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SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas esquinas: Incêndio cultural

Lá se foi o Museu Nacional em meio às chamas, no Rio de Janeiro. Agora, depois do desastre, em meio às cinzas, os candidatos à presidência da República resolveram dar o ar de sua graça no tema da cultura.

Nenhum deles tinha sequer soletrado esta palavra, cultura, nos seus pronunciamentos, embora o tema sempre seja alvo de retórica nas campanhas eleitorais, sem ser objeto de prioridade nas ações governamentais. Os recursos da União destinados à manutenção da Instituição, repassados à Universidade Federal do Rio de Janeiro, responsável pela administração da Instituição, despencaram 34,3% entre 2013 e 2017. No período, os valores pagos passaram de R$979.952,00 para R$643.657,00. Em 2018, até agora, a UFRJ tem R$204.534,00 de despesas empenhadas para a manutenção do Museu, mas apenas foram pagas R$98.115,00 das despesas .

Segundo o depoimento do Reitor da UFRJ, a Universidade nunca recebeu um centavo sequer do Ministério da Cultura para a manutenção do Museu Nacional, a mais antiga entidade deste gênero na América, que abrigava cerca de 20 milhões de peças no seu acervo. Com o incêndio houve um reboliço: todos os candidatos saíram na defesa de verbas para a reconstrução do prédio e a recuperação do que for possível do seu acervo cultural fantástico.

No Brasil é assim: as providências são tomadas, ou pelo menos prometidas, depois que a catástrofe ocorreu. O próprio MEC já prometeu destinar 10 milhões de reais para a reconstrução do prédio do Museu. Mas não sai da minha cabeça a confirmação de que, no momento do incêndio, não havia água nos hidrantes que cercam o Museu. A responsabilidade da conservação do Museu Histórico Nacional era da UFRJ que, como toda Universidade Federal, gosta de proclamar a sua autonomia. O Ministério Público avisou sobre o perigo de incêndio na localidade. Isto há mais de dois anos. Ninguém tomou providência. Sabe-se, hoje, que o Museu nunca teve um certificado de vistoria feita pelo Corpo de Bombeiros.

Num país como o nosso, é preciso reconhecer que Cultura perde, e muito, para outras prioridades. Candidatos, quando provocados, e somente quando provocados, gritam aos quatro ventos que a cultura é fundamental, raiz da nossa identidade, parte essencial do processo educativo, e mais o diabo a quatro. Mas na hora de governar as coisas são muito diferentes. A cultura recebe um dos menores valores do orçamento da República. E aí, vem o incêndio e lá se vai um dos mais significativos acervos, não só da cultura brasileira, mas também da humanidade