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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 21 de Abril de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: Para as Brumas de Brumadinho

Por José Antônio Oliveira de Resende

Não sei ressuscitar Lázaros. Nem sei abrir Mares Vermelhos levantando o meu braço. Mas consigo colocar atemporalidades em palavras que costumam frequentar meus textos. Não sei se com isso eu faço milagres ou sou apenas um dublê de profeta.

Quando se é afeito a vaticínios, as coisas que abalam o cotidiano são meras surpresas previsíveis. Salário sarcástico de quem ousa trabalhar acima do tempo.

A bem da verdade, nem é preciso ser adivinho para acertar no país de Macunaíma. Por aqui, é possível há muito tempo conhecer as consequências sem saber das causas.

Era sabido que a lama da barragem de Mariana desceria pelo ralo, escoaria toda para o Fundão da impunidade. Quem errou? É fácil ser Nostradamus por aqui.

Já é sabido que barragens ilegais trabalham sem ser barradas de maquiar com barro o bom senso que berra, sem fazer birra, contra a molecagem burra que borra a história de um povo que quer ser nação. Quem errará as consequências?

Nostradamus? Esse já se desgastou de tanto prever o óbvio.

Macunaíma? Que preguiça… ver sempre as mesmas coisas… Que preguiça!

E agora, de novo, mais uma surpresa previsível no país em que meio ambiente é apenas mero ambiente. Outra barragem desceu pela passarela funesta, num desfile sem dança, com alas de foliões defuntos, mestre-sala sem porta-bandeira, passistas esquartejados, alegorias atropeladas, enredo sem dizeres. Lá vai, morte a fora, o desfile sem aplauso da Escola de Sombra.

Sempre fica algo depois de todo desfile. No Brumadinho, ficou a bruma triste embaçando o olhar de quem perdeu tudo… na Mina do Feijão, nem mina nem feijão, pois as pepitas que se encontram são corpos que já não mais respiram, são bocas que pedem sustento… na região, um grito cavo – por baixo da lama – ruge exigindo reparação.

E quase que Inhotim vira museu de natureza morta!

A lama, quando secar, fará aparecer figuras de barro seco, imóveis e sinistras, que um dia viveram. Antes de sumirem do cenário, ainda conseguirão reescrever a história dos últimos dias de uma Pompeia que poderia não acontecer.

Essa história já havia sido reescrita antes, no lamaçal de Mariana. Todo mundo leu, porém ninguém aprendeu. E agora Brumadinho reedita, sem revisões, a mesma história. E o pergaminho será corroído pelas traças da amnésia nacional.

Não sei ressuscitar nem sei abrir caminhos no mar.

Que minha crônica, pelo menos, possa soprar um pouco de vida sobre os desventurados bonecos de barro de Brumadinho, a fim que se convertam em Adões e Evas voltando ao paraíso da justiça, ganhando a redenção vivificante da memória que transforma.

Não sei fazer cegos enxergarem em Jericó.

No entanto, posso aproveitar minhas lágrimas (mesmo que burguesas, porém sinceras) e misturá-las à terra, formando argila pura e colocá-la nos olhos da história.

Talvez o milagre da visão aconteça. Talvez assim eu possa profetizar sem ser dublê.

*professor universitário do Departamento de Letras da UFSJ e membro da Academia de Letras de São João del-Rei