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SÃO JOÃO DEL-REI, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: O paisagismo de Burle Marx em Tiradentes

por Luiz Cruz

No final da década de 1970, por iniciativa de Maria do Carmo Nabuco, a presidente da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, com patrocínio da Embratur, Tiradentes ganhou um expressivo presente: projetos paisagísticos de Roberto Burle Marx (1904-1994). O artista plástico teve seus primeiros contatos com plantas no Jardim Botânico de Darlem, na Alemanha, entre 1928 e 1929.

Logo, retornando ao Brasil, seu primeiro projeto de jardim foi para uma casa projetada por Gregori Warchavchik e Lucio Costa, em 1932 – ambos ícones do Modernismo Brasileiro.

Burle Marx foi um artista interdisciplinar e soube como poucos usar sua percepção para criar: pintura, desenho, litografia, cerâmica, azulejo, tapeçaria, arquitetura e paisagismo. No espírito do antropofagismo, buscou nas plantas nativas a beleza e a identidade. Realizou no Brasil e no exterior mais de dois mil projetos. Aqui seria impossível listar os mais celebres, mas vale destacar a Calçada de Copacabana, os jardins de Brasília e os da Pampulha – hoje Patrimônio da Humanidade. Vários de seus trabalhos estão sítios históricos tombados pelo IPHAN.

Para Tiradentes, Roberto criou os projetos para os largos das Forras, do Chafariz, do Sol, das Mercês, do Rosário e para os cemitérios da Matriz de Santo Antônio e das Mercês. Para cada projeto, foram escolhidas plantas que estariam floridas na época em que o local tivesse mais uso, por exemplo, no Largo do Sol a presença das quaresmeiras e das cássias para colorir o 21 de Abril – feriado do Alferes Tiradentes. O início da implantação foi em 1980, mas infelizmente não foi possível executar o projeto do Largo das Forras, a praça principal. Em 1989, quando assumi a Secretaria de Turismo e Cultura, tive como um dos primeiros objetivos conseguir recursos e implantar o projeto de Burle Marx para o Largo das Forras. Foi um grande desafio! O prefeito era Nivaldo José de Andrade e juntos tivemos que enfrentar muitas adversidades. Inicialmente, foi propor a adaptação do projeto ao autor, uma vez que acreditávamos que a cidade tornar-se-ia um polo turístico e precisaria de uma praça ampla. Depois de longas conversas com Burle Marx e Haruyoshi Ono, no Escritório de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, chegamos a um senso comum do que seria um projeto para o largo. Assim que o projeto ficou pronto, foi exposto no próprio local, para que interessados conhecessem. Logo partimos para conseguir os recursos para torná-lo realidade. Apresentamos o projeto em Minas, Rio e Brasília, sem sucesso. Através de Yves Alves, com o apoio da Fundação Roberto Marinho e de seu superintendente Joaquim Falcão, conseguimos o patrocínio. À frente, na execução, a arquiteta Silvia Finguerut, desde então amiga e colaboradora de Tiradentes.

A implantação demandou muita atenção e dedicação. Não havia mão de obra em Tiradentes e precisávamos cumprir o cronograma. Fui até o distrito de Bichinho procurar mão de obra, uma vez que muitos homens de lá já haviam trabalhado na construção civil em São Paulo. Conseguimos, e aos poucos alguns voltaram de São Paulo, para se dedicar ao projeto de Burle Marx. Na proposta inicial estava previsto o uso da pedra da Serra de São José, mas a área já estava protegida. Como se tratava de um bem público, conseguimos licença junto à FEAM – Fundação Estadual do Meio Ambiente para catar as pedras já preparadas e estocadas. A outra pedra seria o paralelepípedo, na época teria que vir da região de Divinópolis, o preço ficaria elevado e o projeto não conseguiria cobrir. Optou-se, então, pelo uso da ardósia, a pedra que foi possível comprar com os recursos disponíveis. A obra foi inaugurada no dia 19 de janeiro de 1990, com a presença de Roberto Burle Marx, Maria do Carmo Nabuco, Joaquim Falcão e muitos outros. Paralelamente, foi implantado o Projeto de Programação Visual de Tiradentes. Tudo executado a custo zero para a municipalidade.

Lamentavelmente, não se fez a manutenção dos projetos de Burle Marx, inclusive do Largo das Forras. Como o autor previu também, o largo seria palco de grandes eventos. E realmente assim tem sido. Porém, a cada evento usa-se o largo e nada contribui para sua manutenção. As vezes nem limpam o caldo fétido de um evento e logo vem outro por cima. O largo está passando por uma segunda reforma, em cumprimento do TAC-Termo de Ajuste de Conduta de um empreendimento hoteleiro. Na primeira reforma utilizou-se terra vermelha, ácida e estéril para aterrar os canteiros. Plantaram as mudas sem nenhum esterco ou fertilizante. As mudas não foram regadas. Então, foi um desastre absoluto! No segundo TAC, torcemos para que a Prefeitura e o IPHAN acompanhem sua realização e a obra seja digna de um projeto idealizado por Roberto Burle Marx, um dos mais consagrados paisagistas do mundo!

* professor

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