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SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: A biópsia

Por: Cleir Edson

Bom dia, caríssimos leitores amigos! Não, não se assustem e nem fiquem arredios ao meu texto por conta do título. Por favor, não. Não é nada sério sobre doenças ou problemas de saúde, visto que essa temática não faz meu gênero. Deem-me crédito e leiam o que vem a seguir. Na verdade, trata-se de um causo muito hilário (segundo contou-me uma grande amiga enquanto ria sem parar e sem pudor) que aconteceu recentemente em uma clínica de nossa querida São João del-Rei.

Num certo dia deste agosto que ora terminou, a sala de espera da tal clínica estava cheia de pacientes que se submeteriam a um desagradável procedimento cirúrgico – para desgosto de vários homens – a fim de fazer uma biópsia prostática: ansiedade, medo, machismo posto à prova, lá se encontram sete mancebos (das mais diversas faixas etárias) à espera do sacrifício – derradeiro ato de um momento jamais desejado por qualquer de nós – homens.

Enquanto aguardam a fatídica hora, uns conversam entre si; outros, com suas acompanhantes, tentando espantar da cuca aquilo que os espera; falam dos mais diversos e, por vezes, vazios assuntos, uma vez que, o que de fato interessa é distrair a mente para fugir do perigo iminente, considerando que embora, sejam sete, a vez de cada um chegará inapelavelmente.

O tempo vai passando, ansiedade aumentando, até que – soa o gongo: eis que a primeira vítima é chamada. Silêncio na sala, olhos todos cheios de compaixão miram o infeliz… que, passos firmes (será que, de verdade, estão tão firmes assim?), dirige-se não tão resolutamente à sala de cirurgia.
Ao se aproximar da sala, diz a enfermeira:

– O senhor poderia passar antes no toalete e fazer um xixi.

Prontamente, o primeiro herói de carteirinha vai e atende à gentil solicitação.
Após o feito, dirige-se definitivamente para o matadouro… com perdão da palavra, quero dizer sala de cirurgia.

Fecha-se a assustadora porta de acesso ao cadafalso e a sala de espera silencia: sobram seis prisioneiros da cruel clínica e não há como escapar… fugir? Jamais! Seria covardia ainda maior. É o preço de se nascer homem. Homem tem que ser macho. Aguentar. Ainda que seja maculado em suas partes intocadas e intocáveis. “To be a man or not to be a man…that’s the question”.

Então paulatinamente as conversas, dessa vez em tom mais baixo, retomam, mas a coragem, ah, a coragem, essa não faz parte da história daqueles homens ali, naquele momento, confinados para tão devastador procedimento. Definitivamente não!

Quase meia hora se passa, abre-se a porta e lá vem a primeira cobaia, quero dizer, o primeiro paciente.
Sai, trôpego, falando em alto e bom som, de braços dados com a simpática enfermeira (a qual não consegue segurar o riso), dirige-se aos presentes, voz de bêbado e rindo às gargalhadas diz para a plateia surpresa:

– Quem não gosta e não tem costume de beber, pegue a mochila, a esposa e casca fora…

– Agora eu entendo o que é ficar de porre misturando tudo que é bebida… há! Entendo, sim, senhor!

E nesse rompante intempestivo, passos trôpegos pra cá e pra lá, seguro pelos braços firmes da agradável e paciente enfermeira – que rindo sem pudor – tenta levá-lo para a sala de recuperação.

E o trôpego, sorridente e brincalhão paciente, continua:

– Ah! Ah! Ah! O doutor me deu uma misturada braba de cachaça, conhaque, uísque, vodca e não sei mais o quê, tudo gira, Caramba! Tá muito engraçado. Tô num porre de lascar! Tô doidão! Que misturada, gente!

Nessa altura dos acontecimentos, todos ali – profissionais da clínica, pacientes e acompanhantes, ninguém conseguia segurar o riso, uns mais soltos, outros mais comedidos, alguns às gargalhadas, enfim todos se divertem com a inusitada cena.

Mas não há dúvida de que todos ficaram – pelo menos os destinados ao sacrifício – intrigados, surpresos e assustados com a reação do jovem e irreverente paciente. Parecia que ele realmente tinha bebido. E muito. Parecia mais estar saindo de uma noitada com amigos. Isso gerou uma ansiedade e por que não dizer – insegurança. Afinal tratava-se de uma biópsia íntima…

Mutatis mutandis, as salas de espera das clínicas médicas “escondem”, ou melhor, contam-nos riquíssimas e, por vezes, engraçadíssimas histórias de nosso cotidiano, como esta que minha querida amiga relatou entre gargalhadas e que me inspirou esta crônica. Muito obrigado e até outra se a Divindade assim o desejar, e lembrem-se: biópsias… há, há, há, são imprevisíveis…

* professor