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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 21 de Abril de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Proteção social dos pobres

Por Aluizio Barros

O Brasil vem construindo uma rede de proteção social dos mais pobres antes mesmo do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). A eleição agora de um presidente da República estranho ao campo da centro-esquerda, representada pelo PSDB e PT, é capaz de pôr em risco essa agenda social?

A economista Monica de Bolle classifica o governo de Jair Bolsonaro como de extrema-direita, embora este governo sequer exista, uma vez que o candidato eleito ainda não tomou posse. Em entrevista ao jornal Estado de Minas (04/11/2018), ela diz temer que o escolhido ministro da Fazenda, Paulo Guedes, “destrua o parco Estado do bem-estar social que temos, deixando os mais vulneráveis a ver navios”.

Monica parece se alinhar à esquerda do espectro político, onde “as definições de esquerda e direita, hoje, passam por questões identitárias e de costumes, mais do que por agendas econômicas”. Para ela, “a centro-esquerda moderna há muito fez as pazes com a boa gestão econômica (estabilidade de preços e sustentabilidade fiscal, sem perder de vista questões distributivas). A esquerda brasileira ainda não entendeu bem isso. Ainda se molda por um discurso de intervencionismo estatal que faliu várias vezes – a última durante o governo Dilma”.

Percebemos que Monica de Bolle, residindo há quatro anos nos Estados Unidos, abraça as questões políticas mais candentes por lá, que fazem a esquerda perder espaço entre os trabalhadores não qualificados. Também no Brasil se observa, na esquerda elitizada das universidades e redações da mídia, a agenda de questões de costume e identitárias, uma delas citada por Mônica: casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Outras questões que opõem as identidades da direita e esquerda, tanto lá quanto aqui, são a descriminalização do aborto, a posse de armas e a defesa do meio ambiente.
A eleição de Bolsonaro significa uma rejeição da maioria a uma pauta de esquerda nas questões de costumes como, por exemplo, a flexibilização da proibição da posse de arma. Ao passo que na agenda econômica, a proteção social dos mais pobres foi explicitamente reafirmada como prioridade do candidato ao sugerir o pagamento de uma décima-terceira parcela do benefício no programa Bolsa Família.

O economista americano Dani Rodrik analisou recentemente a dificuldade dos partidos de centro-esquerda nas eleições no mundo desenvolvido. Para ele, Thomas Piketty já havia mostrado que estes partidos foram capturados por uma elite escolarizada com valores distantes das preocupações dos trabalhadores não qualificados, que ficaram órfãos no sistema político.

A agenda da moderna centro-esquerda norte-americana e europeia não encontra as mínimas condições no Brasil de hoje, onde o Lulopetismo é hegemônico na esquerda. Haja vista o mote da campanha petista na eleição presidencial: “Lula livre”. Monica de Bolle seria vaiada e impedida de falar nas universidades públicas brasileiras ao recomendar responsabilidade fiscal. Sua declaração de voto em Fernando Haddad (PT) revela o peso que ela dá ao medo de retrocesso nos avanços em direitos sociais no país. Ela caiu na lorota petista de que Bolsonaro é fascista e contra os pobres.

Monica pode ser ingênua, mas Jair não é burro.

economista e professor