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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 19 de Novembro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Por que tanta pressa se a beleza está no percurso?

por Cleir Edson

No sábado, 14, véspera do dia em que começou o horário de verão, resolvi ir a Tiradentes depois de um bom tempo sem por lá aparecer. É tão perto, dista apenas 8 quilômetros de São João Del Rei, é como se um bairro daqui fosse.

Decisão tomada, peguei o carro e saí, à tardinha, pela avenida 8 de Dezembro, por onde sempre costumo ir. Ao chegar ao trevo, olhei à esquerda – nenhum carro; virei o rosto para a direita, sentido Lavras – Barbacena e lá vinha uma carreta dessas que transportam cereais. Não corria muito, vinha em velocidade normal, mas mesmo assim a esperei passar, fiz o contorno do trevo e segui logo atrás do caminhão.

Ao me aproximar mais deste, a fim de me preparar para uma possível ultrapassagem, dei com os seguintes dizeres em sua carroceria: “Por que tanta pressa se a beleza está no percurso? Reduza a velocidade! ”

Adoro frases de caminhão. Fascinam-me. Existe tanta verdade e senso de humor em seu conteúdo.

Ademais elas sempre me foram úteis em minhas aulas. Dei bastantes e boas aulas graças às frases de caminhoneiros. São um rico material para o ensino de português.

Mas voltando a minha ida a Tiradentes, lá ia eu atrás da carreta enquanto namorava e meditava a profunda verdade contida naquelas palavras, deixei-me levar tranquilamente, sem pressa, ainda mais considerando o impacto que a frase já exercera sobre meus sentidos e além do que – pressa para quê?

De fato, a beleza – toda a beleza – está no percurso! Grande sabedoria. Mais uma do povo para meu acervo e crescimento pessoal.

Portanto, aprofundando o sentido dessa frase do para-choque daquele caminhão, reflitamos: percurso vem do latim percursus, ação de percorrer; trajeto, itinerário, roteiro, espaço percorrido.

Ora, quantos de nós e quem de nós, ao menos uma vez na vida, não deixamos passar algo digno de ser apreciado, ou perdemos alguma coisa de valor simplesmente porque estávamos mergulhados na velocidade da pressa e não nos detivemos por um mero instante a apreciar, olhar com o coração aquilo que estava ali, a nossa direita, à esquerda, quem sabe acima ou embaixo, ou logo à frente? Quiçá tenha ficado atrás de nós? Quem não?

Quantos não?

Exupéry nos ensinou que “O essencial é invisível para os olhos, só se vê bem com o coração”.

O interessante é que essa frase nos remete à necessidade que temos, nos dias de hoje, de “correr” para chegar a algum lugar, chegar em tempo, ou até mesmo chegar à frente do outro. E com essas atitudes, nos “distanciamos” cada vez mais do essencial, ou seja, perdemos o que realmente tem valor, o intangível, deixamos o Ser na busca frenética pelo ter. Daí nos afastamos dos propósitos de nossa Alma!

Minha reflexão vai toda neste sentido: por que tanta pressa?! Por quê? Para quê?

Há um antigo dito popular que diz “Quem tem pressa come cru, mas paga o preço do assado”; ora, pagamos um preço, um alto preço por essa corrida desenfreada que nos consome e nos rouba – na maioria das vezes – de nós mesmos!

Muitas e muitas vezes já fiz em sala de aula, com alunos de concursos públicos, portanto, adultos em sua maioria, uma pesquisa / Cleir em que pergunto logo na primeira aula: quem de vocês parou por cinco minutos nos últimos seis meses e fez uma autorradiografia de sua vida, se perguntando sou feliz, eu me amo, eu me aceito, gosto do meu corpo, gosto da minha voz, da minha altura, da minha cor, da minha família, do meu marido, da minha esposa, gosto do meu trabalho, gosto de estudar para o concurso que vou fazer…?

Peço então que levante a mão aquele que sim… e é assustador, mas numa turma de 150 pessoas nem 10% acena afirmativamente!

Isso só corrobora a verdade contida na sábia frase do caminhoneiro, portanto, vamos reduzir a velocidade? Vamos!?

Dedico este texto a todos os caminhoneiros deste imenso território – Brasil – estes sim, verdadeiros heróis de um país que prima pela injustiça a quem verdadeiramente trabalha pelo desenvolvimento de nossa pátria. A eles minha reverência e o meu aplauso incondicional! Obrigado!

* professor

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