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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 17 de Dezembro de 2017  •  Ano XX  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: O Grisu do Barto e os 304 anos da vila São João

por José Antônio de Ávila Sacramento

Falar sobre São João del-Rei é falar do povo que habita o município, dos seus saberes, das curiosidades, dos seus amores, das suas saudades, é contar os casos interessantes. Conseguimos desvendar uma cidade de formas variadas e o fazemos quando tratamos dela com o mais profundo sentimento de respeito à sua memória. Através dos tempos, fatos da arte, da política, das ciências, das religiões, ou acontecimentos populares tornam-se, pela força de comunicação que lhes é própria, registros nos quais as gerações vindouras podem apoiar-se para impedir o desmonte de sua cultura. Povo sem história é povo vazio; quem não relembra os seus feitos, não vive, não tem alma, não sente a vida, não vibra. Perseguindo estas premissas, como em 08 de dezembro deste ano completaremos 304 anos de elevação da Vila de São João del-Rei, tentarei reproduzir aqui um fato curioso que aconteceu na nossa cidade, no início da segunda década do século XX.

Pelo que se sabe, o primeiro ônibus que veio parar em São João del-Rei tinha motor Ford, era um veículo já muito decadente cujo funcionamento e matraquear de latarias ocasionavam incômodos por onde transitava.

Naquela ocasião frequentava a cidade Bartolomeu Cândido Balbino, personalidade nascida no dia 24 de agosto de 1865 e mais conhecida pelo apelido de “Barto”; era sujeito de alma e coração abertos, boêmio, frequentador das bodegas da cidade, que cultivava muitas amizades, além de ser professor das primeiras letras de boa parte da meninada das redondezas. Certo dia, o velho ônibus enguiçou nas imediações da Ponte da Cadeia. O motorista, “João do Fabiano”, rodava a manícula, abria e fechava a tampa do motor, apertava e desapertava parafusos, tentando a todo custo fazer com que aquele monte de lata velha funcionasse e todo o esforço dele foi em vão.

Aquela peleja despertou a atenção de garotos que saíam das aulas no Grupo Escolar João dos Santos (Gentil Palhares, Edgar Guedes, João Osório, Tute Torga…) e eles dispuseram-se a ajudar a empurrar a jardineira; apesar do esforço da meninada, o trambolho não se movia; já bastante enfurecido, o motorista coçava a cabeça, xingava, e nada do veículo sair do lugar…

Eis que durante aquela labuta para fazer funcionar o “velho carro que viera do Rio de Janeiro (…), sem dúvida já aposentado, encostado nalguma garagem da nossa antiga Capital”, passou pelo local o professor Bartolomeu, “amigo inveterado de todos os botequins da cidade. (…) Já ia ele meio alto, vinha das bandas do Tijuco, onde todos diziam que existia a melhor cana do canavial da cidade. ‘Barto’ viu aquele aglomerado, tomou pulso da situação, tirou apressadamente o paletó, arregaçou as mangas da camisa, olhou os circunstantes, olhar fuzilante, como se a dizer ‘comigo a coisa vai estourar’, e desandou a fazer uma força dos diabos, enquanto a meninada, sentindo em torno o valente companheiro pronto para o ataque, ia gritando para que todos ouvissem: olha o ‘Barto’! Olha o ‘Barto’! Viva o professor ‘Barto!’; enquanto isso assobios iam estrugindo, os dedos metidos na boca, gritos, verdadeiros berros, uma confusão infernal, formando aquele cenário inusitado na pacata São João del-Rei de antanho.(…) Em dado instante, ou porque o “Barto” tivesse mesmo influído com a sua presença, ou porque o monstrengo estivesse mesmo resolvido a sair”, o ônibus começou a mover-se do lugar, como de fato saiu e “embarafustou-se avenida abaixo, o ‘João do Fabiano’ firme no volante, rindo à toa”, enquanto os meninos iam se “agarrando pelos pára-lamas, carroçarias, tentando galgar o interior do veículo. (…) O ‘Barto’, todavia, não dizia mais nada, apenas contemplava, via o ônibus matracolejar suas latas, seus ferros, seus pára-lamas; o motor parecia, agora, soltar uma fumaça muito preta, preta feito carvão. E nada mais… E a fumaça ia aumentando, escurecendo tudo, não mais permitindo que os assistentes vissem o monstrengo que já ia à distância (…) pela avenida Rui Barbosa. (…) E foi quando, num último brado, à moda dos guerreiros triunfantes, dos que empunham a arma vitoriosa que, num gesto nervoso aflito, soltou a todos os pulmões essa palavra que ficou na história do nosso primeiro coletivo: ‘Olha! É Grisu! É o Grisu! O Grisu está queimando! Está queimando o Grisu’. Bartolomeu Cândido Balbino, como era de se esperar de um professor, tinha seus conhecimentos de química e sabia que Grisu é um gás (mistura do CH4 com o O2) que em ambientes fechados forma uma mistura explosiva, que era um grande perigo nas minas de carvão (“gás combustível, formado de metano, anidridos carbônicos e nitrogênio, que se desprende espontaneamente das minas de carvão.”).

A partir daquele dia, como bem escreveu José Bellini dos Santos, “Grisu é qualificativo dado aos ônibus desta cidade pelo professor Bartolomeu Cândido Balbino. A este pode se dar, sem o menor receio, a paternidade do crisma, que se espalhou pelas cidades vizinhas e até na Capital da República, denominação daqui levada, talvez, por algum são-joanense, ou mesmo por visitantes influenciados pela aceitação plena do apelido pelos habitantes de São João del-Rei.” O fato concreto é que nesta terra, como costuma a ocorrer até hoje, ainda que em menor escala, o termo “Grisu” passou a ser adotado como sinônimo de ônibus, ou seja, uma expressão advinda do velho carro que “dias depois caiu na praia com o “João do Fabiano”, seu motorista…”. A respeito do primeiro ônibus em São João del-Rei, cuja concessão do serviço era explorada pelo Sr. Severo de Araújo, José Bellini dos Santos comentou que em “tratando-se de uma inovação que viria satisfazer a um desejo são-joanense de possuir bondes, tantas vezes prometidos, projetados e nunca alcançados, despertou atenção o moderno veículo, quando, na Ponte da Cadeia, ponto inicial da linha, surgiu o primeiro ônibus.”.

Assim, depois de relembrar a origem do termo “Grisu”, de ter homenageado ao professor Bartolomeu Cândido Balbino, e, também, a José Bellini dos Santos, escritor quase que já esquecido nesta terra, dedico esta modesta crônica para exaltar os 304 anos d’uma importante vila que fora plantada no interior de um país que inda pouco completou os seus 517 anos, desejoso de que a nossa São João del-Rei não permaneça por mais tempo “paralítica no sol espiando a sombra dos emboabas no encantamento das alfaias” como um dia escrevera Carlos Drummond de Andrade. Cuida-te, São João del-Rei! Viva São João del-Rei!

*da Academia de Letras e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de São João del-Rei-MG