? Artigo: Dona Nica | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 19 de Novembro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Dona Nica

por Luiz Cruz

Dona Nica. Assim Antonia Augusta da Cruz era conhecida em Tiradentes. Era primogênita de Vicente José da Costa e Maria Cândida de Paiva, que tiveram dez filhos. Foi registrada juntamente com seu segundo irmão e, por isso, sempre houve confusão com o ano de seu nascimento. Desde muito cedo teve que trabalhar, ajudando a família cuidar da casa e dos irmãos, a pilar arroz, colher e torrar café. Vicente tinha muitos empregados que trabalhavam em suas terras, contratados “molhados”, ou seja, recebiam o café e a refeição. Isso gerava atividades intensas para as mulheres da família, preparar tudo e levar os balaios cheios de marmitas para os trabalhadores, as vezes no Gualter, nas Marimbas, no Campo ou nas Lagoas, onde se plantava ou criava o gado. Aos 20 anos casou-se com Antonio Faustino da Cruz. O casal foi morar na Rua Padre Toledo 279, nesse imóvel nasceram os filhos Maria José e José Celso. Logo, para ajudar na manutenção do núcleo familiar, tornou-se artesã, tecendo correntes para a Oficina de Ourives Santíssima Trindade, utilizava o maçarico de boca e a lamparina para soldar. Era o período do artesanato de prata, comercializado nas festas religiosas, principalmente no Jubileu de Congonhas-MG. Depois o casal se mudou para a Rua da Câmara, 22. A edificação estava em ruínas e foi necessário obra grande e romper o preconceito, pois lá havia morado e falecido um tuberculoso. Aí a família cresceu mais com o nascimento de Luiza, Eutália, Cecília, Joanito e Afonso. Finalmente, depois de muitos esforços e economia, o casal conseguiu comprar a casa da Rua Direita, 127, e lá nasceram Luiz, Faustino, Daniel, Eliseu e Giselda. Uma prole de 12 filhos, sendo que dois faleceram ainda na infância.

Dona Nica trabalhou longos anos como artesã de ourives e só conseguia produzir depois que os filhos iam para a cama, ou seja, passava parte da noite tecendo, à luz de lamparina. Depois trabalhou para a Oficina de Ourives Mauro Barbosa, fazendo colchetes – fechos para pulseiras e colares. Fez bolinhas para colares e terços. Durante muitos anos foi a lavadeira dos uniformes do Grêmio Esportivo São João Evangelista.

Foi uma mulher empreendedora e através do seu empenho ajudou a criar a família com dignidade. Envidou esforços para que os filhos fossem trabalhar desde cedo, como vender picolés, verduras, doces ou nas oficinas de ourives. Dizia que o trabalho dava dignidade ao homem, assim seus filhos se acostumaram com os compromissos desde a infância. Todos foram encaminhados para a escola, na certeza de que a Educação seria um instrumento transformador na vida de cada filho, embora ela mesma não tenha tido oportunidade de estudar devido ao trabalho. Apesar do pouco estudo sempre lia a Revista Ave Maria e todos jornais, revistas, folhetos que lhe ofereciam. Fora expressiva admiradora da natureza e adorava flores.

Irritava-se profundamente com os cortes de árvores desnecessários e se entristecia com os incêndios na Serra de São José.

Viveu intensamente! Adorava a vida! Estimava por demais toda a família, principalmente seus filhos, netos e bisnetos. Sua cor favorita era o vermelho, achava a cor vibrante, alegre e contagiante. Ao longo das seis décadas que viveu na Rua Direita, tornou-se devota de Nossa Senhora do Rosário, rezava o terço diariamente e o deixava debaixo de seu travesseiro. Foi com o terço, após muitos problemas, que se percebeu que havia algo de errado. Ela guardava o terço e não o achava quando ia rezar. Vitimada por “Alzheimer”, enfrentou a doença com serenidade. Jamais reclamou de qualquer coisa. Forte e com sua devoção, conseguiu romper anos seguidos de enfermidade, mas aos poucos perdeu a mobilidade. Mesmo assim, em todas oportunidades assistiu as procissões passar pela Rua Direita, recebia a benção do Santíssimo Sacramento na porta da casa e isto era um alimento ou remédio para o corpo e para a alma.

Sempre gostou de receber visitas e as recebia com entusiasmo. Ao despedir gostava de dizer: “Vai com Deus e com a Nossa Senhora do Rosário também.” O inverno de 2017 foi rigoroso, sofreu acentuadamente com o frio e teve pneumonia grave. Em julho esteve hospitalizada e recuperou, mas retornou em setembro. Com aparente tranquilidade disse: – “Ela não vai me levar embora facilmente”. Na Santa Casa da Misericórdia de São João del-Rei, travou intensa batalha e lutou bravamente pela vida, foi vencedora em diversos momentos. Dona Nica faleceu no dia 5 de outubro de 2017. Foi sepultada de vermelho, onde estão seus filhos Joanito, Eutália, netos e bisnetos, no Cemitério da Matriz de Santo Antônio. Nossa mãezinha partiu para viver a alegria da vida eterna. Ficamos tristes, pesarosos, mas na certeza de que está sob a proteção do Bom Deus e de Nossa Senhora do Rosário. Mãezinha querida somos muito gratos aos seus ensinamentos, aos exemplos, a generosidade, a alegria de viver, a dignidade em que enfrentou a enfermidade e sobretudo a sua longevidade – afinal foram 92 primaveras.

*professor