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SÃO JOÃO DEL-REI, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: “O pequeno grande homem”

por Geraldo R. de Oliveira

O ano era 1934. Talvez o dia fosse 16 de julho. E no meio do “quase nada”, em um distrito da cidade mineira de Bom Sucesso, nascia um dos muitos filhos de uma família pobre, como era costume da época. Mas este, como veremos, tinha algo de especial, além de um gosto peculiar para confusões.

Registrado no mesmo dia de nascimento da mãe, o moleque cresceu travesso. Apreciador do canto dos pássaros, olhos e ouvidos abertos ao aprender. Infelizmente pouco estudou, fato que o impeliu a viver a vida à sua feição. Como de hábito, para as famílias de agricultores que trabalhavam como meeiros em fazendas da região, reuniam-se em torno de braseiros em noites estreladas para contar causos, que iam da dificuldade do dia a dia até sonhos de um futuro melhor que teria de ser construído com as mãos rudes e com a pouca sutileza, coisas típicas dos matutos das Minas Gerais.

Eram de arrepiar os contos da mula sem cabeça…da luz que perseguia os notívagos distraídos que não percebiam o cair da noite… Era instigante ouvir causos sobre aqueles que se aventuraram e foram atrás de novos horizontes e conseguiram vencer ou sucumbiram ao longo do caminho. Assombrava-se com a morte, tão presente e precoce naquelas plagas, que, sem a menor piedade, ceifava a vida de tantos “anjos”–crianças recém nascidas –, provocando dor e padecimento a tantas Donas Marias e Seus Joãos, que buscavam conforto no entorno da fogueira que aquecia não só os corpos, naquelas noites frias, mas também as almas sofridas dos pobres trabalhadores braçais.

Mas um dia eu venço, sonhava o pequeno Dilo! Não sei o motivo ao certo, só sei que o dono da fazenda, em um dia em que o mundo já vivenciava o horror da Segunda Guerra Mundial, cismou que deveria lhe ensinar o ofício das letras. Para tal, determinou que o menino deveria estar presente na casa da fazenda todos os finais de semana, em um horário específico, para praticarem o bê-a-bá da Língua Pátria e os rudimentos da Aritmética, ou seja, as “continhas”.

E lá foi o pequeno Dilo! Ganhou um caderno improvisado, um lápis e uma esperança que lhe abrasava o coração e o enchia de sonhos. Sentou-se à mesa da casa e notou que ali também estava uma bolacha, daquelas redondas, de água, sal e provavelmente polvilho.

A bolacha era a personificação da tentação: a boca se lhe enchia d’água, zumbidos lhe atordoavam a mente e a mão coçava, como que tomada por centenas de bichos de pé. Entretanto, como um pequeno D.Quixote das roças mineiras, fiel a seu código de conduta, resistiu à tentação e lutou para se concentrar naquilo que o”bondoso”fazendeiro teimava em lhe ensinar. Terminada a aula, voltou para a casa de adobe e chão batido, sonhando ainda com a bolacha.

Assim foi, por diversos finais de semana, a sua via crucis: a aula, a bolacha, a tentação e a sua resistência estoica. Até que num final de semana o fazendeiro lhe perguntou: “Dilo, por que durante todos esses dias você não pegou a bolacha e a comeu?”A resposta veio direta e simples: “Ela não me foi dada, não era minha, por que haveria de comê-la?”

Naquele dia, ele voltou satisfeito para casa: voltou comendo feliz a bolacha que, finalmente, lhe foi dada. À noite, como de costume, sentaram-se em torno do braseiro e, para sua surpresa, lá estava também o dono das terras.

Caso pra cá, notícias pra lá, choro pra acolá…até que o fazendeiro se põe a falar ao José Francisco, avô do garoto Dilo:

– Seu José Francisco, saiba o senhor que nesses meses em que passei lutando para ensinar o seu neto, tarefa árdua pela falta de concentração do menino, aprendi algo de muito valor, posto que vi forjar diante de meus olhos uma coisa muito mais valiosa que as letras e os números: eu presenciei o nascimento de um pequeno homem com um imenso caráter. E digo isso diante de todos para que todos nós aprendamos.

Tal fala encheu o pequeno Dilo de orgulho e o fez olhar para o futuro com a certeza de que já trazia consigo os fundamentos básicos para o êxito na vida: dignidade e capacidade de transformar problemas em soluções.

Quem é Dilo? Dilo é Asmondil Aureliano de Oliveira, o homem mais digno que já conheci… meu PAI e meu herói!

* são-joanense e professor

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