? Pelas esquinas: Decepção | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 17 de Dezembro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas esquinas: Decepção

Há uma descrença generalizada. Há uma desesperança medrosa na atmosfera. Há um sobressalto. Um espanto. Há uma desilusão. Um visível temor de que não há mesmo remédio, depois que o céu se turvou e as estrelas perderam o brilho.

Há um pesadelo no ar que a vigília não consegue impedir e que no sono se multiplica. Há um desconforto nos corredores do Congresso. Um vazio no plenário. Uma maledicência em todos os botequins. Há um desespero incontido nos militantes de carteirinha. Uma nostalgia de outros tempos, quando o poder era só um sonho, preferível a ter que enfrentar a realidade de agora.

Há um inconfundível cheiro de carniça nas páginas das revistas semanais.

Há um miasma fétido exalando da Praça dos Três Poderes. Há um desenfreado desejo de ser iluminado pelos holofotes e discursar teatralmente para eleitores em potencial e cabos eleitorais remunerados em cada sessão de uma CPI.

Há rastros antigos. Há certezas que se desmancham na esteira de extratos bancários e documentos guardados sob sigilo. Há inconcebíveis traições.

Delações de todo tipo, suspeitas algumas, surpreendentes outras. Quebras de confiança. Amizades antigas que se liquefazem. Há injustificáveis omissões. E há quem se esconda, silencie, emudeça, se tocaia, sabendo que também é alvo, apenas não descoberto ainda, é apenas de outro contexto, outros Valérios, outros Dirceus, outros Delúbios, outros Vaccari, outros Wesley, outros Genoinos, outros Joesley, outros Cabrais. Alvo que ainda não foi colocado às claras. Talvez nunca seja.

Há a possibilidade de tudo ser tudo a mesma coisa, isto é, inconfiável, seja de onde for, seja quem for. Há uma frustração permanente. Uma possível certeza de que nunca será diferente, porque as coisas são assim mesmo e pronto.

Há ruídos, porque todas as melodias se apagaram no eco da última revelação de corrupção e bandalheira. Com o nosso dinheiro, claro. E há bravatas. Auto-louvações. Perigosas certezas de invencibilidade nas urnas e ingênuos desafios para embates morais e éticos. Potenciais presidenciáveis sem qualquer experiência política, apenas midiáticos.

E, com tudo isto, há, ainda, o desemprego; ainda, a carga tributária; ainda, o analfabetismo; ainda, a precariedade na assistência à saúde; ainda, o contingenciamento de verbas; ainda, a avalanche de medidas provisórias; ainda, o mísero salário para a maioria; ainda, o sofrimento dos aposentados; ainda, a desigualdade assustadora. Tudo isto, de ontem e de hoje.

Há, isto sim, uma incomensurável tristeza no País.