? Artigo: Delação premiada | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Delação premiada

Por Cleir Edson

Após uma semana produtiva, em que compus nada menos que três poemas e duas crônicas, saí no fim da tarde desta última quinta-feira, fui arejar, caminhar um pouco, ver, ouvir e observar as gentes, apreciar as igrejas, ver as lojas, olhar os bares, “namorar” as mulheres… enfim, ouvir o barulho da vida e até quem sabe tomar uma cerveja, ou melhor, parar enquanto o mundo anda…
Depois de andar a esmo, satisfazendo o prazer dos sentidos e sentindo prazer em sentir, parei e adentrei no Pantanal, antigo e tradicional botequim desta já tão querida São João Del Rei de meus textos e poemas, onde se toma uma gostosa e geladinha cerveja, acompanhada de deliciosos tira-gostos e se ouvem as mais extraordinárias e encantadoras histórias do cotidiano de nossas vidas.
Sentei-me a uma mesa no interior do boteco (pois as mesas na calçada na frente estavam já ocupadas), pedi uma cerveja bem gelada – está uma agradável tarde de verão, portanto propícia a saborear bebida tão tropical – e então, ausentei-me, esqueci-me de mim e me entretive em perceber o que se passava a minha volta verdadeiramente. Estava eu ali em silêncio no meio do burburinho…

Ao fundo, via-se um aparelho de tevê de 60 polegadas sintonizado na Globo News, na qual uma jornalista dá as últimas notícias. De onde estava, passei algum tempo ouvindo as mais desbocadas, originais e engraçadas críticas ao nosso desgoverno! Uma mãe e seu filho, ao sabor de uma branquinha entremeada por copos de cerveja, conversam acaloradamente sobre política, corrupção, ladrões de bugigangas, tais como, a mulher que roubou um pote de manteiga, outra que surrupiou ovos de páscoa e ainda mais patético, aquela que roubara uma galinha literalmente! “Todas presas! Absurdo”! “Os corruptos roubam bilhões e estão aí, mais livres que passarinho em tempos de Ibama”. Será?!… (os passarinhos, claro!). Em outra mesa, dois amigos falam de loteria, isto é, dos prêmios que são fraudados nos sorteios. “Um crime contra o cidadão!” Um pouco mais adiante, alguém segurando com ciumenta firmeza um copo de cerveja, comenta que está com tremor e tonteira, que não está bem neste dia. E vira de um gole o que ainda restava no copo. Num alto banquinho, um senhor cuja gordura se derrama pelo banco dá-me a impressão de que se assenta no ar, entre introspectivo e distante, não percebe que sua cerveja já esquentou e se tornou purgante, como dizem os beberrões contumazes. E assim naquele fascinante cenário as conversas vão construindo histórias, ricas de realidade, cheias de brasilidade e alegrando esta tão charmosa tarde.

E lá estava eu, alienado de mim mesmo, sentidos todos em alerta nos outros, na vida que acontecia ali a minha frente. Neste momento em que degusto de toda aquela riqueza humana que se apresenta diante de mim, sentado que estava de frente para a parede do outro lado, deparo-me com esta delícia de cartaz, afixado despretensiosamente na já desgastada pintura da parede e cujas frases transcrevo abaixo:

AVISO DO BAR. Se alguma namorada ou esposa ligar e perguntar de você, nossas tarifas de resposta são: Acabou de sair, R$ 10.00; Está a caminho de casa, R$ 15,00; Não está aqui R$ 20,00; Não o conhecemos, R$ 30,00. Mas se ela nos oferecer R$ 100. 00 nóis entrega!!!

Não me contive maravilhado que fiquei com escrito tão espirituoso e cheio de bom humor; chamei, então, o dono da birosca, seu Roberto, personagem única e de rica biografia de botequineiro e entre risos e gargalhadas pelo fino humor do cartaz, perguntei-lhe sobre o aviso. Seu Roberto, entre feliz e orgulhoso de sua obra, sorridente e na pachorra característica dos proprietários de botecos, explicou-me com detalhes sobre sua criação.

Então, eu pedi a ele para fazer uma foto e – ah, benditos celulares – imagem garantida no milagroso aparelho, disse-lhe que faria uma crônica sobre seu cartaz.

O que me fascinou no conteúdo do aviso é a proposta genuinamente brasileira de corromper, ou seja, o suborno em troca de um ganho maior. Na essência de sua oferta existe uma fina ironia ao modus faciendi da política e, por que não dizer, da gente brasileira.

Senão vejamos: há uma gradação nas tarifas, ou seja, dos 10,00 aos 30,00 existe uma operação de compra e venda de informação. Nada censurável. Legítimo, por sinal. Se se pede uma informação e se compra, paga-se por ela. Simples assim. Se ela é verdadeira ou não, é outra história… é uma questão de hermenêutica…

Todavia, quando o corruptor – Ela – (a mulher, no caso) oferece 100,00 – 70,00 a mais do que o maior valor, o corrompido é subornado. Temos aqui também um caso de “delação premiada”! Esse instituto que agora – para deleite da piada pronta – virou até ex-delação premiada… ahahahaha!!! E no frigir dos ovos quem paga o pato, ou melhor, quem perde o aval para sua cervejinha é o marido, o cônjuge, o noivo, o amante, o namorado, o amancebado, o delatado enfim, seja lá o que Deus ou ela – a mulher – quiser.

Nada como o genuíno bom humor de botequim para alegrar e deixar a vida mais leve… enquanto isso – no âmbito de Brasília – o humor negro acontece e se repete, repete, repete… comprovando que no Brasil, os Ali Babás invocaram o “Abre-te sésamo” dos cofres públicos há muito, muito tempo… e agora cabe a nós cidadãos decentes desta bela Nação gritar: “Fecha-te sésamo!”

* professor