? Artigo: Mestre Vieira | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Mestre Vieira

P0r André Guilherme D. Dangelo

Me chega esta semana a triste notícia do falecimento nesta madrugada de Júlio Eustáquio Viera, vitimado por um infarto aos 84 anos. Que os sinos de São João chorem essa ausência, que embora não prematura, deixará mais uma grande lacuna na vida da São João tradicional, com o passamento, num breve tempo, de figuras referenciais como Monsenhor Paiva e Aloisio Viegas na nossa comunidade.

Minha lembrança mais antiga de Júlio Vieira vem das torres, principalmente nas Mercês, igreja da qual habitava ao lado, no velho sobrado, antiquíssimo, talvez um dos mais originais da cidade. Sempre pintado de rosa. Sua presença era bastante familiar no dobre das 9:30, que anunciava a missa das 10hs.
Júlio Vieira, depois da geração do grande João Rezinga, tornou-se junto com o falecido Edson Benevides, a referência da minha geração quando se falava em sinos. Grande sineiro, mestre reconhecido por todos, conhecia os sinos de São João em todos os seus mistérios. A partir da década de 1980, já trabalhando como técnico no laboratório de mecânica da UFSJ, assumiu por muito tempo a tarefa de dar manutenção nos sinos de São João, com uma equipe formada por ele, seu filho Julinho e Celso Arcanjo, também funcionários da UFSJ.

Antes desse tempo, a convite de Monsenhor Paiva, Júlio, que era eletricista de formação trabalhando na Prefeitura, também ajudou e trabalhou muito pela Cultura de São João del-Rei. Tanto com Djalma Assis, como com Luiz Dangelo, muito amigo seu. No Carnaval, era o chefe da confecção de adereços da Secretaria de Cultura. Nesta época, era o responsável por fazer as belas caixas iluminadas colocadas na Avenida Tancredo Neves, verdadeiro cartão de visitas do desfile das Escolas de Samba. Na Matriz, coube a ele ser o Coordenador que substituiria a velha equipe composta por Waldemar Pugliese, Henrique Fernandes e João Pato, nas montagens de toda a complexa cenografia das festividades da Semana Santa. Júlio deu também uma grande contribuição no desenvolvimento do tradicional modelo de iluminação dos sinos e das igrejas de São João del-Rei durante as festas religiosas.

Do Largo das Mercês foi um personagem místico, andando sempre a pé, devagar, e era comum vê-lo subir passo a passo a escadaria da igreja das Mercês (Confraria a que pertencia por tradição de família), sem pressa de chegar.

Sempre prestativo. Gostava de uma prosa. Tinha historias e mais histórias para contar da São João antiga e seus personagens. A última vez que conversei com ele foi quanto publiquei o meu livro “Sentinelas Sonoras”, que fiz questão de levar de presente para ele. Andava muito desanimado. Dizia que a turma estava inventando muito e não mantendo a tradição, que tinha dobre demais, essas coisas que a sensatez da idade nos dá e que o jovem não compreende.

Há uns anos atrás, topou participar de um curta que se chamava “Profissão: sineiro”, que o tinha como protagonista. É algo importante de ser resgatado.

Meu primo Paulo Roberto, a quem eu pedi para ver com ele umas fotos de sinos para o nosso Museu de Sinos, esteve com Vieira há 15 dias. Me disse que embora ele estivesse muito magro estava bem de cabeça, e que conversaram bastante sobre os sinos de São João del Rei. Enfim, é isso. Viveu plenamente e cumpriu sua jornada. Que o Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora das Mercês o tenham em bom lugar pelas boas obras que aqui praticou. Meus sentimentos a toda a família Vieira.

Fica a certeza de que a nossa São João tradicional fica mais pobre sem a sua presença espirituosa e credenciada em tudo que fazia parte da cultura e da fé da nossa cidade.

* arquiteto