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SÃO JOÃO DEL-REI, Domingo, 21 de Abril de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: UTI infantil, dez anos

Por Luiz Antônio Neves Resende

No final deste ano completo 45 anos de formado pela UFJF. Em 1975 iniciei minha residência médica no Hospital de Sobradinho, DF na época, ligado à Universidade de Brasília, UnB. Meu chefe e eterno mentor, é até hoje, foi o Dr. Antônio Márcio Junqueira Lisboa. Segundo colegas da época, ele, hoje aos 95 anos, ainda atende em seu consultório. Na ocasião ele era referência em neonatologia no Brasil e iniciava os primeiros estudos, sobre um terrível e quase sempre fatal, transtorno que afetava principalmente os recém-nascidos prematuros, a SARI, ou seja a Síndrome de Angústia Respiratória Idiopática do recém-nascido.

Desde que assisti o primeiro caso, que me frustrou muito, pois o desfecho foi fatal, jamais desisti , de cada vez mais melhorar a assistência ao RN prematuro. Após terminar minha residência em pediatria, em 1977, fiz um estagio na UTI de adultos no Hospital de Base do DF. Na ocasião as UTIns eram uma raridade no Brasil. Estas unidades, muito poucas, só existiam no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e em BH estava sendo criada a primeira UTI infantil de MG, no Hospital Felicio Rocho. No hospital de Base, mesmo na ala de adultos, internavam as crianças, principalmente com traumas graves e pós operatórios neurológicos.

Os equipamentos não eram próprios , os respiradores eram os de adulto e até mesmo alguns medicamentos eram quase que impossíveis de serem administrados. Era uma luta diária e a criatividade, as vezes muito mais do que a tecnologia, tinha que ser executada.

Com o tempo e necessidade, inauguramos a ala infantil, inicialmente com 4 e depois ampliada para 8 leitos. Em 1981 retornei a minha terra natal, onde dedico à pediatria até hoje. Tudo era muito difícil, as condições para o tratamento de prematuros e crianças graves, eram muito precárias e quase todo dia tínhamos que assinar um atestado de óbito. A ideia de se criar uma UTI infantil na Santa Casa sempre esteve na minha cabeça, mas não existia condições técnicas e muito menos de recursos humanos, para tal finalidade.

A cada criança grave que atendíamos e cada RN com insuficiência respiratória, era um verdadeiro suplício. Ficávamos ao lado do paciente, “ ventilando com o ambú “ e rezando pro Papai do Céu, que milagrosamente as vezes nos atendia. Noites em claro, sem dormir pensando em nossa incompetência e antevendo quase sempre o pior. Transferir pacientes para outros centros, era praticamente impossível, pois além de poucas vagas, não existia transporte adequado. Choramos muitas vezes junto aos familiares e sorrimos poucas vezes, quando algum milagre acontecia.

Na década de 90, as coisas começaram a melhorar quando consegui, um respirador, Inter 5, doado pelo então deputado federal Aécio Neves. Os prematuros que necessitavam de assistência ventilaria, passaram a ter um suporte de vida, até que se conseguisse uma vaga em outros centros, o que podia durar de 1 a 5 dias, período em que muitos deles sucumbiam. Nesta ocasião, já existiam UTIns em JF e Barbacena, o que facilitava em parte as transferências. Quando Aécio assumiu o governo de Minas em 2006, foi lançado um programa de saúde chamado “Viva Vida” que destinava equipamentos de UTIns para alguns hospitais do interior.

A nossa Santa Casa foi contemplada neste programa. Nesta época assumi a Direção Técnica de nossa entidade e resolvi alavancar este projeto. O nosso grupo de pediatras, já dispunha de colegas com formação em UTI infantil, o que tornou possível sonhar um pouco mais. A minha ligação com minha prima Andrea, foi o passo inicial para conseguir os recursos para a construção do local. A Dra. Fátima Guedes era a coordenadora do programa de UTIns da secretaria de estado da saúde de muito nos ajudou com orientações e realização de cursos específicos nesta especialidade.

Depois de muita batalha e trenamento, pudemos inaugurar nossa “ sonhada “ UTIn no dia 27 de março de 2009. Uma nova realidade aconteceu na Pediatria em nossa cidade, o atendimento à criança grave, principalmente aos prematuros mudou completamente de patamar. Finalmente chegamos ao primeiro mundo. Muitos de vocês que estão desde o início sabem dos verdadeiros milagres que ocorreram em nosso serviço, inúmeras vidas foram salvas e aquelas que não tiveram a mesma sorte, levaram com elas o nosso esforço e dedicação. É hora de comemorarmos, mas também o momento de reflexão; o que seria de nossas crianças sem este braço de Deus, chamada UTI neonatal… Vocês são simplesmente ESPETACULARES, uma equipe realmente nota dez. Meu abraço a todos. Parabéns para nós. VALEU.

 *Pediatra