? Pelas esquinas: Amêndoas | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas esquinas: Amêndoas

Não foi só o Ford que, com o advento da indústria automobilística, inventou a produção em série. Isto ocorreu bem antes, desde a Revolução Industrial, que implantou a divisão do trabalho: cada grupo de operários era responsável por uma tarefa, sem ter a menor noção do produto final. Chaplin satirizou o procedimento, com sua habitual genialidade, no filme “Tempos Modernos”. Marx criticou o processo que, para ele, alienava o operário do fruto do seu trabalho, transformando-o apenas numa peça a mais na engrenagem da produção inventada pelo capitalismo. Depois da segunda guerra mundial os japoneses, com o dinheiro dos americanos, tentaram corrigir algumas destas distorções; teóricos das relações capital/trabalho alertaram para a necessidade de uma integração maior dos operários com o produto final, sugeriram a participação nos lucros, criou-se o “just in time” para evitar o encalhe de estoques. Mas com todos os artifícios do capitalismo, nada deteve a inexorável marcha da produção em escala. O avanço inevitável da tecnologia criou robôs e computadores e a redução dos postos de trabalho, em todo o mundo, tornou-se crítica. A alternativa estatizante soviética não comprovou, na prática, a teoria ideológica do socialismo. No meio tempo surgiu a social-democracia: no Brasil ainda não sabemos o que isto significa verdadeiramente, e o partido que a defende, estatutariamente, nunca teve condições ideais de colocá-la em prática, por razões que não cabe discutir aqui.

A corrida tecnológica, por um lado, reduziu os postos de trabalho; por outro, passou a exigir maior qualificação dos operários. Num País como o nosso, com um dos mais baixos índices de instrução do planeta, ocorreu o inevitável: a fuga desesperada da mão de obra para a economia informal. Todo mundo quer ser dono do próprio negócio, já que não tem preparo para trabalhar no negócio dos outros. Não importa o que seja: um simples botequim de periferia, um trailer conseguido às custas de influência política ou um barraco de lona para vender bugigangas do Paraguai.

Mas há o outro lado da questão: o artesanato cresceu assustadoramente, em proporção nunca vista. Na nossa região isto é particularmente visível, seja aqui, seja em Prados, em Resende Costa, em Coronel Xavier Chaves, em São Tiago, em Nazareno, em Tiradentes.

Estas considerações passaram pela minha cabeça nesta última semana, quando fazia o possível para não pensar nas tramoias políticas dos nossos parlamentares e ministros do Supremo.

Recordações antigas, dos meus 10, 11 anos de idade. A Semana Santa era uma semana de intensa atividade na casa das minhas tias no velho Largo da Câmara. Na sala de jantar, que me parecia muito maior do que é na realidade, pois conserva até hoje as mesmas dimensões, era tempo de preparar os cartuchos de amêndoas que deveriam agraciar os “apóstolos” do Lava-Pés e outras autoridades civis e eclesiásticas. Os cartuchos eram enormes e recobertos com papel de seda colorido. Mas, diferente de hoje, não dava para ir na Colegial e comprar, prontinho, em série, os enfeites para ornamentar os canudos. Era preciso fazê-los, cortando o papel de seda em pequenos quadrados, recortando-os até perto de uma das bordas em tiras de um centímetro de largura e depois, sobre um travesseiro, frisar cada uma das tiras, isoladamente, com uma agulha de crochê, para obter-se um efeito e uma textura incomparáveis. Era o nosso trabalho, meu e de minhas irmãs, primas e primos. As tias encarregavam-se de colar os papéis enrugados nos cartuchos, disputados a tapas, pois eram poucos. Dentro deles, as amêndoas, de coco e amendoim, algumas revestidas de chocolate. Estas eu nunca mais vi. É. Nos meus dez anos, também posso dizer que tive minha fase de artesão. Trabalhando de graça…

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