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SÃO JOÃO DEL-REI, Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Especial 300 Anos: São João del-Rei, cidade das artes

Carlos Magno de Araújo
é historiador e restaurador

Imóveis da Av. Hermilio Alves antigamente - Foto: Divulgação

Imóveis da Av. Hermilio Alves antigamente – Foto: Divulgação

Imóveis da Av. Hermilio Alves atualmente - Foto: Divulgação

Imóveis da Av. Hermilio Alves atualmente – Foto: Divulgação

São João del-Rei, ao completar 300 anos da sua fundação no próximo mês de dezembro, reafirma em 2013 sua vocação para Cultura e Arte. Desde os primórdios da ocupação deste sítio, no alvorecer do século XVIII, transitaram e se fixaram aqui escultores, entalhadores, pintores, mestres canteiros, ourives, músicos… Enfim, homens responsáveis pelas construções civis, religiosas e pela vida cultural da nova e opulenta vila que se formava às margens do Córrego do Lenheiro.

Patrocinados nos primeiros anos pelo abundante ouro, de aluvião ou do interior das betas, e orientados pela fé cristã, esses artistas e artífices imprimiram no núcleo urbano e nos arredores da Vila de São João del-Rei muitas das mais belas expressões artísticas do período colonial brasileiro. Hoje, três séculos após sua fundação, novos artistas filhos dessa terra, buscando inspiração no legado de seus antepassados, continuam criando e produzindo arte de forma magistral, transformando nossa cidade em um dos principais pólos artísticos do país, principalmente da arte religiosa.

Durante os séculos XVIII e XIX, trabalhavam nas edificações e decorações internas das muitas igrejas e capelas que surgiam, invocando os santos das mais variadas devoções, mestres construtores como Francisco de Lima Cerqueira e escultores como Aleijadinho, Mestre do Cajurú, Valentim Correa Paes, Manoel João Pereira e Francisco de Assis Pereira, artistas que deixaram suas obras na suntuosa Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e nas igrejas do Rosário, Carmo e São Francisco de Assis, além de muitas outras da cidade e dos arredores.

Os pintores Joaquim José da Natividade, Manoel Vitor de Jesus e Venâncio do Espírito Santo são alguns dos talentos que decoraram – com cenas religiosas, marmorizados, guirlandas de flores e folheamento a ouro – os forros, as paredes, os altares e santos dos templos e de residências de famílias opulentas do passado, maravilhando os olhares de tempos atrás e emocionando os que hoje os contemplam.

Ourives transformaram o ouro e a prata em verdadeiras rendas, cinzelando e repuxando os metais em volutas, flores e rocalhas para adornarem as cabeças das imagens e os objetos do culto religioso. Francisco de Assis Pereira foi um dos principais mestres dessa arte que no século XIX criou e confeccionou toda prataria da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte.

Também não podemos nos esquecer de citar os compositores e músicos que, com sua arte, mistificavam as solenidades religiosas e alegravam as festas de autrora; Padre José Maria Xavier e Martiniano Ribeiro Bastos são representantes musicais que aguçaram a sensibilidade auditiva dos são-joanenses de todas as gerações, e contribuíram enormemente para a historia da música regional e brasileira.

Nos dias atuais, os escultores Osni Paiva, Miguel Ávila, Carlos Calsavara, Fernando Pedersini e Ronaldo Nascimento são alguns dos mantenedores da produção local de imagens religiosas, reconhecidos e requisitados nacionalmente. Na arte da escultura em pedra, José Maria Mendonça é referência e motivo de orgulho para nossa terra. Milton Trindade da Silva e os Irmãos Silva (Oficina Nossa Senhora do Pilar) são expoentes da talha em madeira, recriando altares, tarjas e mobiliário religioso para capelas e igrejas recém-construídas. Na arte da policromia, Cristiano Felipe Ribeiro, Ronaldo Nascimento e Carlos Calsavara valorizam com exuberância a padronagem das vestes das novas imagens que hoje são entalhadas. Nos metais, João Bosco de Almeidas Chaves é certamente um dos maiores profissionais do Brasil.

Músicos e maestros do presente continuam a perpetuar a tradição musical da velha cidade. José Maria Neves, Stela Neves Valle, o jovem Maestro Marcelo Ramos e o profundo conhecedor musical Aluísio Viegas são alguns dos nomes que ficarão para a história da música colonial brasileira, pois trouxeram até os nossos dias os sons do passado e eternizarão a produção local.

Enfim, só nos resta parabenizar e agradecer São João del-Rei por seus 300 anos de contribuição para a Cultura e Arte nacional através de seus filhos, homens que continuam projetando no cenário nacional e internacional os ensinamentos adquiridos pelos seus antepassados e mantendo viva e renovada a imagem da alma humana através das suas manifestações artísticas.

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