? Pelas Esquinas: Tarcísio | Gazeta de São João del-Rei - O Jornal do Campo das Vertentes
SÃO JOÃO DEL-REI,  •  Ano XXI  •  O Jornal do Campo das Vertentes

Pelas Esquinas: Tarcísio

Minha geração de são-joanenses perdeu mais um dos seus membros: Tarcísio Neves partiu para o além, seja o que for este além e o que signifique. Tarcísio foi meu companheiro de muitas aventuras da adolescência. Tarcísio e seus irmãos nunca deixaram de fazer parte da minha lista de amigos-irmãos. Tarcísio destacou-se na nossa convivência pelo humor aprimorado, pelo papo descontraído e surpreendente. Gostava de vê-lo jogando basquete pelo Athletic dos velhos tempos, atleta eficiente e de grande empenho físico. Nos últimos tempos, para quem tivesse que perambular pelo centro urbano era difícil não ver Tarcísio pelas ruas, com seu indefectível boné, quase sempre com um jornal nas mãos, comprado na Agência ou no jornaleiro da esquina da avenida Tiradentes. Uma perda lamentável. Para aqueles, como eu, que já estão passando dos limites médios da sobrevida, a perda de alguém da mesma geração gera uma angústia dobrada, uma sombria expectativa, justificável desconforto. Daqui a pouco vamos encontrar Tarcício no tal além. Não deixa de ser um consolo. Mas a morte de amigos próximos sempre me faz voltar a um antigo poema que escrevi num destes momentos em que nada tem mais significado para valer.

FIM DE LINHA
Porque, envelhecido,
já não vejo sentido em coisa alguma,
e porque, eco de mim mesmo,
tenho as mesmas palavras repetido
sem que elas tivessem chegado a algum ouvido,
estou me enclausurando em meu silêncio

Porque, extenuado,
já não distingo realidade da utopia,
e porque, a antigos sonhos,
eu vi suceder só pesadelos
que nem no meu acordar se esvaneceram,
estou cada vez mais inócuo e mais ausente.

Porque, desenganado,
descreio de intenções e idealismos,
e porque, mesmo em memória,
o que eu julgava certo é duvidoso,
e o que eu fiz de errado, contundente,
estou ficando a olhos alheios mais apático,
e para mim mesmo cada vez mais cínico.

E porque, tão seco e tão amargo,
sobrenadando no fel que eu destilo,
estou ficando mais e mais insuportável,
dei para pedir perdão sem ser culpado,
dei para ouvir ofensa e eu calado,
dei para não ver o que é visível,
dei pra defender o indefensável,
dei para levar a sério o que risível,
dei pra desculpar o indesculpável,
dei pra admitir o que é absurdo,
dei pra acreditar no que é improvável,
dei para ser cego, surdo e mudo,
dei para aceitar o inaceitável,
dei para descrer do que é sagrado
e reconhecer, que ao fim de tudo,
tendo perdido finalidade e objetivo,
às vezes me pergunto, angustiado,
se não estou morto pensando que estou vivo…