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SÃO JOÃO DEL-REI, Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Senhora das Dores

Senhora das Dores
Alguns dias depois da inauguração do Museu do Sino na igreja do Carmo e a poucos dias do Natal, decidi rever poemas escritos há bem tempo, e encontrei um, maquinado quando fazia reflexões sobre a vida e a lenta perda de fé nas coisas sagradas que me ocorreu nem sei mais quando. Vai abaixo.

SENHORA DAS DORES
São sete.
Sete luas no minguante,
sete dobres compassados,
sete irmandades contritas,
sete lanternas acesas.
Sete vísceras sangrando,
sete andores florescidos,
sete tochas reluzindo,
sete hastes. Sete farpas.
Sete cravos pontiagudos.
Sete espinhos venenosos,
Sete chagas, sete horrores:
são sete punhais de prata
ferindo o peito das Dores.
O primeiro, é o meu desprezo
pela dor do desvalido;
o segundo, o meu orgulho,
que me cega aos meus defeitos;
o terceiro, o preconceito
com que trato os mais humildes;
o quarto, minha soberba
em ver tudo ao meu feitio;
o quinto, esta vaidade
que dissimulo com jeito;
o sexto, minha cegueira,
minha impossibilidade
de ver o mundo ao avesso
do retrato que eu desenho;
o sétimo, mais doloroso,
é exigir das pessoas
que sejam meu próprio espelho…
Perdoa, Senhora, as chagas
que, existindo, lhe causo.
Mas como existir perdão
se nem sequer me arrependo?
Se nem estanquei o sangue
que das chagas cai ao chão?
Que pode aspirar aquele
que lhe cravou sete facas,
se ainda oculta mais sete no cavo de sua mão?