? Pelas Esquinas: Dos nomes | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Terça-feira, 18 de Junho de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Dos nomes

Outro dia, inusitadamente, por acaso, fixei a atenção sobre um documento que tinha minha assinatura. Melhor dizendo, fixei o olhar sobre a assinatura: José Geraldo Dangelo. E achei estranhíssimo. José Geraldo? Que, diabo, era aquilo? Ninguém me chama de José Geraldo. Ou é Jota, ou é Jota Dangelo, ou é só Dangelo. Ou ainda Zé Dangelo. De modo que José Geraldo, ainda mais escrito, me pareceu ser qualquer outra pessoa, mas não eu mesmo.

Descobri que não tenho cara de José Geraldo. Não me acho José Geraldo. Não tenho nem o jeito de José Geraldo. José Geraldo me pareceu ser apenas um nome cartorial, registrado em papel, mas fora da realidade Na minha família sempre fui Zezé. No meio da molecada era o Zé. No teatro sempre fui Jota Dangelo. Na Faculdade de Medicina, Dangelo, mais tarde, Professor Dangelo. Por quê aquele José Geraldo?

Dois santos no mesmo nome: José e Geraldo! Eu devia mesmo estar precisando de muita proteção quando me nominaram… José ainda é compreensível: lembra o velho carpinteiro, pai de Jesus, quer dizer, pai de criação, porque Maria, segundo a Igreja, concebeu sem pecado, o que, no mais meridiano entendimento, quer dizer: sem relação sexual com o marido – uma afirmação difícil de entender e mais difícil ainda de explicar. Só a fé explica, já que a ciência jamais explicaria.

Mas, Geraldo, por quê? São Geraldo não tem tantos devotos assim. Pelo menos, não como Santo Antônio, o casamenteiro; ou São Cristóvão, o protetor dos motoristas; ou São Miguel, o anjo-da-guarda mor; ou São Benedito, o santo negro. Ultimamente, aqui nem São João del-Rei e no Rio das Mortes, São Geraldo perde até para Nhá Chica. Na minha família nenhum ancestral é Geraldo. Ops! Caiu a ficha! Foi quando me lembrei que um tio meu, piloto da aeronáutica, falecido em 1937 num desastre de aviação, chamava-se exatamente José Geraldo Dangelo. E fui revirando a memória para relembrar que, na verdade, fui batizado José da Silva Dangelo, o Silva vindo da minha mãe. Foi depois da morte do meu tio, quando eu tinha seis anos de idade, que decidiram, obviamente sem me consultar, trocar o Silva por Geraldo, a meu ver pior a emenda que o soneto, embora Silva fosse também, não um soneto, mas um verso bem estropiado. Pois é, cortaram o Silva e colocaram um Geraldo logo depois do santo carpinteiro.

Hoje, até mesmo José Dangelo me soa estranho. A José Dangelo prefiro Zé Dangelo, como me chamam a mais das vezes em São João del-Rei, ou mesmo de Zé Danjo, para quem tem dificuldade em pronunciar o sobrenome italiano.

O certo é que José Geraldo me parece ser outra pessoa. Tem cara de corretor de imóveis, de tabelião de cartório. Nada contra estas profissões, entendam-me. Têm todo o meu respeito. É só que não consigo estar confortável dentro desse José Geraldo e fico sempre imaginando que ele é de outro cidadão.
Ou será que estou é ficando mesmo meio descompensado? Ou sem assunto para escrever a coluna?