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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 26 de Março de 2017  •  Ano XVIII  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Bem-vindo, professor!

Por: Gabriel Chalita

As aulas estão recomeçando. Novos alunos. Novos desafios. Novas possibilidades.

Escolas se preparam para esses recomeços. Há eventos de formação de professores. Há reuniões, planejamentos. Há um fazer coletivo na expectativa de que tudo comece bem.
Gosto de viver essas experiências. Há anos tenho o privilégio de exercer o sagrado ofício do magistério. Gosto de conviver com professores. De ouvi-los, de trocar impressões, de – modestamente – motivá-los.

Foi em um desses eventos que ouvi dois relatos elucidativos. “Mais um ano, não é? Nossa, como as férias voaram! Já estou contando os dias para que tudo se acabe. É muito difícil, sabe, enfrentar uma sala de aula. Os alunos estão cada vez piores. Não há respeito algum. Nossa profissão está muito desvalorizada”. A fala prosseguiu nesse tom. O desprazer de entrar em uma sala de aula e de, rotineiramente, fazer a mesma coisa. A falta de conexão com os alunos e com os seus sonhos. “Sonhos? Será? Eles não têm sonho nenhum. Têm é um vazio enorme, um desrespeito. Tenho pena deles. Aliás, tenho pena de mim por ter de enfrentá-los”. Há alguma verdade nessas afirmações. É fato que se percebem alunos despreparados e desrespeitosos. Há muitos que vivem uma profunda alienação. Têm atitudes ora apáticas, ora agressivas. O dia a dia de um professor, certamente, não é tarefa das mais simples.

O outro relato ia na direção oposta. “Que ótimo. Fico sempre ansiosa quando as aulas vão começar. Como serão os alunos desse ano? Eu nasci para isso, sabe? Para estar em uma sala de aula, para organizar as informações desencontradas que eles trazem. Para ajudá-los a perceber o quanto podem, o quão longe podem ir”. E os olhos brilhavam. E a professora prosseguia. E falava de um ou outro aluno. Um professor se mostrou estupefato. “Você lembra o nome deles?”. Ela prosseguiu. “Para falar a verdade, não de todos, foram muitos, mas de muitos deles, lembro, sim. E lembro o que aprontamos juntos”. O mais desanimado perguntou. “Mas você não acha trabalhoso esse ofício?” Ela foi rápida. “Evidentemente. É difícil nos reinventarmos. É difícil conseguirmos a atenção deles, o entusiasmo. Mas é possível. E é mágico quando sabemos que significamos alguma coisa na vida deles. É disso que nos alimentamos. Do bem que fazemos”.

Eu ainda não havia começado a palestra. Apenas observava aqueles diálogos enquanto alguns conversavam comigo.

A professora, que já trabalhava há algum tempo naquela escola, levantava-se cada vez que um professor entrava e dizia: “bem-vindo, professor”. E dizia o nome. E sorria com a certeza de que era bom estar ali.

Dei a palestra inspirado naquelas atitudes. Não usei o exemplo do desanimado. Mas falei sobre superação, sobre reinvenção. E brinquei com aquela dama. Eles concordaram com os meus elogios e disseram que ela era uma inspiração.

Lembrei-lhes uma qualidade essencial que todos nós, educadores, precisamos ter: gostar de viver. Quem não gosta de viver dificilmente conseguirá oferecer a ajuda necessária a um aprendiz. Dificilmente perceberá que o que ensinamos é, antes de tudo, a capacidade de nos percebermos humanos, de nos respeitarmos, de nos amarmos nas nossas diferenças. Os laços de convivência não podem ser substituídos por intransigências, por preconceitos, por violência. Há de se valorizar o que se pereniza: os momentos. Há de se perceber que os momentos podem dar magnitude à vida. Cada momento é sagrado. Há uma pedagogia a ser implementada em todas as salas de aula: a pedagogia do encontro. É preciso que saibamos partir. Partir para encontrar. Repartir para servir.

Servir para compreender o amar. Servir a uma causa. Ter uma causa. Servir a um sonho. Ter um sonho. Servir a um tema de vida. Ter um tema para viver. São esses os aprendizados que permanecem. Não se pode negligenciar os conhecimentos, naturalmente. Mas eles virão se soubermos instigar os nossos alunos a buscá-los. Com humildade. Com a responsabilidade necessária de quem tem um caminho a ser percorrido.

No futuro, exercerão sua profissão com os conhecimentos, mas, sobretudo, com atitudes corretas. Como aquela professora. Que há mais de 40 anos reinventa o seu agir no mundo fascinante da educação.

Aos professores que iniciam mais uma jornada: coragem. Lutemos a luta justa pela valorização do nosso ofício. Mas é preciso ir além. Até onde nos levam os sonhos que nos embalaram quando abraçamos essa profissão, e os sonhos que nascem, hoje, de sermos melhores a cada dia, de não desperdiçarmos os sagrados momentos de estarmos em uma sala de aula.

Bendito aquele que semeia valores e que, vez ou outra, tem a possibilidade de contemplar a colheita.

Bem-vindo, professor!

* presidente da Academia Paulista de Letras

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