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SÃO JOÃO DEL-REI,  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Artigo: MÃE, EU TIVE QUE IR EM BUSCA DOS MEUS SONHOS

Por Helaine Silva Borges

Desce criança, sonhava em sair andando pelo mundo, desde outrora, arrepiava seus cabelos de preocupação. Eu amadureci, fui em busca dos meus sonhos… Mãe, sou muita grata por sua compreensão, e agradeço por cada dia em que pensou em ligar e me pedir para voltar para casa, mas por razões de complacência materna, conseguiu segurar o choro e dizer que todos estavam bem na minha ausência. Obrigada por respeitar meu momento e de forma alguma tentar interromper isso!
Talvez tenha demorado a compreender, talvez tenha chorado incontáveis noites por ver o ninho vazio, foram tantas ligações com aquela voz embargada, sofrida, de quem estava guardando um mundo de saudade em um nó na garganta, mas mãe, eu tive que ir.

Tive que aprender a separar a roupa por cores na hora de lavar, tive que descobrir que a louça continuava na pia no dia seguinte, que cheiro de banheiro limpo é bom, principalmente quando fui eu que limpei. Tive que aprender que o meu salário precisava durar 30 dias e que as festas universitárias não eram lá as necessidades mais básicas.

Tive que me sentir só, tive que falar para as outras pessoas “minha mãe sempre diz que…” e sentir orgulho dos inúmeros conselhos que a senhora me deu na vida e nem sempre eu dei muito valor. Tive que tirar o pijama aos domingos, preparar meu almoço, e não simplesmente ler um livro enquanto esperava a senhora fazer tudo por mim. Tive que sentir falta do abraço que era a fortaleza que eu precisava em um dia ruim.

Faz 8 anos que eu sai de casa, 2920 dias, para ser mais exata. A cada km de distância, sinto meu coração um pouco mais perto de casa. Foi só olhando esses longos 8 anos de distância, que consegui enxergar quão cheia de amor e carinho minha vida sempre foi, e quantos milagres silenciosos me cercam naquilo que eu reviro os olhos para chamar de rotina.

Hoje não volto para casa sentindo aquela segurança de encontrar todos na sala assistindo televisão. Hoje não basta cócegas para me fazer sorrir, nem uma história para me fazer dormir. Se eu soubesse não teria desejado amadurecer tão rápido, continuaria segurando a sua mão para atravessar a rua.

Eu segui minha vida e agora vejo que nem sempre fiz as melhores escolhas, mas quando olho para trás vejo a senhora me observando da mesma forma que me olhou quando me levou no primeiro dia de escola: coração apertado por saber que não poderia me acompanhar em todos os momentos, mas vibrando com cada pequena conquista, esperando a hora de me reencontrar. Lembro-me que ao me deixar na escola, eu pedia para a senhora não sair de perto, sem imaginar que um dia eu a deixaria.

Mas mãe, no fundo pouca coisa mudou. Na memória, eu volto para casa todos os dias. Ainda sinto sua mão me segurando e me incentivando aonde quer que eu vá. Eu carrego comigo tudo o que me ensinou e se hoje sou uma mulher forte, é porque tive uma guerreira que me criou.

Agora preciso ir mãe, mas nunca se esqueça, te levo comigo…. Dentro do meu coração.

*Psicóloga