? Pelas Esquinas: Botecos | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Terça-feira, 23 de Maio de 2017  •  Ano XIX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Botecos

S. João del-Rei é a cidade dos botecos estranhos. Na década de 60 existia um, logo depois dos Quatro Cantos, na rua do Comércio, cubículo de porta única, enjambrado e escuro, que logo foi apelidado de “Não Tem Problema”. O apelido veio dos donos, que eram dois, e que, a qualquer requisição dos fregueses, respondiam sem pestanejar “não tem problema”, mesmo que não tivessem no boteco a mercadoria solicitada. Mas o boteco, que durou pouco por razões que logo serão conhecidas, tinha outras particularidades surpreendentes. Se o freguês pedia uma pinga, o dono punha dois copos sobre o balcão e servia explicando: “aqui só se serve dose dupla, uma para o freguês outra para o dono”. E mais: no fim do dia, ou melhor, da noite, os sócios fechavam a porta, conferiam o caixa e bebiam o lucro. Se não havia lucro, bebiam confiando na sobra do dia seguinte. Tinham que falir. E faliram.

Um pouco mais adiante, na mesma rua, ficava o “Bife de Ouro”, do Joanino Lobosque. Na parede, um aviso em letras garrafais: “Quando se estiver tocando música não adianta pedir que não será servido”. E o diabo é que a “Típica do Joanino”, quando começava a tocar tango não parava mais. A goela secava.

O “Tran-Chan” foi o boteco do Vicente Vale, ali na avenida, um pouco abaixo da antiga Casa Sade. Princípios da década de 50. Ali pelas tantas da noite as portas eram fechadas e o dono bebia junto com os fregueses remanescentes. Neste boteco havia uma solenidade bizarra: quando um novo frequentador era apresentado por um antigo, procedia-se ao batizado do recém-chegado. Com aguardente, é claro. Batizado literal, com pinga jogada na cabeça do visitante e palavras improvisadas num latinório estropiado. Mas não me consta que qualquer dos frequentadores do Tran-Chan fosse alcoólatra. Às vezes havia excessos, é claro, como numa noite em que, auxiliados pelo proprietário, lançamos ao Lenheiro umas das mesas de mármore do boteco. Estupidez etílica.

No velho Pinguim, do Italo Cassano, um grupo de amigos, que se intitulavam “Os Emboabas”, do qual faziam parte Francisco Dornelles, Tidinho, José Antônio Rodrigues, Diomedes Garcia de Lima, os irmãos Nascimento Teixeira (Olegário, Romeu, Toninho e João Bosco), na ceia de Sexta-feira Santa (os restaurantes abriam precisamente à meia-noite de sexta-feira) havia um ritual dos mais estapafúrdios de que se tem notícia. Chamava-se “O Copão da Traição”, numa clara alusão ao histórico Capão da Traição. O ritual consistia no seguinte: atrás do balcão ficavam nove copos vazios (eram nove os componentes do grupo); de dez em dez minutos cada um da turma tinha o direito de ir ao balcão e colocar nos nove copos uma dose de qualquer bebida que existisse no bar, sem revelar qual era. Quando todos tinham cumprido o ritual, o Ítalo trazia os nove copos para a mesa e o conteúdo era sorvido, de virada, num grande brinde à vida. Ou seria à morte? Nunca pensamos nisto. Uma verdadeira bomba atômica etílica. Dali para frente tudo podia acontecer. E certamente aconteceu.

Hoje não tenho mais condições físicas para fazer via-sacras alcóolicas/investigativas pelos bares. Além disto, os bares se multiplicaram numa quantidade tal que nem com um fígado de bronze a ronda seria possível. Mas tenho para mim que os bares de hoje estão muito mais comportados. Ou moralistas, sei lá.

Outro dia, por exemplo, dei com os costados no Carlito’s Bar, um destes locais absolutamente aconchegantes, impecavelmente limpo, a ante-sala de sua própria casa, alí no Segredo, escondido o bastante para fazer jus ao nome do bairro onde se localiza. E aí, deparei com um aviso estranho na parede. Para um boteco, é claro. O aviso advertia os fregueses de que o horário de funcionamento era o seguinte: “de segunda a sexta, de 8 às 21 horas; sábado e domingo de 8 às 12 horas. Quer dizer, o boteco fecha justamente no horário que todas as esposas desejam e esperam que seus maridos boêmios estejam em casa… Fiquei com a impressão de que quem manda no Carlito’s Bar é a dona do dono. Mas isto é o que menos importa. Na segunda-feira, o programa mais correto é uma visita ao Carlitos…

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Um comentário para “Pelas Esquinas: Botecos”

  1. Alberto Louvera disse:

    Ainda criança, começando a adolescência, ia entregar roupa lavada por minha mãe a um cliente que se hospedava no hotel que ficava (ou fica) defronte ao Porto Real. Debaixo desse hotel tinha um bar que eu chamava ou acho que chamava de “bar do pão molhado”. Servia-se cachaça e um pão que era molhado num caldo de galinha. Por favor, isso é verdade ou é fruto da minha imaginação juvenil.
    Ao encontrar esse jornal hoje na internet, porque digitei, padre Marreco, de quem fui aluno, tive que chorar, até porque fui leitor do “jornal do poste”, talvez não exista ou talvez ainda exista dentro de mim.
    Parabéns pelo editorial.

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