008 Voltar


Avisos paroquiais

A língua portuguesa tem suas armadilhas. É preciso estar atento: uma vírgula altera o sentido da frase, pode-se dizer exatamente o contrário do que se queria. E não são só as vírgulas. Dependendo da construção da frase, do uso das palavras, os disparates são freqüentes. A coletânea abaixo foi feita por um amigo em Igrejas e Casas Paroquiais de vários lugares. Veja o que aconteceu:

1- Para todos que tenham filhos e não o saibam, temos na paróquia uma área especial para crianças.

2- Quinta-feira que vem, às cinco da tarde, haverá uma reunião do Grupo de Mães. Todas as senhoras que desejam tornar-se mães, devem dirigir-se ao escritório do pároco.

3- As reuniões do Grupo de Recuperação da Auto-confiança são às sextas-feiras, às oito horas da noite. Por favor, entrem pela porta dos fundos.

4- Nas sexta-feira, às sete, os meninos do Oratório farão apresentação da obra "Hamlet", de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada a participar desta tragédia.

5- Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficiência. É uma ótima ocasião para se livrar de coisas inúteis que existem na sua casa. Tragam os seus maridos.

6- Assunto da catequese de hoje: "Jesus caminha sobre as águas".

Assunto da catequese de amanhã: "Em busca de Jesus"

7- O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão com o agradecimento de toda a paróquia.

8- O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

9- O preço do curso "Oração e Jejum" inclui a alimentação.

 

 

 


Edição nº 522  de 30 de agosto de 2008 Voltar


Tópicos

DESCALABRO

O "Estado de Minas" publicou nesta semana uma série de reportagens sobre o estado calamitoso em que se encontra a área da saúde no país. A saúde pública, a mesma que, segundo as palavras do Luiz Ignácio, "estava perto da perfeição". O presidente, como se sabe, é um grande humorista, além de outras qualidades que possui, como o uso correto do vernáculo, a bravata, e o interesse pelo futebol. Nas reportagens, a imprensa mostrou como o dinheiro destinado à saúde pública sai pelo ralo, desviada pelos artifícios mais fraudulentos para cobrir despesas que vão desde abadá carnavalesco e carregador de celular até pão de queijo e cesta de Natal, sem contar outras despesas como videocassete e até o salário do secretário de Saúde de algumas localidades. Um descalabro. Acompanhando o assalto ao erário público, com o desvio de verbas, o atendimento tem sido dos mais precários. Tem paciente esperando sete meses para fazer uma mamografia pelo SUS e não é raro o atraso de dois, três meses, na marcação de exames de rotina. Em muitos postos de saúde, muitos deles abandonados, sem qualquer condição de funcionamento, os médicos são ilustres desconhecidos, ninguém os vê por ali. E pior: estas irregularidades acontecem em locais pequenos, municípios onde há mais carência, justamente onde a população mais precisa de cuidados médicos essenciais para evitar o agravamento de suas patologias.

Embora o descalabro possa ser apontado em todo o país, como não podia deixar de ser, é no Nordeste que as irregularidades acontecem com maior freqüência, correspondendo a 51,7% dos casos. Mas o Brasil, ao que parece, está mais preocupado é em sediar as Olimpíadas de 2016...Ou criar mais um imposto para a saúde ter mais recursos.

O mais grave, contudo, é que a Fundação Nacional da Saúde (Funasa), que deveria fiscalizar o uso do dinheiro público nos programas de saúde, não sabe de nada. Aliás, não saber de nada, passou a ser uma espécie de característica das nossas autoridades. Todo mundo começa a ter noção do que acontece só depois que a imprensa publica o escândalo. Aí, vem a turminha do Planalto pra dizer que "aselite" estão querendo desestabilizar o governo, e a imprensa idem. Enquanto isto, bebê lá no Pará, se for para o berçário, está ferrado...

 

INCHAÇO DA MÁQUINA

529 mil servidores públicos, segundo dados do Ministério do Planejamento e Gestão: é o tamanho da máquina pública, 43 mil a mais do que ela tinha em 2003, quando Lula assumiu. Os cargos em comissão também cresceram. E muito. Em 2003, os assessores eram 4.906. Hoje, já são 6.347! Projeto do Executivo enviado ao Congresso cria mais 72 mil cargos até 2012, e destes, 10.375 devem ser preenchidos em 2008. Ao mesmo tempo, o projeto de orçamento para 2009 enviado pelo Planalto ao Congresso, prevê investimentos da ordem de R$36 bilhões em 2009. Parece, à primeira vista, muito dinheiro. Ledo engano. Representa apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, os gastos do governo estão concentrados no pagamento de pessoal, custeio e serviço da dívida, prioritariamente. Com estes dados fica difícil acreditar em crescimento de 6 a 7% como alguns ministros preconizam para ao ano que vem. E ainda se fala em reformas tributária. Para quê? Para que o dinheiro arrecadado com mais inteligência, justiça e qualidade seja consumido no custeio de uma máquina pública pesada, onerosa, gigantesca e emperrada pela burocracia?

 

 

 


Edição nº 521  de 23 de agosto de 2008 Voltar


Tragédia anunciada

Foi pouco. Três a zero foi pouco. Pela inércia, pela retranqueira do Dunga, três a zero foi pouco. Uma tragédia anunciada. Só o presidente da CBF é que ainda acredita em Dunga, o único técnico de seleção do mundo que, antes de ter este cargo, nunca dirigiu time nenhum, de dente-de-leite ao profissional. A apatia foi irritante. A falta de iniciativa, exasperante. Mas nunca uma surpresa. Quem acompanhou os outros jogos da seleção olímpica sabia que ela não iria muito adiante. Ninguém se enganou: Nova Zelândia não possui exatamente um time de futebol...Esta foi uma tragédia olímpica anunciada. Mas existiram outras tragédias não anunciadas. Na ginástica de solo, o nosso atleta conseguiu fazer a única coisa que um atleta não pode fazer na modalidade: caiu de bunda no chão. Passaram quatro anos se preparando para o momento olímpico, foram a dezenas de torneios mundo afora, ganharam alguns deles, estiveram na crista da mídia, incensados por todo mundo e, quando chega a hora decisiva, o Hipólito e a Jade caem de bunda no chão, a Daiane sai fora dos limites da área de apresentação e todos levam tinta: nem ouro, nem prata, nem bronze. Só lágrimas, coisa que até a gente sabe arrancar dos olhos.

Mas não é só. Jardel Gregório, o aplaudido atleta do salto triplo, no primeiro salto, ainda nas eliminatórias, pulou 17,15. Pouco, mas, segundo ele, suficiente para não tentar melhorar o índice para melhor classificação. Disse textualmente, para todo mundo escutar: "na hora da final é que a gente pula pra valer". Deu certo. Classificou-se com os seus 17, 15, no final da fila, mas, vá lá, classificou-se. Na hora H, cadê o Gregório? Na final, cadê o Gregório? Com muito custo chegou aos 17,20, cinco centímetros apenas acima do seu primeiro pulo nas eliminatórias... Ficou em sexto lugar.

O Atletismo, como eu previra sábado passado, foi um verdadeiro desastre. Nos 800 metros livres, o brasileiro Fabiano resolveu dar uma de macho: puxou a prova com ritmo vigoroso, assumiu a ponta e se mandou. Foi indo, foi indo. A corrida era de duas voltas de pista. Quando o sino tocou para a segunda e última volta o Fabiano ainda liderava. Os comentaristas, incrédulos: "Olha lá o Fabiano, gente!". Pois é: chegou por último... No Box, nem uma medalha. Nos saltos ornamentais, tinta de novo. No salto em distância, nécas de pitibiriba. No hipismo, o Pessoa, campeoníssimo, nem o bronze conseguiu. Tinta. Trolha. A nossa melhor saltadora com vara perdeu a dita cuja, ou perderam a vara dela, sei lá. Perdeu a vara e a cabeça. Acostumada a pular 4,80, não conseguiu, com vara emprestada, pular 4,65. Tinta. Trolha.

E para não perder o costume, as meninas do futebol feminino jogam mais, têm mais posse de bola, acuam o adversário, mas não sabem fazer gol. E além de tudo, dão um azar dos diabos. E, no futebol, regra antiga, quem não faz, leva. Levaram. Erraram dois mil passes. Quase não chutaram a gol, querendo decidir tudo na pequena área. Pois é. As americanas, que atacaram pouquíssimo, foram lá e com um chute de fora da área fizeram o gol do ouro. Tinta. Quer dizer, tinta não, ganharam pelo menos a prata... O Scheid, na vela, por um quase milagre, também conseguiu a prata. Agora resta pouco a fazer. É torcer para os vôleis, masculino e feminino; no de praia confio pouco. A tinta comeu solta nesta olimpíada. Mas vou soltar foguetes se, depois disto tudo, o Dunga for demitido pela CBF, já que o próprio não pede demissão, nem que chova canivete...

 

 

 

 


Edição nº 520  de 16 de agosto de 2008 Voltar


Desabafo

Não, não, respondi, já um tanto irritado com a insistência do cara, não tenho estes surtos de patriotismo em relação às olimpíadas. Se são oito as equipes finalistas de ginástica feminina e o Brasil fica em oitavo, o que comemorar? Que somos a oitava melhor equipe de ginástica feminina do mundo? Bestagem.. No momento em que escrevo, uma quinta às seis da tarde, temos três míseras medalhas de bronze no judô e uma única na natação, graças ao esforço descomunal de César Cielo; estamos lá pelo 38o lugar. E vou ficar soltando uma tonelada de fogos de artifício porque, afinal, temos quatro medalhas de bronze? Larga meu pé, meu! Sei, sei, ainda não acabaram as olimpíadas, sei. É, tem o futebol masculino, tem o futebol feminino, eu sei. Ah, tem os vôleis, masculino e feminino. O masculino já perdeu uma para a Rússia. Tem o vôlei de praia. Tem, tem sim. Mas, e daí? Quem disse que já ganharam? È o que estou dizendo: eu não sou otimista, meu caro. Pelo contrário. Além de tudo sou meio pé-frio. É bastante eu começar a torcer pela vitória que a derrota vem subitamente. Estou acostumado com isto: eu torço pelo Botafogo, meu chapa. O que me incomoda é que na natação só dá sétimo lugar, oitavo lugar, isto quando os caras não são desclassificados antes mesmo de cair na piscina...Sei, sei, tem uma chance com o Thiago Pereira, com o próprio César nos 50 livres. Mas eu sou um chato; quero certezas, não esperanças. Veja você: no hipismo, a égua do Doda se contundiu! Explico: a égua que o Doda ia montar nas provas de hipismo, para ninguém dizer que estou chamando o Doda de égua. Tem cabimento? Até os animais da nossa equipe se contundem! Não dá pra ser otimista. Como? Não, não. Não tem importância. Se eu tiver que pagar a língua, pago, com muito gosto.

E estou meio aporrinhado com estas olimpíadas que acontecem na madrugada brasileira. Deveria ser proibido acontecer olimpíada na Ásia, pô! A gente só assiste os eventos em VT, a não ser que fique vagabundando em casa, matando serviço, perdendo noites de sono. E para que? Para ver a turma amargar um oitavo lugar, um sétimo, ou ser desclassificado? E o atletismo nem começou... Ali é que vai ser o desastre total. Agora, você não. Você está aí, levantando brinde pelo sétimo lugar do Thiago Pereira! Ta levantando brinde até pelo cara que foi desclassificado no tênis de mesa...Tudo bem, tudo bem, você é otimista. Mas não me venha dizer que não sou patriota. O que eu não sou é fanático. Nem irracional. Estou vendo a realidade. E a realidade é a de republiqueta de bananas. Ninguém dá apoio aos atletas, o esporte especializado vive às traças. As universidades não têm sequer uma praça de esportes, aliás, os universitários nem pensam em praticar esporte algum, a não ser o levantamento de copo. E não é só isto, não. Há coisas mais ridículas. Não é que duas brasileiras e dois brasileiros, não conseguindo conquistar no Brasil uma vaga para ir às olimpíadas, se naturalizaram pela Geórgia e estão disputando os jogos olímpicos? Que diabo é isto? Que espírito olímpico é este? Os tais atletas não moram na Geórgia. Não têm nada a ver com aquele país que está em rota de colisão com a Rússia. Simplesmente se naturalizaram georgianos só para disputar as olimpíadas! E não é só eles, não. Dos mais de 80 atletas que disputam o tênis de mesa nas olimpíadas, pelo menos metade são chineses naturalizados em diversos paises. Ou seja, mesmo que o ouro não seja da China, de chineses será. Por esta razão, por favor, não enche. Não duvide da minha brasilidade porque não estou soltando fogos pelo nosso 38o lugar... Estou é com pena do Eduardo Santos, o judoca que um juiz safado prejudicou com uma decisão estúpida e facciosa. Isto sim, dói.

Mas você tem razão. Eu deveria ser um pouco mais condescendente. Confiar um pouco mais na Daiane, no Hipólito: afinal, os dois, reconheço, têm chance de medalha, até mesmo de ouro. E, afinal, voltar da China com umas cinco de ouro é até possível. Mas, me desculpe, mesmo assim, não vai dar para soltar foguete...

 

 

 

 


Edição nº 519  de 9 de agosto de 2008 Voltar


Centenário

Que me desculpem os eventuais leitores desta coluna, mas hoje vou capitular ao sentimentalismo e nem me incomodo de ser tachado de piegas, talvez um tanto quanto gagá, apegado às coisas do passado. É que meu grupo escolar está fazendo 100 anos e eu, João Sabão, com muita honra, não poderia deixar de reverenciá-lo numa homenagem modesta, mas que brota do mais recôndito das minhas emoções.

Esta é uma das vantagens de nascer em cidades históricas: se não é possível manter todos os pontos de referência de nossa infância e adolescência, pelo menos a maioria deles se conserva, malgrado a fúria da especulação imobiliária e a interpretação equivocada do que seja o progresso. O meu João dos Santos está ali, ancorado na Hermílio Alves, ladeando o Lenheiro, como estava quando eu, menino, recebi em suas dependências as primeiras letras, as primeiras lições, as primeiras diretrizes culturais. Naquele tempo tudo ali parecia ter dimensões colossais: as salas de aula, o pátio interno, o terreno do fundo, emoldurado por árvores onde os bichos-da-seda fabricavam seus casulos.

Estudei ali no tempo do Estado Novo, em cadernos que traziam a efígie de Getúlio Vargas na capa, ou um soldado empunhando um fuzil: eram os cadernos "Avante". Havia um culto nacionalista exacerbado, como é próprio dos governos chegados ao totalitarismo. Todas as manhãs, antes do início das aulas, havia uma saudação à Bandeira. Muitas vezes recitei poemas triunfalistas nestes eventos e, certamente, foi assim que comecei a tomar gosto pelo teatro, pela arte do ator e do dramaturgo. Esta incipiente vocação foi amplamente estimulada pelas professoras Loló e Josefina Carvalho, duas pessoas que guardo nas minhas lembranças com afetuoso carinho. Eram, as duas, responsáveis pelas festas de fim de ano do João dos Santos. Há, na verdade, um séqüito de personagens que não saem de minha memória quando falo do João dos Santos: D. Amélia Ferreira, D. Lourdes Chagas, D. Beatriz Leite, D. Elza, minhas tias Margarida e Zizinha, minha prima Bolia, todas professoras, além dos meus colegas contemporâneos, como o Odair (que gostava de desenhar), Gilmara, Terezinha, Wilson Galinha-Preta, todos devidamente instruídos para responder à altura se algum Maria Torresmo (os alunos do Maria Tereza) nos chamasse de João Sabão...

Vez ou outra, sonho com aqueles tempos, a gente atravessando a Ponte do Suspiro balançando os arames que protegiam os lados da ponte, abrigados do frio de junho pelas Capas Ideal, nosso agasalho mais comum. É bom saber que o João dos Santos está ali, do mesmo jeito que o conheci. Assim, posso imaginar que atravessando seus portões, volto a ter meus sete anos de idade...

 

 

 

 


Edição nº 518  de 2 de agosto de 2008 Voltar


Temporada de caça

Está aberta a temporada de caça aos votos. Poder-se-ia dizer que está aberta a temporada de promessas. São 133 candidatos a vereador e quatro candidatos a prefeito empenhados na conquista de eleitores. Muitos deles não terão nenhum pejo em prometer o impossível. Ou o que não tem qualquer relevância. O palavrório faz parte do jogo. Ninguém deve esperar santidade. Certamente alguns hão de conduzir-se com mais cautela, com mais seriedade, com mais competência. Mas não será fácil distinguir o joio do trigo. E, mais importante, é ao eleitor que caberá a decisão final. E eleitores, bem, os há de toda natureza, inclusive os analfabetos, além dos meliantes, trambiqueiros, mal-intencionados, e também os que se preocupam em ter informações detalhadas sobre os candidatos para poder escolher aquele que merecerá o voto nas urnas.

Não adianta, portanto, descer a tranca nos políticos corruptos e incompetentes depois que eles chegarem ao poder. Quem os coloca lá somos nós, os que votamos. E como é sempre possível a reversão de expectativas, todo cuidado é pouco: melhor prevenir, isto é, ter informações seguras sobre o candidato a vereador, sobre o candidato a prefeito, antes de depositar o nosso voto na urna. E ainda assim, não estamos seguros.

A democracia não é um regime perfeito, sabe-se. Mas ainda é o melhor que conseguimos construir, embora haja variantes mais aperfeiçoadas do que as que estão consolidadas no Brasil. Posso citar, por exemplo, o parlamentarismo, a meu ver, mais avançado que nosso atual sistema presidencialista. Entre os defeitos da democracia, o mais grave talvez seja justamente o fato de ser um sistema representativo que acaba por representar grupos de interesses, ou mesmo interesses pessoais. Quando um deputado diz que vai "consultar as bases", o que ele quer dizer é que vai conversar com três ou quatro lideranças da sua região eleitoral. Ele não se encontra com seus eleitores, inclusive porque não sabe sequer quem são eles, já que o voto é secreto. Assim, vivemos em um sistema de representação falho, mas este é o jogo que se joga. Os eleitores são responsáveis diretos pelos que elegem. E como sempre é possível errar na escolha, o melhor que fazemos é ter, pelo menos, todas as informações disponíveis sobre os candidatos, fazer uma análise consciente e votar com a convicção de que fizemos o que foi possível para escolher com critério o nosso representante.

Há outras coisas que devemos esperar quando se abre a temporada de caça aos votos. Uma delas é que os candidatos não imundem a cidade, pichando muros "a torto e a direito", emporcalhando os postes, os tapumes, estendendo faixas pela cidade inteira numa orgia visual poluída e desagradável. O mínimo que se pede é que as autoridades eleitorais cuidem de disciplinar a propaganda eleitoral, coibindo abusos, estabelecendo regras e fiscalizando os transgressores.

Outra exigência é que os candidatos a prefeito aceitem debates públicos para que a população seja bem informada sobre seus objetivos, suas metas, suas plataformas. Inclusive sobre suas posições diante de problemas que devem ser enfrentados na cidade. Votar é um exercício de cidadania. Talvez o mais importante deles. Até outubro, vamos viver um período de indagações, de discussões, de explanações consistentes, mas também de muita demagogia, muita conversa fiada, muito bate-boca inútil, muita promessa ridícula. Será preciso estar atento, muito atento, para não perder o bom senso na hora crucial de decidir em quem votar.

 

 

 


Edição nº 517  de 26 de julho de 2008 Voltar


Efemerides

A psicóloga Alzira Barbosa Simões Coelho acaba de dar um presente à cidade: fez publicar em nova edição o minucioso trabalho de José Victor Barbosa, de 1930, intitulado "São João del-Rei através de suas efemérides". A obra original, impressa na "Typographia da Casa Assis", registra fatos e acontecimentos relevantes ocorridos entre 1684 e o dia 25 de abril de 1930. Cuidadoso, o historiador coloca, depois de 1684, a data de 1702, seguida de interrogação, para registrar a fundação do arraial do Rio das Mortes por Tomé Portes del-Rei, no que acerta, já que é impossível documentar a data exata em que isto ocorreu. Já a data final da obra, 25 de abril de 1930, registra "a inauguração official do Grêmio Theatral Américo dos Santos".

O resgate desta publicação tão antiga, raridade de colecionadores, material cuidadosamente guardado por historiadores sanjoanenses, estava fazendo falta às novas gerações que se interessam pela história de nossa cidade e região. As curiosidades acumulam-se nas páginas do pequeno opúsculo e é um deleite inteirar-se delas numa leitura agradável e, quase sempre, pitoresca, vistas com os olhos do presente. Abundam os exemplos: "em 18 de junho de 1853, a lei 658 autorizou a Câmara Municipal a contrair um empréstimo de dez contos para a "factura de um caes"; "no dia 18 de junho de 1842 as Câmaras Municipais de São João del-Rei e São José del-Rei aderem ao movimento revolucionário da Província"; "no dia 6 de setembro de 1842, acompanhado de seu Estado Maior, o General Caxias passa por São João del-Rei, a caminho do Rio de Janeiro e procedente de Ouro Preto"; "em 3 de outubro de 1853 o Ministério do Império concede à Santa Casa de Misericórdia de São João del Rei o benefício de uma loteria anual, pelo prazo de dez anos".

A nova edição das "Ephemerides" inclui também fotos antigas da cidade e, mais curiosos, alguns anúncios de casas comerciais que eram publicados nos jornais da época. Por eles ficamos sabendo, por exemplo, da existência da Fábrica Santa Helena, fabricante das Méias Poly que conquistaram a Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Centenário, 1922, e anunciavam "o perfeito fabrico de meias de seda, fio de Escossia e mercerizadas"; ou do Bazar Japonez, onde podia-se comprar "bolas e pertences de foot-ball"; ou as ofertas do Instituto Padre Machado, fundado em 1921 por Antônio de Lara Resende: "não cuida só da instrucção, e sim da Educação sob o tríplice aspecto moral, intellectual e physico – adopta o excellente Regime de Educação em Família, residindo o Director no próprio estabelecimento – é colégio pequeno, que não aceita mais de 70 alumnos internos – ministra instrucção militar e fornece carteira de reservista – exige contribuições muito módicas".

Alzira Barbosa acertou em cheio. O resgate destas publicações, hoje nas estantes de alguns poucos historiadores, é uma necessidade. São lacunas que a Internet não consegue preencher e nenhum Google tem sequer conhecimento.

 

 


Edição nº 516  de 19 de julho de 2008 Voltar


Dez anos nas bancas

Os dez anos de "A Gazeta de São João del Rei" levou-me a refletir sobre as centenas de militantes da imprensa que foram responsáveis pelo registro, para o bem e para o mal, da historia da cidade. Heróicos, estes bravos homens da imprensa, vencendo todas as dificuldades, sujeitando-se a todas as espécies de achincalhes, e também gratificados pelos raros elogios, conseguiram fazer com que São João del Rei fosse uma das cidades de Minas que mais periódicos publicou nos séculos XIX e XX, ainda que muitos deles tenham tido vida efêmera, embora sempre significativa.

Para se ter uma idéia, foram 45 publicações só entre 1827 e 1900. Em 1827, surgiu o primeiro dos jornais, "O Astro de Minas", que durou até 1839, portanto, 12 anos. Abriu os caminhos para outras publicações que, no decorrer do tempo, registraram os acontecimentos da cidade histórica: "O papagaio", "A legalidade em triumpho", "A ordem", "O povo, "O arauto de Minas", "O luzeiro", "A verdade política", para citar apenas alguns. Pelos títulos, eventualmente, é possível perceber-se, com clareza, a ideologia política de seus fundadores como, por exemplo, "O resistente", ou "Tribuna popular", ou ainda "Opinião liberal". Cabe uma menção especial para o "Pátria mineira", de Sebastião Sette, primeiro órgão de imprensa republicano surgido em Minas e um dos primeiros do Brasil. Na verdade, o primeiro número de "Pátria mineira" saiu à luz em 14 de abril de 1889, antes portanto da proclamação da República, o que o faz porta-voz pioneiro daquele movimento nas montanhas de Minas. Sebastião Sette conseguiu manter o seu periódico por cinco anos, sabe-se lá com que sacrifícios, até 1894.

O século XX viu nascer e morrer muitos órgãos de imprensa na cidade, com destaque para "O Correio" e "O Diário do Comércio", os dois jornais diários mantidos pelos respectivos partidos políticos, PSD, o primeiro, e UDN, o segundo. Aliás, o que manteve estas duas publicações por tantos anos, com edições diárias, o que é uma façanha difícil, senão impossível, de ser igualada hoje em dia, foi justamente o embate político das duas facções mais representativas da militância política daqueles anos em São João del Rei. Tantos anos passados, comemorando os dez anos de "A Gazeta", rendo minhas homenagens a José Belini dos Santos, o incansável editor de "O Diário do Comércio" e à turma de "O Correio", nas figuras de Mozart Novaes, seu colunista mais conceituado, e Asterack de Lima, seu poeta parnasiano mais inspirado.

Nas minhas recordações lembrei-me ainda do jornalzinho do Colégio Santo Antônio, "O porvir", no qual tantas vezes escrevi "mal traçadas linhas" iniciando uma não muito consistente carreira de jornalista. Não é só a "Gazeta" que comemora seus dez anos de existência. Nestas horas, toda a militância jornalística sanjoanense, incluindo aí os diversos murais que seguiram o exemplo do fundador do "Jornal do Poste", Joanino Lobosque, deve ser lembrada, pois quem trabalha no setor sabe, sem qualquer sombra de dúvida, o que representa manter uma publicação semanal, ou diária, no caso dos murais, à disposição do público.

 

 


Edição nº 515  de 12 de julho de 2008 Voltar


Tópicos

AINDA A LEI SECA

Meu amigo Sérgio Farnesi enviou-me um e-mail alertando-me que, por causa da lei seca, "muitos botiquineiros não perderão mais a vida em acidentes de trânsito". O argumento, com certeza, contrapunha-se às minhas lamentações em relação à lei, vendo suas vantagens e não suas eventuais discrepâncias. Sérgio tem toda razão. O problema é que o botiquineiro de que fala não é o meu botiquineiro. O dele entra no boteco para embriagar-se e sai de lá trocando as pernas e enxergando menos que um palmo adiante do nariz. O meu botiquineiro é romântico, vai ao boteco para um papo descontraído e livre, toma uma ou duas cervejas, cumpre um ritual secular, não é dominado pelo vício da bebida. Sem esquecer que falo de botecos urbanos, não os das estradas, onde a tolerância para a bebida deve mesmo ser zero. Falo dos pontos de encontro de fim de tarde. Peço apenas um pouco menos de radicalismo, um pouco mais de tolerância no teor alcoólico sanguíneo, como o que existe no resto do mundo, 0,6 ou 0,8. Mas, zero? E por causa de uma cerveja você pode ter sua carteira de habilitação apreendida por um ano? Mas maconha pode? Cocaína pode? Há que se ter bom senso. Dirigir embriagado já é proibido há muito tempo. E tem que ser mesmo. Mas um pouco de tolerância é também justificável.

O CIRCO MONTADO

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados rejeitou a discriminalização do aborto. O projeto estava na Câmara desde 1991. Montou-se um circo na CCJ: um deputado levou um caixão de criança e duas bonecas. No final, com a rejeição do projeto, a turma rezou um Pai-Nosso. Mas o aborto continuará a ser praticado: para os ricos, com toda a segurança, inclusive em hospitais de luxo; para os pobres, com beberagens suspeitas, ou em clínicas de fundo de quintal ou por curandeiras e pajelanças. Ou não será praticado, pelos que temem o inferno, esta ficção medieval. Aborto será sempre uma questão de consciência, de decisão íntima, independente de leis, da CNBB, de deputados carolas ou de agnósticos radicais. Por outro lado, bebês nascidos estão morrendo às pencas na Santa Casa de Belém, lá no Pará. Um hospital, único em um dos estados brasileiros, capaz de fazer a captação de córneas doadas, interrompeu o serviço porque não tem recursos para adquirir o líquido de conservação das córneas captadas. 55 mil estão na fila para transplantes. Exatamente: "O serviço de saúde no Brasil está perto da perfeição", como disse o Luis Ignácio.

MAIS UM ESPETÁCULO

A Polícia Federal deu mais um espetáculo do seu repertório, com direito a filmagens em tempo real de prisões, busca e apreensão, algemas e o escambau. Está mais estrela do que "Tropa de Elite". Nada contra as prisões de trambiqueiros conhecidos como Dantas, Nahas e Pita, que há muito deveriam estar atrás das grades (será que estarão?). Mas a PF não precisa de tanto aparato publicitário. Basta cumprir sua função, guardando uma certa discrição. Do contrário, trata-se de estado policialesco, próprio de regimes ditatoriais e totalitários.

 

 

 

 


Edição nº 514  de 5 de julho de 2008 Voltar


Lei seca

Botiquineiros proprietários de veículos! Digam adeus aos botequins! Não mais o papo furado dos fins de tarde, entre uma cerveja e outra. Não mais a descontração no final do expediente, para afastar o estresse de um dia de trabalho e a chateação do chefe. Não mais aquela hora necessária de futilidades, infindáveis discussões sobre futebol, sobre política, sobre mulheres, ou mesmo sobre nada, simples sentar-se à mesa, pedir uma "loura", um tira-gosto, e não dizer coisa alguma, apenas deixar-se estar ali, fazendo hora. A não ser que tenha ido a pé, ou que resolva voltar de táxi, digam adeus aos botequins e aos pequenos prazeres que há centenas de anos fazem parte da nossa cultura. Inventaram uma lei seca que não existe em nenhuma parte do mundo: tolerância zero para a bebida alcoólica em relação aos motoristas, nas estradas e nas cidades. Nenhuma contemplação. Dois bombons de licor podem ser motivo para uma multa de aproximadamente R$1.000 e perda da carteira de motorista por 12 meses! Com ou sem bafômetro. É o policial que vai dizer se você está bêbado ou não, se você se recusar ao teste bafométrico. E tanto faz ter bebido uma cerveja ou dez, é a mesma coisa: a lei não faz distinções, não contempla exceções.

Num país canalha como o nosso, a lei pode virar uma indústria de multas: é só as autoridades do trânsito ficarem esperando a saída da turma de qualquer botequim, de qualquer clube, de qualquer festa, de qualquer comemoração, até mesmo de uma inocente festinha de aniversário na casa do aniversariante. Disse autoridades do trânsito? Não, não. Já se decidiu que qualquer policial, do trânsito ou não, também vai fiscalizar os bebuns do país. Em qualquer blitz, já não bastará apresentar os documentos do carro, a carteira de habilitação: você será convidado a fazer o teste do bafômetro também. Se recusar, o policial pode cheirar seu hálito e decidir que você bebeu. Tem bafo, tá bebum. E pronto. Multa e perda da carteira por um ano!

Se a lei não criar uma indústria de multas, o que pode ocorrer também, em país canalha como o nosso, é a oficialização do suborno: afinal é melhor dar 200 paus para o guarda do que pagar mil reais de multa e ter a carteira apreendida.

Assim, meus amigos, nunca mais as festas de casamento. Nunca mais as despedidas de solteiro. Nunca mais as festas de formatura. As comemorações das vitórias da seleção brasileira ou do time de preferência. A não ser que tudo aconteça com o táxi à espera, ou para ir e trazer de volta. Ou seja: agora só podemos ir para os botequins a pé ou de táxi. Bom para os proletários. Bom também para os abastados, que têm motorista. A classe média, na sua imensa maioria, vai dançar. É o que dá inventar lei de primeiro mundo para país de quinto. Tudo isto é, dizem, para coibir os altos índices de morte em acidentes de trânsito. Mas o mesmo Congresso que fez esta lei seca, não foi capaz, ainda, de determinar, em lei, que não se pode mais fabricar carros no país sem air-bag, como acontece no resto do mundo civilizado. Isto também, como está sobejamente provado, reduz os índices de morte em acidentes de trânsito. Ainda bem que eu moro perto de um botequim...

 

 

 

 


Edição nº 513  de 28 de junho de 2008 Voltar


Alienação

Têm dias em que acordo assim: vago. Não atino com nada. Não estou em mim. Há uma eleição à vista e nem enxergo. Não quero saber quem é candidato, quem não o é, quem finge que é para depois negociar a desistência, quem pensa que pode ser, quem sempre foi, quem continua sendo. Nestes amanheceres estou oco. Vazio. Nada importa. Nem mesmo o que vai acontecer com o Bejani, o homem dos milhões sem origem. Ou as estripulias do Paulinho da Força Sindical junto ao BNDES. Estou opaco, apático, inerte. Até meu Botafogo é apenas uma mancha preta e branca em algum horizonte inalcançável, com um rumo definido em direção ao rebaixamento que parece inevitável, com o pé-frio do Cuca (é só ver o que está acontecendo com o Santos...) ou com o tal de Geninho que já desgraçou o Atlético. E eu não estou nem aí, principalmente depois de ter visto os jogos da Copa da UEFA e ter comparado com os jogos da seleção brasileira contra o Paraguai e a Argentina. Ai, que sono! Ai, Dunga! Como Cristo, nós te perdoamos porque não sabes o que estás fazendo...Perco, nestas manhãs estranhas, a capacidade de emocionar-me. Ou indignar-me. É assim. Nestas manhãs, fico manso. Nem me preocupo com o DAMAE e os seus 50 vazamentos na rede de água e esgoto, por pura imprevidência técnica de sobrecarregar a rede com pressão que ela não pode suportar. Nem ligo. Até gosto. Uns canos arrebentados talvez possam obrigar alguém a pensar seriamente sobre este assunto, antes que a cidade toda entre pelo cano, aumentando ainda mais a pressão da rede.

Também não ligo para o "cimento social" do Crivela, acobertado pelo Luis Ignácio e que deu no que deu no morro da Providência, no Rio. Puro projeto demagógico, eleitoreiro, com as casas a serem remendadas escolhidas pela ONG do pastor/senador, candidato a prefeito do Rio. Mas, por favor, não confundam o Exército Brasileiro com um bando de soldados imbecis. Não, não. Nestas manhãs bissextas não ligo para o discursinho ridículo do Luiz Ignácio, aquele do "neste país", um país que só ele vê, onde os serviços de saúde "estão perto da perfeição", e onde um impostinho a mais não faz mal a ninguém. É só uma questão de arredondamento. Já estamos com 39,2% de carga tributária. Por que não arredondar logo para 40%? Facilita os cálculos e as estatísticas. Não estou nem aí.

Nestes dias de alheiamento não leio jornal, recuso conversas, não quero ouvir papos alheios. Recluso, não pertenço ao mundo, ao estado, à cidade, ao bairro. Flutuo. Estou em órbita sem ter feito uso de qualquer droga, nem mesmo o Red Bull, aquele que dá asas. Eu lá preciso de asas? Nestes dias estou no espaço sem elas. Viajo para um lugar imaginário, fictício, onde é possível a esperança, a solidariedade, a alegria, a dignidade. A desgraça destas manhãs é que este torpor só dura até o Jornal Hoje, com a sua descarga mortífera de mais uma investida espetaculosa, e nem sempre necessária, da Polícia Federal. Pena. Pena que dure tão pouco esta minha alienação.

 

 

 

 


Edição nº 512  de 21 de junho de 2008 Voltar


Tópicos

RESOLUÇÃO INFELIZ

O Superior Tribunal Eleitoral decidiu que os políticos com problemas na Justiça podem ser candidatos. Só estarão impedidos os que tiverem sentença condenatória transitada em julgado. Na prática, significa que vai continuar a mesma esculhambação de sempre: qualquer um pode ser candidato, ainda que esteja às voltas com a lei. A decisão do STE foi por quatro votos a três, apertada. Dezesete Tribunais Regionais Eleitorais manifestaram-se contra a decisão do TSE, e estão reagindo. A OAB também rejeitou o parecer. Para amenizar a decisão equivocada (se é que se queira mesmo moralizar o processo eleitoral), o TSE promete facilitar o acesso dos eleitores à lista dos políticos/candidatos com ficha suja, mas não se compromete a divulgar a lista formalmente. Ou seja, se algum eleitor quiser saber se o seu candidato tem ou não tem uma ficha limpa, pode consultar o TSE. Como se vê, uma hipótese pouco provável de acontecer. Alguns partidos estão pensando em tomar iniciativas próprias: o DEM, por exemplo, já decidiu que candidatos condenados em primeira e segunda instâncias não terão a legenda para suas candidaturas. É alguma coisa, para não dizer quase nada. A Republiqueta de Bananas continua na mesma.

MEDICINA SEM APROVAÇÃO

Estão funcionando no país oito Faculdades de Medicina sem aprovação do Ministério da Educação, das quais seis em Minas Gerais. Sobrepondo-se à lei, estas Faculdades estão funcionando somente com a aprovação de Conselhos Estaduais de Educação, o que é insuficiente perante a Constituição. Já comentei aqui na coluna que o problema não reside em falta de médicos, mas na sua má distribuição. Não adianta abrir mais faculdades de medicina, inclusive sem infra-estrutura pertinente, sem hospitais-escola adequados. Corre-se o perigo de jogar no mercado de saúde mais profissionais mal formados e, pior, com diplomas sem validade, por falta de aprovação do MEC. Como o fato é consumado, o diploma acaba sendo validado, até mesmo por decisão judicial, mas o profissional vai continuar incompetente no exercício da profissão.

CSS

O Luis Ignácio vem tirando o corpo fora: diz que a Contribuição Social para a Saúde foi criada pelo Congresso, que ele não tem nada com isto. É zombar da nossa inteligência. O imposto foi tramado no gabinete do Mantega, como se sabe, com o aval do presidente, é claro. A tropa de choque governista na Câmara só encampou o projeto e mandou brasa. Vai esbarrar no Senado. Se não esbarrar no Senado, vai esbarrar no Supremo Tribunal Federal, pela inconstitucionalidade. Enquanto isto, a União bate recordes de arrecadação de impostos enquanto que a carga tributária, a que pesa no bolso do contribuinte, vai chegando perto de assustadores 40%. O rombo da Previdência continua. A reforma política foi para o espaço. A tributária, idem. A inflação ronda perigosamente. Parte dela vem de uma inflação mundial, com aumento dos preços de alimentos e do petróleo. Mas o governo não pode esquecer que aumentou, diretamente, o preço do diesel em 8,8%, na bomba, e este é um país que anda sobre rodas, de borracha, já que deixamos as ferrovias no esquecimento. Com o aumento do diesel, aumenta o frete. Com o aumento do frete, aumentam os preços dos produtos transportados. Vem daí a outra parte da inflação. É só ir ao supermercado e confirmar.

FRASES CÉLEBRES

"Os políticos, como as fraldas, devem ser mudados freqüentemente – e pelas mesmas razões". Eça de Queiroz

 

 

 


Edição nº 511  de 14 de junho de 2008 Voltar


Largo do Rosário

Rosário, tão branca e fria,

é sentinela postada

que paciente vigia

a rua de Santo Antônio

O Padre José Maria

de costas para a portaria

curando dores de dente

com a cera milagrosa.

Mozart Novaes faz discursos

intermináveis: da Grécia,

passava todos os cursos

que a nossa história traçava.

E eu ouvia a discurseira.

Ouvir, era o que então pensava

faz parte do aprendizado.

Hoje eu sei que estava errado:

dois terços do que se ouve

melhor não ter escutado...

Já não já quem alivie

as dores da minha sina:

Acabaram com a farmácia

da velha Dona Afonsina...

Tancredo, ali na sacada,

vê o seu próprio enterro.

Morrer talvez tenha sido,

de fato, seu único erro...

Afinal em que espelho

hoje se vê sua imagem?

Ninguém seguiu seu conselho,

muito menos seu exemplo.

Agora é só um fantasma

que aqui debaixo contemplo...

Quero entender, não me empenho,

Quero explicar, me abstenho....

 

 


Edição nº 510  de 7 de junho de 2008 Voltar


Novos tempos

No vestibular da Universidade de São Paulo (USP) cobrou-se dos candidatos a interpretação do seguinte trecho de um poema de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói e não se sente,

é um contentamento descontente,

dor que desatina sem doer..."

Uma vestibulanda de 19 anos deu sua interpretação em forma de poesia:

"Ah! Seu Camões,

se vivesses hoje em dia,

tomavas uns antipiréticos,

uns quantos analgésicos

e Prozac para a depressão...

Compravas um computador,

consultavas a Internet e descobririas

que essas dores que sentias,

esses calores que te abrasavam,

essas mudanças de humor repentinas,

esses desatinos sem nexo,

não eram feridas de amor,

mas somente falta de sexo...

Deve ter sido a primeira vez que, ao longo de mais de 500 anos, alguém desconfiou que o problema de Camões era falta de mulher. Típico da geração BBB, da Malhação, do Chat e do Rave. Comento:

Triste geração é esta

que não entende a mensagem

nascida do romantismo.

Tudo deturpa e detesta:

em vez de afeto, o cinismo,

em vez de amor, sacanagem...

Quem tem coração de gelo

não pode entender o apelo

do poeta apaixonado.

Amor? A geração de hoje em dia

não pode mesmo senti-lo:

se amarra em pornografia,

só pensa mesmo é naquilo...

E o que é mais surpreendente:

seja com os de mesmo sexo,

ou com os de sexo diferente...

 

 

 


Edição nº 509  de 31 de maio de 2008 Voltar


E lá vem lambança

Contrariando decisão do Supremo Tribunal Federal, ratificada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2004, está em tramitação no Congresso Nacional uma emenda constitucional que aumenta em pouco mais de 8.000 os vereadores do país. A votação em primeiro turno, ocorrida na noite da última terça-feira, aprovou a PEC quase que por unanimidade, o que significa que não será diferente a votação em segundo turno. Em seguida, o projeto segue para o Senado, onde também terá que ser aprovado em dois turnos. Se não houver modificações na Câmara Alta, basta Lula sancionar a PEC que as Câmaras Municipais vão sofrer mais um inchaço.

Porém, há um pedra no meio do caminho. O projeto prevê também uma redução no repasse das verbas do Executivo para os legislativos municipais. Na maioria dos municípios brasileiros o repasse orçamentário não poderá exceder 2% do orçamento do município; em algumas poucas cidades poderá chegar a 4,5%. Como, hoje, este repasse é da ordem de 5% a 8%, a redução, como se vê, é drástica. Na verdade, em não poucas cidades poderá inviabilizar o funcionamento dos legislativos municipais. Em Belo Horizonte, por exemplo, a Câmara Municipal, que hoje recebe R$105 milhões, passará a contar com apenas R$43 milhões! Vejam a lambança: o Congresso aumentou o número de vereadores e diminuiu as verbas. A justificativa é a de que as Câmaras Municipais estão cometendo abusos nos seus gastos, inclusive aumentando de maneira exorbitante o próprio salário dos vereadores. E isto é verdade. Em certos municípios o salário dos vereadores é uma aberração. Mas não creio que esta seja a regra. Como está, a PEC vai criar uma situação caótica nos legislativos municipais, que já estão colocando a boca no trombone. Em Juiz de Fora, o presidente da Casa disse que não vai aumentar o número de vereadores: pela nova regra, aprovada em primeiro turno, de 19, o número de vereadores passaria para 25. Disse o presidente que não há nem espaço físico para acomodar mais seis vereadores. É sempre bom lembrar que cada novo vereador implica também em mais um gabinete e auxiliares, ou seja, cada novo vereador que chega à Câmara aumenta as despesas correntes. Como conciliar os novos custos quando o projeto prevê justamente o corte de verbas para o legislativo?

Em São João del Rei, o número de vereadores deve passar para 15, se a PEC for aprovada. Não sei exatamente qual é o repasse, aqui, do Executivo para o Legislativo mas, com toda a certeza, vai ser reduzido, e muito. A Câmara Municipal está construindo nova sede, o que implica em gastos extras. Como conciliar mais gastos com menos verbas orçamentárias? O que a Associação dos Vereadores do Brasil espera é que o Senado modifique o projeto, o que fará com que ele volte à Câmara para nova aprovação. Se isto ocorrer, haverá tempo para que seja aprovado ainda para as eleições deste ano? É pouco provável.

 

 

 


Edição nº 508  de 24 de maio de 2008 Voltar


Rabugice

Rabugento. A palavra está em desuso. Antigamente, o adjetivo incorporava-se mais aos idosos: "velho rabugento", é o que diziam. Pois é. Descobri que estou ficando assim, um velho rabugento, insuportavelmente rabugento. Perco a paciência por qualquer me da cá aquela palha. Mas acho que, às vezes, nem sempre, mas às vezes, tenho minhas razões. No supermercado, por exemplo, o caixa preferencial para idosos, gestantes, deficientes físicos e outros desamparados, nunca está funcionando. Quando funciona tem sempre uma corja de gente jovem, sarada, saltitante, que se acha no direito de formar fila naquele caixa. E ninguém da direção do supermercado toma uma providência. Nem o próprio caixa, que não está nem aí.

Outro dia, num destes restaurantes de beira de estrada, no toalete masculino, um sujeito me viu entrando num dos banheiros para deficientes e observou: "ô cara, este banheiro aí é para deficiente físico". E eu: "ô cara, na minha idade todo mundo é deficiente físico, seu animal, espera só para chegar na minha idade que você vai ver". O cara não gostou da minha explicação. Quase tive que mostrar para ele minhas ressonâncias magnéticas mostrando degeneração senil do menisco medial do joelho esquerdo, radiografia do ombro direito mostrando discreta redução do espaço glenoidal, além de mostrar as caixas de Arcoxia que o Marcos Campelo me receitou para dores articulares difusas e até mesmo de inexplicável origem. O cara deve ter me achado um velho rabugento, e talvez estivesse no direito dele.

Também é impossível não ser rabugento nos botecos que a gente freqüenta por aí afora. Tem uns caras que falam aos gritos, como se o resto dos fregueses fossem todos surdos; de repente, é um que resolve contar uma caso e é um verdadeiro desespero: o cara começa a contar, daí a pouco entrecorta a narrativa com risadinhas curtas, ele mesmo achando graça no que está contando quando ninguém mais está achando graça em coisíssima nenhuma, o caso não acaba nunca, o cara já não sabe mais do que está falando, aí pára e pergunta –"o que eu tava contando mesmo? Dá pra agüentar? Não dá. Você reclama, diz que o sujeito ta é enchendo o saco do bar inteiro e o cara sai dizendo que você está ficando um velho rabugento. E não tem que ser?

Mas eu reconheço: estou ficando seletivo. Não agüento qualquer tipo de papo, estou escutando muito pouco o que os outros dizem, e não é por deficiência auditiva, não, é por puro desinteresse mesmo; estou chato, às vezes repetitivo, nem bebida estou suportando direito, porre nem pensar, noitadas nunca mais, muita aglomeração de gente me sufoca. Festinhas caseiras, só de amigos muito íntimos, e são pouquíssimos. Ou seja, pesando prós e contras, estou é mesmo ficando um velho rabugento. E, pior, isto não tem cura.

 

 

 


Edição nº 507  de 17 de maio de 2008 Voltar


Tópicos

SABOTAGEM

Há uma parcela de fanáticos de esquerda, o que se convencionou chamar de esquerdopatas, que passou a defender uma tese esdrúxula de que o "legítimo se sobrepõe ao legal". Parece só um jogo de palavras, mas não é. Se o que é legítimo prevalece sobre o que é legal, é possível justificar o que os baderneiros do MST fazem quando invadem prédios públicos, fazendas produtivas, bloqueiam ferrovias e tomam de assalto pedágios de rodovias. Com a justificativa de que suas reivindicações por reforma agrária são legítimas, os esquerdopatas não vêem qualquer ilegalidade naqueles atos. Do mesmo modo, como é legítimo reivindicar melhores salários, a greve dos auditores fiscais da União, por mais de 50 dias, nada tem de ilegal. E quem tiver prejuízo com esta greve, diga-se, o país como um todo, porque a greve atinge as exportações e as importações, que se dane. Aliás, em matéria de greve, até hoje, o direito não foi regulamentado, o que torna ainda mais complicada a situação. Lula já tocou no assunto, berrou aos quatro ventos que era preciso fazer a regulamentação, particularmente para resguardar os serviços públicos essenciais, mas entre discurso e ação vai uma grande distância. Nenhuma providência foi tomada. Como o governo FHC também não tomou nenhuma providência sobre o assunto. Agora são os garimpeiros, com o MST na sombra, incitando e apoiando, que fecharam, mais uma vez, a ferrovia da Vale, no Pará. Em nome de quê? Querem que o garimpo na Serra Pelada seja reaberto. E me digam: o quê que a Vale tem com isto? Já há uma decisão da Justiça em relação ao assunto: é ilegal o bloqueio daquela ferrovia. Mas a turminha de esquerdopatas diz que é "legítimo" e, portanto, está tudo certo. Não, não está não. E desta vez é ainda pior. Os garimpeiros/MST retiraram os parafusos de fixação dos trilhos nos dormente numa boa distância. Aí já não é vandalismo: é sabotagem. A sentença judicial, que tornou ilegal o bloqueio da ferrovia, foi desrespeitada. É urgente a presença da força policial para restabelecer a legalidade. Mas quem vai ordenar a intervenção? Pela lei, a governadora do Pará. Acontece que se trata de D. Júlia do PT, aquela que nomeou a própria manicure para sua assessora no Palácio. O clamor público e na imprensa do país foi tão grande que a governadora teve que desnomear a manicure. Será que D. Júlia vai fazer cumprir a lei?

 

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

Agora só falta o presidente Lula sancionar. O Congresso aprovou, finalmente, uma lei que corrige uma das mais estranhas idiossincrasias do nosso Código Penal. Tudo neste país caminha em direção à impunidade. Antes, o réu condenado a mais de vinte anos de prisão tinha direito a um segundo julgamento. Agora, isto acabou. Condenação é condenação e fim de papo. Como a lei ainda não foi sancionada, o suposto mandante do assassinato da missionária americana, que tinha sido condenado a 30 anos de cadeia no primeiro julgamento, foi absolvido no segundo, ocorrido na semana passada.

 

PARA DIVERTIR

A professora para o Joãozinho

- Qual o tempo verbal da frase: "Isto não podia ter acontecido"?

- Preservativo imperfeito, professora.

 

 

 

 


Edição nº 506  de 10 de maio de 2008 Voltar


Estranha matemática

O jornalista Elio Gáspari descreveu em sua coluna, recentemente, um fato acontecido há 40 anos, em 20 de março de 1968. Naquele dia 20, Orlando Lovechio Filho, de 22 anos, deixou seu carro numa garagem da Avenida Paulista e tomou o caminho de casa. Uma explosão arrebentou-lhe a perna esquerda. O jovem pegara a sobra de um atentado contra o consulado americano praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR. O grupo não era constituído de militantes terroristas, mas aqueles das suas hostes que punham bombas em locais públicos, terroristas eram.

Lovecchio, ainda segundo Gáspari, teve a perna amputada abaixo do joelho e a carreira de piloto comercial destruída. Mas foi em frente, caminha com uma prótese, é corretor de imóveis, mora em Santos com a mãe e um filho. O episódio que faz parte da história da ditadura militar, foi antes ainda do AI-5, quando a esquerda armada decidiu-se pela guerrilha urbana. Aquele atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho de Oliveira e pelos arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, além de Dulce Maria e uma pessoa que não foi identificada.

Mas, o que chama a atenção, no caso, são seus desdobramentos. Passados 40 anos, a vítima mutilada daquele ato terrorista, o Orlando Lovecchio, recebe do governo uma pensão especial de R$571 mensais. Pois bem. O mentor do atentado, Diógenes Carvalho, no dia 24 de janeiro deste ano passou a receber o que poderia ser chamado, segundo Gáspari, de Bolsa-ditadura: uma aposentadoria concedida pelo governo de R$1.627 mensais, mais R$400 mil de pagamentos atrasados. É bom lembrar que ele foi demitido do emprego por abandono e não por perseguição.

Em 68, Diógenes, com mestrado cubano em explosivos, atacou dois quartéis, participou de quatro assaltos, três atentados a bomba e uma execução. Foi preso em março de 69 e trocado pelo cônsul japonês, seqüestrado em S. Paulo. Enquanto esteve preso foi torturado pelos militares que comandavam a repressão política. Por esta razão, foi considerado vítima da ditadura, com direito a ser indenizado. Não vou discutir o mérito. Tortura é inaceitável. E o período era de guerra revolucionária. Diógenes foi para o exílio, andou por Cuba, Chile, China e Coréia. Voltou ao Brasil com a anistia e tornou-se o "Diógenes do PT", ex-auxiliar de Olívio Dutra. Foi apanhado em uma maracutaia da cúpula petista gaúcha com o jogo do bicho e largou o PT em 2002. Tudo bem. Mas, fica o espanto: Lovecchio, que ficou sem a perna, recebe um terço do que é pago ao cidadão que organizou a explosão que o mutilou! Há um projeto no Congresso Nacional, de autoria da deputada petista Mariângela Duarte, para que seja revista a pensão do mutilado: está jogado no fundo de uma gaveta qualquer. Como diz Élio Gáspari, "tem alguma coisa errada na aritmética das indenizações e na álgebra que faz de Diógenes uma vítima e de Lovecchio um estorvo".

 

 

 


Edição nº 505  de 3 de maio de 2008 Voltar


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CPI MELANCÓLICA

Como se esperava, a CPI da Câmara Municipal sobre o desaparecimento de R$2,8 milhões da Prefeitura não deu em nada. Ou melhor, deu sim: deu uma vontade de sumir do mapa, de desanimar, ou de sair berrando pela ruas, nu, como um louco de pedra, pedindo internação imediata no manicômio mais próximo ou, em última instância, pedir para o Grupo ManiCômicos encenar uma peça sobre a CPI. Uma peça? Digo, uma chanchada, uma farsa. Desapareceram R$2,8 milhões e até hoje ninguém sabe como isto aconteceu, quem surrupiou a grana. Mas, aqui pra nós, com que instrument