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SÃO JOÃO DEL-REI, Sábado, 23 de Março de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Pró-Música de Juiz de Fora

Luiz Cruz
* sócio fundador do Centro Cultural Yves Alves

Não há dúvida! Juiz de Fora se tornou um centro de excelência em música. Tudo começou com o casal Hermínio de Sousa Santos e Maria Isabel de Sousa Santos, com o apoio de um grupo de colaboradores, liderado pelo pianista Arnaldo Estrela.

Conhecemos o casal através de Yves Alves, que um dia visitou Juiz de Fora e o Centro Cultural Pró-Música. Yves retornou encantado com o que vira e disse que precisávamos conhecer o projeto que ele passou a considerar um dos mais ousados em Minas Gerais. Fomos à cidade e tivemos nosso primeiro contato com o casal. Desde então, o Pró-Música realizou concertos em Tiradentes. Alguns anos após a morte de Yves Alves, sua esposa, Dalma Fernandes Ferreira, solicitou-nos a gentileza de agendar um encontro com Hermínio e Maria Isabel. Viajamos acompanhando Dalma, que fez questão de ir pessoalmente registrar junto à direção do Pró-Música o entusiasmo que Yves tinha por aquele projeto e afirmou que ele tinha certeza de que renderia muitos frutos, e dos bons.

O primeiro concerto realizado em Tiradentes foi com o Pró-Música Antigua, na Matriz de Santo Antônio. Com apresentação impecável, poucos concertos soaram tão bem dentro deste templo barroco. Depois, vários outros foram realizados, inclusive concertos internacionais da melhor qualidade e que foram promovidos em parceria com o Centro Cultural Yves Alves, alguns regidos pelo competente maestro Nelson Nilo Hack.

A proposta do casal para tornar realidade o Centro Cultural Pró-Música, uma instituição sem fins lucrativos, com sede própria e estruturada com teatro para receber eventos culturais, foi ousada. Não faltaram entraves, mas um a um foram superados, devido ao propósito e a certeza de que estavam trilhando caminho desafiador e que algum dia teria um conjunto de conquistas de valor inimaginável.

Passados 40 anos, o Pró-Música está mais sólido do que nunca. Há uma infraestrutura adequada para suas atividades desenvolvidas na formação de jovens músicos, com o projeto Ação Social Através da Música. Também de aprimoramento de músicos que integram suas formações: Orquestra Sinfônica Pró-Música, Orquestra Barroco, Orquestra de Câmara, Orquestra de Jazz, Quarteto Spalla, Camerata Jovem, Músicos de Capela.

O Pró-Musica criou o Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, sediando em Juiz de Fora um dos mais importantes eventos de música do Brasil, que anualmente traz profissionais de sólida formação em diversos países, a fim de contribuírem para o aprendizado de jovens músicos. Ao longo de 22 anos consecutivos, o resultado não poderia ser melhor: já foram gravados 19 CDs e um DVD. Essas gravações são da maior importância para a divulgação do trabalho, especialmente a preciosa produção musical colonial minera, através dos compositores Lobo de Mesquita e Manoel Dias de Oliveira. Além disso, há que se registrar a qualidade indiscutível das gravações. Trabalho esmerado do violonista barroco Luis Otávio de Sousa Santos, filho do casal, que teve aprimoramento na Holanda. O músico estudou no Koninklijk Conservatorium, Den Haag, realizando estudos de cravo com Jacques Ogg e violino barroco com Sigiswald Kuijken.

O Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga realiza vasta programação de concertos gratuitos nos mais diversos espaços de Juiz de Fora e proporciona concertos em outras cidades que têm como tradição realizar boas apresentações durante o mês de julho.

O Pró-Música realiza o Encontro de Musicologia Histórica, evento da maior relevância que permite contato e intercâmbio entre diversos pesquisadores da música e cultura musical no país. Já publicou oito livros, registrando os trabalhos apresentados no evento. Promove também o Concurso Nacional de Piano Arnaldo Estrela.

Pelo sólido trabalho desenvolvido de divulgação e democratização da música, ao longo de anos seguidos, o Pró-Musica já foi amplamente reconhecido através de diversos prêmios, destacando-se o Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade, concedido pelo Ministério da Cultura, através do IPHAN. A Ordem do Mérito Cultural, insígna concedida pela Casa Civil da Presidência da República. O Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga tornou-se Patrimônio Imaterial de Juiz de Fora.

Reconhecimento não tem faltado. A Revista Época (Editora Globo – Edição Especial, de 12 dezembro de 2011), que realiza anualmente a lista dos 100 mais influentes no país, faz uma verdadeira mobilização para elencar as personalidades que se destacaram como: líderes, artistas, construtores, heróis. Lá, na página 142, vamos encontrar o maestro e violinista barroco Luis Otávio Sousa Santos, apresentado pelo crítico musical João Marcos Coelho, que ressalta sua relevância na formação de gerações de músicos e na divulgação da música colonial brasileira, “que é muito mais importante do que imaginávamos”.

Ao completar 40 anos de existência, todo o acervo e conquistas do Centro Cultural Pró-Música foi transferido para a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFSJ). A cerimônia de transferência ocorreu em 9 de junho de 2011. A UFJF, que acaba de completar 50 anos de existência, assume o compromisso de levar adiante os projetos da entidade.
No dia 16 de maio corrente, faleceu Hermínio de Sousa Santos, o Secretário Geral do Centro Cultural Pró-Música, um de seus fundadores. Brasileiro que soube, como poucos, criar oportunidades para inserção social e promoção da cidadania. Registramos nossa gratidão por sua generosidade, dedicação, competência e sobremaneira a vontade de realizar sonhos.

 

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