? Velhos Tempos | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 19 de Novembro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Velhos Tempos

A gente saía cedo de casa, porque o campo do Athletic parecia que ficava em outro Estado, outra cidade. E talvez ficasse mesmo: em Matosinhos. E não havia dinheiro para condução. Para quem ia no dedão, era longe. Íamos a pé mesmo, devagar e sempre, beirando o Córrego do Lenheiro e observando os urubus que revoavam na região. E eram muitos, já que o Cortume Tortoriello ficava nas proximidades do campo do Athletic: era um cheiro horrível, competindo com o que exalava do próprio riacho, também empestado pelos detritos despejados pelos esgotos das redondezas. Os urubus desapareceram junto com o Cortume, mas até hoje temos problemas sanitários por ali.

Era dia de clássico, Athletic e Minas. E nós, athleticanos, obedecendo ao chamado dramático do Dr. Garcia de Lima, de Pedro de Souza, do Coqueiro, tínhamos que comparecer ao estádio do alvinegro para torcer e empurrar o time. Alvinegro: teria sido por esta razão que acabei como torcedor também do Botafogo? Por causa das cores do Athletic? É possível. Mas não pendi para o Atlético de Belo Horizonte, nem para o Cruzeiro, nem para o América. Para nenhum outro time, na verdade. Porque, simplesmente, ninguém sabia, naquela época, que estes times existiam na capital mineira. Só se conseguia escutar, no rádio, uma emissora: a Rádio Nacional, com suas transmissões do campeonato carioca de futebol. Por esta razão, a maioria da minha geração era Athletic ou Minas, em São João del-Rei; e, no Rio, Botafogo, Flamengo, Vasco ou Fluminense. E ponto final. São Paulo era como se estivesse do outro lado do mundo em matéria de futebol.

Íamos para o campo do Athletic com a fúria sagrada dos torcedores fanáticos, dos que são possuídos pela inconsequência dos 15, 16 anos, quando se pensa que um jogo de futebol é uma questão de vida ou morte. Mais ainda naqueles tempos de amadorismo, nos quais era inconcebível ter, no seu time, um jogador que, de coração, fosse torcedor de uma outra agremiação. Os tempos mudaram. O futebol hoje é um negócio, pelo menos para os jogadores: vale a melhor oferta, o coração não tem a menor importância.

Aboletávamo-nos na arquibancada, sob os bambuzais, dispostos a esgoelar até a rouquidão e a afonia: “Esquirrum, esquirrá, o Athletic vai ganhar. Esquirrum, esquirrá, Waldermazinho vai centrar. Esquirrum, esquirrá, e o Dunga vai chutar; Esquirrum, esquirrá, e a bola vai entrar; Esquirrum, esquirrá, mais um gol lá no placar!”. Velhos tempos de muita rivalidade, de ídolos que cultivávamos como se fossem os melhores jogadores do mundo: Reinaldo, Dunga e Waldemarzinho no Athletic; Santão e Sabino, no Minas. Sem contar o entusiasmo incontido do Dr. Garcia de Lima, o eterno presidente do Athletic, tão torcedor como qualquer um de nós, pronto às comemorações, na vitória; e às lamentações, na derrota nunca aceita de todo. Às vezes me pergunto: por que será que tudo isso acabou? Talvez seja assim mesmo: tudo tem o seu tempo e, como nós mesmos, muda, se altera e acaba por desaparecer. Ou quem sabe as coisas continuam acontecendo com a mesma participação da juventude e dos fãs futebolísticos e sou eu que estou em órbita, fora do mundo, alheio ao que se passa, inútil e inerte?

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