? Pelas Esquinas: Decpeção | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Decpeção

Há uma descrença generalizada. Há uma desesperança medrosa na atmosfera. Há um sobressalto. Um espanto. Há uma desilusão. Um visível temor de que não há mesmo remédio, depois que o céu se turvou e as estrelas perderam o brilho.

Há um pesadelo no ar que a vigília não consegue impedir e que no sono se multiplica. Há um desconforto nos corredores do Congresso. Um vazio no plenário. Uma maledicência em todos os botequins. Há um desespero incontido nos militantes de carteirinha. Uma nostalgia de outros tempos, quando o poder era só um sonho, preferível a ter que enfrentar a realidade de agora.

Há um inconfundível cheiro de carniça nas páginas das revistas semanais. Há um miasma fétido exalando da Praça dos Três Poderes. Há um desenfreado desejo de ser iluminado pelos holofotes e discursar teatralmente para eleitores em potencial e cabos eleitorais remunerados em cada sessão da Lava-Jato.

Há rastros antigos. Há certezas que se desmancham na esteira de extratos bancários e documentos guardados sob sigilo. Há inconcebíveis traições. Quebras de confiança. Amizades antigas que se liquefazem. Há injustificáveis omissões. E delatores que dizem o que lhes vem à cabeça. E há quem se esconda, silencie, emudeça, se tocaia, sabendo que também é alvo, apenas não descoberto ainda, é apenas de outro contexto, outras tramoias. Alvo que ainda não foi colocado às claras. Talvez nunca seja.
Há a possibilidade de tudo ser tudo a mesma coisa, isto é, inconfiável, seja de onde for, seja quem for. Há uma frustração permanente. Uma possível certeza de que nunca será diferente, porque as coisas são assim mesmo e pronto.

Há ruídos, porque todas as melodias se apagaram no eco da última revelação de corrupção e bandalheira. Com o nosso dinheiro, claro. E há bravatas. Auto-louvações. Perigosas certezas de invencibilidade nas urnas e ingênuos desafios para embates morais e éticos.

E, com tudo isto, há, ainda, o desemprego; ainda, a carga tributária; ainda, o analfabetismo; ainda, a precariedade na assistência à saúde; ainda, o contingenciamento de verbas; ainda, a avalanche de medidas provisórias; ainda, o mísero salário para a maioria; ainda, o sofrimento dos aposentados; ainda, a desigualdade assustadora. Tudo isto, de ontem e de hoje. Apesar dos juros terem alcançado seu nível mais baixo e a inflação estar contida nos limites previstos. Ainda assim, a desesperança impera, as candidaturas à Presidência são vistas de soslaio, com desconfiança e incertezas. E o Brasil ainda está em vias de enfrentar a Bélgica no futebol, depois de amanhã, pois escrevo na quarta-feira. Teríamos tido, pelo menos no futebol, mais uma alegria em meio a tanta decepção? Pois uma coisa é certa: há, isto sim, uma incomensurável tristeza no País.