? Pelas Esquinas: Long Neck | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Long Neck

Não frequento bares que só servem cerveja long neck. Não sou europeu. Sou um simples caipira de Minas Gerais, são-joanense, ex-sineiro, ex-batuqueiro, ex-boêmio – êpa! – ex-boêmio uma conversa, pois não estou falando de cerveja? É que me irrita um pouco o bar sofisticado, metido a besta. Fico, neles, como peixe fora d´água. Felizmente eles não existem em del-Rei. Pelo menos que eu saiba. E se existem é em lugares que não frequento. Mas são comuns em Belô e, volta e meia, a gente erra a mão e cai na armadilha. Você entra, o local parece agradável, houve até algumas recomendações de amigos, ou um lembrete discreto de um colunista da imprensa, e aí você vai, você entra, parece tudo certo, e pede o raio da cerveja. “Só tem long neck”, diz o garçom, que só pela vestimenta você já desconfia que entrou no lugar errado. O cara é cheio de salamaleque, tem um colete bordô, um avental idem, uma camisa social branca, uma calça preta e, pasmem, até uma gravata, fina como um palito, que mais parece uma fita de cetim.

“Não tem cerveja grande, não?”, você pergunta, já com a cara amarrada.
“Só long neck ou chope”.

Nesta hora você descobre que o bar é chique, não é a sua praia, é local de exploração dos incautos que nele entraram por engano, proibido para botiquineiros como eu, apropriado para executivos bem sucedidos de empresas idem. Mas você já entrou. Não tem jeito. Peço para ver a carta de bebidas. Aí vem o espanto: as cervejas artesanais estão em moda a um preço abusivo, nada menos que 16 paus a garrafa, e long neck… E tem outras cervejas, mais caras ainda. Não dou o nome porque fiz questão de esquecer, na hora. Mas olho vivo!

Não precisa dizer que qualquer outra cerveja, das mais comuns, mas sempre long neck, custa 6,00. Ou seja, um pouco mais de um copo por 6,00. Se não for mais caro…

Aí você rabisca o olho, só por curiosidade, pelos tira-gosto. Estou querendo é uma simples porção de queijo de Minas, ou mesmo provolone. Não tem. O que tem é mussarela de búfalo: 20 mangos a porção. As opções são todas nesta faixa, com poucas exceções: “ovos de codorna em redondela com molho de cogumelo”, 25,00; “carpaccio bovino”, 22,00; “lombo canadense com vinagrete”, 27,00; “camarão sem casca”, 30,00; “iscas de filé de tilapia à milanesa”, 27,00. Nada de um torresminho, uma pele frita, umas azeitonas, uma carne de sol com mandioca, um salaminho mixuruca, uns lambaris fritos, umas moelas, dobradinha, miúdo de frango, nada. Os preços me tiram a fome.

Olho a carta de bebidas de dose. Piora. Há de tudo, dez marcas de Scotch, importados, três de vodka polonesa, conhaque francês e alemão, rum jamaicano e cubano, tequila mexicana. Cachaça, necas. Nem uma simples aguardente. Com certeza o proprietário acha que cachaça é coisa de beberrão incapaz de saborear uma boa bebida. O ambiente não é para cachaça, ainda que seja sofisticada, puríssima, produzida com requinte artesanal, como a “Vale Verde”, a “Salinas” a “Boazinha” ou a “Século XVIII” e a “Jacuba” de Coronel Xavier Chaves, ou a “Germana”. Nem mesmo a antiga “Havana”, cuja garrafa custa uma baba, tem vez nestes bares granfinos.

Felizmente, não cometo estes enganos com frequência. Ultimamente, antes de me aboletar, vou até o balcão e pergunto com a maior cara de pau: “Ô meu, vocês servem cerveja grande?” Se não servem, caio fora. Vou procurar minha turma.