? Retratos das Vertentes | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI, Quinta-feira, 27 de Junho de 2019  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Retratos das Vertentes

Por: José Antônio Ávila 

SOBRE A PONTE DO ROSÁRIO E UMA ANTIGA ESCADINHA:


Quebramar, talhante ou talhamar é o nome que se dá a estas estruturas triangulares de pedra como as que estão na foto, identificadas com as setas; herança da arquitetura romana, são sistemas construtivos instalados enviesados aos pilares com a finalidade de diminuir a força da correnteza do curso d’água e/ou de suas enchentes sobre os contrafortes de pontes, a exemplo dos que podem ser observados na Ponte do Rosário e também, na Ponte da Cadeia da mineira São João del-Rei. Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (1847-1927) foi jornalista, professor, poeta e polemista; na ocasião da Revolta da Armada, por ser defensor da Monarquia, sofreu perseguições e teve de refugiar-se aqui, por cerca de uma década. Naquele período, escreveu o seu livro “Em Minas”, editado no ano de 1894, no qual ele assim se referiu ao Córrego do Lenheiro, suas enchentes e a solidez das duas pontes de pedra sobre o histórico curso d’água que cruza cidade: “Quem olha para o riacho, minguado em água, mal compreende porque tão elevadas se fizeram essas arcarias, porém mal raciocinaria quem condenasse por inútil a luxuosa cautela dos construtores. O ribeiro, por ocasião das enxurradas, faz-se torrente e mesmo rio. Em sua carreira vertiginosa arrebataria obstáculos que com menos resistência lhe afrontassem o ímpeto… Imagem verdadeira de um povo pacífico, cuja força mal se deixa suspeitar, mas contra quem, nos seus grandes momentos de cólera, todas as preocupações não podem ser demasiadas.” Então, observando os talhamares da Ponte do Rosário, não fica difícil imaginar a tal caudalosidade do Córrego do Lenheiro na época das enchentes, fenômeno que tanto impressionou a Carlos de Laet e que já preocupava os nossos ancestrais que proativamente, nos idos de 1800, para bem proteger a ponte, construíram estas providenciais estruturas.

 

Um pouco abaixo da Ponte do Rosário, na margem esquerda do Córrego do Lenheiro, há esta singela escadinha de pedras que atualmente encontra-se quase que embutida no arrimo: ela evoca a lembrança de um tempo em que principalmente as lavadeiras de roupa desciam através dela para cumprir suas jornadas no leito do curso d’água, àquela época ainda não poluído. Dada a sua importância histórica e o seu simbolismo, esta escada é bem tombado oficialmente, protegido em nível municipal!

*Historiador