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SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Perdas

Por Rogério Medeiros Garcia de Lima

Há mais de duas décadas, li o excelente livro “Perdas necessárias”, da psicanalista norte-americana Judith Viorst.

Viver é também perder: perder a infância, bens, parentes, amigos, sonhos, juventude, saúde e a própria vida. Fazer o que?

Na Semana Santa de 2018, perdi dois queridos amigos.

O Marcão partiu no início do feriado, sem despedidas. Literalmente, amigo de “velhos carnavais”. Quantas farras fizemos juntos nos desfiles do “Pão Molhado”, com Zé Aureni (seu cunhado, conhecido vereador), Demônio, Artur Nogueira e uma turma da pesada.

Marcão era representante comercial de uma empresa fabricante de explosivos, utilizados em mineração.

Ele próprio era uma explosão. Não por temperamento nervoso, mas pelo vozeirão e a presença barulhenta, que animava qualquer ambiente.
Saudades.

Na Sexta-Feira da Paixão, faleceu Roberto Simões Coelho, pai do amigo de infância Emanuel Martins Simões Coelho (Néu).

Estudar na casa do Néu, naqueles tempos do ginásio, era uma festa. Vô Candinho (o brilhante desembargador e literato Cândido Martins de Oliveira Júnior, pai da saudosa D. Marisa) punha a meninada para pesquisar história do Brasil na dificílima enciclopédia de Pedro Calmon. A gurizada dava conta do recado. Incrível.

Detalhe: eu achava desembargador, então, uma pessoa muito velha…
Os seis volumes da obra histórica de Calmon estavam disponíveis na biblioteca de Roberto Simões, que sempre foi culto e sábio.

Noventa e três anos bem vividos. O velho coração foi parando de bater. No finalzinho, Sr. Roberto disse para o Néu:
– Meu filho, para adoecer a pessoa tem de ter muita saúde.
Saudades.

No dia 6 de abril, após longa enfermidade, faleceu o desembargador Herbert José de Almeida Carneiro, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Tinha apenas 58 anos de idade.

Perdi um grande amigo. Em sua posse à presidência do TJ, em junho de 2016, escolheu-me para ser o orador da sessão.
Transcrevo passagens daquele discurso:

(…) O presidente empossado, Desembargador Herbert José de Almeida Carneiro, nasceu em Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, em 19 de março de 1960.

(…) A mineiríssima Conceição do Mato Dentro está situada a 167 km da capital Belo Horizonte. Chega-se lá após a subida da majestática Serra do Cipó.

(…) Filhos ilustres da terra nos fornecem exemplos de aglutinação e humildade, virtudes tão necessárias no contexto atual.

O saudoso conceicionense José Aparecido de Oliveira sofreu um enfarte na década de 1980. Fora cassado pelo Regime Militar e era um dos protagonistas mineiros do processo de redemocratização do país.

Seu compadre e jornalista Sebastião Nery descreve a movimentação no apartamento do Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, onde Aparecido estava internado:

“O apartamento estava lotado de políticos, jornalistas, amigos. Um Maracanã cívico. (…)
“Não era um hospital, era uma praça. Não era um quarto de doente, era um comício. Chegava gente, saía gente. O telefone tocava minuto a minuto. E ele atendia sempre, voz pesada, arrastada, medicada. Mas gozando o enfarte brutal que quase arrebentou as quatro artérias entupidas. (…)

“Poucos meses atrás, naquele mesmo andar, no apartamento 1110, o presidente Figueiredo também havia derrotado seu enfarte. Depois conferi os livros de visita, dali e do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, em cuja UTI Aparecido foi atendido. No Brasil, a oposição só consegue derrotar o governo no enfarte”.

Inigualável aglutinador de gente, o José Aparecido!

A lição de humildade vem do Bispo Dom José Maria Pires, nascido em Córregos, distrito de Conceição do Mato Dentro. Enfrentou enormes dificuldades para se ordenar padre, desde o Seminário Menor de Diamantina, por sua origem humilde e afrodescendente. Recém-ordenado bispo, foi a Roma conhecer o Papa João XXIII, em 1959. Aprendeu italiano em quinze dias, para se entrevistar com o Santo Padre. Narra o jornalista J. D. Vital:
“Quando chegou diante do papa, estava tão nervoso que pisou no ferraiolo – espécie de capa roxa que os bispos envergam em ocasiões solenes, não litúrgicas. A capa ficou torta. Dom José Maria não se lembra se ajoelhou perante o papa, como de praxe, e se beijou o Anel do Pescador.

“Agora, aos 90 anos, o velho ‘episcopos’ recorda-se apenas de que o papa João XXIII, com bondade, disse:
– Primeiro, vou consertar sua capa”. (…)
Saudades.

* são-joanense e desembargador do Tribunal de Justiça/MG