? Artigo: É preciso inspiração para viver… | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: É preciso inspiração para viver…

por Cleir Edson

A sabedoria do povo deveria ser transformada em livros de Filosofia, de Sociologia, de autoajuda. Enfim, um grande esforço deveria ser feito por literatos, estudiosos, filósofos, sociólogos e intelectuais para que essa fecunda escola de vida fosse sempre retratada em obras literárias.

Sim, não tenho dúvidas de que é no cotidiano do povo que se encontram grandes ensinamentos para se viver e viver bem. A vida é a universidade e o povo, seus mestres.

Numa manhã de terça-feira, bem cedinho, fazendo minha caminhada matinal pelas históricas ruas de São João del-Rei, acompanhado de minha irmã, enquanto falávamos sobre abobrinhas considerando que o horário e o motivo de estar ali naquele espaço e momento são adequados a diálogos despretensiosos, sem nenhum compromisso com nada, senão com a terapia física, mental e espiritual, lá ia eu qual caçador à espreita da caça, esperando aquilo que eu chamo de “a hora do parto” a qual me traz a palavra que me possibilita começar um texto – ou seja – a inspiração!
Não é fácil. É uma gestação de nove meses em segundos, em minutos, em uma hora no máximo. E o parto… ah, o parto, esse é doloroso, posto que todo texto sai do ventre do autor assim como o bebê que sai da mãe, nasce do seu útero…

Caminhávamos então, à toa, como quem vai a lugar nenhum; ora uma pessoa nos cumprimenta, ora somos nós quem cumprimentamos alguém, uma casa ali que nos prende a atenção, outra dali que nos faz virar o rosto e apreciá-la em detalhes, cavalos e cavaleiros, carroças e seus carroceiros passam sem pressa por nós, como se quisessem parar o tempo e no tempo, cães de rua que, refestelados no meio-fio defronte às casas, tiram preguiça se aquecendo ao sol que desponta enquanto aguardam o dia começar, de repente o saboroso cheiro de pão de queijo exala da porta de uma panificadora chega até nós, apura o apetite e nos leva ao cafezinho que nos aguarda à mesa, o mavioso canto de um retardatário sabiá laranjeira que me faz levantar os olhos para o topo de uma árvore e, embevecido, namorar essa delicadeza de Deus… enfim, lá vamos os dois em direção ao nada, em busca do tudo, e aquilo que seria uma hora de caminhada se transforma em diletantismo urbano das primeiras horas de uma bela manhã de primavera.

E eu, sempre à espera do instante mágico – aquele em que a palavra surge e possibilita o nascimento do texto e que – de tão fugaz – precisa ser aproveitado com rapidez, intensidade e consistência, pois ele não retorna, jamais! Vem e assim como surge, num átimo desaparece.

E não é que o milagre acontece e o útero do poeta se abre para a criação?

Sim, ei-lo em sua plenitude: ao retornarmos de nosso trajeto preestabelecido, quase em uma esquina, ali a mágica da cartola se faz, pois nesse trecho da rua por onde retornávamos, à direita, um entregador de gás, em sua moto, aguardando ser atendido numa residência, conversa em altos brados com um pintor que no topo de sua escada encostada à parede de uma casa, a uns dez metros, lhe responde no mesmo tom, e ambos filosofam sobre a arte da vida.

Nesse momento, o motoqueiro acabara de dizer ao pintor:

– Pois é, cara, é preciso inspiração pra viver.

Ao que o outro retruca:

– Sim, sem inspiração não dá.

Então o do gás arremata:

– Mesmo assim é difícil pra burro, cara. Quando eu pego o violão e começo a tocar, lá vem minha mulher e me dá um montão de ordens: faça isso, faça aquilo – e aí eu tenho que parar de tocar, cara; é difícil até pra manter a inspiração.

E o pintor grita do alto de sua escada gasta e toda rebocada de tinta pelo tempo de uso:

– É… é preciso muita inspiração.

E ao curso de nossas rápidas passadas, os dois foram ficando para trás, mas ali, na magia daquele diálogo tão cheio de riqueza humana, eu recebera o toque para minha crônica desta semana e uma bela aula gratuita sobre a arte de viver: é preciso inspiração para levar a vida…

Dedico esta crônica ao povo e a seus anônimos personagens que, frequentemente, nos dão grandes lições de vida. Aos motoboys, trabalhadores braçais, entregadores de gás, carteiros, pintores, garis, feirantes, moradores de rua, guardas-noturnos, porteiros, enfim, a todo esse riquíssimo grupo de seres humanos que tanto nos ensina e enriquece nossa Alma, minha eterna gratidão!

* professor

1 comentário em “Artigo: É preciso inspiração para viver…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 comentário em “Artigo: É preciso inspiração para viver…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *